Rgine Deforges
CUBA LIBRE!
A bicicleta azul 7

A Pierre,
que me fez descobrir
a revoluo cubana.

Este crime,por todos os lugares onde vou, eu o denunco. Cuba  maior Cuba spertence a Cuba. Cuba luta surpreendida,
orgulhosa e sangrenta contra todas as ferocidades da opresso. Ela vencer? SIM.
Jos Mart

Condenem-me, pouco me importa; a Histria me absolver.
Fidel Castro

 preciso endurecer mas sem perder a ternura jamais.
Este tipo de luta nos d a oportunidade de nos tornarmos revolucionrios e de alcanar o grau mais alto da
espcie humana, mas tambm nos permite nos tornarmos homens; que aqueles que no se sintam capazes de
atingir estas duas etapas, que o digam agora e abandonem a guerrilha.
Ernesto Che Guevara.
Em algum lugar na Bolvia

Cuba precisa de uma grande lio e  preciso d-la, logo correr o sangue em todas as esferas, os velhos
rangem, ajuventude se prepara para lutar os falsos lderes levantam suas prprias execues; dia aps dia,
tombam nas ruas aqueles que preferem morrer na dignidade, que recusam oprotocolo, homens que se
suicidam nos ataques revolucionrios...
Camilo Cienfuegos

Captulo Um

LA NO AGENTAVA MAIS AS CONVERSAS a respeito da guerra na Arglia, retomadas 
em todas as refeies por seu marido e seu cunhado. Ela temia ver Franois engajar-se mais uma 
vez em uma batalha que ela julgava perdida, como no conflito da Indochina, do qual eles retornaram 
amargos e feridos.  
- Voc no ir  Arglia!... Jamais!  
La levantou-se to bruscamente que derrubou seu copo. O vinho  
se espalhou sobre a toalha.  
- Voc  desastrada! - exclama sua irm Franoise, limpando o lquido com um guardanapo.  
Franois sorri diante da violncia de sua mulher. A perda do controle a deixava mais atraente, e, 
nesses momentos, ele reencontrava a adolescente selvagem pela qual havia se apaixonado  
primeira vista. O sofrimento no tinha conseguido abalar o seu fantstico prazer pela vida.  
- Se voc quer ver coisas exticas vamos a qualquer lugar... A pases onde as pessoas no se 
massacrem,  frica negra, s ilhas  
do Caribe. H muito tempo desejo ir  Martinica, onde mame
nasceu, ou a Cuba. Ela adorava Cuba... Ah, sim, vamos a Cuba! Voc se lembra, Franois, de como
ela nos falou de sua viagem de npcias em Havana, os bailes, as corridas em grandes carros
americanos no Malecn, dos msicos nas esquinas, gordas negras danando a rumba...?
- Seja realista, minha querida irm, tudo isso deve ter mudado. Em vez de pensar em viajar 
atualmente, voc poderia refletir na proposta que Alain e eu lhe fizemos.  
O olhar doloroso de La deveria t-la feito parar.  
- Enquanto voc passeava na Indochina, ns, sozinhos, fizemos frutificar Montillac...  
- No falemos disso diante das crianas! - interrompeu Alain.  
- Ao contrrio, vamos falar... Quem cuidou de seus filhos durante todos esses anos?  
Franois se levantou e se aproximou de La, envolvendo-a em seus braos.  
- Nunca conseguiremos agradecer o bastante a voc e aAlain por terem tomado conta deles. No 
entanto, voc esquece, querida Franoise, que La contribuiu financeiramente em propores no 
negligenciveis para a explorao da rea. Mas isso no  importante...  
- No tem importncia? - irritou-se Franoise. -V-se bem que vocs tm dinheiro fcil e que no  
trabalhando, como Alain, dez horas por dia, que o ganharam! Depois da guerra, ns no tnhamos 
mais do que esta pobre terra, estvamos arruinados e sem o trabalho obstinado de meu marido...  
- Eu te peo, minha querida, pense naqueles que apoiaram. Ns trabalhamos muito,  verdade, mas 
graas a La e Franois pudemos trazer a Montillac seu esplendor de antes. Ns somos 
inteiramente devedores deles e eu compreendo muito bem que La no pretenda vender o que 
pertence a ela tanto quanto a voc.  
- A terra deveria pertencer a quem a cultiva...  
- Minha querida cunhada, eu no sabia que voc era revolucionria a este ponto - ironizou Franois. 
- Deboche, isso  mais cmodo para voc, vocs praticamente no vivem aqui  
- E vocs nunca se perguntaram a razo? - questionou cautelosamente Franois.  
Franoise ergueu os ombros.  
- No nosso retorno da Indochina, vocs logo nos fizeram perceber o quanto no ramos bem-vindos. 
Agentei firme por algum tempo, por La. Imaginei que tudo se arranjaria. Os negcios 
prosperavam, as crianas se entendiam bem, no havia problemas reais. O que aconteceu? Voc 
conhece o apego de sua irm por Montillac,  seu lugar de ancoragem assim como o seu, onde ela 
recupera suas foras...  
- Deixe, Franois - interrompeu-o La.  
Ela tomou a mo dele e o levou  sala de jantar.  
- Por favor, Charles, cuide dos meninos... Ns vamos dar uma volta.  
Estvamos no ms de abril de 1956. O inverno, muito rigoroso naquele ano, ainda no havia dado 
lugar  primavera. Um sol tmido mal conseguia aquecer a natureza congelada. As jovens folhas das 
rvores se dobravam friorentas sobr elas mesmas. Instintivamente, envolvidos pelo quente 
manteau, La e Franois caminhavam apassos largos em direo ao calvrio de Verdelais. Desde 
sua primeira infncia era nesse local que a filha de Pierre Delmas se refugiava quando estava com 
raiva ou transbordando de tristeza. Eles caminhavam em silncio atravs dos vinhedos. Chegando 
diante da pequena casa de Bellevue, La lanou um olhar desamparado  sua volta. As lembranas 
dolorosas se encontraram, misturadas quelas de sua infncia selvagem; seu corpo teve um mpeto 
brutal como que para escapar de seu domnio. Fugir, ela queria fugir! Um soluo a sacode, seu 
passo acelera-se; Franois tem dificuldade em acompanh-la. Sem flego, ele pra para acender um 
cigarro, observando a silhueta elegante afastar-se, furioso por no saber amenizar seu sofrimento.  
Quando ele a reencontrou, ela estava sentada sobre os degraus 
do calvrio, as lgrimas correndo pelas faces. Emocionado, ele a tomou nos braos e a acalentou como a uma 
criana. Pouco a pouco ela se acalmou.  
- Voc no vai para a Arglia? - perguntou ela com voz tmida.  
- No penso nisso, estou muito velho.  
- Sim, voc  muito velho! Muito velho! - gritou ela, explodindo em soluos.  
Espantado com tanta tristeza, ele a apertou contra si. Quando enfim ela encontraria a paz?...  
Ele a reviu na margem do rio Vermelho, to franzina em seu vestido branco, segurando em seu peito uma 
criana que no era sua, ao mesmo tempo to frgil e to forte, observando-o chegar perto dela com uma tal 
admirao, uma tamanha felicidade, uma tal confiana no amor de ambos, apesar de todos os horrores vividos 
e deste beb com os olhos revirados. Eles se olharam longamente sem se tocarem, a criana entre eles. Rude, 
Samuel Irving, o piloto louco de Dien Bien Phu, o havia tomado pela manga de sua camisa nova, presente dos 
viets, e o guiado na direo do jipe, afastando sem respeito as meninas que lhes estendiam flores ou agitavam 
pequenas bandeiras vietnamitas. Os bo dou, encarregados de escoltar os prisioneiros libertados, eram 
solicitados pelo piloto para que fossem plantar batatas...  
No dia 31 de agosto de 1954, Jean Sainteny voltara a Hani a pedido do presidente do Conselho, Pierre 
Mends France. Ele usara toda a autoridade do novo delegado geral do governo da Repblica francesa junto  
Repblica democrtica do Vietn para que os mdicos militares do hospital Lanessan permitissem que La 
permanecesse junto ao marido. Sainteny no tinha conseguido esconder sua emoo ao rever Tavernier. Ele 
sentia-se responsvel por t-lo enviado  atormentada Indochina.A presena de Castries, Langlais, Bigeard,  
Lalande e de tantos outros em observao no hospital desde sua liberao, eles tambm sobreviventes da 
depresso de Dien Bien Phu, no suscitava nele um mal-estar igual: aqueles eram profissionais da guerra. 
Quando o delegado geral foi assegurado de que Tavernier e sua mulher estavam bem instalados, ele exigiu que 
fosse adiado o interrogatrio do sobrevivente. A pedido de Franois, ele deu ordens para que se procurasse o 
tenente Thvenet e o suboficial que haviam sido tomados como prisioneiros na mesma poca que ele.  
Graas a Philippe Mller, La conseguiu uma jovem vietnamita para ficar com sua filha.Apobre mulher, amiga 
da famlia do mestio, havia perdido seu beb, morto a tiros em seus braos, durante os ltimos combates. Ela 
parecia renascer com a criana no colo. A nova assam2 teve um gesto singular: escorregou o bico de seu 
seio seco entre os pequenos lbios, que comearam a mamar gulosamente. E logo correu leite pelo queixo do 
beb, sob os olhares extasiados da bab; um pacto havia sido selado. Tranqilizada, La pde se dedicar a 
Franois que, muito debilitado, fora acometido por febre alta. Em seu delrio, ele chamava por La, lutando para 
proteg-la contra inimigos imaginrios. Perturbada, ela lhe secava docemente o rosto e o peito magro molhados 
de suor. Ao fim de uma semana, a febre cedeu, deixando-o sem foras. Quando ele abriu os olhos e a viu, 
acreditando estar sendo vtima de uma miragem, logo os fechou novamente. Ele s voltou a abri-los quando 
sentiu os lbios frescos percorrendo seu rosto barbado e atormentado. Quis levantar-se, mas a grande 
fraqueza o impediu.  
- No se mexa, meu amor. Tudo ficar bem, estamos juntos novamente.  
La sentia necessidade de uma conversa franca a respeito da criana. A cada manh, quando acordava, 
prometia a si mesma falar com Franois, e procurava o momento oportuno que lhe permitisse  
contar o que havia se passado, o que ela enfrentara para reencontrlo. As condies instveis da 
sade de Franois a deixavam insegura:  
ora ele estava muito feliz em v-la, ora, em seguida, pedia que o deixasse sozinho. Ela via a clera 
dele, adivinhava o seu sofrimento e se cobrava por no encontrar a coragem de simplesmente 
contar- lhe a verdade.  
Uma noite, estendidos lado a lado sobre a cama estreita, os nervos tensos, eles permaneceram com 
os olhos abertos, acalentados pelas hlices do ventilador que movimentavam o ar sobre suas 
cabeas.  
- Eu lhe peo, fale comigo, diga qualquer coisa - murmurou La.  
Nada indicava que ele a ouvira.  
- Fale comigo - disse ela novamente, mais alto.  
Nunca ela havia sentido to vividamente quanto naquele momento a hostilidade de um corpo. No 
era o corpo de uma pessoa qualquer, mas sim do homem que ela amava. As lembranas de alguns 
encontros, anos antes, sobre a ponte Paul-Doumer, acrescentavam- se  sua angstia. Onde estava 
o homem que a havia amado com frenesi, recuperando dia e noite o tempo perdido? Eles eram 
insaciveis um para o outro. Hoje encontravam-se como se em barricadas dentro de si mesmos; dir-
se-ia que tinham medo. No entanto, nada neles prenunciava esse marasmo. La levantou-se e 
contemplou a forma sombria que no se mexia. "Eu vou morrer se ele no me amar mais", pensou. 
Docemente, deitou-se sobre ele. Ele ficou tenso, mas no a afastou. Pouco a pouco, sob seus beijos, 
suas carcias, ele relaxou. Quando ela o sentiu excitado, as palavras vieram naturalmente para 
exprimir-lhe sua felicidade por t-lo reencontrado. Na escurido, ela arrancou suas roupas e, 
cavalgando-o, afundou- se nele. Juntos deram um s grito: seus corpos se reconheceram. Com a 
boca colada  orelha dela, ele a insultou com palavras sujas que traam seu desespero. Ela deixou 
que ele as dissesse, reencontrando em suas injrias um suplemento de prazer.  
Nos dias que se seguiram eles redescobriram-se, conheceram- se de novo. Franois levava na carne 
a marca dos sofrimentos 
enfrentados. Os de La, gravados na mente, seriam mais difceis de sarar.  
Reinava a maior desordem na capital de Tonkin: populaes catlicas em fuga para o sul, saques em 
uma cidade abandonada por seus comerciantes, vigilncia constrangedora das lojas e dos 
entrepostos, prises de ladres, grupos errantes de crianas mestias abandonadas e que os 
religiosos responsveis pelos rfos tentavam reunir, comrcio at nas caladas dos pobres 
pertences daqueles que se aprontavam para fugir do Vit-minh e que os carniceiros que rondam 
todas as derrocadas compravam a preos humilhantes... Tudo aquilo se desenrolava diante dos 
olhos e do conhecimento dos representantes estrangeiros - canadenses, indianos, poloneses - da 
Comisso Internacional de Controle criada seguindo os acordos de Genebra, assinados em 21 de 
julho de 1954.  
Ao fim de trs semanas, o estado de Franois lhes permitiu se transferirem para uma casa 
confortvel, cedida pela famlia de Philippe Mller, onde j se encontravam a pequena Claire e sua 
bab. Foi nesta casa que o general Salan, adjunto do general Ely, comissrio geral e comandante-
em-chefe, tinha ido receber notcias. Os dois homens no haviam mais se visto desde que o general 
havia lhe dado a autorizao de partir para a regio de Chieng,  procura de La.  
- Fiz bem em me preocupar com sua aventura - disse Salan, apertando-lhe a mo.  
- Tenho uma dvida com o senhor, meu general, jamais a esquecerei.  
- Deixemos isso de lado. Soube que voc esteve bem no combate a Dien Bien Phu. Nada o obrigava 
a isso.  
Franois levantou os ombros com um olhar em direo a La.  
- Voc fez parte do comboio 42. Soube por seus companheiros sobreviventes o que voc suportou... 
Mas enfim, est vivo. Tive grande dificuldade para obter do general Tan Tien Dung, chefe da 
delegao do exrcito popular, que todos os prisioneiros nos fossem devolvidos. 
Tive de amea-lo de 
pedir a Mends France que denunciasse os acordos de Genebra. Mas as perdas so grandes: dos 
14.590 prisioneiros ou desaparecidos, encontramos apenas 8.516 homens. Mas foram os nossos 
soldados vietnamitas que pagaram o tributo mais alto: menos de dez por cento nos foram 
devolvidos... Devo deixar vocs, Tavernier. Antes de deixar para sempre esta terra que eu amo, e  
qual cheguei pela primeira vez em 1924, cabem- me tarefas bem penosas... Como fechar nossos 
cemitrios, o de "la Conqute", por exemplo, e aquele onde repousam nossos soldados mortos. 
Quero que o general Ely encontre tudo em ordem depois de minha partida. Adeus. H poucas 
chances para mim de que nossos caminhos voltem a se cruzar.  
- Quem sabe, meu general? - disse Franois levantando-se.  
- Minhas homenagens, madame.  
- At um dia, general.  
Na manh do dia 9 de outubro, La saiu de casa em direo  rua dos Pavilhes, no quarteiro 
chins, para tentar colocar um pouco de ordem em seus pensamentos. O tempo estava ligeiramente 
encoberto, as ruas se achavam vazias de seus pequenos comerciantes habituais e de sua clientela. 
No havia velhas mulheres com dentes laqueados, agachadas diante de seus fogareiros portteis, ou 
fumantes sentados em seus calcanhares, mendigos arrastando-se pelas caladas quebradas  espera 
de um improvvel gesto piedoso, ou bandos de crianas gritando, nem jovens arrumadas, nem 
mesmo cachorros vira-latas fuando as imundcies. No havia nada, nenhum rudo, nenhum ser vivo. 
Perdida em suas reflexes sombrias, La sequer notou este novo estado de coisas e dirigiu-se ao 
quarteiro Clemenceau. Ao longo do rio Vermelho estavam estacionados caminhes militares dentro 
dos quais estavam sentados, de cabea  
baixa, soldados. Logo, o barulho de uma coluna de tanques encheu o ar: a retirada das tropas 
francesas havia comeado. Imvel, o corao apertado, La ficou olhando o comboio dirigir-se para 
a ponte PaulDoumer. Avelha ponte de ferro tremia em toda a sua extensa carcaa enferrujada. 
Vindo da Citadela, pela rua de Graines, uma interminvel fileira de metralhadoras automticas 
esperava sua vez. Na entrada da ponte estavam os oficiais franceses e vietnamitas. Os rostos 
estavam tensos, os gestos raros. Entre eles, alguns jornalistas e fotgrafos tentavam sem alegria 
cumprir sua funo. Tudo se desenrolava calmamente, com uma disciplina perfeita, sem qualquer 
outro barulho que no o dos motores, em uma espcie de monotonia acinzentada, como se todas as 
cores tivessem sido engomadas. Nenhuma bandeira agitava-se, nenhuma bandeirola. La sentou- se 
sobre a pedra de entrada de uma casa em runas. Com os braos em torno das pernas dobradas, ela 
esperou, balanando-se de vez em quando para frente e para trs, at a partida do capito Salani e 
do coronel d'Argenc, que depois de uma ltima saudao ao oficial vit-minh afastou-se a p, 
apoiado em sua bengala. O velho soldado, o rosto banhado em lgrimas, tentava retardar o momento 
de sua ruptura com aquele pas que ele havia aprendido a amar.  
Ouviu-se, ento, um rumor que se elevava pela cidade, logo surgiu de todas as partes uma multido 
brandindo flores, retratos de Ho Chi Minh, milhares de bandeiras escarlates marcadas com uma 
estrela amarela.A mar vermelha submergiu acinzenta. O presidente da PDVN, Ho Chi Minh, podia 
entrar em sua capital. O que ele fez no dia seguinte, precedido pela diviso 308 que havia cercado 
Dien Bien Phu.  
Pouco antes de partirem de Hani, La e Franois foram convidados, em companhia de Jean 
Sainteny, para uma recepo no Gougal, antigo palcio do governo geral, pelo novo chefe do estado 
vietnamita. Foram recebidos calorosamente por Ho Chi Minh, que abraou La, os olhos midos.  
- Estou muito feliz que tenha encontrado seu marido, voc teve mais sorte do que muitas mulheres 
vietnamitas. Voc continuou a praticar o viet vo dao ? Voc era muito talentosa.  
- No tenho tido lazer, senhor presidente.  
- Que pena- acrescentou ele, virando-se para saudar Franois.  
- Voc tem uma mulher excepcional, senhor Tavernier, eu o cumprimento. Quais so as intenes de 
vocs? Vo permanecer noVietn? Continuar os negcios? So bem-vindos. "Ns combatemos 
lealmente durante oito anos, tudo isso est terminado agora. Podemos trabalhar juntos com a mesma 
lealdade, mas, desta vez, pelo bem de nossos povos e para o benefcio comum."*  
- No tinha pensado em permanecer, senhor presidente. Temos desejo de encontrar nossos filhos. 
Ainda vamos ver.  
- "Ns temos muito a fazer e no podemos fazer tudo ao mesmo tempo. O que desejamos  que 
vocs se encarreguem, vocs, os franceses, de manter a atividade econmica deste pas. Para isso, 
precisamos de suas empresas e desejamos que elas permaneam."  
- Ainda  preciso inspirar-lhes confiana- disse Jean Sainteny, que havia escutado a conversa.  
- Ns nos esforaremos para isto - respondeu Ho Chi Minh.  
Ele afastou-se para receber o embaixador da Unio Sovitica, M. Lavritchev.  
O velho combatente havia mudado: "Seus ombros estavam arredondados, a barba e o cabelo haviam 
ficado grisalhos e, por contraste, sua pele parecia mais amarela e mais polida, como um velho 
mrmore. Se o corpo havia guardado sua magreza juvenil, o rosto estava mais cheio. Ele havia at 
mesmo ganho traos de boneco, adquirindo assim a benignidade que convinha ao personagem do 'tio 
bonzinho' . O que no havia mudado era o fogo e a mobilidade de seu olhar e, no comportamento, a 
inigualvel mistura de reserva e vivacidade".  
Pham Van Dong, agora vice-primeiro-ministro e ministro dos assuntos estrangeiros, veio por sua vez 
saud-los, vestido com um rgido uniforme cinza que sublinhava sua silhueta elegante. Em seu belo 
rosto asctico brilhava o mesmo olhar ardoroso e profundo. De seus lbios grossos escapava ainda 
aquele riso desconcertante, que surpreendia sempre.
Dois dias depois, La e Franois embarcaram para Haiphong a bordo do Pasteur. A travessia da
baa de Halong foi, para La, um suplcio; em cada jangada ela acreditava ter visto Kien. O 
fantasma da boa mestia a perseguia at mesmo em sua cabina, todas as vezes em que tomava a 
filha nos braos. Philomne - era o nome cristo da assam que no havia desejado apartar-se da 
criana - espantava-se com as lgrimas de sua patroa quando a via apertar o beb contra si. 
Supersticiosa como muitos vietnamitas, ela murmurava preces encantatrias que nada tinham de 
catlicas.  
A emoo de La ao reencontrar Charles e seus filhos, Adrien e Camilie, foi to forte que a jovem 
mulher desmaiou. Quando voltou a si, teve uma violenta crise de soluos e Camille, assustada, se 
refugiou nas saias de Franoise, que dirigiu  irm um olhar desprovido de ternura que no escapou 
a Franois. Charles aproximou- se daquela que ele considerava sua me e, com palavras ternas, 
conseguiu acalmar seu pranto. Quando, enfim, La sorriu atravs das lgrimas, ele experimentou 
uma grande alegria.  
- Meu rapaz - disse-lhe ela com a voz doce que ele tanto amava -, voc agora  um homem!  
Aos 14 anos, Charles era alto para a idade, esbelto, quase magro, esportivo. Percebia-se que, dentro 
de pouco tempo, teria um corpo de atleta. Seu gosto pelo esporte no o impedia de ser um aluno 
brilhante, apaixonado por histria e literatura. Ele havia levado a srio seu papel de mais velho e 
cuidara de Adrien como de um irmo; graas a ele o garoto de 6 anos sabia ler muito bem. Ele era 
incontestavelmente o chefe do pequeno grupo de garotos de Montillac; assim como os outros filhos 
de La, os de Franoise tambm o adoravam. No havia ningum como ele para inventar 
brincadeiras, construir cabanas, montar um Meccano, subir nas rvores e mergulhar na Gironde. 
Com ele os passeios de bicicleta, os piqueniques, os passeios de charrete, transformavam-se em 
expedies de onde todos voltavam esgotados e radiantes. Era um garoto ao mesmo tempo feliz e 
melanclico, que parecia-se com seu pai, mas tinha os olhos da me. Os dois compunham seu belo 
rosto adolescente.  
Pouco a pouco La e seus filhos reavivaram os laos familiares. E logo soavam na velha casa seus 
gritos de alegria. Eles haviam aceitado com felicidade a pequena irm, que Adrien achou uma 
"coisinha curiosa". Philomne, no incio, tinha tentado proteger o beb dos carinhos mais acalorados, 
mas logo capitulou diante dos sorrisos com os quais sua "filha de leite" os acolhia.  
Depois do retorno de sua irm, Franoise mal conseguia esconder sua exasperao. Tudo era 
pretexto para reflexes cada vez mais acintosas sobre "aqueles que levavam uma vida de 
facilidades", "que desfrutavam do trabalho dos outros" e sobre o que era mais freqente: "a 
ausncia de sentimento maternal" de sua irm. Um dia, chegou a dizer:  
- Eu no compreendo como voc ousou nos trazer essa bastarda...  
A bofetada dada por La cortou-lhe a palavra.  
- Nunca mais diga isso! Claire  nossa filha. Como pode pensar dessa forma? Voc, que teve a 
cabea raspada, seu filho nos braos!...  
A palidez que invadiu o rosto de Franoise fez ressaltar a marca dos dedos de La.  
- Cale-se!... Como voc, logo voc, pode me fazer lembrar desses horrores?  
-  bom, porque voc parece ter se esquecido. Eu alguma vez j a insultei por ter dormido com um 
alemo? 
- No, mas voc pensa o tempo todo nisso, como os comerciantes de Langon e os burgueses de 
Bordeaux...  
- Voc  completamente louca! Todo mundo j esqueceu essas velhas histrias.  
- Isso  o que voc pensa. Alain recebe cartas annimas contando minhas noites de libertinagem 
com os ocupantes. Ele no me fala mais, mas pelo jeito dele eu sei bem quando recebeu uma outra.  
La teve um rasgo de piedade por sua irm.  
- Isso  imundo! Quem pode agir desta forma?  
- No importa quem. Lembre-se de todas as delaes durante a guerra; os arquivos de Bordeaux 
esto cheios delas. E nem todas eram annimas.  
- Faz muito tempo que ele recebe as cartas?  
- Quase dois anos, depois que os negcios comearam a melhorar. Como se quisessem nos fazer 
pagar pelo nosso sucesso.  
- Voc no agiu de forma muito diferente deles.  
- Como? Eu no vi o relatrio.  
- O relatrio?... Voc me cobra por ter ajudado a reerguer Montillac...  
- Esse ressurgimento  o resultado do trabalho de Alain.  
- Eu no digo o contrrio. Voc fala nisso sem parar, como se duvidssemos disso. Eu sou muito 
agradecida a vocs dois por terem levantado Montillac e terem cuidado de meus filhos. Disso, serei 
sempre devedora. Venha, vamos nos abraar... Papai e mame no iriam gostar de nos ver 
brigando.  
Elas abraaram-se como antigamente e durante alguns dias a pequena casa esteve repleta de 
felicidade. Mas os rancores e as angstias de Franoise eram muito fortes para que a harmonia 
familiar permanecesse.  
Trs meses depois de sua volta, La e Franois instalaram-se em Paris com os filhos, no 
apartamento da rua da Universidade. Ele havia decidido que Charles terminaria seu ano letivo em 
Bordeaux, 
e depois se reuniria a eles no ano seguinte. Sob as recomendaes de Jean Sainteny, Franois havia 
aguardado ser nomeado para um cargo no ministrio dos assuntos estrangeiros por Pierre Mends 
France, o presidente do Conselho, que, depois de sua volta da Indochina, o recebeu para uma longa 
conversa. Perguntou-lhe como ele via o futuro das relaes franco-vietnamitas, e ouviu atentamente 
suas respostas. Nada, no entanto, havia resultado desta entrevista. Decepcionado, Franois solicitou 
uma audincia com o general De Gaulie, que finalmente concordou em receb-lo, na rua do 
Solferino. Saiu de l com este conselho do general:  
- V para o campo, ocupe-se de seus negcios e renuncie temporariamente aos assuntos do estado.  
Ento Franois seguiu, no sem tristezas, a sugesto do homem do 18 de junho.  
O ano de 1955 havia passado muito rpido para La, ocupada em cuidar da casa, ajudada por 
Philomne e por Mmc Germain, uma brava mulher, tambm viva. Alugaram uma casa grande na 
Arcachon para o vero e Franois havia feito numerosas viagens a Lyon a negcios. Charles iria 
para o liceu Montaigne depois de, todas as manhs, levar Adrien, que acabava de entrar para a 
escola na rua Saint-Andr-des-Arts. Jacques Soustelie  nomeado governador geral da Algria, uma 
nova estao de rdio, Europe no 1, conquista a juventude, Edgar Faure sucede Pierre Mends 
France, Paul Claudel morre depois do triunfo, na Comdie-Franaise, de L'Annoncefaite  Marie, 
o pintor Nicolas de Stal se suicida nas Antilhas, encontrando-se na eternidade com Albert Einstein 
e Teilhard de Chardin, oitenta espectadores encontram a morte nas Vinte e Quatro Horas do Mans, 
Louison Bobet ganha seu terceiro Tour de France, L'Humanit e France-Observateur so 
censurados por seus artigos sobre a guerra da Arglia - a Arglia onde  decretado estado de 
emergncia-, Juan Pern  derrubado na Argentina, Mohamed V, sulto do Marrocos, reinstalado 
em seu trono,  acolhido triunfalmente pelo seu povo em Rabat, Maurice 
Utrillo parte para reencontrar sua me, Suzanne Valadon, James Dean, dolo dos jovens,  morto no 
volante de seu Porsche, Ng Dinh Dim  proclamado presidente do Vietn do Sul depois da 
destituio do imperador Bao Da, os soldados do contingente embarcam para a Arglia cantando 
ODesertor, cano de BorisVian, Roger Ikor ganha o prmio Goncourt por seu romance Les Eaux 
mles, enquanto Andr Dhtel ganha o Fmina porPays o l'on n'arrive jamais.  
Eles voltaram a Montillac para o Natal e as frias de Pscoa.  
No dia seguinte  dura cena entre as duas irms, Franois Tavemier desceu as escadas em grandes 
passadas, cigarro nos lbios, na direo de Alscia Lorena. Perdido em seus pensamentos, esbarrou 
em um passante que tambm fumava um cigarro, o qual, no choque, escapou de seus lbios.  
- Desculpe-me - disse Franois, enquanto o apanhava.  
- Mire pordonde camina, coio!
 - gritou o homem. Apanhando o cigarro, observou-o com desgosto 
antes de jog-lo na sarjeta.  
- Le ofrezco otro?
 - perguntou Tavernier, estendendo seu mao.  
Resmungando, o homem tira um, e examinou-o com o olhar de um expert em cigarros.  
- Gracias - soltou ele, levantando a cabea. - Tavernier! Wsted no es Franois Tavernier?  
Durante um rpido instante eles se observam.  
- Ramn Valds! - exclama Franois, abrindo os braos.  
Sem procurar esconder a emoo, os dois homens se abraam.  
- Compaero! i Qu gusto verte despus de tantos anos!'  
- Venha, vamos tomar alguma coisa - props Franois em  
espanhol. - Quero que voc me conte como tudo terminou para voc, depois do adeus de Barcelona...  
Em um caf da place de la Comdie, eles passaram a tarde a evocar suas lembranas da guerra da Espanha. 
Combatente republicano da primeira hora, o comunista Ramn Valds havia sido um dos chefes de Franois 
Tavernier na ocasio de seu engajamento nas Brigadas Internacionais, em outubro de 1936. Mais velho alguns 
anos o operrio espanhol foi tomado de simpatia por este "filho da burguesia" - assim o chamava 
afetuosamente - que, ainda que no comunista, havia combatido ao lado dos republicanos. Valds havia visto 
sua mulher e suas duas filhas serem massacradas pelos franquistas. Consumido de dio e de desespero, ele 
havia sobrevivido apenas para se vingar, tentando eliminar o maior nmero possvel de nacionalistas. Franois 
foi incorporado na brigada X1V no batalho "Comuna de Paris", composto em sua maioria por comunistas 
belgas e franceses e posto sob as ordens do coronel Jules Dumont - que havia sido apelidado "o coronel 
Kodak", de tanto que ele adorava fazer poses exageradas diante da objetiva. Depois de ter recebido um 
treinamento sumrio na base de Albacete, ele se reuniu aos brigadistas de Madri, de onde jovens de todas as 
nacionalidades, franceses, hngaros, ingleses, poloneses, belgas, antifascistas italianos, russos brancos, 
irlandeses, alemes antinazistas.... comandados por romancistas ou poetas como Ludwig Renn, Mata Zalda, 
John Cornford, Ralph Fox, Gustav Regler.... partiram ao assalto de tropas nacionalistas, em meio a verdes 
carvalhos, cantando a Internacional em todas as lnguas.  
" aqui, em Madri, que se encontra a fronteira que separa a libertao da escravido.  aqui em Madri que 
duas civilizaes incompatveis se enfrentam em uma grande luta: o amor contra o dio, a paz contra a guerra, a 
fraternidade do Cristo contra a tirania da Igreja...  Madri. Madri luta pela Espanha, pela Humanidade, pela 
Justia e, do manto de seu sangue, ela abriga todos os seres 
humanos! Madri! Madri!", exclamou na rdio, no dia 8 de novembro de 1936, o deputado republicano Fernando 
Valera.  
Em todas as partes, a carnificina havia sido arrasadora. Ferido, Franois havia sido salvo por Ramn, que ainda 
que tambm atingido tinha conseguido arrastar o jovem francs ao abrigo das balas. Depois de terem sido 
tratados no hotel Ritz, transformado em hospital, foram reenviados ao campo do Albacete, que Ramn logo 
abandonou para reunir-se ao coronel Vilialba, comandante republicano da praa de Mlaga. Foi l que mais 
uma vez ele foi ferido enquanto protegia o xodo da populao e que a Escuadrilia Espa fia de Andr 
Malraux fazia seu ltimo combate areo. Os dois homens se reencontraram em Teruel, na noite de Natal, nas 
adegas do convento de Santa Clara, em companhia de um reprter fotogrfico hngaro de uma agncia 
parisiense, Alpha Press. Seu nome era Blmia Borowicz, mas todos o chamavam de Boro. Fazia tanto frio que 
os motores congelavam e as armas emperravam. Bloqueados por uma tempestade de neve que havia durado 
quatro dias, privados de gua, vveres e de medicamentos, eles acabaram por atravessar as linhas nacionalistas 
e reunir-se aos fragmentos de diferentes brigadas que se reagrupavam em Barcelona. Foi nesta cidade que eles 
souberam da anexao da ustria pela Alemanha nazista, em 11 de maro de 1938.  
Franois, por sua vez, havia salvo a vida de Ramn, durante a batalha de bre, arrancando-o das mos dos 
marroquinos. Eles seriam os nicos sobreviventes de seu batalho. Passada a ofensiva de bre, os 
republicanos acreditaram em uma possvel vitria. Mas, na Assemblia das Naes Unidas, a retirada das 
brigadas internacionais foi decidida com o acordo de Juan Negrn e de Stalin.  
Em Barcelona, no dia 15 de novembro de 1938, os 
sobreviventes das brigadas haviam desfilado em marcha sob as aclamaes da multido, que lanava-lhes 
flores, e na presena de Negrn. Com o punho erguido, la Pasionaria os saudava. Imensos 
retratos de Stalin, Negrn e Azafia dominavam as ruas. Nos anos seguintes, estes homens que 
haviam feito o sacrifcio de suas vidas se lembrariam do discurso vibrante de la Pasionaria:  
Mes/Mulheres! Quando os anos tiverem passado e as feri das da guerra estiverem 
cicatrizadas; quando a lembrana dos dias de tristeza e de sangue forem estancadas em um 
presente de liberdade, de amore de bem-estar; quando os rancores estiverem mortos e todos 
os espanhis sem distino conhecerem o orgulho de viver em um pas livre - ento contem a 
seus filhos! Contem a eles sobre as brigadas internacionais! Digam-lhes como, atravessando 
oceanos e montanhas, passando por fronteiras cobertas de baionetas, espreitados por ces 
vorazmente vidos de dilacerar sua carne, estes homens chegaram a nosso pas como 
cruzadas de liberdade. Eles abandonaram tudo, seus amigos, suas cidades, suas casas, seus 
bens, pais, mes, esposas, irmos, irms efilhos e vieram nos dizer: qui estamos. A causa de 
vocs, a causa da Espanha,  a nossa causa.  a causa de toda a humanidade tomada pelo 
progresso." Hoje eles se vo. Muitos dentre eles, milhares deles, vo permanecera qui, como 
mortalha, e a terra espanhola e todos os espanhis se lembraro deles e lhes guardaro os 
sentimentos mais profundos.  
Companheiros das Brigadas Internacionais! As razes polticas, as razes do estado, a 
prpria salvao desta causa pela qual vocs ofereceram o seu sangue com uma 
generosidade sem limites fazem com que vocs partam, alguns de vocs para seus  
pases, outros para um exlio forado. Vocs podem partir com a cabea erguida. Vocs 
so a histria solidria e universal Ns no mais os esqueceremos; quando a oliveira da 
paz se cobrir novamente com folhas misturadas aos louros vitoriosos da Repblica 
espanhola, voltem! Voltem para as nossas costas! Aqui encontraro uma ptria aqueles que 
no a tm, amigos, os que so privados de amizade, e todos, a afeio e o reconhecimento 
do povo espanhol...  
No dia seguinte, Franois Tavernier deixou Barcelona em um barco fretado pelo governo francs 
em direo a Marseille. Ramn Valds reuniu-se a seus companheiros. Ele havia combatido at o 
dia 27 de maro de 1939, dia da rendio dos exrcitos republicanos. Feito prisioneiro pelos 
nacionalistas, tinha conseguido fugir e passar pela fronteira espanhola, ajudado pelos bascos. 
Preso pela polcia francesa, foi interno no campo de Gurs. De l escreveu a Tavernier, sem 
receber resposta. Quando, por sua vez, a Frana entrou em guerra, ele pediu para lutar, o que lhe 
foi negado com desdm. Magoado, fugiu novamente, e chegando a Bordeaux embarcou para o 
Mxico. L, os refugiados republicanos o acolheram. Dois anos mais tarde, ele instalou-se em 
Cuba, onde fez fortuna com a cana-de-acar e com o tabaco. Ele pretendia no momento lanar-
se na importao de vinho e era por isso que se encontrava em Bordeaux.  
Por sua vez, Franois resumiu sua vida desde sua partida de Barcelona, evocando a Frana 
ocupada, a Resistncia, a queda de Berlim, sua temporada na Argentina e na guerra da Indochina 
de onde acabara de voltar to ferido.  
Os dois velhos companheiros simplesmente conversavam, sem enfeitar qualquer uma de suas 
aes, reganhando espontaneamente a autoconfiana que haviam abandonado h tanto tempo. 
Entre eles, nenhuma necessidade de competio: eles no tinham nada para provar um ao outro. 
Sabiam quem era o outro sentado  frente sem que fosse preciso dizer, que o tempo havia apenas 
confirmado o 
seu valor. Quanto s respectivas falhas, as circunstncias no haviam permitido que as 
conhecessem; eles sabiam um do outro apenas a retido, a coragem e a abnegao, alm de certa 
ironia e uma total ausncia de iluses sobre a natureza humana.  
- Depois de sua volta da Indochina, o que est fazendo?  
- Tenho colocado ordem em meus empreendimentos que sofreram com minha ausncia. Mas estou 
indeciso; a vida que levei nos ltimos vinte anos no me predispe a retomar meus negcios como se 
nada tivesse acontecido. Por outro lado, tenho agora uma famlia e no posso continuar a viver de 
renda. Pensei por algum tempo, e para agradar a La, em investir em Montillac comprando outros 
vinhedos para aumentar a propriedade. Mas a irm dela v com maus olhos nossa eventual 
instalao.  
- Por que no comprar um outro terreno se voc gosta da regio e se interessa por cultivo de vinhas?  
- Isso no teria sentido. Para La,  Montillac ou nada.  
- Recompre-a.  
- Minha cunhada no aceitaria; ela quer comprar as partes de La.  
- Eu s vejo uma soluo: venha instalar-se em Cuba!  
- Eu bem que poderia levar voc a srio - disse Franois rindo.  
- Pois, justamente, minha mulher morre de vontade de conhecer a ilha.  
- Ento, est no papo! Afinal vocs no tm na Frana um ditado que diz "O que a mulher quer, 
Deus quer"?  
- Mas o que eu faria por l?  
- No ria, eu falo srio. Tenho uma proposta a lhe fazer... No, no diga nada... deixe-me falar! 
Preciso de algum, em Havana, em quem possa ter total confiana e que tenha a coragem de 
manter a mfia a distncia. Passo a maior parte do meu tempo nas plantaes de tabaco e de cana. 
Minha mulher, que est doente, prefere viver em Santiago, local de origem de toda a sua famlia, o 
que me obriga a deslocamentos longos e cansativos. Mesmo que voc fique apenas um ou dois anos, 
isso seria de grande utilidade para mim. Alm do 
mais, no seria mal ganhar algum dinheiro... Pela nossa amizade, pense no assunto.  
- No conheo nada de cultura de cana nem de tabaco...  
- Voc aprender rpido. No estou pedindo que me responda agora, mas para refletir na minha 
proposta.  
Durante um momento, os dois amigos fumaram em silncio.  
- Em que hotel voc est?  
- No Grand Hotel.  
- Vamos passar para apanhar suas bagagens, e eu levo voc a Montillac. Voc conhecer minha 
mulher e meus filhos e poder ver se acha o seu vinho, o da propriedade no  ruim.  
- No quero incomodar...  
- Que  isso... J falei a seu respeito com La, ela vai adorar conhecer voc.  
- Estou muito feliz por t-lo reencontrado e sigo voc para onde quiser!  
Eles foram at o Grand Hotel, de onde Franois telefonou para Montillac para comunicar a chegada 
de seu amigo.  
Ramn foi acolhido de braos abertos por La; sem ele, ela no teria tido a felicidade de conhecer 
Franois. A recepo de Franoise foi corts. Alain Lebrun, depois de t-lo feito visitar as adegas e 
degustar os vinhos de diferentes anos, recebeu com entusiasmo a oferta de compra do cubano. Sua 
preocupao era no possuir reservas suficientes para satisfazer de imediato o pedido de Valds.  
Tudo foi muito rpido. Ramn Valds fretou um navio, oDsirade, da companhia geral 
transatlntica, um cargueiro de quatro mil toneladas, garantindo o transporte do vinho, e que tinha 
disponvel algumas cabines para aluguel. O cubano as reservou, e tudo se ajeitou em pouco tempo: o 
vinho de Montillac foi posto nos pores do navio, os trabalhos solicitados pela central em Havana 
foram rapidamente resolvidos, os vestidos pedidos por La entregues nos prazos, os negcios de 
Franois, em Lyon, organizados da melhor forma 
As crianas estavam impacientes para partir e, apesar das tensas  
relaes entre as duas irms, seu adeus foi emocionante. Elas  
deixaram-se com lgrimas nos olhos, prometendo manter correspondncia  
com freqncia.  

Captulo Dois

PARA CHARLES, A TRAVESSIA proporcionou a oportunidade de aproximao de Franois.
Ainda que habituado a ele desde a infncia, inconscientemente ciumento do esposo de La, ele o 
temia mais que o amava. As conversas dos dois amigos a respeito da guerra da Espanha, as 
respostas que davam a suas perguntas, mostravam-lhe o que havia sido o engajamento de Franois 
junto aos republicanos, esses "vermelhos, comedores de padres e estupradores de freiras", como 
diziam seus colegas de escola em Bordeaux. Ele compreendeu melhor por que, na Indochina, as 
simpatias de Tavernier eram para aqueles que combatiam pela independncia de seus pases.  
- Voc pensa o mesmo a respeito da Arglia? - perguntou ele um dia.  
Franois refletiu um pouco antes de responder.  
- No fundo, sim. Mas os dados no so totalmente idnticos. AArglia  francesa h mais de cem 
anos. Os descendentes de quinze mil colonos, enviados por Louis-Philippe para o povoamento e a 
explorao dos novos territrios, sentem-se em casa por l, da mesma forma que um nativo de 
Auvergne ou um bordels se sente em casa 
na Frana. Para eles, a Arglia  a Frana,  a terra que eles cultivaram e onde repousam seus 
ancestrais. Aos herdeiros dos primeiros colonos reuniram-se os alsacianos e os lorineses que 
recusaram- se a ser prussianos, os deportados de 1848, da Comuna, os judeus, os espanhis, 
italianos, corsas fugindo da pobreza de sua ilha. Toda esta populao heterognea, vinda de 
horizontes diferentes, mas quase sempre impulsionada pela necessidade ou pela misria, com 
opinies polticas divergentes e fortunas desaparecidas, esquece seus desacordos e se encontra 
unida para combater a independncia reclamada por uma parte do povo muulmano.  
-  impossvel imaginar que os no-muulmanos pudessem continuar a viver com os muulmanos 
em uma Arglia independente?  
- Podemos imaginar, mas isso parece utpico. Jamais os franceses de l aceitaro serem governados 
pelos rabes e, por sua vez, os argelinos no aceitam mais a presena dos antigos colonizadores. 
Alm do mais, o fanatismo religioso, estrangulado at ento pela presena francesa, comea a se 
estender. Nos Aurs, cortaram o nariz e as orelhas daqueles que foram surpreendidos bebendo 
lcool ou fumando. At hoje, os "poderes especiais" reclamados por Robert Lacoste, em maro 
ltimo, e a lembrana de duzentos mil jovens sob as bandeiras no deram em grande coisa.  
- Voc ser chamado?  
- Acredito que no, estou muito velho.  
- Voc, voc no ser velho, jamais! - exclamou Charles.  
Franois se repreendeu por ter sentido prazer na reflexo do menino. "Velho bobo", pensou ele, 
estirando sua grande carcaa. Aos 43 anos, com seu rosto marcado, sua boca de lbios sensuais, 
seus olhos debochados, o sorriso sedutor descobrindo um maxilar de carnvoro, sua cabeleira 
espessa e uma forma dcil de mover seu corpo magro e musculoso, Tavernier era um homem 
sedutor, agradvel s mulheres sem desgostar os homens.  
Estirado, o torso nu ao sol, ele fumava um charuto, os olhos abrigados por um chapu de palha, e 
deixava vagar seus pensamentos,
parando por algumas vezes nesta ou naquela lembrana, afastando as mais sofridas, sorrindo para as
outras: a felicidade de seus reencontros com seu companheiro de lutas e de tristezas, os jogos 
barulhentos das crianas e La, to bonita, to diferente das outras mulheres, junto  qual, a cada 
manh, ele acordava com alegria. Ele lhe era fiel sem sacrifcio, apesar de ser bastante assediado. 
Por duas ou trs vezes ele esteve a ponto de ceder, mas La, advertida por um sexto sentido, soube 
atrair com audcias amorosas esses ardores para si.  
A bola de Adrien bateu em seu peito e o tirou de seus sonhos.  
- Desculpe-me, papai - disse o garoto que vinha correndo.  
Seus pensamentos retomaram seu curso: teria sido mesmo a melhor deciso embarcar com toda a 
famlia para Cuba, que sem dvida no se revelar um lugar to idlico quanto imaginava La? O 
homem que havia tomado o poder por meio de um golpe de estado em maro de 1952, Fulgencio 
Batista, era apenas, segundo Ramn Valds, um tirano sanguinrio sob as ordens da mf ia de 
Miami e da CIA. Odiado pelo povo cubano, principalmente depois das torturas e da execuo de 68 
prisioneiros, detidos por ocasio de um ataque conduzido por um certo Fidel Castro contra a caserna 
de la Moncada, em Santiago, no dia 26 de julho de 1953, ele mantinha uma polcia que aterrorizava a 
populao.  
Tavernier havia se separado sem sentimentos do negcio familiar, cujo preo de venda lhe permitiria 
viver despreocupadamente durante alguns anos, ou investir em novos negcios. Mas, por hora, ele 
iria iniciar-se no mercado da cana e do tabaco.  
Ele levantou o chapu e, com um gesto preciso, atirou a guimba do charuto ao mar. Depois, voltou a 
se esticar ao sol.  
Eles aportaram em Santiago de Cuba no final da manh para uma escala de 48 horas. Aproveitaram 
para visitar a cidade, enquanto RamnValds dava uma olhada em sua correspondncia depois de 
ter ido dar um beijo em sua mulher. Este primeiro contato com Cuba encantou La. Instalada na 
varanda do velho hotel Casa Grande, 
de onde se via a velha praa de armas e local de encontro dos habitantes, ela observava um casal se 
movimentar de forma sugestiva ao ritmo de uma orquestra de seis msicos, cujo mais novo 
integrante deveria ter uns 75 anos... O lento e provocante andar das mulatas atraa os olhares como 
um m. Matronas vestidas espalhafatosamente com cores berrantes brigavam com seus pimpolhos, 
enquanto os velhos, eretos e secos, danavam em suas imaculadas guayaveras, balanando a 
cabea ao ritmo do bolero.  
Jantaram em um restaurante de segunda categoria da rua Heredia, mas os vrios daiquiris fizeram 
com que esquecessem a mediocridade da comida. Eles voltaram ao barco em caleche, j meio 
embriagados e cantando a plenos pulmes Solamente una vez...  
O navio entrou na baa de La Havana ao pr-do-sol. A cabea apoiada no ombro de Franois, La 
observava a cidade que se oferecia no esplendor dos ltimos raios de sol; uma brisa leve agitava 
seus cabelos, o ar cheirava a mar, asfalto e temperos. Charles explicava aAdrien as manobras do 
navio ao atracar. Camille, sentada sobre um rolo de cordas, continuava a brincar com sua boneca. 
Quanto a Philomne, levando a pequena Claire, ela esperava poder abandonar o navio para ficar 
sozinha cuidando de "sua" filha.  
O capito e sua tripulao vieram saudar os passageiros. Eles despediram-se com emoo, como 
quando deixamos velhos amigos por um bom perodo. Esta longa temporada passada no mar havia 
criado laos que se perderiam com o tempo, mas deixariam a lembrana de momentos de alegria e 
paz.  
Sobre a plataforma do cais, um homem vestido de terno branco, chapu panam nas mos, adiantou-
se:  
- Sr. e sra. Tavernier? Sou Jean-Claude Perrault, ligado  embaixada da Frana. Sua Excelncia sr. 
Grousset me encarregou de receb-los e de desejar-lhe boas-vindas a Cuba. Espero que a
travessia tenha sido boa. Antes de vir, passei no Hotel Nacional para verificar se tudo estava em
ordem.  
- Obrigada, sr. Perrault, nossa viagem foi excelente. O hotel  longe do porto?  
- No muito, sr. Tavemier. Aqui estamos na cidade velha, o hotel  no Vedado, no Malecn. No 
apartamento, vocs encontraro um guia e os mapas de Havana, assim como uma publicao feita 
pela embaixada que indica tudo o que se deve saber e que no est necessariamente nos guias. Se 
vocs quiserem, podemos ir. Tenho trs carros  sua disposio. - Charlie, encrgate de las 
maletas!  
- Si seior  
La, Franois e Ramn Valds subiram no carro do adido, enquanto Philomne e as crianas 
instalavam-se a bordo do segundo e Charlles colocava a bagagem no ltimo.  
A noite j havia cado.  
Todos os faris ligados, grandes carros americanos em cores vivas, conduites intrieures ou 
charretes percorriam o Malecn, contra o qual as ondas vinham estourar. Belas jovens vestidas com 
calas corsrio, de tecido to colante como uma segunda pele, ou com vestidos justos que 
ressaltavam suas cinturas finas, encarapitadas sobre os saltos altos de seus sapatos, faziam poses 
provocantes, acenando para os motoristas. Os veculos diminuam a marcha e, s vezes, paravam. 
Famlias inteiras, sentadas sobre a mureta do passeio pblico, observavam a seduo com 
indiferena. Meninos se perseguiam enquanto outros propunham aos passantes copos de caf bem 
forte. Eles passaram por um vendedor de sorvetes que, com sua carrocinha pintada de rosa-choque, 
agitava um sino.  
- iLos mejores helados!/Fresa y chocolate//Os mejores de La Ha bana!  
Em torno de uma caminhonete Ford parada, uma dezena de jovens danava ao ritmo da msica que vinha do 
rdio do carro.  
- Vejam o hotel de vocs - disse o adido da embaixada, apontando para uma enorme construo guardada por 
duas torres quadradas.  
A construo estava diante de um deque que se destacava por sobre o cu negro com sua brilhante 
iluminao. Por uma rua inclinada, eles contornaram o edifcio e penetraram no corredor da entrada. Os carros 
pararam diante da entrada. Sem pressa, os carregadores e porteiros aproximaram-se. Do alto da escada, um 
homem em tnica os aguardava. Ele inclinou-se beijando a mo de La. Com um francs cantado, ele lhe disse:  
- Boa noite, sra. Tavernier, seja bem-vinda. Sou o diretor. Se vocs precisarem de alguma coisa esta noite, no 
hesitem: estou  disposio.  
La agradeceu-lhe com um sorriso.  
-  uma honra para o meu estabelecimento receb-los, sr. Tavernier. Sua excelncia o embaixador me 
recomendou pessoal- mente para facilitar em tudo a temporada de vocs em nosso pas. Desejam jantar no 
restaurante ou preferem ser servidos no apartamento?  
- Ns ainda no sabemos, veremos mais tarde.  
-  claro. O servio de quarto funciona 24 horas por dia.  
O diretor acompanhou-os, pessoalmente, at a porta. As crianas passavam de um quarto a outro e estavam 
radiantes com as acomodaes.  
Depois da partida do adido e do diretor, eles decidiram em comum acordo pedir servio de quarto.  
No dia seguinte, um conversvel Studbaker e um automvel Pontiac foram entregues no hotel por uma 
concesso das marcas americanas. Para seus primeiros passeios em Havana, La solicitou um guia, enquanto 
Ramn e Franois partiam para a provncia de Pinar dei Ro. O espanhol estava ansioso para mostrar-lhe suas
propriedades. La viu-se sozinha para instalar-se e inscrever as crianas na escola, e Charles na
universidade.  
A espaosa casa, cercada por um magnfico jardim, situava-se no quarteiro residencial do 
Miramar. A casa, alugada com mveis e aparelhos domsticos, pertencia a uma famlia americana 
rica que havia sido obrigada a voltar para os Estados Unidos. Graas ao servio da embaixada, as 
inscries escolares foram tarefa simples. Tendo sido aceito na faculdade de direito da Universidade 
de Havana, Charles preocupava-se, apesar de seu bom conhecimento de espanhol, se iria 
compreender o que diziam os cubanos. Na mesma situao, La tentou tranqiliz-lo afirmando que 
at o incio da universidade eles se familiarizariam com aquela pronncia engolindo a metade das 
palavras. Ela estava certa: ao final de um ms, eles compreendiam sem dificuldade seus 
interlocutores. Muito rpido, Adrien e Camille passaram a se expressar facilmente em espanhol. 
Quanto  pequena Claire, balbuciava indiferentemente em uma e outra lngua, misturando tudo com 
algumas palavras vietnamitas.  
Quinze dias depois, Franois voltou de sua viagem pelas terras de Ramn Valds, encantado com o 
que havia visto e com trabalho garantido. Esta mudana de vida o agradava. La e as crianas 
tambm estavam felizes. Os pequenos, esperando a escola, passavam seus dias na piscina do 
Country Club ou na praia. La havia percorrido as lojas para melhorar a decorao da casa, visitado 
os antiqurios em companhia da mulher do embaixador, enquanto Charles passeava de bicicleta 
pelas ruas de La Habana Vieja, do Vedado, do Cerro e de Miramar.  
Durante as trs semanas em que Franois passou em Havana, o casal Tavernier tornou-se uma 
verdadeira coqueluche nos jantares da embaixada, no mundo dos negcios e no meio cultural. Suas 
fotos foram publicadas nas revistas Bohemia e Carteles. Toda a Havana compareceu  recepo 
que eles deram para festejar sua instalao em Cuba. O presidente Batista, acompanhado de sua 
esposa, foi pessoalmente desejar-lhes as boas-vindas, para o grande desprazer 
de Ramn, que naquela ocasio estava passando uma temporada na capital. Essa visita provocou 
um grande mal-estar, dificilmente contornvel, mas que, felizmente, com a ajuda da orquestra 
cubana que tocava no jardim pouco a pouco desapareceu.  
Mesmo sendo dois ou trs anos mais novo que seus companheiros na faculdade de direito, Charles 
conquistou rapidamente amigos entre os estudantes, curiosos a respeito de tudo o que vinha da 
Frana; seus talentos para o basquete fizeram o resto. Foi por ocasio de uma partida no Stadium 
dei Cerro que ele conheceu um outro jogador, estudante de arquitetura e presidente da FEU, Jos 
Antonio Echeverra. Mais velho doze anos,Jos Antonio tomou-se de simpatia por este jovem 
francs que no tinha condies de igualar-se a ele para jogar a bola  distncia na tabela do campo 
adversrio. Depois da partida, eles foram tomar um caf na varanda do hotel Colona, acompanhados 
de Fructuoso Rodrguez e de Jos Machado. Os cubanos o bombardearam de perguntas sobre a 
Frana, o general De Gaulie, a guerra, a Resistncia... e a Revoluo Francesa. Charles procurou 
responder da melhor forma.  
- Meu padrasto poderia responder melhor a essas perguntas  
- disse ele, falando de Franois. - Ele conhece o general De Gaulie  
e combateu contra os nazistas. Ele at mesmo participou da guerra  
da Espanha.  
- Contra Franco? - duvidou Jos Machado, com um tom hesitante.  
- Evidentemente! - retrucou Charles, um pouco condescendente.  
Seus novos amigos balanaram a cabea em aprovao.  
Este encontro permitiria a Charles comear sua educao poltica. Manzanita ou el Gordo, como
o apelidavam afetuosamente seus
companheiros, havia sido preso vrias vezes pela polcia de Batista e vivia em uma
semiclandestinidade. Em dezembro de 1955, Jos Antonio Echeverra fundou um diretrio 
revolucionrio com o objetivo de lutar contra o ditador, em companhia de Fructuoso Rodrguez, Jos 
Machado, Juan Pedro Carb, Faure Chomn, Joe Westbrook e alguns outros. Como presidente da 
FEU, ele comparecia a numerosos congressos de estudantes por toda a Amrica Latina, 
aproveitando esses encontros para divulgar e pregar a luta dos cubanos contra Batista. No Mxico, 
ele acabara de assinar em nome do diretrio um pacto com o chefe do movimento de 26 de julho, 
Fidel Castro, selando a unidade da juventude cubana no objetivo de derrubar o governo de Havana.  
Neste 27 de novembro, com outros estudantes, Charles desfilou contra o regime de Batista. A 
manifestao foi brutalmente dispersada pelas foras de ordem e, atingido por golpes de cassetete e 
pontaps, ele foi preso e levado ao posto policial.  
- i Pero t eres francs?! - exclamou o policial que examinou os documentos dele.  
O homem os mostrou a seu superior que, perplexo, coou a cabea.  
- nde viven tus padres? - perguntou ele.  
Uma hora mais tarde, La entrava no posto policial, furiosa.  
- iDnde est?  
- Estou aqui, est tudo bem.  
- O que eles fizeram a voc? - suspirou, aterrorizada.  
Seus cabelos e sua camisa sujos de sangue ofereciam um quadro espetacular.  
- Brutamontes! Eu vou registrar uma queixa...  
- Eu te peo, La, no faa nada. Vamos embora, eu explico tudo.  
Vermelha de dio, ela assinou o registro que lhe estenderam.  
- De ahora en adelante, pngale ei ojo a su hjo, seiora - recomendou-lhe o policial, restituindo-
lhe os documentos de Charles.  
La enfiou as unhas nas palmas de suas mos para impedir-se de explodir. L fora, uma tropa de 
policiais cercava o carro. Eles se afastaram  chegada dos dois, destilando comentrios irnicos. A 
violncia com a qual ela arrancou os fez balanar para trs.  
Charles e La chegaram  cidade em tempo recorde. Sem descerrar os dentes, ela limpou a ferida 
que ele tinha no rosto e lhe fez tomar um banho. Quando ele se enrolou em um roupo, ela serviu- 
se de um copo de rum, acendeu um cigarro e disse:  
- Conte-me.  
O entusiasmo com o qual Charles falou da necessidade de se fazer a revoluo, da opresso sofrida 
pelo povo cubano, da ignorncia na qual ele  mantido, da explorao das massas pelos proprietrios 
sem escrpulos, da brutalidade dos policiais, da ditadura econmica dos Estados Unidos, dos polticos 
suspeitos etc. teria lhe feito sorrir se no soubesse que os homens da polcia de Batista no 
achariam graa quando ouvissem a palavra "revoluo". No fosse seu status de francs, Charles 
teria passado alguns dias na priso. Ela escutou-se objetar um pouco estupidamente:  
- Mas este no  o seu pas...  
- Eu sou cidado do mundo, a Revoluo ser mundial ou no ser! - retorquiu o garoto com a maior 
seriedade.  
Os cabelos em desalinho, ps descalos, vestido em um robe azul-celeste, ele havia se pronunciado 
to solenemente que ela estourou na gargalhada. Furioso, ele se levantou, as faces vermelhas, to 
rapidamente que o robe caiu.  
- Assim voc me decepciona. Esperava que voc, ao menos voc, compreendesse!
La sente subir em si mesma uma clera proporcional quela que havia experimentado antes.
- Compreender o qu? Que voc se arrisca a ser morto em um combate que no  o seu?  
- Tambm no era o combate de Franois na Espanha. E ele, no entanto, combateu ao lado dos 
republicanos!  
- No  a mesma coisa!  
Exprimindo-se desta forma, ela sabia estar errada e que, por onde houvesse opresso, haveria 
homens para levantarem-se e dizerem no! No havia ela dito no  Alemanha nazista, em outro 
tempo, e assumido o risco de perder a vida porque recusava-se a aceitar a ocupao de seu pas? 
No momento era Charles, seu pequeno Charles, que por sua vez dizia no. Uma profunda fadiga a 
invade: ela, que havia esperado conhecer aqui a alegria de viver ao sol, longe da violncia, do dio, 
da guerra, esquecer em um mundo ftil os sofrimentos enfrentados, gozar enfim de calma e paz, 
acordava em uma ilha onde raptos, violaes e torturas haviam se tornado to freqentes que a 
imprensa s lhes consagrava algumas linhas.  
Os atentados se multiplicavam: seus autores mostravam-se cada vez mais audaciosos. Comandados 
por Reinol Garca, o ataque  caserna Giocuria, em Matanzas, no dia 29 de abril de 1956, e que 
resultou em um banho de sangue, tinha dado o tom. No dia 27 de outubro um atentado no cabar 
Montmartre por dois jovens do diretrio revolucionrio custou avida do coronel Blanco Rico, chefe 
do SIM, e do comandante-em-chefe das unidades blindadas, Marcelo Tabernilla. Ambos tinham 
ido ouvir a clebre cantora Katina Rainieri, em companhia de suas esposas. O golpe mergulhou a 
populao no medo das represlias, e o governo em uma inquietude cheia de dio que o incitou ao 
assalto  embaixada do Haiti, onde sobreviventes do ataque  caserna Giocuria e estudantes 
procurados haviam encontrado refgio. Depois de ter forado a entrada, tendo  
 frente o chefe da polcia, o general Rafael Salas Canizares, e o chefe do escritrio de pesquisas, 
coronel Orlando Piedra, os policiais massacraram os dez rapazes. Apenas um deles, Israel Escalona, 
tinha uma arma. Mas, antes de ser abatido, teve tempo de descarreg-la no detestado Salas 
Canizares, ferindo-o mortalmente no ventre. Em seguida a estes acontecimentos, houve numerosas 
prises, enquanto Batista mobilizava possantes meios militares com o apoio dos Estados Unidos, 
representados por seu embaixador em Havana. Uma esquadrilha de avies lhe foi enviada ao 
mesmo tempo que a artilharia de campo e grande quantidade de armas destinadas s tropas de 
infantaria. Na maior parte das cidades da ilha, em Cienfuegos, Santa Clara, Matanzas ou Pinar del 
Ro, os jovens invadiam as ruas conclamando a populao  revolta. Em Santiago, Frank Pas e 
Pepito Tey lideraram 28 revolucionrios armados de granadas e coquetis Molotov e tentaram tomar 
o posto policial, defendido por setenta policiais e quinze militares equipados com fuzis e 
metralhadoras, aos gritos de "Viva a revoluo!" e "Viva o movimento de 26 de julho!". Apesar dos 
incndios, dos fuzilamentos e das patrulhas dos soldados de Batista, a populao cuidou de seus 
feridos e escondeu os perseguidos, alimentando-os e arranjando-lhes armas.  
O governo sofreu um novo golpe com o anncio do desembarque de Fidel Castro e de seus 
companheiros, no dia 2 de dezembro, a 81 quilmetros a oeste de Santiago, na Playa de las 
Cobradas. A presena no local de importantes foras militares e policiais, de tanques, de navios de 
guerra, guarda-costas, avies de combate e de transporte no foi suficiente para opor-se ao 
acontecimento. Em Alegra dei Pio, em 5 de dezembro, o exrcito atacou de surpresa Fidel e seus 
companheiros, extenuados por uma travessia sobre o Granma, efetuada sob pesadas condies, e 
por sua marcha fatigante atravs dos pntanos da regio. Vrios companheiros de Fidel Castro 
morreram. Outros foram feridos. Os sobreviventes se esconderam entre os brejos e os canaviais. 
Apenas doze atingiram o pico
ilirquino, que domina de seus 1.994 metros a regio da Sierra Centra. A imprensa anunciou a morte
de Fidel.  
Como objetivo de dispersar os estudantes, a universidade fechou suas portas sob ordens de Batista. 
Desocupado, Charles caminhava por Alma Mater na esperana de reencontrar seus colegas. Mas a 
presena de foras policiais deve t-los desencorajado, pois Charles no encontrou nenhum deles. 
Dias antes do Natal, ele conheceu, na cafeteria do Habana Hilton, trs irms. A mais velha estava 
no ltimo ano da faculdade de direito, e participara do encontro do dia 27 de novembro.  
- A polcia soltou voc, que sorte! Meu irmo ainda est na priso. Parece que o torturaram - confiou 
ela em voz baixa.  
Desde esse dia, os quatro tornaram-se inseparveis. Virginia, Suzel e Carmen eram as filhas do 
doutor Constantino Pineiro dei Villar, cardiobogista respeitado em Havana, e de Aurora 
MarquezPineiro, que havia abandonado a carreira de bailarina para dedicar- se aos filhos. Eles 
moravam em uma velha residncia de estilo colonial no Vedado. 'ftanstornada pela priso do filho, a 
me no saa mais do quarto, enquanto o pai multiplicava esforos para conseguir libert-lo. 
Soltaram-no na vspera de Natal. Depois de ter descoberto marcas de queimadura de cigarros no 
torso de Armando, o doutor Pineiro fez uma declarao  imprensa para denunciar os mtodos 
policiais. Durante vrias semanas, Armando viveu fechado em si mesmo, recusando-se a pronunciar 
qualquer palavra sobre sua priso. Passava longas horas deitado em sua cama, o olhar vazio, 
fumando um cigarro atrs do outro. A nica pessoa capaz de tirlo de seu abatimento era Charles, 
com quem ele ouvia discos de Elvis Presley e de Beny Mor.  
Por ocasio do Ano-Novo, e como mandava a tradio, a colnia francesa foi convidada a uma 
recepo oferecida pela embaixada da Frana. Franois e La compareceram e foram 
apresentados queles que eram chamados de "Velhos Franceses", cujas famlias 
estavam instaladas em Cuba desde o tempo da colnia espanhola ou depois da Primeira Guerra Mundial. L 
estavam tambm alguns membros do governo cubano e da rea empresarial. Depois das saudaes de praxe, 
todos brindaram ao ano novo. Os garons da embaixada, oriundos da Martinica, usavam a roupa tradicional de 
sua ilha, passando de um grupo a outro com suas bandejas. Mos vidas serviam-se de taas de champanhe. 
La recusou-se a se aproximar do imenso buf, tomado de assalto pelo que parecia ser um bando de famintos. 
Canaps defoiegras, de presunto ou de caviar, charcuteries de diversas provncias da Frana, queijos e 
doces importados por avio e a altos custos foram deglutidos em um piscar de olhos.  
Damas da sociedade beneficente francesa cercaram Franois, mimando-o na esperana de interess-lo pelo 
destino de compatriotas que estavam em dificuldades. Elas o convidaram para tomar ch na Manzana de 
Gomez, no Parque Central, sede da associao. Ele conseguiu desembaraar-se assegurando-lhes que ficaria 
feliz em atender ao convite. Desfrutava de um instante de relativa solido para acender um charuto quando 
uma jovem mulher com um decote vertiginoso o tomou pelo brao.  
- Sr. Tavernier, conto com o senhor para a grande recepo da Unio Francesa. Haver apenas gratinados: 
nossos jantares so muito mais chiques do que os da embaixada.  
- Ser um prazer para mim - respondeu Franois, inclinando-se.  
Sentada  parte, La observou divertida o bal destas mulheres em torno de seu marido.  verdade que ele era 
sedutor! Muito elegante em seu terno de linho branco que acentuava seu bronzeado e ressaltava o brilho de 
seus olhos, mais alto que elas, ele as dominava com uma desenvoltura que fascinava a todas.  
- Vejo que est pensativa, bela senhora - disse o embaixador, com um guardanapo nas mos. - Tome, consegui 
salvar alguns petiscos daquela invaso de gafanhotos - acrescentou ele, estendendo-lhe o embrulho. 
La agradeceu com um sorriso..
- El ministro de Salud desea despedirse, Su Excelencia - anuncia um empregado.
- Desculpe-me - disse o embaixador, afastando-se.  
Charles tornou-se figura freqente na casa do doutor Pineiro. Pouco a pouco, o riso e o entretenimento 
voltaram  grande casa. As trs jovens tinham verdadeira devoo ao novo amigo e Aurora Marquez lhe era 
grata por distrair Armando de suas sofridas lembranas. Os dois rapazes trocavam discos e livros, e 
comentavam suas leituras com ardor. Um dia, Charles entrou no quarto de Carmen, esquecendo-se de bater. 
Virginia e uma de suas amigas tambm estavam l. Percebendo-o, as jovens dissimuladamente jogaram 
pedaos de pano vermelho e preto sob a cama.  
- O que vocs esto jogando? - pergunta ele.  
- Nada... - fez Carmen. - Quero apresentar a voc Urselia Daz Baez; ns nos conhecemos no curso de ingls. 
Urselia, este  Charles d'Argilat, ele  francs e estudante de direito.  
Os dois jovens apertaram-se as mos. Urselia era uma bela morena com um aperto de mo franco e um olhar 
direto.  
- Ento, voc  o francs do qual Virginia e Carmen no param de me falar? Estou feliz em conhec-lo. Disseram 
que voc estava na manifestao do 27 de novembro. Tudo bem, mas por qu? No  a sua causa...  
- A defesa da liberdade  a mesma em qualquer pas.  
As trs jovens trocaram um olhar de conivncia.  
- Voc acha que podemos confiar nele? - cochichou Urselia no ouvido de Carmen.  
Ela balanou a cabea afirmativamente.  
- At onde voc iria para defender a liberdade? - perguntou Urselia.  
Charles sempre refletia antes de falar. Ele olhou uma por uma longamente.  
- Creio que se pode morrer para defender a liberdade - respondeu simplesmente, como se fosse algo 
evidente.  
"Viu?" dizia a expresso de Carmen para Urselia. A outra abaixou-se e tirou os pedaos de tecido 
escondidos sob a cama.  
- Estamos fazendo as bandeiras para as prximas manifestaes. Voc pode nos ajudar se quiser. 
Mas jure pela Virgem que no vai dizer uma palavra a ningum. Se voc nos trair, ser um homem 
morto!  
Charles jurou. Por alguns instantes eles trabalharam em silncio, cortando, costurando, fixando as 
bandeiras nas traves de madeira.  
- Vamos ouvir msica? - sugeriu Virginia.  
- Ah, sim! Coloque o ltimo disco de Beny Mor - props Carmen.  
Charles o procurou entre as caixas multicoloridas espalhadas no tapete. A voz calorosa do dolo da 
juventude cubana encheu o ambiente. Logo eles abandonaram seu trabalho de costura e comearam 
a danar. As garotas riam, debochando da falta de jeito de Charles.  
- Espere, eu vou mostrar - disse Carmen, pegando-o pela mo. - Assim... est bom! Continue... Daqui 
a pouco tempo voc danar como um verdadeiro cubano.  
A msica e os risos atraram Armando.  
- Vocs esto fazendo muito barulho! Me acordaram...  
- Dormir  perder tempo! - gritou Urselia. -Venha! Quem dana esquece os problemas!  
E arrastou tambm o jovem que, tomado pelo ritmo, entrou na dana e aprendeu a letra da cano.  
Quando o disco acabou eles se deixaram cair, esgotados, sobre a cama, amassando as bandeiras 
com o peso.  
- Se eu tivesse um disco de Beny Mor na priso, teria sido menos difcil para mim - observou
Armando endireitando-se.
Seu comentrio teve o efeito de uma ducha fria no pequeno grupo.
Todos se levantaram, vagamente constrangidos. Armando observou as peas de tecido e
empalideceu.  
- Vocs ficaram loucos, fazer isso aqui! Vocs querem que todos ns sejamos presos?  
Febrilmente ele recolheu as bandeiras, enrolou-as e declarou, com uma voz nervosa:  
- Vamos queimar isso tudo.  
Urselia e as irms Pineiro olharam-no com um ar consternado. Com doura, Charles retirou os 
estandartes das mos dele.  
- No se preocupe, vou lev-las para a minha casa. A polcia no ter a idia de procur-las por l. 
Quando vocs precisarem, eu as trarei de volta.  
- Voc tem razo - aprovou Armando. - Vou procurar uma sacola para que possa lev-las.  
Depois de sua partida, eles ficaram alguns instantes em silncio.  
- Como ele mudou! - espantou-se Urselia.  
Charles defendeu o amigo.  
- No foi porque quis. Ele sofreu muito enquanto esteve preso.  
- Eles o torturaram? - perguntou Urselia.  
- No sabemos de nada - responde Virginia. - Ele no quis dizer nada nem ao papai e  mame.  
- O seu pai  mdico, ele deve saber - retrucou Urselia.  
- Talvez, mas ele no fala. O que voc acha, Charles?  
- Acho que devemos deix-lo tranqilo com isso. Se no tem vontade de falar,  direito dele. 
Compreendo muito bem o que ele deve sentir vendo essas insgnias revolucionrias.  
Armando retornou, munido de uma grande sacola de tecido azul na qual colocou as bandeiras. Como 
os mastros ficavam de fora, ele os quebrou.  
Urselia e Charles deixaram juntos a casa dos Pineiro.  
- Onde voc mora? Eu posso acompanh-la, se quiser.  
- Obrigada, mas moro em Guanabacoa. E a cinco ou seis quilmetros de Havana. Vou apanhar um
nibus,  direto. E voc, em que quarteiro est alojado?
- No Miramar.
-  um bairro chique! As bandeiras estaro em segurana. Mesmo assim preste ateno, pode ser perigoso.  
Charles levantou os ombros olhando para a sacola no bagageiro de sua bicicleta.  
- Daqui a alguns dias, se voc ainda estiver com a mesma disposio, talvez lhe confie uma mensagem para ser 
transmitida.  
- Quando voc quiser - disse ele calmamente.  
Pensativa, ela observou-o afastar-se.  
- Charles! Telefone para voc - chamou La.  
- Al? Sim, sou eu... "Rido bem, nos encontramos em uma hora no Colona. Tchau.  
- Quem era? - perguntou La.  
- Uma amiga da faculdade. Os cursos talvez recomecem, ela quer falar comigo.  
- Bem, meu querido. No volte muito tarde.  
- Estarei de volta para o jantar... A propsito, voc pensou sobre a Vespa? - perguntou ele, com um tom doce.  
- J est pensado: no! O trnsito  muito perigoso aqui. Eles dirigem como loucos, ignoram totalmente o 
cdigo de trnsito... alm do mais voc  muito jovem!  
- Mas tenho 17 anos!  
- Foi o que eu disse.  
Emburrado, Charles desceu os degraus da varanda e pegou sua bicicleta. Seu mau humor provocou um sorriso 
em La. Ela estava certa de que seu presente de aniversrio seria bem-vindo.  
Urselia no estava no terrao do Colona quando Charles entrou no estabelecimento. Ento ele a viu prestando 
ateno na conversa de trs jovens, que discutiam animadamente. Um deles era Jos Antonio Echeverra.  
- Bom dia, francs - disse ele estendendo-lhe a mo.  
- Vocs se conhecem? - perguntou Urselia, surpresa. 
- O mundo  pequeno...  dele que voc me falava?  
- Sim.  
Jos Antonio observa-o atentamente.  
- Creio que podemos confiar nele.  
De seu lado, Charles encarava, fascinado, o presidente da FEU, que ele sabia ser procurado pela polcia. El 
Gordo havia se tornado uma lenda viva no meio universitrio. Sua coragem diante dos homens de ferro de 
Batista fazia a admirao de todos e seus artigos publicados na revista Bohemia eram lidos e comentados com 
paixo. Ele fez sinal para que Charles se reunisse ao pequeno grupo e retomou sua exposio. Ele exprimia-se 
com uma voz surda e no entanto vibrante:  
- "A FEU sempre esteve ao lado do povo. Sua luta sempre situou-se no nvel dos interesses superiores da 
Nao. E isto porque ela defende os interesses esmagados pelos ps da ditadura, ela defende os direitos dos 
operrios, as aquisies sociais que o regime est a ponto de suprimir. Ns compreendemos as necessidades 
das classes trabalhadoras ignoradas pela ditadura atual e tradas pelos lderes nacionais; ns preparamos 
umavasta campanha de mobilizao em favor dos direitos que a Repblica havia legitimamente concedido aos 
operrios depois de longos anos de luta. A FEU s conhece um caminho em direo  paz em Cuba: a 
Revoluo. No haver outra soluo para os cidados a no ser continuarem lutando pelas reivindicaes 
que constituem os objetivos fundamentais da Revoluo cubana. Os estudantes e os grupos de jovens 
encontram-se atualmente ss neste caminho. A impotncia e a inrcia dos que se dizem classes dirigentes do 
pas depositaram sobre os nossos ombros um peso que no momento no mais nos cabe. Acreditamos que os 
estudantes e a juventude, unidos com a classe operria, os camponeses e os profissionais liberais, sero 
capazes de realizar os ideais revolucionrios que constituem a prpria essncia de nossa nao."  
Todos aprovaram em silncio. Echeverra, as faces vermelhas, o rosto brilhando de suor, secou-se com um 
leno, esvaziou seu copo de Coca-Cola j morna e voltou-se para Charles: 
- Guarde bem isso, francs: a Revoluo se ganha com a unio de todos, intelectuais e operrios, 
camponeses e citadinos. E atravs da unio que caaremos aqueles que oprimem o povo. Sem esta 
unidade, a Revoluo s triunfar por um perodo e arrisca-se a transformar-se, por sua vez, em 
uma ditadura to repressora e sangrenta quanto a anterior. Se voc quer ser um de ns,  bem-
vindo. Sente-se forte para combater ao nosso lado?  
- Sim.  
- Neste caso, volte para casa. Urselia vai transmitir a voc nossas instrues em tempo hbil.  
Dois dias mais tarde, Urselia encontrou-o na Las Delicias de Medina, na esquina das ruas 1 e 27. 
Charles achou facilmente o local, um dos favoritos dos estudantes da universidade. Em 
compensao, teve dificuldades para encontrar passagem entre a multido jovem e barulhenta que 
enchia a sala. Terminou por descobrir Urselia degustando um sorvete de morango em companhia de 
uma jovem e de uma garotinha de trs ou quatro anos. Ela tambm o viu e fez-lhe um sinal para 
que se reunisse a elas.  
- Este  o francs do qual te falei. Ele vai levar o pacote para a sua casa.  
- Voc confia nele? - interrogou a jovem.  
Como resposta, Urselia levanta os ombros.  
- Esta  minha amiga Aleida Fernndez Chardiet e sua filhinha. E ela quem toma as rdeas. V onde 
ela te disser. Voc far seu relatrio amanh, na casa de Carmen. Vou deix-los agora; tenho que 
ir.  
Depois da partida de Urselia, eles se olharam, constrangidos, a menina divertindo-se alegremente 
derrubando seu sorvete de chocolate em seu belo vestido branco. Tentando limpar a roupa, Aleida 
d a ele em voz baixa o local onde deveria depositar o pacote em questo.  
- Diante da entrada do edifcio que fica na esquina da rua Valle e da rua Hospital, um Pontiac azul 
estar estacionado. No vidro de
trs h uma foto da equipe de beisebol da universidade; o rosto de um dos jogadores est 
arranhado. Voc abrir a porta, do lado da calada, e colocar este pacote sobre o assento.  isso.  
- S?  
- Sim. Em seguida voc vai partir sem pressa e sem olhar para trs... Ah, sim! Uma coisa: antes de 
depositar o pacote, certifique- se de que no tenha uma perseguidora atrs de voc.  
- Mas o que  isso?  
Aleida olha para ele com comiserao.  
- Um carro da polcia.  
- Como vou reconhec-lo? Suponho que no esteja escrito "Polcia" em cima...  
- As pessoas da SIM utilizam Oldsmobil e so quase sempre quatro em um carro. Agora v. No  
bom que nos vejam por muito tempo juntos. Se perguntarem a voc a meu respeito, diga que estava 
precisando do endereo do meu pai para seus irmos e irms.  
- Eu no compreendo...  
- Meu pai  pediatra,  o doutor Miguel Fernndez Tosco. Voc no tem irmos e irms pequenos? - 
acrescentou ela, impaciente.  
- Sim, mas... voc pegou informaes sobre a minha famlia?  
- Claro! O que voc acha?  
Adotando um ar desenvolto, Charles deixou Las Delicias de Medina com o pacote embrulhado em 
papel marrom sob o brao e caminhou sem pressa at o local onde havia deixado sua bicicleta. Ele 
prendeu o pacote em seu bagageiro. "Pensaro que so livros", disse para si mesmo, dando a 
partida.  
Em menos de quinze minutos chegou  rua Valle. Um Pontiac azul estava bem estacionado no local 
indicado. Ele parou e olhou em volta. Nada que se parecesse com uma perseguidora. Naquele 
momento a esquina estava calma e alguns pedestres perambulavam sem pressa. Charles atravessou, 
abriu a porta e escorregou o objeto de sua misso sobre o assento. Sem se virar, retomou a bicicleta 
e se afastou, subindo novamente a rua Valie em direo  
universidade. Ao p da grande escada da Alma Mater, fechada por uma cerca de arame farpado, soldados 
armados montavam guarda. Ele desceu livremente pela rua San Lazaro e desembocou no Malecn. 
O cu e o mar estavam magnficos e confundiam-se em tons que iam do dgrad de cinza do mais 
claro ao mais escuro, cortados por raios dourados de um sol que brincava de esconde-esconde com 
as nuvens. Uma onda mais alta que as outras arrebentou-se. Era uma das brincadeiras favoritas dos 
meninos de Havana: atirarem-se no curso das ondas que arrebentavam no passeio pblico, sem se 
preocupar com os carros que nem sempre se desviavam dos jovens imprudentes. Mas este risco 
fazia parte do prazer e no havia um que no estivesse disposto a mostrar sua coragem para as 
meninas, sob pena de passar por um maricn.  
Pedalando, Charles olhou vrias vezes para trs, mas no viu o menor sinal de uma perseguidora. 
Em contrapartida, o exrcito havia montado uma barreira perto do hotel Nacional e revistava os 
automveis. Charles pra, mas um soldado com ar retardado faz-lhe sinal para passar. Com o 
corao aos pulos, ele se afastou, surpreso de ter sentido um grande medo  viso dos uniformes. 
"Eu preciso me acostumar com os perigos da guerra", disse a si mesmo. Isso lhe fez pensar em sua 
me: ele no tinha lembranas de seu rosto, apenas de uma silhueta correndo em sua direo, 
braos abertos, e de uma doce presena quando adormecia. Com freqncia, La falava-lhe de 
Camille, ressaltando sua coragem e o quanto ela o amara. Quando ele ficou mais velho, quis 
conhecer as circunstncias exatas de sua morte. La havia lhe contado o ataque na fazenda de 
Carnlos pelos alemes e os milicianos, em seguida como Camilie veio a confiar-lhe seu filho.  
Quantas vezes havia chorado olhando para a foto de seus pais! Como eram jovens e bonitos! 
Quando criana ele havia jurado a si mesmo mostrar-se digno deles e combater todas as formas de 
opresso, todos os fascismos. Ele queria tornar-se advogado a fim de
defender os direitos dos oprimidos. Mas temia, acima de tudo, no possuir a bravura deles. Para
tentar alcan-la, ele havia endurecido seu corpo, transformando o garoto magrela que era em um 
atleta. O que ele tambm desejava, mas disso ele no estava nem mesmo consciente, era 
impressionar La. Nada mais contava a seus olhos do que a opinio da jovem mulher pelo amor da 
qual ele devia realizar grandes coisas. No era suficiente tornar-se um brilhante estudante de direito 
aguardando a reabertura da universidade, era preciso tambm agir. Franois havia evocado a 
possibilidade, se os cursos no fossem retomados em Havana, de envi-lo para continuar seus 
estudos nos Estados Unidos. Era uma soluo, mas, no fundo, Charles no desejava afastar-se de 
Cuba. Tinha coisas a fazer aqui.  
- Eu poderia trabalhar...  
- Por que no? - havia retrucado Franois.  
O sol j se punha quando Charles chegou, ileso, ao Miramar.  
Na sala rosa, que dava para a varanda, La e Franois tomavam um drinque em companhia de 
Ramn Valds. La levantou-se e foi abra-lo.  
- Voc est todo salgado!  
- So as ondas do Malecn.  
- V se trocar, estamos indo para a mesa. 

Captulo Trs

A PARTIR DESTE DIA, CHARLES passou a levar uma vida dupla. De manh, estudava com um
professor de direito que estava desempregado desde o fechamento da universidade e,  tarde, 
trabalhava no escritrio do sr. Eduardo Gutirrez, ex-colega de classe de Fidel Castro que atuava s 
vezes como intermedirio entre o movimento de 26 de Julho e o Diretrio Revolucionrio. A noite, 
ele saa, com freqncia escondido de La, para encontrar-se com os membros do Diretrio. 
Surpreendido um dia por Franois, que voltava inesperadamente de Pinar dei Ro, ele havia lhe dito 
que iria ver uma garota.  
- Vai, meu rapaz,  prprio para a sua idade.  
- Por favor, no diga nada  La. Tenho medo de que ela me proba de sair.  
- Pode ficar tranqilo, eu guardarei o seu segredo. Conte-me, ela  bonita?  
- Mais do que isso! - respondeu ele, correndo com sua bicicleta pelo gramado.  
O que no contou foi que estava tendo apenas duas manhs
de curso por semana e ia trabalhar com o advogado em dias alternados. Ele empregava o resto de
seu tempo na distribuio de jornais clandestinos que apanhava sob os assentos das salas de cinema, 
nos banheiros dos grandes hotis ou atrs da esttua de um santo leproso da catedral de Havana. 
Ele tambm levava mensagens para a Radio-Reloj, aos simpatizantes da universidade e da 
imprensa. Quando participou de seu primeiro atentado, pareceu-lhe que ascendia. Com Carmen 
Pineiro, ele ps fogo, com a ajuda de um coquetel Molotov, nas perseguidoras em Ambar-Motors, 
e em um posto policial no Vedado. Teve menos sucesso com as bombas depositadas nos cassinos 
do Nacional e do Capri: elas no explodiram, mas semearam pnico entre a clientela, composta em 
sua maioria de americanos. Sua calma e sua audcia impressionaram os dirigentes do Diretrio que 
haviam se mostrado reticentes diante daquele recruta estrangeiro imposto por Jos Antonio 
Echeverra. Alis, foi levando uma mensagem de Echeverra a Carlos Franqui, na revista Carteles , 
que ele conheceu este filho de cortador de cana-de-acar originrio da provncia de Las Villas. 
Charles havia lido o texto da entrevista que Fidel Castro lhe havia concedido, publicada na revista 
em 1955. Ele bombardeou o velho comunista com perguntas s quais ele respondeu com 
monosslabos. Com 35 anos, Carlos Franqui havia abandonado seus estudos a pedido do Partido 
Comunista. "Um militante como voc deve consagrar sua existncia ao Partido e viver mais como 
revolucionrio do que ir ganhar ttulos na universidade", haviam lhe declarado Blas Roca, Ordoqui e 
Grovart, do comit central da rua Carlos-Ili. A morte na alma, mas feliz por participar da 
"transformao da humanidade", o jovem de 21 anos havia partido para a regio de Fomento com 
25 pesos no bolso e um terno novo nas costas. Durante um ano, ele se dedicou a criar sindicatos, a 
velar pelas eleies operrias, a fomentar greves, a pronunciar discursos contra o fascismo e os 
grandes proprietrios. Ao retornar a Havana, j adquirira grande experincia nos meios operrio e 
campons. L ele ficou lado a lado com os dirigentes e os quadros 
burgueses do partido. Mas, quando o Partido Comunista foi legalizado e alguns de seus 
membros entraram no governo de Batista, ele comeou a se desencantar. Depois de ter ficado 
algum tempo  frente das juventudes socialistas, fundou a revista Meila, depois trabalhou como 
revisor no jornal Hoy onde descobriu um comunismo repressivo e burocrtico: "O jornal era o 
cemitrio da Revoluo e dos revolucionrios." Em 1946, deixou a imprensa e o Partido sem uma 
palavra. Rejeitado por todos, passou a levar uma vida de misria, dormindo nos parques e em 
abrigos de menores, vivendo como cortador de cana, vendedor de cartes- postais e tambm de 
bicos. Por doze pesos por semana, os poetas Tallet e Nufez Olano arranjaram-lhe uma vaga no 
jornal Luz. Ele continuou a participar "das aes que lhe pareciam justas". Engajou-se em uma 
expedio contra o ditador dominicano Trujillo, e terminou na priso de Columbia, sendo liberado em 
seguida a uma greve de fome. Durante esta operao encontrou Carlos Guttrrez Menoyo, Daniel 
Martn, Pichirilo Mejas e Fidel Castro. De volta a Havana, ele sobreviveu graas  famlia Cabrera 
Infante. A capital de Cuba era ainda vtima da mais total corrupo, os gngsteres polticos e os da
mfia travavam verdadeiras batalhas nas ruas sem que a polcia interviesse. Aproveitando-se desta
situao corrosiva, Batista tomou novamente o poder. Nem um tiro foi disparado. A resistncia ao
novo regime logo se organiza. O Alma Mater, jornal clandestino da universidade, foi impresso nos
pores da faculdade de direito. Por ocasio da festa do Dia do Trabalho, em 1 de maio, houve no
cemitrio de Coln uma cerimnia em homenagem a Carlos Rodrguez, assassinado pela polcia;
Carlos Franqui encontra ali Fidel Castro. No dia 28 de janeiro de 1953, uma enorme manifestao
foi organizada pelo centenrio
de nascimento de Jos Mart, durante a qual milhares de pessoas desfilaram pelas ruas de
Havana, gritando slogans hostis a Batista. Atrs, um nmero impressionante de jovens, que tinham
 frente Fidel Castro, levavam tochas dentro das quais um prego havia sido colocado e que,
aquecido e no alvo, se transformaria em uma arma perigosa para o caso de enfrentamento com as
foras da ordem. No dia 26 de julho do mesmo ano, Fidel Castro, em pleno carnaval, ataca a
caserna de La Moncada, em Santiago,  frente de duzentos revolucionrios. Entre eles, contavam-se
duas mulheres, Melba Hernndez e Hayde Santamara. O golpe acabou em fracasso. Metade dos 
insurgidos morreram durante o assalto. Quanto aos outros, o exrcito os executou selvagemente. Os 
poucos que conseguiram fugir, foram presos nos dias que se seguiram. Castro foi um deles. Retido 
em Havana, Franqui no havia tomado parte neste ataque que, no entanto, alertou a opinio mundial 
e deu incio ao processo revolucionrio. O processo dos sobreviventes abriu-se no dia 21 de 
setembro em uma atmosfera tensa.  
Em Santiago, no dia 19 de outubro, na presena de seis jornalistas, mas guardado por cem homens, 
Fidel fez um pronunciamento de cinco horas durante um interrogatrio denunciando a poltica de 
Batista, a corrupo, as extorses, a misria do povo cubano... seguido da exposio de seu prprio 
programa poltico, sustentado pelos acusados. Sem flego e vibrante, concluiu seu discurso com 
estas palavras: "Eu termino minha defesa, mas no a farei, como os outros advogados, pedindo a 
absolvio do acusado; no posso faz-lo, j que meus companheiros suportam, na ilha dos Pins, um 
infame cativeiro. Enviem-me para junto deles para partilhar o seu destino, porque  normal que 
homens honrados sejam assassinados ou capturados em uma Repblica onde o presidente  apoiado 
por um criminoso e um ladro... Condenem-me, isso no tem importncia,  
a histria me absolver." Fidel Castro foi condenado a dezenove anos de trabalhos forados na 
penitenciria da ilha dos Pins.  
Carlos Franqui entrou em Havana e comeou a divulgar clandestinamente o texto da apelao 
que, passando de mo em mo, espalhou-se pela ilha inteira, para o mal de Batista. Apesar de 
uma represso brutal, uma agitao crescente tomou conta dos meios populares e universitrios. 
A fim de acalmar um pouco os espritos e de tentar recuperar alguma popularidade, Batista 
assinou, no dia 13 de maio de 1955, uma lei de anistia em favor dos prisioneiros da ilha dos Pins. 
Isso no foi suficiente. Em abril de 1956, 56 jovens do Diretrio Revolucionrio se lanaram ao 
assalto da caserna de Matanzas. Todos morreram. A represso tornava-se cada vez mais 
acirrada. Os cubanos exilados reuniram ento fundos para a compra de armas e de munio. Em 
dezembro de 1956, Castro e seus companheiros do M-26 deixaram o Mxico, onde estavam 
expatriados, a bordo de um iate, o Granma. L, um velho capito da Legio Estrangeira 
espanhola, o coronel Bayo, os havia levado  guerrilha. Eles desembarcaram no sul de Cuba e 
refugiaram-se na Sierra Maestra, onde receberam a ajuda dos camponeses da regio. Dois dias 
antes do desembarque, Frank Pas havia atacado Santiago. Carlos Franqui, que trabalhava na 
revista Carteles, serviu de ligao entre o Diretrio e o M-26, em acordo com Pepe Suarez. Este 
velho de La Moncada no mais acreditava na capacidade de ao do Diretrio, em razo da 
fraqueza de seu armamento. No entanto, no se contava um dia ou uma noite sem sabotagens 
orquestradas por Aldo Vera e Faustino Prez, o qual havia sido delegado por Fidel Castro com o 
objetivo de reorganizar o movimento e reunir todas as armas disponveis para a Sierra Maestra. 
Revoluo, o jornal clandestino dirigido por Franqui, com uma tiragem de vinte mil exemplares, 
continuava a circular apesar das perseguies e apreenses. Em fevereiro de 1957, a publicao 
noNew York Times de uma entrevista de Fidel Castro ps fim aos rumores sobre a morte do 
rebelde. Escrita por Herbert Matthews, um jornalista americano renomado, a matria era ilustrada 
por fotos dos guerrilheiros na Sierra Maestra.
Entusiasmado por seus artigos, Charles comeou a divulg-los. E, depois dos dirigentes do Diretrio,
Carlos Franqui tambm foi seduzido por este jovem francs que executava as misses que lhe eram
confiadas com uma exatido e preciso que nem sempre os cubanos conseguiam igualar.  
Em fevereiro, Mario Garca, diretor do teatro Montmartre, havia convidado Edith Piaf para uma 
srie de recitais. La foi ouvi-la em companhia de Charles. Ela contemplou, emocionada, a magra 
silhueta vestida de preto de onde escapavam duas mos brancas, e a beleza que emanava daquele 
rosto anguloso e plido. Naquele corpo mignon, a potncia da voz surpreendia. De p, La aplaudiu 
com todo o vigor. A acolhida dos havaneses foi mais reservada. Eles pareciam desconcertados pela 
sobriedade da aparncia da clebre cantora, to habituados estavam aos strasses e s plumas dos 
artistas do Tropicana e de outros cabars. Por um pouco eles comeariam a pensar que ela no 
valia seu dinheiro! Como La, Charles encantou-se com seu charme e aceitou com alegria voltar ao 
Montmartre. A seu pedido, La convidou Carmen Pineiro. Mas, quando Edith Piaf interpretava 
Hino ao amor (".. Que m 'importei si tu m 'aimes/ Je mefous du monde entier.. Carmen 
apertou vividamente a mo de seu companheiro. Charles, que at aquele dia s havia visto nela uma 
companheira, ficou perturbado. Durante toda a cano, seus dedos no se abandonaram. O gesto e 
a emoo que atingia aos dois no escaparam a La. Ela sorriu para o jovem casal. Como Charles 
havia mudado, desde a chegada! No apenas havia crescido alguns centmetros, mas seu 
comportamento estava diferente: ele parecia perpetuamente em guarda e ela encontrava nele 
gestos, atitudes, que haviam sido seus durante a Ocupao, quando ela levava mensagens para a 
Resistncia. Ela se revia pedalando de p para chegar  costa de Langon. O que teria acontecido 
com sua bicicleta azul?... Ela colocou mecanicamente a mo nos lbios como se para evitar um 
grito.  
- O que voc tem? - perguntou Charles, inquieto.  
Sem retirar a mo que segurava com fora nos lbios, La o observava como se o estivesse vendo pela primeira 
vez.  
- Mas o que voc tem, La? Est plida...  
- Nada, nada...  o calor, sem dvida. Vamos voltar, se vocs quiserem.  
Do lado de fora estava lotado. Uma enxurrada de motoristas abria o caminho com dificuldade em meio  
aglomerao. Para aliviar sua impacincia e sua angstia, La caminhava a passos largos diante do teatro, 
indiferente aos olhares sedutores dos homens. Como se para proteg-la da cobia dos machos cubanos, 
Charles colocou um brao em torno dela, num gesto protetor.  
- Como voc est bonita! - murmurou ele apertando-a contra si.  
La apoiou a cabea contra seu ombro; ela estava louca ao colocar estas idias na cabea, ele no tinha nada 
em comum com estes colocadores de bombas, estes revolucionrios barbudos que mostrou o New York 
Times! Curiosamente, um deles havia lhe feito lembrar-se de seu namorado argentino, o gentil Ernesto... Mas 
era to absurdo reconhec-lo entre os guerrilheiros da Sierra quanto imaginar Charles em uma conspirao! 
Ambos eram estranhos a Cuba e ao que se passava. O sedutor argentino deveria agora estar exercendo a 
medicina nos belos quarteires de Buenos Aires. Quanto a Charles, ele estudava seriamente, seu professor 
estava orgulhoso dele, assim como o sr. Gutirrez. E a charmosa jovem que o acompanhava esta noite nada 
tinha de uma pasionaria. Tranqilizada, ela deu uma gorda gorjeta ao manobrista e instalou-se no volante do 
Studbaker. Os dois jovens subiram junto com ela.  
- Eu no moro muito longe - disse Carmen. - Posso voltar ap.  
- Nada disso - retorquiu La ligando o rdio.  
Avoz de Clia Cruz elevou-se na noite.  
Charles acompanhou Carmen at a porta e esperou que ela entrasse para reunir-se a La. A rua San Miguel 
estava deserta, a noite estava maravilhosa, quase fresca. Eles dirigiram lentamente ao longo do Malecn. Por 
um momento, um carro da polcia os
acompanhou, depois se afastou. Chegando ao destino, eles foram tomar um drinque no terrao da casa, antes 
de se deitarem, conversando sobre a prxima viagem que La deveria fazer a Pinar del Ro onde Franois 
estava preso por uma greve que havia comeado nos escritrios da fbrica de charutos. Charles, que havia 
acreditado por um momento na perspiccia de La, se dedicou apenas a assuntos leves e suaves. Para 
terminar, eles foram dormir sem um comentrio sobre o clima tenso que reinava em Havana.  
Trs dias depois do recital de dith Piaf, La partiu para Pinar dei Ro no volante de seu automvel, deixando 
seus filhos aos cuidados de Philomne e dos empregados. Por um momento ela havia pensado em levar os dois 
mais velhos para visitar o pai. Mas seu desejo de ficar a ss com Franois foi mais forte. Contra o aviso do 
embaixador, que achava imprudente que ela viajasse sozinha, ela tomou a estrada costeira, em vez da Carretera 
Central, que lhe haviam dito estar coberta de caminhes, automveis e carros de bois. A Carretera Norte se 
revelou tambm bastante perigosa. A direo a absorveu at Baha Honda, onde fez uma parada para almoar, 
na praa da igreja, na Hosteria dos Amigos cuja entrada, sob a sombra de belas rvores, havia lhe parecido 
acolhedora. Quando ela adentrou a penumbra fresca do albergue, os consumidores, todos homens, a 
encararam, alguns com assobios aprovadores. La instalou-se em uma mesa e chamou a garonete, uma jovem 
mestia que se aproximou arrastando os ps.  
- Quisiera almozar i Sepuede?  
- i Claro! Hay sofrito,
 sopa de camarones y ajiaco, Seiora.  
- Est bien... Trigame sofrito y ajiaco, com una cerveza.  
A cerveja estava gelada, a comida razovel e o caf delicioso. Um  
velho tocava violo sentado ao lado da porta, com um ar nostlgico e sensual, somando-se ao 
encanto da parada. Ela se demora fumando um cigarro. Pouco a pouco os clientes se vo, 
saudando-a de passagem dizendo:  
- iHasta luego, Seora!  
Restaram apenas o dono, largado atrs de seu balco, e o velho msico que cochilava sem deixar 
seu violo, com o toco de cigarro nos lbios. Tudo estava to calmo que, de repente, uma suave 
letargia invadiu La. Ela pensava em Franois e no amor que existia entre os dois, to forte que 
nada poderia derrub-lo, apesar de todas as vicissitudes passadas. At mesmo a pequena Claire 
havia criado entre eles um lao suplementar: era uma criana bela e bem deles. Eles haviam 
encontrado na ilha um bem-estar egosta, recusando-se a enxergar o que se passava. Apenas um 
assunto continuava espinhoso entre eles: a Arglia e a guerra que se desenrolava. Apesar das cartas 
que lhes enviava Jean Lefvre e dos inmeros jornais franceses que recebiam, La recusava-se  
mnima discusso a respeito. Mesmo as perguntas que fazia Charles no eram suficientes para 
abalar sua determinao. "Que lhes dem a independncia e que no falemos mais nisso!", dizia ela 
para encerrar a conversa sempre que ele evocava o problema. Ela sabia que Franois mantinha 
relaes com os membros do governo francs e duvidava de que no fizessem novo apelo para ele, 
por uma razo ou por outra.Avida que ela estava construindo aqui o agradava e ela estava decidida 
a preserv-la a qualquer preo.  
A propriedade de Ramn Valds situava-se a oeste de Pinar dei Ro, a alguns quilmetros de 
Vinales, nesta regio frtil onde podemos ver as rochas calcreas em forma de cones, recobertas de 
vegetao, os mogotes, que do uma configurao estranha  paisagem.  
Sentados na varanda que cercava a grande casa de estilo colonial, Franois e Ramn fumavam seus 
charutos. Eles se levantaram juntos quando o carro parou junto  pequena escada. Franois atirou 
longe
seu charuto e desceu as escadas de quatro em quatro degraus. "O que  a juventude!", pensou
Ramn com uma ponta de inveja. La deixou-se cair nos braos que a envolveram. Como era bom 
reencontr-lo! Franois lhe permitiu apenas que saudasse seu amigo e a levou para seu 
apartamento, despindo-a em segundos. Ela se debateu um pouco, excitando seu desejo. Quando, 
enfim, ele a penetrou, ela se entregou e cedeu ao prazer que a invadiu.  
O sino anunciando o jantar os arrancou de uma gostosa sonolncia. Empurrando-se como dois 
menininhos, eles tomaram uma ducha rpida. Quando se arrumaram, a noite j havia cado.  
- D prazer ver um casal casado h tanto tempo amar-se como jovens apaixonados - disse Ramn 
com um grande sorriso. - Mas  
- acrescentou ele-, com uma mulher assim to bela,  compreensvel...  
" verdade", pensou La, "meu desejo por ele nunca diminuiu, e a cada vez que ele me manifesta 
o seu, sempre me d um frio no estmago. Mas e quando eu no for mais jovem?"  
- Por que este ar sombrio? - perguntou Franois.  
- Voc ainda ir me amar quando eu for velha?  
Ele sorriu, tomou a mo dela e a beijou:  
- Como se voc no soubesse!... Voc , com as crianas, mesmo antes delas, o que eu mais amo 
no mundo: voc  a minha mulher. Jamais poderia viver com outra. Amo voc por suas qualidades e 
seus defeitos, porque tenho sempre medo de perder voc, medo de que ame outra pessoa, porque 
voc  imprevisvel, orgulhosa e corajosa, porque com voc eu nunca me aborreo e que...  
- Se estou atrapalhando o casal, me digam...  
- Desculpe, Ramn. Mas esta mulher...  
Ele no completou a frase, olhando-a com uma intensidade quase dolorosa.  
- Cara senhora, eu sinto muito por t-lo mantido longe por tanto tempo.  
- Adoro esper-lo. Quando ele no est l, eu o imagino, mas 
se fica ausente por muito tempo, comeo a sentir medo de que no volte mais.  
Durante os dias que se seguiram, La acompanhou Franois em suas jornadas pelas plantaes de 
tabaco, visitas s fbricas de charutos, escolas e hospitais criados por Valds. Os operrios e os 
empregados do espanhol tinham um ar prspero que no partilhavam os outros habitantes da regio. 
No entanto, tambm l as greves tinham lugar, por una cuestin de princzios, como havia dito um 
dos contramestres.  
Por sua vez, Adrien e Camilie reclamavam sua me. Com pena, La retomou a estrada. Franois 
deveria encontr-los uma semana mais tarde.  
Depois de uma viagem tranqila, La reencontrou seus filhos e a cidade de Havana. Feliz em rever 
seus pequenos, ela apenas preocupou-se mais tarde com a ausncia de Charles. Eram dez horas da 
noite quando ela telefonou para a casa do doutor Pineiro e perguntou por ele.  
- Meu marido no est - respondeu a esposa dele, Aurora Marquez. - Mas no vemos Charles desde 
ontem.  
- Sua filha Carmen est em casa?  
A hesitao da sra. Pineiro foi perceptvel.  
- No... Carmen est na casa de uma amiga.  
Sentindo-se mal, La desligou. A campainha do jardim soou. Ricardo, o velho guardio-jardineiro, 
chegou, seguido de Charles ladeado por dois policiais.  
- Buenas noches, sefiora. Hemos preferido traernosotvs mismos a su huo de vuelta.  
- eQupas?  
- Esperemos que nada grave... Se hailaba en ei lugar dnde unos terroristosfueron 
detenidos!  
Boa noite, senhora. Preferimos trazer ns mesmos o seu filho de volta.  
O que aconteceu?
- Esperamos que nada de grave. Ele estava no local onde alguns terroristas foram presos.
- iPero mi hjo no tiene nada que ver con eso!
- Ojal, seiora. Luego recibir una convacato ria porparte dei jefe de la policia. Buenas
noches, senora.
Quando partiram, La colocou um disco de dith Piaf na vitrola.  
- D-me algo para beber - disse ela, sentando-se.  
Rapidamente, ela tomou o copo de rum que ele lhe havia servido, enquanto a voz sublime invadia a 
sala:
- Sirva-se, me d um outro e sente-se.  
Charles obedeceu, os traos tensos, visivelmente muito cansados.  
- Agora, explique-me.  
Conhecendo La, ele sabia que ela no o deixaria at que recebesse uma resposta satisfatria. 
Apesar de seu cansao, ele resignou-se a contar:  
- Eu estava bebendo com os colegas da universidade no caf de Ernesto Vera, na esquina das ruas 
Aguila e San Lazaro, quando a polcia fez uma batida. Eles prenderam todo mundo. Depois nos 
conduziram aos locais da SIM e nos revistaram, e o coronel Faget nos interrogou separadamente. 
Mais tarde, foi o coronel Piedra que me fez novas perguntas sobre os atelis de grficas 
clandestinas, sob a responsabilidade de um grupo de propaganda antiBatista, sobre o esconderijo de 
armas... Respondi que era um estudante estrangeiro e que no compreendia o que ele estava me 
perguntando, que estava no caf pela primeira vez e que no conhecia ningum alm de meus 
amigos estudantes.  
- Carmen Pineiro estava com voc?  
Ele ficou perturbado.  
- Por que est me perguntando isso?  
- Ela no estava em casa quando liguei, perguntando por voc que no chegava.  
Charles ficou muito plido e levantou-se bruscamente.  
- Eu tenho que sair.  
- De jeito nenhum.  
- Eu lhe peo, La,  muito srio... Ela... ela corre risco de vida!  
Durante alguns instantes eles lutaram com o olhar.  
- Eu acompanho voc.  
Depois de se certificarem de que nenhum carro da polcia estava estacionado por l, seguiram em 
direo ao centro, evitando a beira- mar onde os controles eram freqentes. Charles pediu a ela que 
seguisse para a universidade. Em silncio foram at a rua Vaile. L, descendo sozinho do carro, 
Charles entrou em um edifcio e saiu alguns minutos depois.  
- Eu preciso telefonar.  
- Vamos ao hotel Inglaterra, o porteiro me conhece,  primo de Ricardo.  
Chegando os dois ao hotel, La foi ao bar e pediu um daiquiri. Havia muita gente quela hora, quase 
exclusivamente homens e suas acompanhantes. No piano, uma loura de ar cansado, de vestido de 
noite, cantava com ares xaroposos. Um americano desalinhado e embriagado, o copo na mo, 
esforava-se para entoar a cano. Charles retorna ao fim de meia hora, desamparado.  
- Ela no est em lugar nenhum. Ningum a viu.  
- Voc ligou para os pais dela?  
Ele faz sinal que sim, as sobrancelhas franzidas por uma intensa reflexo.  
- S consigo pensar na estao... - murmurou ele.  
- O qu?  
- Temos de ir  estao - gritou, levantando-se.  
Diante do hotel, ao longo do Parque Central, os motoristas de txi os interpelaram. Sob os conselhos 
de Charles, La seguiu pela rua Bernaza, depois a rua Egido, um quarteiro da Havana Velha pouco 
conhecido por ela. Em frente s grades da estao havia uma
espcie de mercado noturno com seus restaurantes e bares freqentados por uma populao pobre
que encontrava l comida a preo baixo e, em abundncia, um rum de qualidade duvidosa. Como 
sempre em Havana, os msicos tocavam e cantavam em quase todas as tavernas. Gordas negras, 
com cigarro na boca, danavam, balanando com ritmo seus enormes traseiros.  
- No pare aqui, eles todos viro. Entre  esquerda.  
La obedeceu e entrou em uma rua estreita ladeada de casas baixas. Sobre uma delas, agitava-se 
uma bandeira cubana.  
- E a casa natal de Jos Mart - apontou Charles.  
A seu pedido, La subiu a capota do carro e trancou as portas. Ele desceu. Sozinha na escurido ela 
acendeu um cigarro, escutando os passos dele cada vez mais distantes. De uma janela aberta, ouviu-
se a confuso repentina de uma briga. Gatos se embolavam na sarjeta soltando miados de raiva e 
dor. Um casal fazia amor no canto da entrada de um edifcio, iluminado intermitentemente pelo 
anncio de non vermelho de um bar srdido. La os invejou. Um barulho de passos pesados e 
rpidos atraiu subitamente sua ateno. Ela olhou pelo retrovisor: Charles voltava correndo. Ela 
abriu rapidamente a porta da direita.  
- Rpido! - disse ele, atirando-se sobre o assento. - Eu a encontrei. D marcha a r, vire tudo para a 
direita em direo ao porto e siga pela avenida Desamparados, ela margeia a estao. Ateno! 
Est completamente esburacado por l... l... a passagem da direita... Apague o farol, estamos no 
terreno da estrada de ferro.  
- Mas eu no estou vendo mais nada!  
- Chegamos, pode parar.  
Duas silhuetas sadas de parte alguma apareceram, segurando uma terceira. Charles correu para 
ajudar a ferida, em seguida colocou- aperto de si, encaixando por precauo sua cabea sobre os 
joelhos.  
- Vocs vm conosco? - sussurrou ele.  
- No, a polcia est na nossa pista. Vamos nos virar. Estamos em segurana aqui... Venha nos dar 
informaes amanh.  
Eles saram sem maiores incidentes do quarteiro da estao, 
depois seguiram por alguns instantes no mais total silncio. La dirigia reto, o corao batendo.  
- Eu levo a menina para casa?  
- No, a casa sem dvida est sendo vigiada. Temos que encontrar um mdico.  
- Mas... e o pai dela? -  
- No podemos avis-lo agora,  muito arriscado.  preciso encontrar algum outro... Voc deve 
conhecer...  
- Desculpe-me, no  culpa minha se estamos todos em boa sade - disse ela, irritada.  
E arrependeu-se de imediato.  
- Desculpe-me - disse ela -, estou um pouco esgotada... O que aconteceu com ela?  
- Eles a torturaram... e violentaram! - soltou ele, raivosamente.  
O carro fez um desvio, quase atingiu um poste ao subir na calada e imobilizou-se enfim 
encontrando o meio-fio.  
- O qu? - exclamou ela, voltando-se, incapaz de controlar sua reao.  
- No fique aqui parada, vo reparar em ns.  
Um soluo a atirou contra o volante, subitamente assaltada pelas lembranas que imaginou ter 
esquecido. Os horrores vividos na Frana, na Argentina ou na Indochina lhe sobrevieram, 
submergindo, ali naquele momento, logo quando Charles e a garota precisavam tanto da sua ajuda. 
O jovem colocou a mo no ombro dela.  
- Passe para o lado, eu vou dirigir - disse ele gentilmente.  
Sob um esforo que ele no poderia imaginar o quanto custava, ela se endireitou.  
- No, tudo bem, j passou. Eu levo vocs para casa.  
S dois dias depois o doutor Pineiro pde ver sua filha. Quando saiu do quarto em que La havia 
ficado com ela durante a noite, o homem parecia ter envelhecido dez anos. Deixando-se cair em 
uma poltrona, com a cabea entre as mos, chorou. Quando acalmou- se um pouco, La deu-lhe um
copo d'gua.
- Minha criana... minha criancinha... - murmurava ele, abatido, enquanto grossas lgrimas corriam
pelas suas faces, antes de se perderem em seus bigodes.  
- Como ela est?  
Ele respondeu com um gesto evasivo.  
- Voc vai dar queixa?  
- No - disse ele.  
- Mas por qu? A polcia tortura os filhos de vocs... os violenta... os assassina e vocs no fazem 
nada...? - irritou-se La.  
Ele voltou bruscamente a cabea para ela e lanou-lhe um olhar de dio.  
- Vocs no poderiam compreender, vocs so estrangeiros em Cuba! Minha mulher e eu, ns 
lutamos h anos pela democratizao deste pas, mas a misria e a corrupo so tamanhas que as 
pessoas no tm mais foras para lutar. Sei o que vocs pensam das pessoas que tomaram a 
organizao de resistncia armada na Sierra Maestra, daquelas que colocam bombas em Havana ou 
em Santiago. Sim,  verdade, ainda subsiste um grande desejo de liberdade e de justia entre o povo 
cubano, mas a represso se fez atroz desde que este governo funesto no hesita em profanar nossas 
filhas, em manchar nossa honra...  
- Mas...  preciso alertar a imprensa, a opinio pblica deve ser informada!  
- Os cubanos esto muito bem informados, esteja certa disso. Quanto  imprensa, ela est longe de 
ser livre... Quando nosso filho foi preso, registramos queixa por agresso, mas a denncia jamais foi 
levada adiante, alm de termos sido submetidos a mil aborrecimentos.  
- Mas agora houve um estupro!  
- Justamente, ns devemos preservar a honra de nossa filha. Todos os pais aqui fariam a mesma 
coisa.  
La o olhou aterrorizada.  
- A senhora acredita que a polcia sabe da presena de Carmen em sua casa? - perguntou ele. 
- Acho que no, mas como ter certeza?  
- A senhora avisou ao seu marido?  
- No, no confio no telefone.  
- Tem razo. Virei buscar Carmen amanh, porvolta das quatro da manh, com a caminhonete de 
um verdureiro que  um amigo.  o nico veculo que no parecer inslito a uma hora destas. 
Charles est aqui? Gostaria de falar com ele.  
- Ele saiu bem cedo e no me disse aonde iria; apenas observei que ele estava com calas velhas, 
uma camisa desbotada e tnis usados. Surpreendente para um rapaz normalmente mais arrumado...  
- O que ele lhe disse a respeito de Carmen?  
- No muita coisa... Parece que foi presa na sada do cinema com exemplares de Revolucin. 
Alguns homens sem uniforme a empurraram para um carro e a levaram. Ao menos foi o que o 
rapaz que a acompanhava contou a Charles. Ele conseguiu fugir a tempo e depois deu o alerta. Com 
outros companheiros eles conseguiram rapidamente identificar o local para onde ela havia sido 
levada: um poro que dava para uma ruela, atrs do convento de Santa Clara do qual a SIM serve-
se para alguns de seus interrogatrios. Depois de vrias horas de vigilncia, eles a recuperaram, 
prostrada, abandonada atrs de velhos caixotes por seus carrascos, que haviam desaparecido, no 
se sabe porqu. Mas, acreditando v-los voltarem, os companheiros de Carmen transportaram-na 
para o setor da estao onde dispem de vrios esconderijos.  
- A senhora j ouviu falar do Diretrio revolucionrio? - perguntou ainda o doutor Pineiro.  
- No, do que se trata?  
-  um dos movimentos revolucionrios do pas que rene mais particularmente estudantes, 
universitrios e que est fortemente implantado em Havana, contrariamente ao M-26 de Fidel 
Castro, que cobre especialmente a provncia do Oriente, ao sul da ilha.  
- O senhor acha que Charles pode fazer parte deste Diretrio?
- - Tudo leva a crer que sim... Que dia  hoje?
- Quarta-feira, eu acho... Sim, quarta-feira, 13 de maro. Por qu?
Sem resposta, ele levantou-se e dirigiu-se para a porta.  
- Obrigada por tudo o que a senhora fez por Carmen. Sua irm, Suzel, pode vir visit-la? Acho que 
Carmen se sentir melhor ao v-la junto a si - acrescentou ele sem se virar.  
- Naturalmente, ela pode at mesmo ficar aqui, se desejar.  
- Eu lhe agradeo, mas isso no ser necessrio. Se tudo acontecer como eu espero, a partir de 
amanh levarei Carmen para um lugar seguro.  
O mdico partiu, La voltou ao quarto onde a jovem estava instalada. Ela havia terminado por 
cochilar, mas dormia um sono agitado, com gemidos, debatendo-se por alguns instantes. As lgrimas 
desciam do canto de seus olhos fechados. Aqui e l, em seu belo rosto, os traos marcados pelos 
golpes estavam ficando roxos.  
Uma hora mais tarde, Suzel Pineiro apresentou-se na entrada da casa em companhia de dois jovens.  
- Bom dia, sra. Tavemier. Papai julgou prudente nos cercarmos de algumas precaues... - disse ela 
mostrando seus guarda-costas.  
- Isso a incomoda?  
- No, ao contrrio, precisarei ir  cidade.  
Desde o incio da manh, Charles havia se reunido a um grupo emboscado em um subsolo da rua 19. 
Echeverra terminava de escrever o discurso que ele pronunciaria mais tarde, depois da tomada de 
Radio-Reloj. Seus companheiros verificavam o bom funcionamento das carabinas M-1 e dos dois 
rifles Johnson. Todos estavam tensos e a maioria se recusou a experimentar a parca refeio 
preparada por um deles. Charles estava com apetite. Por volta das trs horas, Julio Garca 
Oliveraveio encontr-los. As trs e dez, trs carros deixaram a rua 19 com quinze homens armados. 
Charles tomou lugar no segundo veculo, em companhia de Jos Antonio Echeverra, Fructuoso 
Rodrguez e Joe Westbrook. O carro de Otto Hernndez e de Carlos Figueredo deveria estacionar  
entrada da estao de 
rdio, conduzido por Juan Nuyri, na esquina da rua M e da 21 para interditar o acesso. O 
itinerrio a seguir para chegar ao estdio onde Jos Antonio deveria lanar seu apelo havia sido 
reconhecido anteriormente por Julio Garca e Jos Azzeff, guiados pelo jornalista Floreal 
Chomn, membro do Diretrio. lhdo desenrolou-se como previsto: Jos Azzeff e Pedro Valds 
Brito partiram em reconhecimento e voltaram para avisar que a via estava livre; o soldado que 
encontraram diante de um corredor no teve nenhuma resistncia em entregar seu revlver a 
Echeverra, que o colocou no bolso. Eles entraram no estdio onde estavam os apresentadores 
Hector de Soto e Floreal Chomn. Eram j trs horas e vinte e um minutos. Sob a ameaa da 
arma de Jos Antonio, Hector de Soto leu o seguinte comunicado:  
"Radio-Reloj. Informamos que o palcio presidencial acaba de ser atacado. Um grupo 
importante de civis no identificados, armados de fuzis e de armas automticas, abriu fogo contra 
o palcio presidencial, engaj ando-se em duro combate contra aguarda. Beneficiando- se do 
efeito surpresa, os atacantes conseguiram penetrar no interior do palcio, onde o presidente da 
Repblica, Fulgencio Batista, encontrava-se trabalhando... Houve numerosas perdas civis e 
militares. Novos contingentes de civis chegaram ao local e, colocados bem prximos, atiraram no 
palcio. Radio-Reloj continuar a lhes informar."  
Mensagens publicitrias foram difundidas em seguida, Floreal Chomn vendendo uma marca de 
charutos, bacalhau da Noruega, um curso de ingls e um achocolatado que assegurava uma 
"alimentao perfeitamente balanceada".  
Joe Westbrook fez ento sua entrada no estdio. Depois de um novo minuto de mensagens 
publicitrias, Hector de Soto fez a leitura de um certo "Relatrio oficial do estado-maior do 
exrcito", elaborado pelo Diretrio:  
"Nosso correspondente na cidade militar, Luis Felipe Bron, nos informa que as tropas e oficiais 
do exrcito, da marinha e da polcia, reunidos na caserna Cabo Parrado, no campo de Colombia, 
acabam
de tomar comando das foras armadas e tornam pblico o comunicado seguinte: 'Face  grave crise
que atravessa a nao, os oficiais e suboficiais que compem as escolas militares de nosso pas, 
desejando cumprir seu dever mais sagrado, qual seja, salvaguardar a paz pblica, e respondendo ao 
sentimento da maioria de seus membros, retiram de seus comandos o general Tabernilla e outros 
oficiais de alta patente, partidrios do ditador Batista."  
O dito "relatrio oficial" foi divulgado uma segunda vez, seguido da propaganda de uma loja de 
peles. Enfim, o apresentador voltou s notcias do dia:  
"Radio-Reloj informa: devido  gravidade dos atuais acontecimentos, o presidente da federao 
estudantil universitria e lder do diretrio estudantil, Jos Antonio Echeverra, vai proceder  leitura 
de um discurso destinado ao povo cubano:  
"Povo de Cuba! No momento em que vos falo, o ditador Fulgencio Batista acaba de ser executado. 
Trata-se de um ato revolucionrio. O povo de Cuba foi acertar suas contas com ele dentro do 
prprio covil do palcio presidencial. E somos ns, o Diretrio revolucionrio, que, em nome da 
Revoluo cubana, demos o golpe de misericrdia nesse regime ignominioso. Cubanos que esto me 
ouvindo: acabamos de eliminar..."  
Um problema tcnico impediu o fim da transmisso do discurso do presidente da FEU:  
- Agora, todos  universidade! - gritou ele, precipitando-se pelo corredor.  
Em grande nmero, os membros do pessoal daRadio-Reloj, que haviam escutado as mensagens e o 
discurso, estavam de p no corredor e nas escadas. Eles se afastaram para dar passagem a 
Echeverra e a seus companheiros que empurravam diante deles Floreal Chomn e Hector de Soto. 
Eles dirigiram-se para o elevador. Passando pela administrao central, Jos Antonio gritou:  
- Eu pedi que destrussem esta porcaria!  
Ele atirou vrias rajadas nos aparelhos. Os vidros voaram em pedaos. 
O elevador no chegou, eles tomaram as escadas. Na rua, a confuso atingia seu auge, pessoas 
corriam para todos os lados, alguns atiravam-se no cho, ou mesmo nas caladas ou entre os carros 
que barravam a passagem, todas as portas abertas. Jos Antonio subiu no veculo no qual 
encontrava-se Carlos Figueredo e dirigiu-se a seu amigo Jos Azzeff:  
- Sabe o que mais, Moro?'4 Posso morrer tranqilo agora!  
Os dois outros carros partiram. O engarrafamento causado pelo canteiro de obras do hotel Hilton os 
separou. Carlos Figueredo continuou na rua M at a rua Jovellar, atravessou a rua L e em seguida 
seguiu para a universidade. De um s golpe, eles encontraram-se frente a frente com uma 
perseguidora. Uma ordem havia sido dada para retardar por todos os meios os reforos que 
convergiam para o palcio presidencial. O motorista parou o carro transversalmente  rua. Quando 
o veculo da polcia veio abord-los, Carlos abriu fogo. Logo os policiais replicaram com uma rajada 
de metralhadora que atingiu o pra-brisas. Ningum se feriu. Seguido por seus companheiros, 
Echeverra saltou do carro atirando.  
- Vamos para a Alma Mater! - teve tempo de gritar antes de ser atingido.  
Charles precipitou-se na direo dele para lev-lo a um lugar seguro, mas algum o derrubou ao 
cho. Jos Antonio levantou-se e tirou de seu bolso o revlver tomado do soldado na Radio-Reloj. 
Ele atirou mirando o interior do carro da polcia; um guarda sentado atrs foi abatido. O rosto plido, 
dentro de seu terno cinza, ele parecia estar cochilando.  
Curvando-se, Carlos Figueredo, Fructuoso Rodrguez e Charles seguem para a universidade. Na 
entrada da ruaJ, aqueles que haviam participado da ocupao da Radio-Reloj haviam colocado uma 
metralhadora calibre 30 carregada. Uma outra encontrava-se apontada sobre o Castillo del Principe
do terrao da faculdade de arquitetura. O pequeno grupo estava sem notcias do ataque ao palcio
presidencial e escutava apenas algumas rajadas de balas.
Sob as belas rvores da universidade, reinava um ambiente lgubre: o povo de Cuba no veio apoi-
los e apenas um mecnico havia conseguido romper os cordes da polcia. Um dos chefes do 
Diretrio, Faure Chomn, irmo de Floreal Chomn, ainda que ferido, conseguiu reunir-se a eles nas 
barbas da polcia. Aos seus camaradas, ele fez o relatrio do assalto contra o palcio e de seu 
fracasso, apesar da audcia e da valentia dos insurgidos. Entre eles, vrios haviam encontrado a 
morte. Por um breve instante, Chomn perdeu a conscincia. Quando voltou a si, perguntou:  
- No estou vendo Echeverra...?  
Todos abaixaram a cabea. Fructuoso Rodrguez falou com uma voz surda olhando direto para ele:  
- El Gordo caiu como um bravo. Desprezando sua vida, ele avanou na direo de um carro da 
polcia e atirou nos guardas atravs do vidro. Ele caiu no cho, ajoelhou-se e tirou um revlver e 
comeou a atirar atravs do vidro. Foi neste momento que uma rajada de metralhadora o atingiu.  
Ajudado por Juan Nyuri, Faure Chomn levantou-se com dificuldade e disse, com uma voz sombria:  
- Estou mal.  
- V at a casa de minha me, no nmero 9 da rua Ronda - recomendou-lhe Enrique Rodrguez 
Loeches. - Olha o que est acontecendo daquele lado! - gritou ele apontando o dedo na direo da 
rua 23.  
Uma longa coluna de tanques e veculos blindados subia na direo deles.  
Depois da partida de Faure Chomn, o pequeno grupo se reuniu no trreo da reitoria para traar um 
primeiro balano.Alguns estavam prontos para lutar at a morte, outros para se esconder e aguardar 
as condies mais favorveis para a retomada da luta. Charles estava em silncio. "O que podemos 
fazer? - pensou ele. - Ns somos menos de quinze." Foi decidido que eles iriam embora levando as 
armas e seguiriam para os pontos de encontro habituais. Com armas na mo, eles deixaram a colina 
da universidade e tentaram 
alcanar seus esconderijos. Charles partia com Fructuoso Rodrguez  
quando sejuntaram a eles Armando Hemndez ejulio Garca Olivera.  
Na ruaJ, eles pararam uma caminhonete das Cafereras Nacional e  
foraram o motorista a descer. Naquele momento, um Studbaker  
surgiu.  
- Suba! - gritou La.  
Aproveitando-se de sua hesitao, Armando fugiu enquanto  
Charles subia no Studbaker. La fez uma meia-volta rpida. As
pessoas 
corriam por entre os muros, ambulncias passavam a toda  
velocidade, sirenes ligadas, enquanto os policiais tomavam posies  
em todas as esquinas. Com sangue-frio, La entrou em uma rua  
ainda mais tumultuada que a anterior, evitando com percia os  
pedestres afobados e os motoristas desorientados. Enfim, eles  
desembocaram no Malecn, deserto neste dia de seus visitantes  
habituais.

Captulo Quatro

O ATAQUE AO PALCIO PRESIDENCIAL e a ocupao do estdio da Radio-Reloj tiveram
por conseqncia a colocao da polcia e do exrcito de Batista em estado de alerta permanente. 
As prises foram numerosas e os novos prisioneiros reuniram-se, no principe, aos que j haviam 
sido presos nos dias anteriores a 13 de maro. Entre eles, Carlos Franqui, preso no dia 7 de maro, 
mantido sem notcias de sua mulher e de sua me. Ele dissimulava sua angstia da morte, 
confortando seus companheiros. Da priso, ele pde fazer chegar uma carta a Frank Pas, em 
Santiago:  
Frank,  
Somos aproximadamente duzentos prisioneiros: mais de cem do M-26, uns quarenta do 
Diretrio revolucionrio e uns vinte de grupos autnticos de Menelao, e cerca de dez 
comunistas. Os comunistas no acreditam na insurreio. Eles criticam as sabotagens e a 
guerrilha. Dizem que ns fazemos o jogo dos terroristas no poder Dizem que o movimento do 
26 de Julho  golpista, aventureiro e pequeno-burgus. Eles obstinam-se a crer em sua 
hipottica "mobilizao 
de massa" e ao clssico siogan "Unidade, Unidade" Os comunistas no 
compreendem a natureza da tirania e no acreditam na possibilidade da Revoluo, dos 
quais se dizem, no entanto, os nicos representantes.  um partido burocrtico, reformista 
e politiqueiro, que jamais superar suas limitaes. H aqui um grupo importante de 
pessoas do Diretrio. Eles esto muito sentidos pelo fracasso do ataque ao palcio. Esto 
prximos de ns, com algumas diferenas: por exemplo, sobre o papel de Havana, 
superestimado por eles e subestimado por ns, sobre o interesse de combater at o fim, 
sobre a luta na Sierra; eles esto preocupados com o caudilhismo de Fidel, pelas 
crticas formuladas por ele diante do atentado contra Blanco Rico, crticas que, em efeito, 
no eram justas...  
Os acontecimentos do dia 13 de maro impediram o doutor Pineiro de vir buscar sua filha. Carmen 
permaneceu ento na vila de Miramar, em companhia de sua irm. Para no alarmar os 
empregados, os dois guarda-costas se retiraram.  
Carmen lembrava-se lentamente das sevcias s quais havia sido submetida. Ela tinha grande 
admirao por La, recusando-se a apiedar-se de sua sorte.  
No dia seguinte ao ataque do palcio, um policial apresentou- se na casa, levando uma convocao 
em nome do sr. e sra. Tavernier. Estava estipulado que eles deveriam comparecerem companhia de 
seu filho, Charles d'Argilat.  
Na hora marcada, La apresentou-se com Charles, que j havia retomado seu papel de estudante 
de boa famlia.  
- O Sr. Tavernier no est com vocs? - interrogou o oficial de polcia, um homem elegante em um 
terno bege-claro e cujos lbios finos estavam sublinhados por um fino bigode, to escuro quanto os 
seus cabelos.  
- Ele est trabalhando na regio de Pinar del Ro. No consegui encontr-lo.  
- Madame, este ser apenas um interrogatrio de rotina. Seu embaixador j nos deu garantias de sua 
famlia. Ele est triste que
o fechamento da universidade impea este jovem de continuar seus estudos. Esta ociosidade
forada o leva a freqentar pessoas pouco recomendveis... Ele tem, eu imagino, aulas particulares 
e trabalha com um advogado? Isso  muito bom. Vocs pretendem passar muito tempo em Havana?  
- Isso depende de meu marido.  
- Sim,  claro, eu compreendo - disse o oficial, levantando-se.  
- Ns podemos partir? - perguntou La, tambm se levantando.  
- Mas  claro, cara senhora. Fico muito feliz em conhecer uma mulher to bonita quanto a senhora... 
Mas, acredite-me, fique fora da agitao poltica. Faa compras, v  praia ou ao clube, jogue 
bridge... Divirta-se: Cuba  um paraso!  
- No para todos, se julgarmos pelos acontecimentos dos ltimos dias... - ela no pde impedir-se de 
responder.  
Logo arrependeu-se.  
- Madame, a senhora  uma estrangeira e o que se passa aqui no lhe diz respeito de forma alguma. 
Ns no gostamos que venham meter o nariz nos nossos negcios nem de receber lies. Eu lhe 
repito muito amigavelmente: no se meta com a poltica. Seno, se houver uma prxima vez, 
posso me mostrar menos... compreensivo. Isso tambm vale para voc, jovem. Daqui em diante, 
meus oficiais ficaro de olho em vocs. No se esqueam.  
La despede-se friamente. A entrevista, que a havia feito reviver a lembrana do interrogatrio ao 
qual havia sido submetida pelo impiedoso Massuy', na avenida Henri-Martin, em Paris, a fez sentir- 
se mal. Ela havia experimentado o mesmo medo, o mesmo desgosto. Este Esteban Ventura parecia 
com Massuy: um assassino sem o menor escrpulo.  
Nas ruas, o exrcito patrulhava agora e as foras policiais procediam no controle dos pedestres. 
Caa sobre Havana uma atmosfera pesada e tensa. Cordes de arames farpados e montes  
de sacos de areia cercavam a universidade. Grupos de mais de cinco pessoas eram firmemente 
mandados dispersarem-se. La e Charles subiram pela rua San Lazaro.  
- No gosto desta rua - disse La - " uma rua falsa. Quero dizer que  primeira vista, em seu incio, 
diramos que  a rua de uma cidade como Paris, Madri ou Barcelona. Em seguida, ela revela- se 
medocre, profundamente provinciana. A seguir, chegando ao parque Maceo, ela alarga-se para 
transformar-se em uma das avenidas mais desoladoras e mais feias de Havana. Implacvel ao sol, 
obscura e hostil  noite, seus nicos pontos de repouso so o Prado, a Beneficncia e a escadaria da 
universidade. Ah, h uma coisa, sim, que me agrada na San Lazaro: , aos primeiros conjuntos de 
casas, a surpresa do mar...".  
- Voc fala desta rua como Cabrera Infante.  
- Quem ?  
- Um jornalista, um escritor, no sei muito bem... Eu o conheci com Carlos Franqui na revista 
Carteles. Ele  loucamente apaixonado por sua cidade, da qual conhece os mnimos detalhes; 
sobretudo os bares suspeitos e as boates da noite!  
Eles viraram na rua Espada e seguiram at a rua Principe, estacionando ali. La se ajeitou no banco, 
distrada, mas permaneceu com as mos no volante, o olhar vago.  
- Houve alguma coisa? - perguntou Charles.  
Ela virou a cabea para ele e o observou como se o visse pela primeira vez.  
- Tenho a impresso de nada saber a seu respeito, de estar na presena de uma pessoa estranha. 
Tenho de me beliscar para ter bem certeza de que voc  a criana que vi nascer. No posso 
impedir-me de pensar em sua me que confiou-o a mim. Ela ter direito de me criticar por no t-lo 
protegido o suficiente...  
- No diga isso - disse ele, apertando-a contra si. - Mame, se fosse realmente aquela que voc me 
descreveu, no faria a voc
nenhuma crtica. Ela compreenderia que, encontrando-me aqui em circunstncias semelhantes,
liguei-me queles que combatem a ditadura. Vocs no agiram de outra forma, voc e ela, na 
Frana...  
- Sem dvida, mas era o nosso pas, alm do mais estava sob ocupao...  
- Mas quando voc e Franois, estiveram na Argentina, no estavam no pas de vocs, e no entanto 
lutaram por uma causa que no era sua: foi pela justia!  
- Oh, a justia...  
La sentiu Charles se retesar e compreendeu que o tom descrente que ela havia empregado o tinha 
chocado. Levantando os ombros ela ligou o carro. O jovem a fez parar.  
- Oque?  
- Espere por mim aqui. No se mexa de forma alguma.  
Ele empurrou a porta do carro com a perna e afastou-se em grandes passadas.  
- Charles!... Volte!...  
Trs policiais que atravessavam a rua voltaram-se para olh-la. Um deles hesitou em ir na direo 
dela, mas um de seus colegas o impediu. Seu corao s voltou a bater quando ela os viu retomar 
seu caminho. Nesse meio tempo, Charles havia desaparecido. Furiosa e inquieta, ela acendeu 
nervosamente um cigarro.  
Desde o ataque ao palcio presidencial, Charles estava sem notcias de seus companheiros. Um 
instante mais cedo, ele havia reconhecido um deles, ou mais exatamente o jovem comunista amigo 
de Joe Westbrook, Armando Marcos Rodrguez, que todo mundo apelidava de Marquitos em razo 
de sua arrogncia, suas pretenses intelectuais e de seus gestos efeminados. Eles s gostavam dele 
ou o suportavam por causa de sua amizade com Joe. Charles no tinha nenhuma simpatia por ele. 
Marquitos dizia-se oposto  insurreio como meio de derrubar Batista. Fructuoso Rodrguez e Juan 
Pedro debochavam de sua falta de coragem. Eles evitavam falar diante dele das aes a serem 
empreendidas, dos locais de encontro, dos locais 
que serviam de refgio ou de esconderijo. Ele no deveria saber onde viviam os responsveis pelo 
Diretrio. No entanto, ele freqentava o apartamento 201 do nmero 7 da rua Humboldt, alugado 
por um amigo deJoe, Gustavo Prez Cowley. O imvel possua a vantagem de ocupar uma situao 
estratgica, ao mesmo tempo prximo da universidade, daRadio-Reloj, dos grandes hotis e do 
quarteiro dos negcios. Avista para o Malecn tambm no havia sido por acaso na escolha do 
apartamento.  
Charles puxou o brao de Armando, que teve um sobressalto, deixando escapar um grito. Quando 
ele se virou, seu rosto estava molhado de suor.  
- Bom dia, Marquitos! Desculpe-me por assust-lo. Voc por acaso no viu Joe e Fructuoso?  
- No gosto que me chamem assim. Especialmente um estrangeiro... Eu tambm procuro Joe. Se 
voc o vir antes de mim, diga que eu passarei esta noite na rua Humboldt.  
- Isso no ser necessrio...  
- Como vai voc, velho? - perguntou um jovem, colocando a mo no ombro de Marquitos.  
"Ele  louco de andar pelas ruas assim", pensou Charles.  
Joe Westbrook, seus cabelos negros cuidadosamente penteados com gomalina, o rosto plido e 
imberbe, tinha o aspecto de um rapaz muito distinto - nada de um perigoso revolucionrio comparvel 
queles da Sierra Maestra...  
- Vamos andar - cochichou ele. - Se ficarmos parados aqui conversando, vamos chamar ateno... 
Estou contente dever voc novamente, francs. E voc tambm, Marquitos.  
Eles caminharam em algazarra como um grupo de jovens normais.  
- O que voc queria me dizer? - perguntou ele um pouco mais longe a Marquitos.  
- Nada... Queria apenas saber se voc estava precisando de alguma coisa.  
- Eu agradeo. Voltei para casa: tudo est bem.
- Voc sabe, se eu puder ajudar...
- Sim, eu sei.  
Charles foi abatido pelo tom com o qual Joe lhe havia respondido. Percebia-se uma espcie de 
cansao em sua voz, como se ele no acreditasse nas palavras do outro.  
- Voc nos oferece um caf? - props ele, com bastante desenvoltura.  
- Com prazer - apressou-se Marquitos.  
- Olhe, o vendedor de caf da Infanta no est l - observou Charles.  
-  por causa dos agrupamentos, a polcia os proibiu. Vamos para a Rampa - sugeriu Marquitos.  
- Isso vai nos tomar bastante tempo - objetou Charles. - Minha me est me esperando.  
- Voc tem razo, pode ir. Nossas mes j tm ocasies suficientes para se preocuparem conosco - 
concluiu Joe, apertando- o nos braos.  
"Como ela  bonita", pensou Charles, abrindo a porta devagar. La estava refugiada no sono, o que 
fazia com freqncia quando estava preocupada ou quando simplesmente tinha que fazer prova de 
pacincia. Esta faculdade de dormir em qualquer lugar divertia Franois. Ao menor barulho ela 
acordou, levemente descabelada.  
- No gosto que voc me deixe sozinha desta forma. J se esqueceu das ameaas daquele policial? 
Que ele disse que nos mandar seguir? Enquanto Carmen estiver em casa  bom evitarmos que nos 
observem.  
- Voc tem razo, no pensei nisso.  
- Ento pense! Ou fique na sua, se no quer que todos ns sejamos presos!  
Humilhado, Charles concordou; ele ainda tinha muito o que aprender. Eles dirigiram lentamente e em 
silncio at a casa.  
Adrien e Camille correram na direo deles gritando:  
- Mame, mame... Papai chegoul 
Franois aproximou-se com Claire em seus braos.  
- Enfim, a est! - disse ela, abraando-o.  
Com sua mo livre, ele levantou o rosto dela e colocou os lbios nos seus. A pequena riu e gesticulou, dando 
beijos em um e em outro.  
- Voc, deixe a senhora e o senhor - interveio Philomne levantando a criana dos braos do pai.  
Parecia que os dois mais velhos s esperavam por isso. Precipitaram-se sobre Franois, apertando La.  
- Papai, lembre-se de que voc me prometeu levar-me para pescar...  
- Papai, a senhorita Hadriana diz que eu sou a melhor aluna do curso de dana...  
- Papai, ganhei de Julio no torneio de tnis da escola...  
- Papai, voc agoravai ficar conosco? No quero mais que voc v embora!  
- Vou ficar tempo suficiente para lev-lo para pescar, Adrien. E voc, Camilie, para v-la danar.  
- Hurra! Hip, hip, hip, hurra! - exclamou Adrien, executando em volta dos pais uma espcie de dana do 
escalpo, logo imitado por sua irm.  
- Acalmem-se, crianas - disse La, rindo com a alegria deles. - Vejam, Philomne j vem busc-los para 
almoar. Vamos, rpido!  
Agarrados aos panos da tnica de Philomne, os pequenos no paravam de saltitar. A jovem vietnamita ria 
com eles.  
- Gosto muito de ouvi-los rir - disse La, seguindo-os com os olhos.  
Franois a abraou mais apertado; as lembranas da Indochina voltaram com fora.  
- Ns recebemos novidades de Lien - anunciou a jovem mulher. - Ela abriu um orfanato em Hani para as 
crianas feridas pela guerra.  
- Isso  bem dela - murmurou Franois. - Querida Lien...
a vida no deve ter sido fcil para ela. Ns deveramos ter insistido para que ela voltasse para a Frana.
- No, Franois. O lugar dela  l, ela sofreria muito se ficasse longe de seu pas.  
- Voc tem razo, ela no seria feliz na Frana: os franceses no gostam muito de estrangeiros. Para muitos 
deles, ela seria apenas uma nhque... Recebi suas mensagens ontem apenas, mas no estavam claras. 
Voltando de umaviagem a ilha des Pins com Ramn, ns soubemos do que se passou aqui e em Santiago. 
Valento, o golpe da Radio-Reloj! E completamente idiota... Batista deve ter ficado furioso durante o ataque 
a seu palcio... Onde vocs estavam nesta hora? E Charles? Ei! Onde voc vai? Pode ao menos vir me dizer 
bom dia...  
Charles aproximou-se como se obrigado.  
- No parece ter gostado de me rever?  
- No  isso - disse o rapaz, embaraado, dando uma olhada para La.  
Ela fingiu que no havia notado. Mas a troca de olhares no escapou a Franois. "O que estes dois esto me 
escondendo?", perguntou-se ele.  
- Vamos, conte! - ordenou ele pegando-o pelo brao. - Bom Deus, como voc cresceu, vai ficar mais alto que eu, 
logo, logo.  
Eles entraram, seguidos por La. O telefone tocou naquele instante e Franois atendeu.  
- Al?... Sim, sou eu... No compreendo... Quando?... Est certo, amanh, s nove horas...  
Ele recolocou o fone no gancho lentamente e virou-se na direo dos dois, o rosto preocupado.  
- Quem era? - perguntou La.  
- A polcia... Isso no parece espantar vocs... Vocs no dizem nada? Este sr. Esteban Ventura parecia 
conhec-los bem, no entanto. No gosto disso: a polcia deste pas  to corrupta quanto o seu  
mestre, Batista. E no me agrada que ela se interesse por minha famlia. Preciso saber por qu. 
Sobretudo, digam a verdade que isso nos far ganhar tempo.  
- Voc fala ou prefere que seja eu? - perguntou La a Charles, dirigindo-se a uma varanda florida 
que se elevava a alguns passos da casa.  
Charles refletiu rapidamente: o que ele tinha o direito de revelar? A polcia no parecia ter provas de 
sua ligao com o Diretrio, nem de sua participao na tomada da Radio-Reloj, nem da presena 
de Carmen em Miramar. La compreendeu intuitivamente o seu dilema.  
- Vou falar em seu lugar; como no sei grande coisa, no me arriscarei a embaraar voc... Na 
vspera do 13 de maro ns recolhemos uma colega de Charles, Carmen, depois das torturas e a 
violao a que os policiais a submeteram. At hoje, seu pai, que  mdico, ainda no pde resgat-la 
sem risco. Para todo mundo, inclusive a polcia, ela est desaparecida. Alis,  espantoso que ainda 
no tenha havido indiscries nem da parte das crianas, nem dos empregados...  
- As crianas esto a par?  
- No exatamente, mas fazem perguntas: por que o doutor veio? Por que a porta de um quarto est 
sempre fechada? Etc.  
- Esta jovem deve partir o mais rpido possvel, ela no est certamente mais em segurana aqui e 
sua presena nos coloca a todos em perigo. Vocs no tm outras novidades do mesmo gnero para 
mim, tm?  
La e Charles se entreolharam.  
- Encontrei Charles com um revlver perto da universidade, no dia 13 de maro...  
Franois franziu as sobrancelhas.  
- Voc est querendo me dizer que este garoto participou do golpe do 13 de maro?  
La fez que sim com a cabea. Contra todas as expectativas, ele estoura na gargalhada.  
- Voc que queria uma vida tranqila ao sol, no mais se misturar com conflitos, guerras... Est em 
plena revoluo! O que
voc quer, minha querida? S posso dizer que a vida burguesa, uniforme, sem grandes
preocupaes, no  para voc.  
- E isso faz voc rir?  
- E vou fazer o qu? - exclamou ele tomando-a em seus braos.  
Por sua vez, La tambm irrompe em um riso louco, para o grande espanto de Charles. 
Decididamente ele no compreendia nada a respeito deste homem e desta mulher.  
- Madame! Telefonema para a senhora - gritou Philomne da varanda.  
Quando ela entrou na casa, Franois voltou-se para Charles; no ria mais.  
- At que ponto voc est engajado nesta aventura?... No estou perguntando detalhes.  importante 
que eu saiba para tomar as medidas que se impem.  
- Eu estava com Echeverra no momento de seu assassinato.  
- Sei... Voc est bem mais comprometido do que eu pensava. La est a par?  
- Muito parcialmente.  
- De qualquer forma, ela j sabe demais. Quanto a voc, espere ser preso a qualquer momento.  
- Mas Ventura...  
- Voc no imagina que ele no sabe o que pensar sobre voc? O que pensam seus camaradas 
revolucionrios?  
- Eu no disse nada a eles.  
- Ser preciso que voc deixe Cuba... No apenas voc est em perigo, mas  perigoso para os 
outros... Ns retomaremos esta conversa mais tarde. Olhe que La est voltando.  
Ela sentou-se entre os dois, muito plida. De um gole, esvaziou o copo que tinha na mo.  
- Mais uma catstrofe? - Inquietou-se Franois.  
- Prenderam o doutor Pineiro... o pai de Carmen.  
- Ento eles no vo tardar a passar por aqui... Charles, v procurar sua amiga, vou lev-la. 
- Para onde? - assustou-se Charles.  
- Para a embaixada da Frana,  o nico local em que posso pensar no momento... Espero que o 
embaixador no lhe recuse o asilo poltico.  
Charles precipitou-se na casa e um pouco depois voltou, segurando Carmen.  
- Bom dia, senhorita. Sou o pai de Charles. Voc j est a par do nosso plano?... Bem, no se mexa 
daqui, vou buscar o meu carro.  
Pouco depois, ele parou o carro prximo  entrada. Depois de ver Carmen deitar-se no banco 
traseiro, ele a cobriu com uma manta de viagem.  
- Venha - ordenou ele a Charles.  
- Eu vou com vocs - disse La.  
- No - disse Franois. - Voc fica aqui, apague todos os traos da passagem dela e espere pela 
nossa volta.  
O corao apertado, ela os observou afastarem-se.  
No fim da tarde, quando Esteban Ventura e seus homens se apresentaram na casa da famlia 
Tavernier, encontraram uma verdadeira festa. La veio receb-lo, fresca e elegante em um vestido 
de coquetel bem decotado.  
- Boa noite, senhor comissrio... ou comandante? No me tome por mal, no conheo nada da 
graduao dos oficiais cubanos - sorriu ela.  
- Ah,  o senhor, Ventura? O que o traz na casa de minha encantadora amiga, a senhora Tavernier? 
- perguntou o ministro do interior, Santiago Rey, tomando o brao de La.  
- O sr. Ventura acredita que eu sou uma perigosa revolucionria - disse ela, apoiando a cabea no 
ombro do ministro.  
- Uma revolucionria! Voc est brincando, querida amiga?  
- Gostaria de estar - suspirou La -, mas o sr. Esteban j nos convocou, a meu filho e a mim.  
Apesar de sua corpulncia, o ministro inclinou-se para o chefe de sua polcia e o agarrou pelo
uniforme.
- Triplo imbecil! - gritou-lhe ele no rosto -,voc no  capaz de fazer a diferena entre uma dama e
uma revolucionria?!  
- Mas senhor ministro...  
- Cale-se, idiota! Voc quer criar um incidente diplomtico? O embaixador da Frana est aqui com 
o embaixador do Brasil e o cnsul da Gr-Bretanha...  
- Mas senhor ministro...  
-  suficiente. Retirem-se, ns conversaremos mais tarde.  
- O senhor no vai aceitar um drinque, sr. Ventura? - sussurrou graciosamente La.  
Esteban Ventura no responde e parte. A um sinal dele, seus homens o acompanham.  
- Ele no parecia contente - disse La, levantando os ombros.  
- Em sua opinio, senhor ministro, o que ele veio fazer aqui? Santiago Rey lana-lhe um olhar duro.  
"Ela ultrapassou os limites", pensou Franois, que havia escutado a pergunta de sua mulher. No era 
o momento certo de se confrontar o poderoso ministro do interior!  
- Ah, senhor ministro, venha - interrompeu-os Franois. - Gostaria de oferecer-lhe alguns exemplares 
destes charutos dos quais lhe falei, h algum tempo, na embaixada. O conselho de um conhecedor 
como o senhor me ser precioso.  
Os dois homens dirigiram-se para a sala de fumantes, acompanhados do embaixador do Brasil e do 
cnsul britnico.  
Repentinamente a ss com La, o sr. Grousset, o embaixador da Frana, disse-lhe em voz baixa:  
- Seu marido me colocou em uma situao complicada. Arrisco- me aos piores aborrecimentos por 
ter acolhido uma terrorista.  
- Sim, mas ela arrisca-se a morrer.  
- Vocs no acham que exageraram um pouco?  
- Infelizmente, o senhor sabe bem que no.  
- E suponho que no tem idia do tempo que ser preciso mant-la na embaixada?  
- No, seu pai foi preso, ele no pode cuidar dela. 

- Ns vamos tentar faz-la chegar a Miami. Mas isso no ser fcil, ela corre o risco de ser presa
assim que atravessar a embaixada... Mas posso me permitir um conselho? Vocs tambm deveriam 
partir para Miami para fazerem-se esquecer por algum tempo. O que acha?  
- Preciso falar com meu marido...  
A porta da sala dos fumantes foi reaberta e os quatro homens saram detrs da fumaa azulada de 
seus charutos.  
- Notvel! - extasiou-se o ministro.  
Ele deu uma profunda baforada que aumentou ainda mais seu grande nariz e fez seu queixo duplo 
tremer. Umidos, os lbios espessos que sugavam o puro eram obscenos. La virou a cabea para 
dissimular seu nojo.  
- Conto com vocs esta noite, no ? Convidei alguns amigos para a premire do novo espetculo do 
Tropicana. Vocs vero,  magnfico. Uma de minhas amigas, Miranda,  a estrela do espetculo: 
ela  divina... Uma cadncia de rainha como s os cubanos possuem... Uma jia! Coloque sua roupa 
mais bonita, senhora...  
Ensaiando um passo de rumba, Santiago Rey dirigiu-se para a sada, rapidamente seguido de um 
jovem obsequioso, de tez morena com os cabelos reluzentes de brilhantina. Franois o acompanhou 
at o seu carro onde dois gorilas abriram-lhe a porta.  
- Eu ouvi mal - disse La ao retorno do marido - ou ns vamos ao Tropicana com ele?  
- No temos escolha.  preciso realmente que ele acredite que somos inofensivos e unicamente 
preocupados com charutos, dlares e prazeres...  
Eles subiram os degraus da varanda onde os trs diplomatas os aguardavam.  
- Obrigada, meus amigos, por se prestarem a este teatro.  
- Meu caro Tavernier, no precisaremos repeti-lo com freqncia. O mais difcil, no momento, ser 
faz-los sair do pas...  
- Alm do mais, desde o caso da embaixada do Haiti, ns nos tornamos objeto de vigilncia
redobrada - acrescentou o embaixador do Brasil.
- Um de nossos agentes me informou que um barco partir para Miami daqui a quarenta e oito
horas. J reservei quatro lugares a bordo - anunciou o cnsul britnico.  
- Por que quatro? - perguntou La.  
- E melhor sobrar do que faltar, nunca se sabe...  
- Eu lhe agradeo.  
Quando eles partiram, La deixou-se cair em uma poltrona. Franois foi sentar-se no encosto e 
puxou-a para si.  
- Voc acha que tudo vai correr bem? - sussurrou ela.  
Sem responder ele a abraou mais forte. Eles ficaram em silncio por um instante.  
- Eu sou realmente obrigada a ir ao Tropicana com aquele tipo repugnante?  
- No  o momento de desagrad-lo... Voc escutou o que ele disse? V se arrumar.  
- No  imprudente deixar as crianas sozinhas?  
- Espero a qualquer momento amigos de Ramn. So homens dele; eles combateram juntos na 
Espanha.  
- Voc pensa em tudo.  
- Quando soube que voc havia tentado me encontrar por vrias vezes, disse a mim mesmo que 
alguma coisa no ia bem. Ramn, que conhece bem este pas, de imediato correu para me ajudar. 
Foi ele que fez contato com os homens. Quem temos na casa alm de Philomne e Miguel?  
- Ningum. Os outros no dormem aqui.  
A noite havia cado, uma doce noite percorrida por uma brisa leve vinda do oceano. Em um canto do 
jardim, o escorrer da gua da irrigao sobre as folhas era apaziguador, o cheiro de terra quente e 
molhada lhes vinha e, por um momento, distinguia-se o barulho das ondas. No ar, planava como um 
torpor.  
- Estamos bem aqui - murmurou La.  
"Que mulhero!", pensou Franois observando-a esticar-se. "Esta  a mulher mais perturbadora que 
eu conheo."  
Ele a ergueu e tomou seus lbios em um beijo possessivo. Os braos de La o atraram, fazendo-o 
cair sobre ela. 
- Ateno, sou muito pesado - disse ele tentando se soltar.  
- Adoro sentir o seu peso sobre mim - confessou-lhe ela retomando seus lbios.  
- Hum...  
La entreabriu os olhos e afastou a mo que aprisionava seu seio. Perturbado, Franois virou a cabea. Charles 
os observava afetuosamente.  
- Ei!... desculpem-me!  
- No se desculpe - respondeu Franois, endireitando-se.  
- Ns temos que nos preparar para a nossa encenao no Tropicana.  
- Vocsvo sair?  
- Voc acha que isto me diverte? - exclamou La levantando- se. - Se voc no tivesse resolvido fazer a 
revoluo, no seramos obrigados a cortejar aquele porco gordo!  
Charles enrubesceu e baixou a cabea. Este grande rapaz atltico havia se transformado repentinamente no que 
era de fato: apenas um adolescente que havia crescido demais. Franois o socorreu.  
- A mim no desgosta o fato de ele ter se aliado aos companheiros estudantes.  na idade dele que ns damos 
o corpo e a alma pela liberdade. Mais tarde, isso se torna muito mais difcil... Dois amigos de Ramn Valds vo 
se instalar aqui por algum tempo. Vo saber disso, e ser muito bom: mostrar que tambm estamos sob 
guarda...  
- Mas ento eles vo ter certeza de que Charles participou do caso daRadio-Reloj e que ns abrigamos 
algum procurado pela polcia... - interrompeu La.  
- No acredito nisso.  comum em Cuba como em toda a Amrica Latina ter guarda-costas. Quanto mais os 
tivermos, mais seremos considerados... Tocaram a campainha, devem ser eles. V se trocar, eu vou l.  
A multido que se apressava para entrar no Tropicana, no quarteiro Marianao, era barulhenta e alegre. Era 
fcil reconhecer as americanas pela abundncia de suas bijuterias, pelas cores pastel
de suas roupas, por seus penteados caprichados e por seus acompanhantes descontrados em seus
smokings brancos. Os cubanos, sempre bigodudos, tinham apertados em seus braos suas acompanhantes 
com roupas brilhantes, todos vigiando o olhar dos outros machos. Vinha uma mulher bem grande com uma 
longa cabeleira acaju, soberba, encarapitada em saltos altos, com uma roupa justa de cetim branco. A brancura 
de sua roupa realava a cor de tabaco de sua pele. Homens com aspecto efeminado em suas roupas 
chamativas cercavam-na enquanto ela brincava com seu bois de plumas. O estranho espetculo atraiu o olhar 
de La, que observava a mulher. Esta se deu conta e sorriu, descobrindo seus dentes luminosos. La retornou 
seu sorriso.  
- Voc faz charme agora para as belas amazonas? - brincou Franois.  
- Ela  magnfica! Jamais vi uma mulher semelhante...  
- Venha, sinto que ela tambm gostou de voc.  
Situado em um quarteiro excntrico, o Tropicana era o cabar que, em Havana, oferecia as melhores atraes e 
apresentava as mais belas danarinas do mundo. O local era tambm surpreendente e surgia, iluminado, ao fim 
de uma rua cercada de rvores, entre uma vegetao tropical de onde esguichavam numerosas fontes. Mesas 
foram colocadas em crculo ao longo do grande palco. Trepadeiras balanavam-se acima, tombando das 
rvores que as cobriam, nas quais haviam sido colocadas plataformas. Jovens mulheres quase sem roupas 
danavam ali. Projetores multicoloridos passeavam pela decorao. Em um canto do cenrio, uma orquestra 
cubana tocava uma cano lasciva. Atravs da sala a cu aberto, os garons iam de mesa em mesa, carregados 
com pesadas bandejas. A orquestra mal conseguia cobrir o barulho das conversas. De vez em quando, o riso 
escandaloso de uma mulher dominava o local. Um servente conduziu La e Franois at uma mesa perto do 
palco. Vendo-os chegar, Santiago Rey, que encontrava-se na mesa em companhia de uma mulher 
escandalosamente vestida e de dois indivduos de ar sinistro, levantou-se.
- Cara senhora, obrigado por ter ficado to bonita para mim,  uma honra - disse ele beijando a mo
de La. - Sente-se ao meu lado, gostaria? A senhora conhece minha amiga, Sra. Magali Figueredo? 
E uma das pessoas mais influentes de Havana. Ela conhece todo mundo e  muito ouvida por nosso 
presidente. Ela fala francs e conhece bem o seu pas.  
-  verdade, gosto muito da Frana. Quando meu pobre marido ainda vivia, ns amos a Paris duas 
vezes por ano para assistir aos desfiles de alta-costura. Ah, Paris! Eu adoro! Christian Dior, la rue 
de la Paix, o Ritz, a Tour d'argent, os Champs-Elyses, o bois de Boulogne, Maxim's... Sinto-me 
em casa. A senhora gosta de Paris?  
- No muito, prefiro o campo.  
A boca da Sra. Figueredo formou um "oh" de espanto.  
- Que horror, o campo! Eu no poderia viver fora das cidades. E de Havana, a senhora gosta?  
- Muito.  
Desta vez, os lbios fizeram um "ah" de alvio.  
Neste instante o xale da mulher alta de branco esbarrou nos ombros nus de La, quando ela inclinou 
seu alto corpo na direo de Rey.  
- Ento, meu pequeno ministro, no cumprimenta mais seus velhos amigos? - brincou ela, envolta em 
um perfume pesado e capitoso.  
- Alfredo! Velho canalha... Pensei que estivesse no Principe!  
- Voc sabe bem, meu amor, que no fico nunca por muito tempo naquele tipo de lugar. Nosso 
querido governante preza muito pela virtude de seus prisioneiros e de seus carcereiros... Mas 
apresente-me seus amigos, sobretudo esta linda dama que est a seu lado...  
La ficou surpresa: nenhum dos homens na mesa levantou-se para saudar a desconhecida, o que 
entre os cubanos no era habitual, pois as mulheres eram normalmente objeto de uma grande 
delicadeza, ao menos formal. Ento, Santiago Rey levantou-se e, muito cerimoniosamente, fez as 
apresentaes. 
- Cara senhora Tavernier, permita-me apresentar-lhe Alfredo Garca Olivera, tambm conhecido 
pelo nome de "a Bela Freddy"... ou ainda, para as damas, "Freddo". Meu caro - acrescentou ele, 
virando-se para Franois -, no h ningum como ele para seduzir as mulheres honestas. J se 
perdeu a conta daquelas que so desonradas por ele ou que se suicidaram por seu amor.  
Estupefata, La os observou, hesitando a compreender. Alfredo inclinou-se sobre ela, esfregando 
seus lbios em seu ombro.  
- Para uma mulher assim to bonita, voc est em m companhia - soltou ele com uma voz rouca.  
O ministro do interior comeou a rir.  
- No o escute, cara senhora, ele adora brincar. Quanto a voc, bujarrone, tem a sorte de eu 
gostar de voc... seno, mandaria voc de volta para a priso! Sente-se, o espetculo vai comear.  
- Obrigado, prefiro passear. Voltarei a qualquer momento. Divirta-se, madame.  
Ainda aturdida, La observava, incrdula, afastar-se a voluptuosa silhueta.  
- Vejo que isso a choca, cara senhora. Saiba que Havana  cheia de surpresas deste gnero. Mas 
Alfredo  sem dvida o maior sucesso de nossas criaturas andrginas.  
- Ela... ele gosta de homens?  
- De jeito nenhum! Ele  o maior provocador de rabos de saia da capital. Ao lado dele, don Juan era 
um beneditino. Garom!  
Champanhe? Usque?  
- No, obrigada. Eu prefiro um daiquiri.  
Os trompetes anunciando o incio do espetculo cobriram o burburinho. O apresentador, com um 
terno bordado de paets, surgiu no palco.  
- "Showtime! Senhoras e senhores, Ladies and Gentiemen. Eu desejo a todos, senhoras e 
senhores, uma excelente noite. Good evening, Ladies and Gentiemen. O 'flopicana, o cabar 
MAIS 
fabuloso do mundo... Tropicana, the mostfabulous night-club in the WORLD... 
apresenta...presents... seu novo espetculo... its new show... onde artistas de renome continental... 
where peformers o! continentalfame... vo transport-los para um mundo maravilhoso... they 
will take you ali to the wondeifui worid... extraordinrio... of supernatural beauty... e belo... 
ofthe Tropics... Os belos Trpicos para vocs, caros compatriotas!... Os trpicos de Tropicana!"  
La, tonta com esse falatrio meio-ingls, meio-espanhol, deixou- se cair no encosto de sua cadeira. 
Ao seu esprito paralisado chegavam apenas alguns trechos desta apresentao que no terminava.  
- "... Amvel pblico, pblico amvel, povo de Cuba, a terra mais bela do mundo... Mas antes que esta 
cortina de prata e lam de ouro que  a glria deste palco prestigioso do Tropicana, o cabar mais 
luxuoso do mundo, abra-se para as mais belas mulheres do Caribe, gostaria de saudar alguns amigos 
deste palcio da alegria:  
a charmosaVivian Smith CoronaAlvarez del Real que faz esta noite 15 anos... Parabns, Vivian... 
Ns vamos cantar o Happy Birthday para Vivian. Vamos! Happy birthday to you! Happy 
birthday to you! Happy birthday to Vivian, Happy birthday to you! Faam um pequeno 
esforo, todos em coro, todos juntos.. "6  
Sob os comandos do homem em lils o pblico no poupou esforos para cantar a plena voz. 
Santiago Rey, Magali Figueredo e os dois gorilas entoaram o refro.  
- "...Ns temos tambm a honra de contar entre nossa seleta platia com a presena do coronel 
Cipriano Suarez Damera, honorvel militar e homem distinto, acompanhado como sempre de sua 
bela, amvel e elegante esposa Arabella Longoria de Suarez Damera. Ns desejamos ao senhor 
uma bela noite, meu coronel, assim como a sua esposa. Percebo ali, naquela mesa, sim ali, perto da
pista, o senador e escrivo poltico Viriato Solaun, freqentador deste templo do prazer, o
Tropicana!" Perto da pista igualmente, senhoras e senhores,
Guiliermo Cabrero Infante, ifrs Tigres hstes.
nosso ministro do interior, Sr. Santiago Rey, um freqentador assduo tambm e, como sempre, em
charmosa companhia.... Bem-vindo, senhor ministro, eu lhe agradeo pelo notvel uniforme de seus 
policiais. Vamos aplaudir o ministro e desejar a ele uma agradvel noite neste lugar de sonhos que  
o Tropicana...  
Cada uma das pessoas citadas, subitamente iluminadas por um refletor, levantava-se, dirigia uma 
saudao ao apresentador, e sob aplausos levantava seu copo para a platia. O rosto vermelho e 
lustrado de Santiago Rey brilhava de satisfao.  
- "E agora.. and now... senhoras e senhores... Ladies and gentiemen... Pblico conhecedor... 
Discriminatory pubiic... Sem traduo... Without transiation... Sem palavras, mas com a msica 
e um saudvel e alegre divertimento... no Tropicana! Que venha a msica! Que venha o teatro!... 
Curtains up!"  
"Ufa!", pensou La quando o apresentador parou. O palco foi logo invadido por uma esquadra de 
belas mulheres de longas pernas cobertas de meias arrasto que confundiam-se com a cor de suas 
peles, suas caudas emplumadas voavam no nariz da primeira fila de espectadores. Os homens as 
observavam, um sorriso congelado em seus lbios.A maior parte das jovens movimentava-se de 
forma mecnica, sem um prazer aparente. Apenas duas ou trs mulatas balanavam-se com 
felicidade. Uma delas lanou um olhar para o ministro, que ficou escarlate. Ele fez um pequeno 
gesto com a mo, ridculo e digno de pena.  
-  Miranda - sussurrou ele para La. - Ela  bonita, no ?  
- Muito - aprovou sinceramente La.  
Os nmeros se sucederam: acrobatas, cantoras, danarinas de tango, uma cantora brasileira... 
entrecortados pelas giris que trocavam de roupa entre cada apario.  
- Com licena - disse La, levantando-se. - Por favor, continuem sentados.  
Ela afastou-se entre as mesas, em busca de um pouco de ar. Era sufocante perto do palco. Apoiada 
contra uma das colunas da entrada do cabar, ela acendeu um cigarro, indiferente aos olhares que a 
despiam. Em seu ntimo, La desejava apenas uma coisa, voltar para casa.  
- Voc abandonou a companhia daquele canalha do Rey?  
Perto dela a pose preguiosa e mais alta que ela uma cabea, Alfredo fumava um grande charuto.  
- Por que voc diz que ele  um canalha?  
- Isso  notoriamente pblico. Ele cobra porcentagem sobre a atribuio de licenas para cada novo 
hotel-cassino, como por autorizao de abertura de cada estabelecimento de jogo nos hotis j 
existentes, como o Nacional, o Capri, o Havana Hilton, o Plaza, o Saint John's... e os outros dos 
quais esqueci. Quanto  sua alma condenada, Ventura, ele passa todas as noites nos cassinos para 
recolher sua porcentagem sobre os lucros...  
- Ventura? - murmurou La.  
- Sim, Ventura. O capito Esteban Ventura Novo e seus assassinos no tm iguais para conseguir 
fundos e extorquir, sob ameaa e at tortura, o dinheiro dos rebeldes. So uns cachorros! E Rey, o 
homem fiel de Batista, fecha os olhos para os crimes do capito. O quevoc tem?... Sente-se mal?... 
Garom, um copo d'gua!  
Alfredo ajudou La a sentar-se.  
- Voc est plida! Quer que eu v buscar o seu marido?  
- No, obrigada, estou bem... Por que voc me falou tudo isso, a respeito de...  
- Fiz bobagem, perdoe-me.  talvez um de seus amigos?  
- Ah, no!  
Sua exclamao fez o travesti sorrir.  
- Voc me tranqiliza. No entanto, para a sua segurana, no conte a ningum o que eu disse. Mas 
por que diabos tudo isso a preocupa tanto?  
- Ventura esteve na minha casa esta noite.  
Alfredo observa-a atentamente. Sob o efeito do calor, sua
maquiagem pouco a pouco estava derretendo-se; sob suas faces e seu queixo aparecia o reflexo
azul de uma barba crescente.
- Seja muito prudente, no saia sozinha e diga sempre onde ir. Em qualquer circunstncia, preste 
ateno a quem voc fala. A polcia de Batista tem espies por todo lado, particularmente entre os 
residentes estrangeiros.  
- Oh, meu Deus!  
- Tome, beba... Desculpe-me, sou apenas um idiota, alarmei voc sem dvida por nada.  
- Oh! - suspirou ela, torcendo as mos.  
- Acalme-se, seu marido est vindo na nossa direo. Se voc precisar de alguma coisa, deixe-me 
uma mensagem no bar do Capri. Voc sabe onde ?... Em nome de Cubita Bella. Pergunte por 
Domenico. Voc se lembrar?... - Em seguida, dirigindo a Franois, que era da sua altura. - Caro 
senhor, o senhor tem uma esposa de-li-ci-o-sa. No precisaria me esforar muito para que eu a 
raptasse - lanou ele provocador.  
- E eu seria ento obrigado a quebrar-lhe o pescoo, por mais bela criatura que voc seja...  
- Ah, continue! Que homem!  assim que gosto deles...  
- V se foder - rosnou Franois, empurrando-o.  
- Ah, o malvado! Bater numa frgil mulher! Socorro! A mim!  
- O que se passa? Ainda faz escndalo? Alfredo, eu j te preveni... - intervm Santiago Rey.  
- Mas no, meu corao, eu estava brincando. Seu amigo imaginou que eu estivesse fazendo a corte 
 mulher dele.  
- Como se voc no fosse capaz! - gritou o ministro. - E melhor ir se barbear, seno embaixo desta 
peruca voc vai assustar as damas... as verdadeiras!  
Alfredo afastou-se com as maneiras de duquesa ofuscada.  
- Desculpe-me, senhor ministro, minha mulher no se sente bem: o calor...  
- Sim, eu compreendo. Estou desolado, minha senhorinha. Espero que o espetculo tenha lhe 
agradado? 
- Foi magnfico, senhor ministro, e a jovem Miranda  maravilhosa;  
 uma grande atriz! - disse La estendendo-lhe a mo.  
- Ah, a senhora tambm acha? Sim,  uma verdadeira artista,  
ela vai longe. Obrigado por terem vindo. Descansem, saberei notcias  
suas.  
Eles voltaram pelas ruas cobertas de rvores dos quarteires  
residenciais. Diante de algumas propriedades, homens armados
 montavam guarda. As 
ruas transversais estavam desertas. No  
Miramar, tudo parecia calmo. Um dos amigos de Ramn estava sentado  
na sombra da varanda, o outro efetuava sua ronda no jardim.  
Eles no haviam notado nada de anormal na vizinhana.  

Captulo Cinco

CHARLLES PRENDEU SUA BICICLETA a um poste diante do subsolo da rua 19, no Vedado, de onde haviam
partido com Echeverra para a tomada da Radio-Reloj. Um policial estava sempre parado na esquina da rua 
19 e da rua B, prximo ao anexo da Companhia telefnica. Como a maior parte de seus colegas, Charles no 
gostava deste lugar porque no possua sada pelos fundos. Ele viu entrar no edifcio Fructuoso Rodrguez, 
agora secretrio geral do Diretrio revolucionrio e que acabara de ter um filho. O ambiente no subsolo estava 
sinistro e tenso. Um odor de comida em decomposio, de tabaco frio e de transpirao empesteava o sombrio 
local. Uma simples lmpada que pendia do teto iluminava fracamente o lugar. Alguns membros do Diretrio, 
sobreviventes ao ataque do palcio presidencial, discutiam, sentados sobre colches. Apesar de seu brao 
ferido, Faure Chomn virava a manivela do estncil, imprimindo a declarao que acabara de fazer, aprovada 
pela maioria e assinada pelos membros do comit executivo. Uma bela jovem, Natalia Bolvar, empilhava as 
folhas. A penumbra e as armas que balanavam nas mos deixavam a atmosfera ainda mais angustiante. Ferido 
na coxa 
durante os combates, esgotado, os olhos profundamente arroxeados, Jos Machado se deslocou 
pesadamente para dar lugar a Charles. Machadito, como o apelidavam afetuosamente seus 
companheiros, no dormia mais. Ele sentia-se mal e comeava a considerar o exlio.  
- Duas semanas para repousar e dormir bem - sonhava ele em voz alta. - Em seguida, eu volto e 
retomo a luta.  
Mary Pumpido trouxera alimentos, cigarros e jornais. No, ela ainda no havia descoberto novos 
esconderijos: as pessoas estavam se tornando desconfiadas. Assim que tivesse conseguido o lugar 
ideal, ela os avisaria; o apartamento da rua General-Lee no lhe parecia mais muito seguro. Julio 
Garca Olivera entrou por sua vez e foi bater no ombro de Machadito.  
- A embaixada do Brasil aceita dar asilo a voc na segunda- feira prxima, dia 22, em um 
apartamento alugado por Gustavo Prez, um amigo de Joe. Voc poder dizer obrigado aAquiles 
Capablanca.  
- O arquiteto?  
- Sim. Amanh, voc se muda. Vamos para a rua Humboldt, no nmero 7, com Gilberto, Fructuoso 
e Juan Pedro.  
- Que bom, no agento mais este buraco de ratos.  
- Charles, voc  o menos observado entre ns. Voc vai vigiar as cercanias da rua Humboldt. Se 
observar qualquer coisa estranha, d o alerta. Se for preso, chore, chame a sua me, diga que  
francs... Eles pensaro duas vezes antes de surrar um estrangeiro.  
O forte sol havia levado o policial a atravessar a rua 19 para refugiar-se na sombra. Ele no prestou 
nenhuma ateno ao jovem que passou de bicicleta diante dele. Charles desceu a rua at diante do 
mar. L, os bares estavam instalados no p da rocha, que dominava o hotel Nacional; por causa da 
sexta-feira santa eles estavam quase todos fechados. Na rua P em frente ao cabar Montmartre, 
ele entrou em um caf freqentado pelos operrios da Sant Motors Company, tambm vazio, O 
barman que cochilava, a cabea apoiada no bar, levantou um olhar sonolento.
- Una Coca-Cola, porfavor.
A custa de um imenso esforo, o homem endireitou-se e abriu a porta do refrigerador atrs de si.
Tateando, ele apanhou uma garrafa e a abriu sobre o balco. Com a mesma lentido, apanhou um 
copo e encheu de gelo. Enfim ele o colocou diante do cliente.  
- Un dlar- murmurou ele.  
Charles pagou e em seguida ficou perto da porta enquanto o bom homem retomava seu cochilo. Ao 
fim de uma hora, ele foi embora sem ter observado nada de inslito. "Voltarei amanh", pensou ele.  
No Miramar, ele encontrou La contando uma fbula de La Fontaine a Adrien.  
- Vou tomar um banho - disse ele.  
Algum tempo mais tarde, La entrou em seu quarto.  
- Um barco parte amanh  tarde para Miami. Ns o tomaremos juntos, com Carmen e sua irm. A 
embaixada cuidou dos vistos.  
- Impossvel! Meus amigos precisam de mim.  
- E eu preciso que voc esteja vivo! Voc ficar em Miami o tempo que for preciso para que 
esqueam de voc. Franois se entendeu com um correspondente de Ramn Valds que aceitou 
alojar voc. Voc trabalhar com o sr. Duval, um advogado francs casado com uma amrico-
cubana.  
- Vejo que vocs organizaram tudo! Poderiam ao menos ter pedido minha opinio...  
- Desculpe-nos, mas era urgente...  
- E voc, quanto tempo vai ficar em Miami? - retomou ele, depois de uma pausa.  
- O menor tempo possvel, as crianas precisam de mim.  
- Eu tambm, eu preciso de voc - murmura ele.  
La atira-se em seus braos.  
- Vou sentir sua falta, meu grando, mas tenho muito medo de que acontea alguma coisa.  
- Tem notcias do pai de Carmen? 
- Nenhuma. Sua mulher multiplica esforos, sem sucesso. J a levaram para todos os lugares, muito 
polidamente.  
- E Armando?  
- No sei. Ele vai bem, eu acho... Prepare os livros que voc deseja levar; eu vou arrumar suas 
roupas.  
- Como se chama o barco?  
- Santa Carmen, eu acho. Ramn Valds vem jantar. Ele nos acompanhar at o barco - 
comunicou ela, deixando o quarto.  
Um ambiente moroso planou sobre o jantar. Cada um permaneceu mergulhado em seus 
pensamentos. Charles no via nenhuma forma de prevenir seus amigos do Diretrio de sua partida 
precipitada. Eles haviam lhe confiado a vigilncia da rua Humboldt para o dia seguinte, ele deveria, 
custe o que custar, terminar sua misso. Amanh, bem cedo, ele os encontrar na rua 19 para avis-
los. Em Miami, ser que poderia ser-lhes til?  
Charles deixou a casa de Miramar antes do raiar do dia. Ele estava munido de seu passaporte e de 
uma bolsa esportiva na qual havia jogado uma escova de dentes, uma camisa, uma cueca e meias. 
No ltimo momento, ele colocou na magra bagagemjadis etNagure, de Paul Verlaine, que La 
acabara de dar-lhe de presente. Antes de guard-lo, ele o havia aberto ao acaso e caiu sobre este 
verso sublinhado de lpis azul:  
 vida  triunfante e o ideal est morto..."  
"O ideal est morto" havia sido sublinhado com raiva. Mas La enganara-se, o ideal no estava 
morto, apenas a morte poderia matlo. Ele escreveu um bilhete comunicando que estaria na partida 
do barco. Os amigos de RamnValds, sempre de guarda na varanda, no se espantaram ao v-lo 
agarrar sua bicicleta e atravessar o gramado; nenhuma instruo lhes havia sido dada a respeito 
dele.  
Nesta vspera de Pscoa, a avenida Almendares estava deserta.
Operrios e funcionrios ainda dormiam, parecendo aguardar a hora de irem para a praia. Os
festeiros mais atrasados acabavam de ir dormir e apenas algumas mulheres j entediadas iam 
fazer a faxina dos escritrios de grandes companhias americanas ou na casa dos patres sempre 
insatisfeitos. Na Avenida de La Paz, o sol levantava- se como se a contragosto. Sobre a ponte 
cruzando o rio Almendares, trs soldados desgrenhados engoliam um caf que um ambulante lhes 
havia servido. Perto do cemitrio do Coln, os mercadores de flores comeavam a instalar suas 
barracas com gestos lentos; os gritos e as gesticulaes seriam para mais tarde... Ele tomou a rua 
Zapatta e desceu o Paseo; jardineiros arrumavam os ramos de flores de onde partia um odor de 
poeira molhada. Exceto um policial, mais ningum; melhor esperar que a rua se animasse um 
pouco. Ele continuou seu caminho em direo ao mar, pedalou suavemente at a rua O. Na 
Humboldt, tudo estava pacfico. O caf onde ele havia estado na vspera ainda no estava 
aberto. Ele teve desejo de um chocolate quente e lembrou-se de que no hotel Sevilla havia 
tomado um bom, em companhia de Isabel e de Carmen. Os militares eram ainda numerosos nas 
cercanias do Palcio presidencial. Diante do hotel, os motoristas de txi esperavam seus 
primeiros clientes. No ptio, uma s mesa estava ocupada. O chocolate ali estava to saboroso 
quanto em sua memria, e os pequenos brioches deliciosos. Ele reprovou-se pelo prazer que 
estava sentindo ao pensar em seus camaradas trancados no infecto subsolo da rua 19. Ele pediu 
um caf, fumou um cigarro. Em volta dele, turistas americanos instalaram-se e comearam a 
conversar barulhentos. Ele pagou e saiu; eram oito e meia da manh.  
Ele apanhou sua bicicleta para voltar  rua Humboldt. Nas janelas, as faxineiras se 
cumprimentavam sacudindo seus lenis. Embaixo, cachorros fuavam na sarjeta. O caf tinha 
sido aberto e, quando chegou l, Armando Marco Rodrguez, o Marquitos, entrava no nmero 7 
da rua. Charles iria abord-lo quando percebeu dois policiais que iam na direo dele. No era o 
momento de se fazer notar: em um vigoroso golpe de pedaladas ele afastou-se. Sobre a 
Rampa, as garotas e rapazes que faziam charme ali mostravam-se ainda mais numerosos. Mais 
longe, policiais montavam guarda diante da Radio-Reloj e nas cercanias dos jardins Coppelia, 
vendedores de sorvetes e doces assumiam suas esquinas. Contavam-se agora dois agentes de 
polcia estacionados diante do edifcio da Companhia telefnica. Eles discutiam com veemncia sem 
prestar a menor ateno ao que se passava perto deles. Charles escorregou para a entrada do 
imvel e bateu, segundo o sinal combinado, na porta do subsolo.  
- No h ningum... Eles partiram e no me disseram para onde... Talvez para a Escola de Farmcia 
- disse o guardio atrs dele, sua voz arrastada.  
A Escola de Farmcia era um dos acuartelamientos dos clandestinos do Diretrio que, quase a 
cada dia, deveria mudar de lugar. Ela estava situada entre a rua Galiano e a rua San Nicols, a 
pouca distncia do hotel Sevilia. Ele parte novamente nesta direo mas faz um desvio a fim de 
evitar suspeitas por percorrer to freqentemente o mesmo caminho. Em um corredor do grande 
prdio, o diretor da escola o reconhece por alguma vez j t-lo visto em companhia dos membros de 
seu grupo. Ele lhe confia que, at onde sabia, seus amigos no haviam passado a noite no interior do 
prdio. Onde, ento? Ele ignorava.  
O resto da manh foi apenas de idas e vindas entre os diferentes esconderijos que ele conhecia. 
Mas, apesar de todos os seus esforos, no pde estabelecer o mnimo contato com aqueles que o 
haviam encarregado de vigiar as cercanias da rua Humboldt. Sem mais diretrizes, ele decide 
respeitar as instrues e, como na vspera, coloca-se no seu posto de observao no caf da rua 
PJ havia chegado a hora do almoo e algumas mesas estavam ocupadas. Duas grandes mulheres, 
com traseiros arredondados e usando saias justas, apressavam-se no servio. Charles pede uma
poro de tostones e uma
Coca-Cola. Com sua refeio terminada, nada a observar de suspeito, ele decide ir  livraria da
rua Carlos III que s vezes servia de caixa postal para as cartas do grupo. Quando sai para a rua, 
o sol estava forte, eram quase trs horas. Diante da loja, um jovem olhava avitrine. Charles 
reconheceu Marquitos. O que ele poderia estar fazendo aqui? E como conhece este lugar? 
Charles fica imvel a alguns metros dele, escondendo-se atrs de uma rvore. Marquitos deu uma 
olhada em volta, em seguida afastou-se com passos rpidos, atravessou a rua e entrou no 902. 
Alguns minutos mais tarde, ele voltou ao lado do chefe de polcia, o temido Esteban Ventura. O 
corao batendo acelerado, Charles atirou-se novamente para trs do tronco. Os dois homens 
dirigiram-se para um Plymouth estacionado ao longo da calada, e entraram no carro. A 
perturbao tomou conta de Charles:  
o que fazia o amigo de Joe Westbrook em companhia deste torturador? A desconfiana que 
Fructuoso e Machadito testemunharam pelo jovem amigo de Joe voltou-lhe  memria. Ele 
deveria preveni- los o mais rpido possvel. Decidiu ir at o nmero 7 da Humboldt. Na esquina 
das ruas San Francisco e San Martn, ele foi parado por uma barreira da polcia que s o tinha 
observado tardiamente. As foras da ordem procediam ao controle de identidade de todos os 
passantes, automobilistas, ciclistas ou pedestres. Um funcionrio examinou atentamente seu 
passaporte e o interrogou sobre as razes de sua presena naquele quarteiro. Em seguida, ele 
chamou seu superior, que por sua vez interrogou o jovem. Mais de duas horas se passaram; eram 
cerca de cinco e meia da tarde quando ficou novamente livre para seguir caminho. 
Asperseguidoras o ultrapassavam, sempre com as sirenes ligadas.  
Quando ele chegou perto da rua Humboldt, outros carros da polcia barravam o acesso. Eram 
quase seis horas em seu relgio. Esteban Ventura desceu de um dos carros, pistola na mo, 
fazendo sinal para que seus homens o seguissem. Eles subiram rapidamente at o apartamento 
201, derrubando a porta a golpes de coronhadas. Quatro membros do diretrio estavam ali, 
semivestidos: Joe Westbrook, Fructuoso Rodrguez, Juan Pedro Carb e Jos Machado 
Rodrguez. No tumulto que se seguiu  chegada dos policiais, Joe conseguiu se eclipsar, em seguida 
ganhando o exterior do apartamento do trreo onde morava apenas uma velha senhora. Assustada, 
ela deu um grito ao v-lo surgir no meio de sua sala. Joe a tranqilizou como pde e suplicou que ela 
dissimulasse tudo. Tremendo, ela assentiu com a cabea, incapaz de articular uma palavra. 
Rapidamente, no entanto, golpes atingiram a porta do apartamento. "Polcia!", gritaram do outro 
lado. Westbrook resolveu no instante no expor a velha mulher. Ele pulou do apartamento, 
empurrando Ventura que o enfrentava no vo da porta, e percorreu alguns metros no corredor antes 
de ser atingido por uma rajada de metralhadora que veio da escada. Por seu lado, Juan Pedro havia 
tentado fugir na direo do elevador. Ele foi crivado de balas no instante em que o alcanava. De 
um mesmo salto, Machadito e Fructuoso foram jogados atravs de umajanela. Eles caram do outro 
lado, no estreito corredor de uma agncia de automveis, Sant Motors Company, que uma grade de 
barras de ferro fechava. Em seu pulo, Machadito fraturou os dois tornozelos. Apesar da dor, ele 
arrastou-se at a entrada da passagem. Atrados pela confuso, os empregados da empresa 
correram e, descobrindo os dois homens feridos, pediram que esperassem enquanto iriam procurar a 
chave. Fructuoso retomou a conscincia, mas no se levantou. Do outro lado da grade, os 
empregados tentavam abri-la quando foram violentamente afastados pelos policiais. Um deles 
introduziu o cano de sua metralhadora entre duas barras da grade.  
- No nos mate! -gritou Machadito. - Estamos desarmados. Uma rajada atingiu-o no peito, 
enquanto uma segunda abatia  
Fructuoso. Este cai pesadamente enquanto aproximava-se de seu companheiro, arrastando-se.  
Pendurados nas janelas, os habitantes da rua observavam aquele pouco habitual choque de foras. 
Esteban Ventura entrava e saa do imvel sorrindo, muito satisfeito. Petrificado, Charles viu os 
corpos ensangentados de seus amigos que eram arrastados at a calada pelos cabelos. Das 
janelas, os vizinhos gritavam sua revolta. indiferentes 
aos gritos de protesto, os agentes arrastaram os cadveres at a esquina da rua, a alguns
metros do lugar onde estava Charles. A passagem deles, as mulheres faziam o sinal-da-cruz. Uma 
curta rajada de uma arma automtica cortou a fachada dos imveis, obrigando os espectadores a se 
abrigarem. Uma ambulncia atravessou as barreiras e veio parar perto do grupo de curiosos ao qual 
Charles havia se misturado. Colocaram os corpos na traseira. Apenas o rosto deJoe permaneceu 
intacto. "O francs", como Joe tinha o costume de cham-lo gentilmente, contemplou longamente o 
rosto que, no momento, parecia dormir. Nas lgrimas que ele tentava afastar, Charles jurou ving-lo.  
E enquanto prendiam tambm os operrios que haviam tentado socorrer os jovens revolucionrios, 
Charles continuava chocado olhando os veculos das foras de ordem deixarem pouco a pouco o 
local.  
- iHombre, no te quedes ah! - gritou-lhe um desconhecido de uma certa idade. - O quieres que a 
ti tambin te ileven?  
Ele afastou-se mecanicamente, empurrando sua bicicleta ao lado do corpo. Um momento mais 
tarde, se encontra na rua Infanta, no longe dos locais do jornal Carteles. A publicao saa no 
domingo e alguns jornalistas e secretrios ainda trabalhavam. Todos j estavam a par da fuzilaria da 
rua Humboldt. Alguns no mais escondiam sua clera; foi ainda pior quando Charles os colocou a 
par dos acontecimentos. As mulheres choravam e os homens viravam o rosto para esconderem a 
emoo. Carlos Franqui ainda ignorava tudo: ele encontrava-se fora, em uma reportagem em 
Santiago.  
A noite j havia cado quando Charles colocou-se em marcha para o porto a fim de encontrar-se 
com La, Suzel e Carmen.  
Um carro levando a bandeira francesa acabara de parar na altura da passarela. desceram, observando imediatamente os jovens cubanos que subiram a bordo com olhares 
angustiados para eles. Por sua vez, o Pontiac de Franois estacionou perto do 
carro. Ao ver Charles, La ficou imvel por um instante, depois correu em sua direo. Ela apertou-
se contra ele com furor.  
- Eu tive tanto medo!  
Como ele ia falar, ela colocou os dedos sobre seus lbios.  
- No diga nada, estou a par. O ministro do interior anunciou que perigosos criminosos acabam de 
ser eliminados...  
Franois aproximou-se dele e estendeu-lhe a mo.  
- V, voc retomar a luta mais tarde. A causa pela qual voc escolheu lutar  justa. Mas, neste tipo 
de combate,  preciso saber recuar a fim de se preparar melhor. No veja neste exlio forado uma 
punio, mas um tempo para a reflexo. Coloquei em sua bagagem algumas obras que podem ajudar 
voc a compreender as diferentes correntes polticas e revolucionrias que agitam os pases da 
Amrica Latina... Seja prudente nas conversas que poder trocar com os exilados cubanos: alguns 
esto  custa de Batista; mesma recomendao com relao a alguns americanos que podem 
pertencer  CIA...  
Ramn Valds o abraou. Charles atravessou a passarela enquanto La e Franois se abraavam.  
- Voc tomar conta das crianas direitinho, no ?  
Franois, o adido da embaixada e o espanhol observaram longamente o barco se afastar do porto. 
Ele entrou no canal quando um carro da polcia chegou correndo ao cais, freando bruscamente na 
proximidade para deixar uma nuvem de poeira. Esteban Ventura saiu do carro, os olhos injetados de 
sangue, o hlito empestiado de rum.  
- Onde esto sua mulher e seu filho? - gritou ele.  
- E a mim que est fazendo esta pergunta? - inquiriu Franois com um tom altivo.  
Ao mesmo tempo, ele acendia preguiosamente um cigarro.  
- A sra. Tavernier tem o prazer de acompanhar seu filho a Miami - explicou com um estilo muito 
"velha Frana" o adido da embaixada.  
- E vocs vieram acompanh-los, no ? - espumava Esteban.
- Sua excelncia, estando impedida, me pediu expressamente que viesse saudar a sra. Tavernier em
nome dele.  o mnimo, o senhor sabe...  
A sirene do Santa Carmen anunciou que o barco acabara de deixar o canal e seguia agora para o 
alto-mar.  
Vermelho de uma raiva furiosa, Ventura voltou para seu carro.  
- Temo pelos infelizes que tero de v-lo esta noite - deixou escapar o adido, estendendo a mo a 
Tavernier. - Coragem - acrescentou ele.  
- Obrigado por tudo o que o senhor fez. Diga ao sr. Grousset que  com prazer que jantarei amanh 
na embaixada.  
Os trs homens separaram-se e retomaram seus carros. Franois deu a partida, dirigiu por um 
tempo ao longo do canal, em seguida diminuiu a velocidade ao chegar ao Malecn. Por um 
momento, ele observou as pequenas luzes do Santa Carmen, que sumia na obscuridade do mar. 

Captulo Seis

A ANGSTIA DE CHARLES, de Carmen e de Suzel era tal que os trs jovens
descobriram-se de incio em plena incapacidade de se organizarem. A cidade era freqentada por 
velhos riqussimos em busca de carne fresca e por exilados cubanos que tentavam reconstituir o 
modo de vida que haviam conhecido na ilha. Carmen e Suzel Pineiro haviam encontrado refgio na 
casa de um amigo de seu pai, o doutor Guiliermo Navarro Luna, um psicanalista que havia 
enriquecido cuidando de prsperas vivas americanas. Ele vivia em companhia da esposa em uma 
magnfica propriedade no bairro residencial, longe das zonas suburbanas e superpopuladas onde vivia 
a maior parte de seus compatriotas refugiados. Ele mantinha pouca relao com eles. Jovem 
estudante sem dinheiro, ele s tinha conseguido continuar seus estudos graas  generosidade do pai 
do doutor Pineiro, tambm mdico. Agradecido  famlia Pineiro, foi impossvel para ele recusar a 
hospitalidade s duas filhas de seu amigo. Quanto a Charles, ele havia encontrado alojamento na 
casa do correspondente de Ramn Valds, tambm espanhol, Lazaro Cardenas. Cardenas era um 
homem corajoso, dotado de um 
carter jovial, divertindo-se com tudo, to feliz que era por ter escapado das prises franquistas.  
Passados apenas dois dias depois de sua chegada, Charles reencontrou Faure Chomn, que aprontava-se para 
embarcar para Cuba. Chomn permanecia muito abatido pelo desaparecimento trgico de seus camaradas e 
culpava-se por no estar junto deles no ltimo momento. Com o dinheiro recolhido entre os exilados ele 
dedicava-se no momento a procurar armas destinadas a caar o ditador e a destruir o mundo burgus, alegre 
com o fracasso do ataque ao Palcio presidencial e com a morte do lder da FEU.  
- "A classe exploradora e dirigente desta sociedade pervertida" - declarava ele a quem quisesse ouvir - "ps-se 
totalmente nua em praa pblica, em um ato de confisso onde parecia clamar em voz alta: Ns estamos em 
grande nmero por sermos responsveis! Sim, ns somos os tiranos, os exploradores, os ladres, os 
assassinos, os cocainmanos, os maconheiros! Sim, somos ns e nos vejam com todo o dinheiro, todos os 
canhes escarrando o sangue dos mortos do povo! Que ningum se mexa! Olhem como somos fortes! Batista 
no est sozinho! Nunca a burguesia ser capaz de abrir suas portas a seu inimigo mortal: a insurreio 
armada. Nenhum combatente pode colocar-se ao abrigo em nenhuma de suas pequenas casas, a menos que 
entre com a metralhadora em punho. Os homens de ao que vivem na clandestinidade encontram-se 
abandonados nas ruelas, nas cabanas dos pobres, mesmo que o exrcito rebelde esconda-se nas montanhas e 
entre os camponeses. No, jamais encontraro refgio nos palcios da burguesia, jamais veremos um 
combatente partilhar o po de um burgus!"  
Em Miami, La comprou a scooter com a qual Charles sonhava. Ele j no experimentou a alegria esperada; 
alguma coisa dele havia ficado pelas caladas de Havana. A bordo do Santa Carmen, foi soluando que ele 
havia contado o assassinato de seus companheiros. Nos dias que se seguiram ao desembarque na Flrida, ele
levantava-se a cada noite em meio a crises de choro e de angstia que apenas a presena de La
conseguia acalmar. Esta havia decidido telefonar para Franois e dizer-lhe que retornaria to logo
julgasse que Charles teria condies de assumir sozinho sua nova vida. Por um instante ela havia
pensado em mand-lo de volta para a Frana, mas ele ops-se veementemente. Depois ele superou 
seu sofrimento para ajudar Carmen, que revivia sem cessar aviolao da qual havia sido vtima. 
"Como eles so jovens!", pensou La, comovida pela solicitude que demonstravam um em relao 
ao outro.  
O trabalho com o sr. Duval revelou-se mais interessante do que ele imaginara, at mesmo 
compensador, e contribuiu para distra- lo de seus pensamentos sombrios. Mais tranqila, La deixou 
enfim Miami, em meados de junho, prometendo visit-lo com as crianas no Natal.  
Quando ela voltou  casa de Miramar, Adrien e Camile manifestaram sua alegria com fortes gritos e 
abraos. Mas com a pequena Claire foi diferente. Ela a empurrou, dizendo-lhe:  
- Por que voc partiu? Voc, malvada!  
Quando ela tentava apanh-la, a menininha gritava e corria refugiando-se entre os braos do pai, ou 
o mais freqente, nos de Philomne, que a pegava no colo, acariciando-a e mal dissimulando sua 
satisfao. Franois consolava La mostrando-se um amante exigente e um marido pronto a 
satisfazer seus desejos mais extravagantes.  
Havana banhava-se em uma atmosfera de banhos turcos. Nua em sua cama, La contemplava as 
ps do ventilador que giravam, presas ao teto. A musselina do mosquiteiro tremia como uma cortina 
em uma leve brisa, O suor surgia entre os seios da jovem mulher, que virava-se e revirava-se sobre 
os lenis amassados  procura de um pouco de bem-estar. Desde seu retomo, ela lutava contra 
uma depresso profunda, incapaz de se interessar por muito 
tempo por qualquer coisa. No entanto, os momentos com o homem que ela amava revelavam-se 
deliciosos. Seus corpos se compreendiam sem a necessidade de palavras. Apesar de tantos anos 
passados em se tomarem nos braos, se acariciarem, o desejo de ambos permanecia intacto e 
continuava a maravilh-los. Mas Franois havia sido obrigado a voltar a Pinar dei Ro, deixando-a 
sozinha em companhia de seus pensamentos taciturnos.  
Para dispersar tais pensamentos, ela atirou-se a uma pilha de jornais. Santiago Rey ali recebia as 
honras do Monde sob o ttulo:  
"Atentados, sabotagens e prises entre as tropas regulares e os rebeldes de Fidel Castro." Mais 
adiante no artigo, o ministro do interior anunciava a priso de 35 terroristas acusados de compl. Um 
outro nmero reportava que dezesseis insurgidos desembarcados do iate Cori nthia , na baa de 
Cabonico, haviam sido mortos em companhia de seu chefe, Calixto Snchez White. Desde o 31 de 
maio, o presidente Batista havia assumido pessoalmente o comando das operaes de luta contra os 
rebeldes.  
As notcias que recebiam da Arglia eram tambm ruins: atentados, massacres, torturas constituam 
o destino cotidiano dos muulmanos assim como dos ps-negros, chamados osfellaghas. A famosa 
batalha de Alger que Franois havia acompanhado com paixo havia sido encerrada com centenas 
de mortos de ambos os lados. A censura impedia que as cartas de soldados franceses chegassem s 
suas famlias, j que falavam de unies com os rebeldes, da morte de um companheiro ou de um ato 
de tortura. A partir da famosa carta na qual Jean Lefvre havia denunciado as prticas de 
paraquedistas do general Massu, chefe da 10 diviso pra-quedista,  qual Robert Lacoste - o 
ministro residente - havia confiado a misso de manter a ordem, La no havia recebido mais 
nenhum sinal de sua parte. De seu lado, a embaixada da Frana havia transmitido a Franois 
Tavernier uma missiva do general Salan, marcada 
com o selo de "Confidencial", que ele estava com dificuldades de interpretar:  
Meu caro Tavernier  
Mesmo em sua ilha longnqua, suponho que esteja a par dos acontecimentos na Arglia e 
creio que sabe o suficiente para adivinharo que voc perde em no tomarparte deles. Desde 
minha nomeao para o comando das ForasArmadas, em novembiv de 1956, no parei de 
trabalhar apesar das emboscadas das quais meu caminho est coberto. No ltimo 16 de 
janeiro, como de hbito, trabalhava no escritrio da praa de isiy. Deixei-o j  noite indo 
encontrar- me com o si: Robert Lacoste no governo geral, quando um enorme barulho, 
como nunca havamos ouvido emAlger abalou todo o edificio. O ministro grita: comandante Rodier est ferido." Coloquei meu quepe, entrei em meu carro e segui 
correndo para a regio X Minha mulher esperava-me na porta e me disse: 'Rodier est 
morto." Quando cheguei em meu escritrio a eletricidade havia sido cortada e as lmpadas 
fluorescentes jogavam luz sobre um cmodo onde no havia vidro nas janelas. Diante de 
minha mesa, sobre o tapete, uma ogiva de granada queimava. No exato lugar onde se 
encontravam meus papis secretos havia se afundado, destacado da parede, um bloco de 
granito. Entrei no escritrio do gabinete militar O espetculo era atroz. Em um canto do 
cmodo, atrs de sua escrivaninha, Rodier tinha uma enorme ferida no flanco esquerdo, o 
peito aberto. O pobre coitado quase havia sido partido ao meio. Ainda que a guerra me 
tenha com freqncia mostrado cadveres terrivelmente mutilados, no pude esquecer este 
espetculo.  um milagre que no tenha havido outras vtimas. No entanto, no era o 
comandante Rodier que era visado pelos atiradores emboscados no edifcio em frente, mas 
eu, general Salan. Foi o que confirmei atravs do encontro que tive alguns dias depois com 
o comandante Henry, chefe da segurana militar e tenente-coronel de Schacken, chefe de 
meu Segundo Bureau. "Meu general" me disse
um deles, depois do atentado com a bazooka, "torna-se indispensvel que o senhor esteja ao
menos a par dos boatos que correm, por mais desagradveis que o sejam. Desde o dia 15 de 
dezembro ltimo, o senhor torna-se aqui o objeto de uma campanha de dfamao cuja 
origem situa-se em Paris: o senhor  tido, com Mends France, como o homem que liquidou a 
Indochina, e a sra. Salan  apresentada como a prpria irm do antigo presidente do 
conselho. Comandante-em-chefe na Indochina, o senhor teria feito pra-quedistas saltarem 
sobre posies solidamente manhidas pelos viets,para quefossem massacrados. O senhor foi 
designado como o responsvel pela perda de Dien Bien Pku e como aquele que entrega a 
Indochina a Ho ChiMinh. O senhor ento s poderia ter vindo a Arglia para 
entregaropasaoFLN... Esta odiosa campanha tocou pessoas que no o conhecem e que, 
muito sensveis aos atentados, so levadas a aceitar todos os falsos rumores. Ns estimamos 
que nem o FLN nem o PCA sejam responsveis pelo atentado, mas que se trate de argelinos 
dirigidos de Paris, O que  certo  que estas calnias s comearam a circular depois da 
visita do general Cogny e dos civis que o acompanharam, no ltimo 15 de dezembro. "Ao 
escutar esta exposio,fiquei sem fala. Acusarem-me de ter liquidado a Indochina e de querer 
"abandonar" a Arglia eram calnias odiosas que ultrapassavam tudo o que eu poderia 
imaginar Infmia igual me atingia em minha reputao de chefe, eu que sempre protegi os 
meus homens!  
No dia seguinte, reuni meu estado-maior e coloquei os oficiais a par: Eles j estavam 
informados e me garantiram sua confiana. Os comparsas mais o chefe, dos 
quais no direi o nome, foram presos, e encontram-se em Paris. Alger uma 
verdadeira merda!A FLN usa trs moas para colocar bombas nos cafs, nos 
cinemas, nos estdios. As patrulhas da noite se intensifcam e trabalham 
vinte e quatro horas, batendo nas casas e convidando os habitantes a no 
carem no jogo da FLN. Massu, Bigeard e seus "leopardos "fazem um bom 
trabalho. Infelizmente, em Paris somos objetos de ataques pessoais  
e jornalsticos respondendo aos apelos angustiados dos chefes rebeldes que sentem o perigo 
que representa para eles a ao da DP e das unidades destacadas. A FLNficou 
decepcionada pelo fato de que o voto final da ONU, ainda que prudente, no nos foi 
desfavorveL Isso provocou uma certa confuso entre nossos adversrios. At mesmo 
emAlgei as divergncias -oh, bem pequenas- tambm surgem. No exrcito, os casos de 
renncia forma de luta que somos obrigados a levarpermanecem nfimos. Um nico, no 
entanto, emana de um general: Bollardire, em completo desacordo com o general Massu, 
seu chefe hierrquico. Eu lhe dei uma permisso de trinta dias. Ele traiu minha confiana, 
escrevendo em um jornal, que vocs devem ter lido, as razes de sua oposio. Ns 
conseguimos algumas vitrias sobre o terrorismo. Bzgeard prendeu LarbiBen M'Hidi, um dos 
chefes do FLN. Na imprensa, o porta-voz Robert Lacoste anunciou que ele havia se 
enforcado em sua cela com a ajuda de pedaos de sua camisa. No foi nada disso: ele 
foifuzilado. Bigeard, que tinha simpatia e at mesmo respeito por ele, deu-lhe honras 
militares. Mas Ben M'Hidi, adversrio honorvel, foi sucedido por um proxeneta notrio, 
Yacef Saadi, tipo do verdadeiro malandro, sem grande coragem. Ele sabe utilizar as garotas, 
que ele escolhe belas e provocantes. A priso de Me Ali Boumendjel, em uma casa onde 
numerosos documentos foram descobertos, permitiu ao coronel Fossey-Franois 
remontarvrios filamentos da rede de transmisses FLN. Infelizmente, com o objetivo evidente 
de escapar  justia, Boumendjel se matou, em 23 de maro, depois de uma primeira tentativa 
fracassada alguns dias antes. O fato  grave, porque o advogado era detentor de 
informaes preciosas. Alm do mais, nos repreende por termos levado Boumendjelao 
suicdio, o que  ainda maisfalso se pensarmos que ns ainda tnhamos necessidade de suas 
revelaes, pois as primeiras que conseguimos recolher prometiam muito. A esta acusao 
sem fundamento contra nossa ao soma-se uma outra, aquela do reitor da faculdade de
direito de Alger si:
Peyrega. Em uma carta de 16 de maro endereada ao FranceObservateur que foi
reproduzida tambm no Humanit e no Monde,
ele acusa os pra-quedistas de execuo sumria de dois muulmanos, em 26 de janeiro de
1957, na rua Chevalier-de-Malte. O ministro da defesa nacional requisitou imediatamente
uma investigao confiada ao IGA ME deAlgere ao procurador da Repblica. A investigao
terminou por provar que o relato, viesse do Peyrega ou do Humanit, era uma verso falsa e
difamatria. Uma crtica minuciosa dos documentos e das testemunhas reunidas rapidamente
permitiu separar o verdadeiro do falso. A investigao determinou que no foi um pra-
quedista quem atirou, mas um militar do 9 destacamento, que foi identflcado e deu conta por 
escrito de seu comportamento, e que no se tratavam de dois muulmanos, mas de apenas um, 
enfim, que este acabara de cometer um atentado e que fugia sem responder sem dvida, aos 
interrogatrios de costume. Estes ataques abertos ou dissimulados produzem, sobre o moral 
da tropa, uma pssima impresso. Eu tambm j enderecei, no dia 28 de maro, uma 
mensagem ao ministro da defesa. No dia 5 de abril, ao resultado do 
conselho dos ministros que est sob a presidncia do si: Ren Coty, o 
ministro residente Robert Lacoste, presidente do conselho, me telefonou para 
me dizer da satisfao do governo com os resultados obtidos: o progresso da 
situao militar reduo macia, na Arglia em particular do nmero de 
vtimas, que passou de 130 em janeiro para 32 em maro, o retorno da 
confiana da populao muulmana. O conselho foi obrigado a renovar ao 
exrcito e  administrao a segurana da gratido da nao; ele pretende 
protestar com indignao contra uma campanha organizada pelos inimigos 
da Frana, que tende a mostrar nosso exrcito e nossa administrao civil 
empregando sistematicamente, na Arglia, mtodos repressivos contrrios ao 
respeito pela pessoa humana e proclama, ao contrrio, a admirao do pas 
com relao aos setecentos mil homens que, em um ano, sucederam-se na 
Arglia para garantiralio retorno paz e a amizadefranco-muulmana, 
enquanto alguns os querem apresentar como torturadores.  
Inspetor geral da administrao em misso extraordinria, superprefeito assumindo ento os poderes civis e 
militares. 
Nesse meio tempo, houve um acontecimento importante: a viagem do general De Gaulie ao 
Saara, em 11 de maro. Ele chegou precisamente s dezesseis horas em seu Skymaster 
presente do general Eisenhower em companhia do coronel Bonneval e do srs. Guichard e 
Foccart. Ns voltamos a Colomb-Bchar onde nos esperavaRobertLacoste. Depois de 
depositarmos flores no monumento da Cruz de Lorraine, o generalfoi para diante da multido 
e apertou vrias mos. Seu encontro com Lacoste terminado, ele me recebeu. Eu nunca tinha 
tido, at aquele momento, um encontro prolongado com ele. " preciso derrubar a rebelio ' 
disse-me ele. "No se deixe perturbar pelas crticas parisienses/Elas sempre foram meu 
problema, antigamente, efui terrivelmente atacado pela imprensa da poca. No estou 
preocupado. Faa o seu trabalho e cumpra sua misso semfraqueza/"Ele acrescentou  
queima-roupa: "Porque o senhor me desobedeceu com o generalLeclerc na Indochina?Por 
que vocs atravessaram o 1 6 para lelo para desembarcarem em Hazhong?" Eu no 
compreendi e lembrei-lhe que tinha sido ele mesmo quem havia prescrito ao generalLeclerc a 
ida a Hani, em agosto de 1946, quando ainda encontrava-se em Kandy. O general nada 
respondeu, balanando a cabea em sinalde negao. Ele retomou apalavra e me deu um 
golpe: "Ento, Salan, este caso da bazooka... Sem dvida  preciso descobrir sua origem nas 
sanes que voc imps aos soldados, na Indochina. Desde ento, eles guardam 
ressentimento disto." Eu me desconcertei, mas rapidamente me recuperei: "No, meu general, 
no se trata realmente de homens da Indochina, eles so bem apegados a mim, mas isso em 
vista de um srdido assunto poltico. Quando o processo comear acredite-me, o senhor 
descobrir porsi mesmo toda agravidade. " Ogeneralme atirou um olhar duro, em seguida, 
como se nada tivesse acontecido, ele me disse: t mais tarde, no jantar."  
A partir de ento, no parei de repensar nesta conversa...  
Voc, sem dvida, se pergunta, lendo esta longa carta, onde quero chegar.  simples: junte-se 
a mim emAlger Voc no pertence nem ao exrcito nem  poltica. Voc  um homem livre, 
espcie rara nos
nossos dias,  preciso de um civil do seu carter Se me der sua palavra de aprovao,
encontrarei um meio de trazer voc para a Arglia, como encontrei o meio que lhe permitiu partir  procura de sua mulher pelo Tonkin. Responda-me atravs de carta. 
Meus respeitos  sua encantadora esposa,  
Salan.  
Franois Tavernier pousou, perplexo, as folhas sobre sua escrivaninha. Sua leitura lhe fez mal. Era 
preciso que o general Salan estivesse muito perturbado para t-las escrito e as enviado. Pela 
imprensa, Tavernier havia acompanhado o desenvolvimento do que ela chamava de "o caso da 
bazooka" , assim como a batalha de Alger. Mais recentemente ele havia lido no L'Express o artigo 
"Tenente naArglia" ,deJean-Jacques Servan-Schreiber, e acompanhado as polmicas a respeito da 
tortura praticada por alguns elementos do exrcito francs, tanto no Tmoignage chrtien quanto 
noHumanit. Como no caso da Indochina, ele acreditava que a Frana no tinha mais nada a fazer 
na Arglia.  claro, permanecia o problema dos franceses instalados por l h duas ou trs 
geraes e que consideravam esta terra como deles. O que pensava o general De Gaulle de tudo 
isso? No havia muitos pronunciamentos dele na poca. Desde 1952, ele havia multiplicado suas 
viagens a frica,  Guiana,  Nova-Calednia, a Madagascar, a Djibouti, experimentando a 
necessidade do fervor das multides em esquecer da "ptria ingrata". Teria ele definitivamente 
renunciado ao poder, ou esperava pacientemente, como uma aranha, para que chegasse sua hora, 
deixando a seus companheiros devotados o cuidado de montar a teia em seu lugar?  
A carta de Salan despertou em Franois os amargores que acreditava estarem esquecidos. A 
recusa do governador em v-lo participar da colocao das novas ligaes unindo a Frana a 
Indochina, por causa de suas simpatias pr-vit-minh, o havia ferido profundamente. Ele desejava 
ter insistido junto a Mends France, agora 
presidente do Conselho e ministro dos assuntos estrangeiros. Era sem dvida para acalm-lo que 
tinham lhe dado as insgnias de oficial da Legio de Honra. Pela primeira vez desde sua chegada a 
Cuba, ele sentiu no estar na Frana. Mas o que lhe importava o caos argelino no qual o pas se 
enredava? Ele no tinha podido fazer nada na Indochina, embora conhecesse o lugar e os homens. 
Qual poderia ser o seu papel em uma regio do mundo que no conhecia?  
Aqui, ningum com quem falar a respeito; milhares de quilmetros separavam a metrpole dos 
carabas. A embaixada da Frana em Havana tinha problemas suficientes a tratar no local para 
poder interessar-se por aqueles que surgiam desta guerra na Arglia - a Arglia que, de qualquer 
modo, era terra francesa e deveria permanecer assim. A maior parte das conversaes com seus 
compatriotas estabelecidos na ilha resumiam-se a isso.  
Sim, o general Salan deveria sentir-se muito s para ter lhe pedido que fosse reunir-se a ele.

Captulo Sete

Minha querida La,
Em Montillac, tudo vai bem. As crianas esto com boa sade e os negcios florescem. Tudo
estaria perfeito sem o drama argelino. A cada dia ns sabemos de novos massacres, novos 
assassinatos. As famlias da regio esto duramente ressentidas pela partida de jovens. Na 
estao de Bordeaux, houve manifestaes pacifstas s quais reuniram-se os comunistas. 
Fala-se muito em torturas sobre os argelinos. Nosso vizinho, Franois Mauriac, tomou 
posio contra estas prticas que desonram, se forem verdadeiras, o exrcito francs. Ns 
lemos no Le Monde que houve uma insurreio armada em Cuba, que os atentados e as 
sabotagens eram freqentes. Do que se trata, exatamente? Suas cartas no me do nenhuma 
idia. No  perigoso para as crianas? Se isso for se agravar volte, ou ao menos mande as 
crianas. Alain e eu ficaremos felizes em acolhlas. Voc, que pensava que a vida em Cuba 
seria uma festa, deve estar bem decepcionada. O que quer que seja, cuide-se, no se 
exponha. Charles pde retomar seus estudos? Voc no nos disse nada a respeito dele... 
Ns tivemos grandes tempestades que nos fizeram esperar o pior para os vinhedos. Mas o 
Bordelais foi salvo, o que no foi o caso de Toulouse e de sua regio.  
D-nos notcias rpido. Todo mundo aqui est mandando nosso carinho.  
Franoise.  
A carta de Franoise havia levado dois meses para chegar a Havana. Visivelmente, ela havia sido 
aberta. Com mau humor, La atira a carta na cama. Por que raios eles tinham de lhe lembrar a 
estupidez de seu desejo de conhecer uma vida feliz em Cuba? Franois havia tentado traar-lhe um 
rpido resumo dos diferentes regimes polticos em vigor nas Carabas; ela havia fechado os lbios 
dele com um beijo, acrescentando que preferia seus sonhos  realidade; ele havia rido e se 
entregado ao beijo sem procurar mais inform-la.  
H algum tempo reinava na capital cubana um clima de tenso dificilmente suportvel: controles 
mltiplos, perseguies, atentados dirios, manifestaes brutalmente dispersadas pela polcia. Em 
Miramar, bairro at ento preservado, agora evitava-se sair depois do cair da noite. Algumas casas 
ricas at mesmo haviam sido abandonadas por seus proprietrios. No entanto, nunca as festas 
haviam sido to numerosas entre a sociedade abastada, as embaixadas e os grandes hotis. Avies 
derramavam a cada dia seu lote de americanos que vinham de Miami para se precipitarem nos 
cassinos ou nas boates. Sempre havia muito divertimento em Havana.  
La comeava a se sentir um pouco cansada desta existncia ftil e mundana que levava. As 
crianas tinham sua vida prpria, seus colegas, seus jogos, e Philomne cuidava afetuosamente da 
pequena Claire. Franois ausentava-se por longos perodos, deixando- a sozinha consigo mesma. Ela 
havia esgotado as alegrias das 
descobertas, aquelas davelha Havana, dos bares que freqentava o velho Hemingway, as praias do Varadero, da 
piscina do Country Club, das salas de jogos, dos passeios  beira-mar ou das sesses de cinema ao fim da 
tarde...  
Durante estes ltimos dias do ms de agosto, um calor arrasador pesava sobre a cidade. Por ociosidade, La 
havia aceito o convite de Alfredo Garca Olivera, o travesti que a encontrara no Tropicana. Na vspera, ela 
havia cruzado com ele diante da catedral, trajado desta vez com uma cala corsrio verde gritante, uma camisa 
rosa amarrada no peito e uma peruca loura. Sua afetao e suas palavras a tinham feito rir. Na verdade, nem 
precisava disso tudo para que ela aceitasse rev-lo.  
O frescor generoso dispensado pelo climatizador do Floridita caa sobre seus ombros nus. La estremeceu 
olhando em volta. A sala estava lotada e americanos de camisas floridas aglutinavam-se em volta do bar 
chamando ruidosamente o barman. Ela passou entre as mesas sob os olhares interessados dos homens 
vidos por mulheres, mesmo a menos sofisticada, fosse loura ou morena. Ela apressava-se a se dirigir at o bar 
quando uma mo pousou em seu brao. Um mestio cujos olhos verdes brilhavam em um belo rosto imberbe, 
alto, elegante em seu terno branco, sorria para ela.  
- Pensei que voc no viesse mais - disse ele sem largar-lhe o punho.  
Surpresa, La tentou por um instante afastar-se, em seguida comeou a rir.  
- voc?  
- Sim... Venha, esto olhando para ns.  
Ele a guiou at uma mesa onde um charuto acabava de se consumir.  
- O que quer beber?  
- O mesmo que voc.  
- Antonio! - gritou ele, levantando-se na direo do barman.  
- Dois daiquiris, por favor. 
- Bem, sr. Alfredo.  
- Eu bem que enganei voc - disse ele, sentando-se.  
- Claro que sim! - respondeu ela, observando-o.  
- Minha me tambm fica louca comigo. Ela no se habitua. Nunca sabe ao se levantar se  um filho 
ou uma filha que vai encontrar no banheiro!  
- Voc mora com sua me?  
- Sim. Isso parece espantar voc...? Sou um filho afetuoso e uma filha dedicada...  
- No tenho dvidas.  
- Como voc me prefere, como mulher ou homem?  
- No conheo bem nem um nem outro. Acho a mulher muito bonita, perturbadora. O homem?... 
Tambm acho-o bonito, mas... menos surpreendente. E voc, qual dos dois prefere?  
- Depende.  
- Depende do qu?  
- Do local onde me encontro, das pessoas que encontro... Quando sou uma mulher, sinto-me mais 
forte, mais desejvel. Homem, tenho que assumir uma virilidade toda cubana que s vezes me 
cansa.  
Um servente em roupa vermelha colocou os copos na mesa.  
- Antonio preparou-os como o senhor gosta, senhor Alf redo.  
- Obrigado, Luis... A sua sade, sra. Tavernier!  
La levantou seu copo.  
- O que achou?  
- Delicioso. Voc vem aqui com freqncia?  
- Quase todos os dias.  
- Sempre como homem?  
- Depende...  
- Tambm!  
- Sim,  uma questo de humor e de hora. A mulher em geral s aparece ao fim do dia... Sei o que 
voc pensa: ontem, diante da catedral, em pleno dia... Mas tinha minhas razes...  
- ... das quais prefere no falar.
Alfredo no respondeu, o rosto repentinamente tenso, os olhos cravados na entrada.
- O que voc tem...? Falei alguma coisa de que no gostou?  
- No... Voc est vendo o homem, l, segurando a mulher de amarelo pela cintura?  
- Sim...  
- Observe-o bem para no se esquecer de seus traos. E se um dia cruzar o caminho dele, corra 
bastante ou faa uma prece.  
- Mas... por qu?  
- E um assassino, um dos homens de Ventura, o mais perigoso, talvez o mais cruel. Ele adora causar 
sofrimento... e particularmente s jovens ou aos rapazes bem novos. Nenhum daqueles que passou 
pelas mos dele saiu ileso.  
- Como ele se chama?  
- Fernando Arguedas.  
-  um policial?  
- No, ele faz parte da mfia. Para o grupo de Meyer Lansky, o antigo brao direito de Lucky 
Luciano, que tambm foi conselheiro de Batista para a reforma dos jogos, ele controla os hotis, os 
cassinos que pertencem  Organizao. No porto de Havana, ele supervisiona o trnsito da droga da 
sia em direo  Amrica.  
- A reforma dos jogos...?  
- Sim... Batista e o governo americano, cansados de serem acusados de trapaa pelos turistas que 
perdiam fortunas na cubo la norazze-dazzle ou em outros, decidiram punir, ou seja, moralizar a 
indstria dos jogos e expulsar os jogadores profissionais. Graas a uma polcia secreta composta de 
homens de Batista e de alguns outros vindos da mfia, os cassinos de Cuba tornaram-se os mais 
honestos do mundo! Vrios vos dirios trazem regimentos de jogadores americanos, certos da 
regularidade dos jogos. Nunca tanto dinheiro circulou em Havana e nunca nossa ilha mereceu tanto 
o apelido de "bordel da Amrica". O padrinho judeu e o ditador mestio esfregam as mos... Isso 
faz voc rir?  a marca de Cuba: aqui 
devemos sempre dar s verdades mais amargas um pequeno gosto burlesco para que se possa 
engol-las...  
- EArguedas, ento?  
- Arguedas, desde seu feudo do cabar Sans-souci, tem a mo sobre a maior parte dos trficos e das 
redes de prostituio. Hoje ele tambm serve de dedo-duro a Ventura que, em troca, fecha os olhos 
para alguns de seus excessos... sem esquecer de aceitar, de passagem, confortveis gorjetas. Estes 
dois bandidos entendem- se maravilhosamente e trocam servios mltiplos: raptos, seqestros, 
ameaas, extorses, violaes, torturas ou mortes... A amiga de seu filho esteve nas mos dele.  
- Como voc sabe disso?  
- Ns, criaturas hbridas, circulamos em todos os meios e sabemos nos misturar, assim como os 
camalees. Participamos, de certa forma, do espetculo da rua. Festeiros sonmbulos, ns tambm 
recebemos confidncias, direi at que as atramos. As noites de Havana no so livres de 
prostituio e de crimes. A casa em que Carmen Pineiro foi violada pertence ao pai de um colega 
que trabalha ocasionalmente para Arguedas. Naquela noite, este tipo, que ali guarda seus cigarros 
americanos de contrabando, estava l. Foi ele que alertou os outros estudantes.  
- Voc no julga estranho que um traficante de cigarros informe os estudantes revolucionrios?  
- No  to simples... Em Cuba  preciso saber se virar. As simpatias deste rapaz vo mais para o 
Diretrio. Mas ele precisa comer... desde que seu pai cortou-lhe os vveres porque ele se recusou a 
colaborar com a polcia.  
- Este Fernando Arguedas, voc j esteve em contato com ele?  
De um gole, Alfredo virou seu copo.  
- Venha, vamos embora.  
Ele desviou o rosto ao passar diante do homem de ferro de Ventura, que o acompanhou com o olhar 
enquanto fumava seu charuto. Na rua, o calor mido os envolveu. Eles permaneceram por um 
instante imveis na calada.
- Estou com fome - disse La.
- Que coisa boa! Eu tambm. Vou levar voc  minha cantina...  tambm a do papa Hemingway.  
- A Bodeguita dei Medio? J estive l algumas vezes na v esperana de encontrar o grande 
homem, ou ainda Errol Flynn...  
- Eu tive mais sorte do que voc: j os encontrei e at mesmo matei a fome com eles. Muitos artistas 
cubanos freqentam a Bodeguita; no  cara, e a cozinha  honesta... Interessa?  
A noite havia cado; a luz das lojas e dos refletores se acenderam antes dos fortes faris de 
brilhantes automveis que avanavam, pra-choque contra pra-choque. A multido apressava-se 
pela rua Obispo, preguiosa, atrada pelas vitrines iluminadas das butiques de luxo que ali se 
enfileiravam: perfumarias, joalherias, livrarias, costureiros, chapelarias... O acaju do balco da 
farmcia Johnson, seus potes em cermica, brilhavam. Fora dos sales de ch emanava um bom 
odor dos doces de chocolate. Diante do grande mercado de vinhos e licores homens fumavam seus 
charutos, copos na mo. Um grupo de americanos barulhentos saa do hotel Ambos Mundos. Sobre 
a mureta que envolvia o quadrado da praa das Armas, famlias inteiras observavam os pedestres 
enquanto os garotos perseguiam-se pelas alias entre as pernas dos transeuntes. Na praa da 
catedral, velhas mulheres dirigiam- se devagar para o prdio religioso a fim de assistirem ao ofcio 
da noite. Na rua Empedrado, os clientes da Bodeguita dei Medio enchiam a calada conversando e 
bebendo. Alfredo abriu caminho, saudado na passagens pelos clientes habituais. Alguns 
comentavam a presena de La a seu lado.  
- Olhem s, que gata, rapaz!  
- Uma mulher como esta no  s para voc, meu irmo.  
- Alfredo, me apresenta a moa. Tenho certeza de que sou o homem certo para ela. 
Alfredo os afastava rindo, feliz com seu efeito.  
- Aprtense. Djenlepaso a esta dama.  
Todos tinham aspecto de bons meninos. No balco, Angel e Ignacio celebravam.  
- iAlfredo, mi socio! 7l andas bien acompaiado, eh, compay! Bueno, est corre por mi. Qu 
tomar? e Mojitos?  
Sem esperar resposta, Ignacio coloca dois copos gelados diante deles.  
- Estamos parti'os, Ignacio. cQue tienes por ah?  
- Hay picadilio a la habanera o moros y cristianos.  
- Voc deveria experimentar os moros y cristianos, so os melhores de Havana... depois dos de 
minha me,  claro!  
- Ento, vamos aos moros y cristianos.  
Eles sentam-se diante de uma mesa redonda colocada contra a parede que tinha retratos com 
dedicatrias de cantores e de artistas de cinema, escritores, jogadores de beisebol. Todos haviam 
vindo em algum dia provar os clebres mojitos. 'frs msicos instalaram- sena calada e atacaram 
um chachach. Imediatamente os cubanos comearam a balanar seus corpos e logo toda a rua 
tremia ao som da Enganadora.  
La no se cansava do espetculo da alegria de viver dos havaneses.  
- Na Frana, vocs tambm tm msica nas ruas? -perguntou Alfredo levando  boca uma poro 
de ensopado de carneiro.  
A pergunta fez voltar  memria de La o quiosque no jardim de Luxemburgo, onde a guarda
republicana tocava aos domingos, o da fanfarra municipal de Saint-Macaire e o rosto do
acordeonista cego que acompanhava sua mulher, na esquina Buci, quando ela interpretava as
canes de Frhel ou de Piaf; ela entregava as partituras                              
ao pblico reunido em torno dela, que entoava os refres em coro. Pequena, em Bordeaux,
La obrigava com freqncia seu pai a ficar em uma calada, escutando longamente os cantores da
rua ou os tocadores de realejo. Como ela teria amado ento virar a manivela ou passar o chapu 
entre o pblico, com um macaquinho pendurado em seu ombro!  
-  claro que ns temos msica nas nossas ruas. Mas no  a mesma.  
- Isso no tem importncia. Um pas sem cancioneiros  um pas triste. A msica permite suportar 
melhor as coisas... Voc gosta?  
- acrescentou ele apontando para o prato.  
- Muito... mas s de vez em quando: enche demais!  
-  a alimentao de base dos cubanos, sabe? Voc tem de experimentar o que minha me prepara. 
Nada aver com este. Quer outra coisa?  
- Sim, um sorvete e um caf.  
- Eu vou querer a mesma coisa... lAngel, dos helados y dos cafs!  
Trs belas jovens entraram e foram se instalar no bar da mercearia-cervejaria sob os assobios dos 
homens. O aroma do perfume delas era forte e aucarado, e irritou as narinas de La, que comeou 
a coar o nariz.  
- Eu detesto perfumes muito fortes.  
Alfredo levantou-se e dirigiu-se para as moas, que riram ao v-lo.  
- Wmo, Freddy, todava no ests lista?
- Hla, Olivia. Te has bafiado en agua de colonia o qu, mujer? Te echas demasiado. Ya te 
he dicho que una dama decente seperfuma com delicadeza.
- iQu delicadeza ni que mierda! Oyes, Marzlyn?La monstrua deFreddy quiere damos 
lecciones de como hay que vivir.. Loh!!Ahora  
entiendo!La seiora... disclpe, elseorest en muy buena compaia. Usted meperdona, mi 
cielo... iSalud, seorita! - disse a La, levantando seu copo.  
- iVstete, mujer!... Que nos esperan a la once" - continuou aquela que se chamava Marilyn.  
- Tienes razn. Vyanse, enseguida las alcanzo.  
La havia acendido um cigarro e fumava, os olhos semicerrados, apoiando-se preguiosamente no encosto de 
sua cadeira.  
- Voc  realmente uma bela mulher - disse ele sentando-se.  
- Obrigada... Suas amigas tambm. Elas tambm so...?  
- Travestis?... Sim. Com mais sucesso, no ? Elas fazem muito sucesso, mais do que eu, para falar a verdade, 
porque elas gostam de homens. Ns nos produzimos em noites especiais na casa de amantes ricos onde 
cantamos, danamos... Esta noite, faremos um espetculo; soube apenas hoje de manh e no pude avis-la. 
Agora, tenho de ir para casa me trocar... Voc me acompanha?  a dois passos daqui... No se preocupe, minha 
me estar l...  
Alfredo morava em um belo edifcio deteriorado do sculo XVIII, que dava para uma pequena rua, atrs da 
praa das Armas. Uma grande escada com degraus de pedra lascada elevava-se de paredes cobertas de 
grafites obscenos. As balaustradas desaparecidas estavam substitudas por piquetes de madeira mantidos
com a ajuda de fios de ferro. Um odor de sabo e de fritura enchia a casa. O apartamento era no primeiro andar.
Uma porta decrpita abriu-se e uma mulher negra, que deveria ter sido bonita, toda vestida de branco, apareceu
no vo da porta, um grande charuto preso entre seus lbios pintados. Depois de um breve olhar a seu filho,
ela inspeciona La da cabea aos ps. Sem dvida ela ficou satisfeita com o exame, pois abriu largamente a
porta e afastou-se para deix-la entrar. A entrada estreita era coberta de plantas mais ou menos murchas,
gaiolas de pssaros vazias, estatuetas de formas grosseiras, mas tambm santos em gesso pintados com cores 
berrantes: havia a Teresa do menino Jesus, Francisco de Assis, Bernadette Soubirous. O pequeno aposento 
estava banhado por uma luz vermelha.  
- Voc  a francesa da qual meu filho falou? Voc  muito bonita para uma branca.  
- Mame, oferea-lhe alguma coisa para beber, por favor. Tenho de me preparar.  
- Sente-se nesta poltrona, voc ficar bem... Acabei de fazer um caf, voc quer?  
Sem esperar a resposta, ela estendeu a La uma delicada xcara de porcelana.  
- No preste ateno na desordem, houve uma cerimnia h pouco.  
Ela afastou a cortina estampada que separava o cmodo, descobrindo uma espcie de capela com as paredes 
ornadas de folhagens, guirlandas de papel em cores vivas, flores artificiais, lenos de seda e bordados em tons 
pastis. Sobre o cho recoberto de uma esteira estavam colocados pratos que continham comida, um enorme 
bolo de creme do mais belo rosa, um prato repleto de moedas e de notas. Envolvendo uma espcie de estatueta 
na cabea, com uma pluma e um pedao de metal enferrujado, uma concha marcando o lugar da boca e dos 
olhos, grandes velas acabavam de consumir-se.  
-  Eleggua, o que abre as portas da felicidade ou do mal, que mostra o caminho e tem as chaves do destino. 
Ele ama as homenagens e as oferendas. Alfredo e eu nunca deixamos de festej-lo todas as segundas-feiras e 
de lhe queimar uma vela para que ele nos guie e nos proteja...  um deus muito poderoso - acrescentou a 
mulher, baixando a voz. 
Alfredo, que agora usava uma calcinha de seda branca cheia de rendas, entrou bruscamente, de 
saltos altos.  
- Mame, voc mexeu na minha maquiagem, no encontro mais o meu batom! J pedi mil vezes para 
voc no usar as minhas coisas!  
- Voc no vai fazer um drama por causa de um batom velho que, alis, nem combina com voc.  
- Porque voc acha que combina com voc, n? No se enxerga?  
- Voc v como ele ousa falar com a me? Este canalha, este filho indigno para o qual sempre me 
sacrifiquei... Tanta ingratido me mata!  
batom.  
- Aqui est! - exclamou ela, procurando em suas saias brancas.  
O tubo brilhante aterrissou entre as mos de Alfredo.  
- Mas... no sobrou mais nada! Voc comeu o meu batom, por acaso?  
A me se virou, altiva, ajeita os cabelos, arruma uma guirlanda. Teve um sobressalto com o barulho 
da porta se fechando.  
- No repare, no  um mau menino mas, em alguns momentos,  como uma jovem quando est em 
seu perodo... Voc entende o que eu digo.  
La se virou porque mal podia conter o riso. Balanando seus largos quadris, caminhando pelo 
cmodo, Teresa continuava como se falando consigo mesma:  
- Com certeza no fiz oferendas suficientes a Xang e  por isso que a virilidade de meu filho  
vacilante. Ele ficou com inveja de minhas preces a sua amante, a deusa do amor, a esposa de Orula, 
a bela Oxum...  
A gorda mulher aproxima-se de La.  
- Os deuses so ciumentos, nunca se deve privilegiar um com relao aos outros. Para me punir, 
Olofi, o criador do universo, permitiu a seus orixs que fizessem de meu filho ao mesmo tempo 
menina e menino. Tudo isso  culpa minha, no fiz preces suficientes a Orula...  
- Orula  o so Francisco de Assis, no ?  
Teresa lana-lhe um olhar inquisidor.  
- Voc se interessa pela santera?  
-  muito difcil, quando vivemos em Cuba, escapar ao culto aos orixs. Cada famlia cubana, seja 
ela crist ou no , possui os seus, me disseram...  
- No apenas as famlias cubanas...  
- Mame! Voc a aborrece com suas histrias.  
Desta vez a transformao de Alfredo se revela to espetacular que sua me, embora habituada, 
exclama:  
- Como est bonita, minha filha!  
Fascinada, La devorava-o com os olhos, sentindo uma estranha fraqueza nos joelhos. Como 
imaginar que o sexo de um homem poderia se esconder nesta cala colante de cetim rosa, que esta 
cintura elegante, estes ombros redondos, estes braos delicados, estas pernas longas, perfeitas e 
lisas, este rosto imberbe, estes lbios pintados, estes cabelos cuidadosamente penteados no eram de 
uma mulher? Encontrava-se ali, diante dela, algo de profundamente desordenado e perturbador. De 
seu lado, Alfredo sentava-se lisonjeado, divertido, tambm, com o seu olhar de admirao. Ele 
enviou-lhe um sorriso aberto, girando em torno de si mesmo.  
- O que acha? Estou chique o suficiente para sair com voc?  
- Est magnfica! - disse ela, com um entusiasmo do qual logo se arrependeu.  
Ele tomou-lhe o brao, puxou-a para si e sussurrou-lhe nos cabelos:  
- Voc  que  magnfica!  
O calor, seu perfume inebriante, a respirao em seu pescoo, o punho firme a fizeram vacilar. Ele 
percebeu e a apertou. As palavras de Santiago Reyvoltaram  memria de La: "No h ningum 
como ele para seduzir as mulheres honestas..." Furiosa consigo mesma, ela afastou-se bruscamente.  
- Desculpe-me, mas tenho que voltar para casa agora... Adeus, senhora, fiquei feliz em conhec-la.  
- Alfredo vai acompanhar voc, as ruas de Havana no so seguras para uma bela mulher sozinha. 
Deus o proteja, meu filho, seja prudente!  
Eles se abraam.  
Freddy ajoelha-se rapidamente diante do altar, faz o sinal-da- cruz e toca o cho com as pontas dos 
dedos. Sua me aprovou com um assentir de cabea.  
A umidade da noite os envolveu. Os homens os seguiam com os olhos, lanando-lhes convites muito 
precisos aos quais Freddy respondia curvando os quadris de forma provocante ou por palavras 
tambm baixas.  
- Pare de provoc-los - gritou La -, eles vo nos saltar em cima!  
- No. Comigo voc no corre riscos.  
Eles chegaram  estao de txis, escoltados por cinco ou seis jovens mais atrevidos que os outros. 
Um dos motoristas avana na direo deles.  
- Precisa de alguma coisa, Freddo?  
- Ol, Pepe. Leve-nos para longe destes machos no cio!  
Alfredo empurrou La para o carro e, voltando-se, levantou a saia e agitou seu sexo na direo dos 
que os seguiam. Estpidos, os garotos ficaram alguns segundos parados no lugar. Quando se 
recuperaram, voaram na direo deles gritando, mas o veculo j havia ganhado velocidade.  
- Voc deveria parar de provoc-los... Um dia eles lhe quebraro o pescoo - disse Pepe, enquanto 
se desviava de um grande Chevrolet.  
A manobra acabou por projetar seus dois clientes um contra o outro. 
- Preste ateno, Pepe!...Vai quebrar nossos pescoos antes deles.  
- Vamos, vamos, Freddo, voc sabe bem que sou o Fangio dos motoristas de txi...  
- Fangio ou no, no meta o p; no temos a polcia atrs de ns!  
- Como quiser, filho. Para onde vamos, a propsito?  
- Para a casa do doutor Hasselbacher. Voc conhece, no ? E ponha um pouco de msica, por 
favor.  
Eles seguiram por alguns instantes ao ritmo de um mambo.  
- Mas... no  a direo de Miramar - espantou-se La.  
- No, vou levar voc comigo. Acho que voc nunca esteve em um lugar parecido com este para 
onde vamos.  
- Possivelmente, mas voc poderia ter me perguntado se eu queria ir!  
- No faa cena. Voc  como eu, adora os imprevistos, adora se divertir...  
-  verdade, mas tambm gosto de escolher meus divertimentos.  
- Seja gentil: ser um grande prazer se voc me acompanhar...  
O tom meigo foi a razo do fim do mau humor de La. Ela decidiu rir.  
Eles seguiram pela via Blanca na direo de Matanzas. La tinha os olhos fechados.  
- Chegamos - anunciou Alfredo.  
Entre as luzes dos faris, surgiu um cartaz. La mal teve tempo de ler: Santa Mara del Mar. Um 
vento marinho entrou no automvel. Eles atravessaram o burgo. Na sada, o motorista diminuiu a 
marcha, em seguida parou diante de um portal onde estavam dois homens, revlveres na cintura. Os 
guardies aproximaram-se, reconheceram Alfredo e abriram os batentes do porto. Adiante,  
no fim da entrada de uma casa generosamente iluminada provinha uma msica mexicana.  
- No nos esperaram para comear a festa - observou Alfredo abrindo a porta. -Voc fica aqui 
fora - acrescentou ele ao chofer.  
Ele tomou o brao de La.  
- Faa exatamente o que eu vou lhe dizer: em quinze minutos, pea para ir ao banheiro, e eu 
encontrarei voc l. At ento, seja feliz e natural.  
- Por que me diz isso?  
Ele no teve tempo de responder, um homem dirigia-se para eles.  
- Boa noite, Freddy. Voc nos trouxe uma nova? Ela  perfeita, ns a julgaramos uma verdadeira 
mulher!  
Alfredo estourou de rir.  
- Doutor, isso vai surpreend-lo, mas esta senhora  uma mulher... Ela  francesa e  uma amiga. 
Estava sozinha esta noite; permiti-me convid-la.  
- Voc fez bem... No tem medo da concorrncia?  
- Doutor - arrulhou ele -, conheo muito bem para onde vo as suas preferncias...  
- No se deve ter certeza de nada, meu caro. Eu poderia muito bem ser levado a fazer uma 
exceo... A senhora  francesa... Senhora?  
- Tavernier.  
- J vi este nome em algum lugar... No Carteles ou noBohemia, talvez.  
- Nos dois, doutor. A sra. Tavernier  uma amiga do nosso presidente e do ministro do interior.  
- Voc conhece nosso caro Santiago Rey? Ele vai certamente passar por aqui esta noite... Seja bem-
vinda - concluiu ele, afastando-se do umbral.  
Cerca de quinze pessoas, de p diante de umvasto buf, continuaram conversando. Os trs travestis 
que haviam estado no Bodeguita del Medio tagarelavam ali, um copo na mo. Avistando Alfredo, 
eles avanaram balanando a cintura. 
- Ele est em uma cabana atrs da estufa... h um guarda na entrada - sussurrou Olivia sem deixar 
de sorrir.  
- Ele est seriamente ferido - sussurrou Marilyn, em um grande sorriso.  
Os olhos de La iam de uma para a outra, procurando decifrar a conversa enigmtica.  
O dono da casa voltou, em companhia de um homem que La logo reconheceu.  
- Sr. Greene!... A ltima vez em que nos encontramos foi em Hani, no foi? O senhor se lembra?  
- Como poderia me esquecer de uma mulher to bonita? - disse ele, beijando-lhe a mo. O que voc 
faz em Cuba?  
- Ia fazer-lhe a mesma pergunta.  
- O sr. Graham Greene est preparando um romance, ele precisa se introduzir em praticamente 
todos os meios de nossa ilha, os mais oficiais e os mais ilegais... - completou seu anfitrio.  
- O senhor no poderia ter escolhido lugar melhor do que a casa do doutor Hasselbacher - foi mais 
longe Alfredo, solene.  
- Mea suas palavras! - rosnou o dono da casa.  
- Meu querido doutorzinho, eu estava brincando... Se no pudermos nos divertir em sua casa, no 
virei mais aqui - declarou Alfredo, afastando-se com ar de ofendido.  
Graham Greene tomou o brao de La e a levou para um sof.  
- Vamos nos sentar?  surpreendente reencontr-la aqui... Me disseram que este  um dos lugares 
mais malfalados de todos os subrbios de Havana e que as noitadas que se fazem por aqui so 
dignas do marqus de Sade.  
- Exagera-se muito, sem dvida... Como o senhor chegou? Pretende ficar por muito tempo?  
- No sei realmente... Aluguei um carro com motorista; ele me aguarda junto da estufa.  um 
canalha supersticioso, mas conhece todos os locais obscuros de Havana. Foi ele quem me 
apresentou ao doutor Hasselbacher e que me fez descobrir os espetculos 
pornogrficos do Shangai, um teatro onde, por um dlar e 25 centavos, pode-se ver pessoas 
fornicando no palco. " to excitante quanto ver um marido cumprir honestamente seus deveres." 
Quanto a mim, prefiro os nmeros das lsbicas do Blue Moon... Voc conhece?  
La fez "no" com a cabea, olhando rapidamente para seu relgio.  
- Vou lev-la at l...  
- Creio que meu marido estar de acordo! - gargalhou ela.  
- ... Desculpe-me, j volto.  
La levantou-se e dirigiu-se para uma das jovens que estavam de servio em um avental que 
revelava pernas e seios.  
- Onde ficam os banheiros, por favor?  
- Por aqui, vou lhe mostrar.  
Ao fim de um longo corredor, ela indicou uma porta. Atrs, uma espcie de pequena sala de estar 
forrada de tecido rosa se abriu. Duas grandes penteadeiras forradas estavam frente a frente, 
enquadrando altos espelhos que escondiam as portas. O cho estava coberto de um tapete espesso, 
a iluminao era suave, o ar perfumado. La sentou-se diante de uma das penteadeiras e apanhou 
seu p-de-arroz. Nenhum barulho chegava a ela; as paredes deviam ser estofadas. Alfredo surgiu.  
- Ns no temos muito tempo... Trouxe voc para divertir- se, mas sua presena revelou-se ainda 
mais interessante do que o previsto, pelo fato de seu encontro com Greene.  
- No compreendo muito bem o que voc quer me dizer...  
- Jure-me que no vai se levantar.  
- Mas...  
- Jure!  
- Deixe-me, no estou gostando disso...  
- Jure!  
- Eujuro...  
- Olhe: um de nossos amigos est feito prisioneiro aqui, ele foi torturado e ns vamos libert-lo. J h 
um carro estacionado perto da estufa, onde nosso amigo est preso... 
- Mas...  o carro de Greene!  
- Eu sei, eu sei... ns vamos esconder nele o doutor Pineiro...  
- O doutor Pineiro?...  
- Sim... Voc vai simular um mal-estar, voc sente-se mal. E pede ao escritor que a acompanhe.  
- Mas enfim... voc se d conta da gravidade da situao na qual me meteu?  
-  claro, mas no tenho escolha. Esta  a nica oportunidade que surgiu em semanas. H quinze 
dias descobrimos o paradeiro do doutor Pineiro... Antes de ser trazido para c, ele deve ter passado 
por diferentes prises que a polcia mantm secretas. Em todas elas ele foi torturado... Ns sabemos 
agora que Ventura e seus policiais tambm fizeram-lhe perguntas sobre voc e sua famlia. Ele no 
disse nada... V, voc tambm est envolvida com este incidente.  
- E me trazendo aqui, sabia que me levava para a goela do lobo!  
- No ignorava isso.  um risco que calculamos... O tempo est passando: voc aceita nos ajudar?  
- Eu realmente tenho escolha?  
Alfredo levantou os ombros, enquanto La amaldioava-se por ter aceitado segui-lo. Por sua 
imprudncia, ela estava metida mais uma vez em uma situao complicada. Se lhe acontecesse 
alguma coisa, ningum teria idia de procur-la neste local perdido. Um pensamento apertou-lhe o 
corao: as crianas estavam sozinhas na casa de Miramar! Mecanicamente ela ajeitou seus 
cabelos diante do espelho. Ele lhe enviou de volta a imagem de uma jovem e bela mulher bronzeada, 
mas com o olhar perdido. Ela apertou os punhos e voltou-se para Freddy, que retocava a 
maquiagem.  
- O que eu devo fazer?  
O sorriso satisfeito de seu companheiro pareceu-lhe insuportvel.  
- Voc vai voltar ao salo, rir, danar, fingir que est se divertindo... Mas no pare de vigiar o doutor 
Hasselbacher. Daqui a uma hora, com os colegas, faremos nosso nmero de strztease. Neste 
momento, apenas o centro do cmodo estar iluminado. Quando eu estiver nu, voc se dirigir a 
Greene e pedir que a acompanhe sob o pretexto de um mal-estar.  
- E se ele insistir em ficar?  
- Voc far presso.  
- E se o doutor Hasselbacher se propuser a me acompanhar?  
- Ele no far isso, eu o conheo: ele  louco por Marilyn, que  a nica, diz ele, que sabe dar-lhe 
seu... vigor.  
Sem uma palavra, La voltou aos sales onde os casais estavam danando uma rumba com 
tamanha sensualidade que, por um instante, ela ficou emocionada. Um homem alto, razoavelmente 
sedutor, a convidou e a tomou nos braos sem esperar resposta. La no resiste e logo seus dois 
corpos balanavam- se sob o ritmo perturbador da dana. Foi rapidamente impossvel ignorar o 
estado no qual encontrava-se seu cavalheiro. Um sorriso irnico nos lbios, La acentuou o 
movimento de suas ancas. Um longo tremor a advertiu do orgasmo de seu parceiro. Ela afastou-se 
mas, com um gesto possessivo, ele a ps entre suas pernas. A orquestra parou, livrando La no 
mesmo instante. Ela escapou.  
- Meus caros amigos - gritou o doutor Hasselbacher -, proponho fazermos um brinde em homenagem 
ao clebre escritor britnico que nos d a honra de estar entre ns esta noite, sr. Graham Greene, ao 
qual associo uma charmosa francesa, a sra. Tavernier!  
Todos levantam seus copos.  
- E que a festa continue! - exclamou o mdico, deixando-se cair em um sof.  
As luzes baixaram, a msica recomeou e os casais enlaaram- se novamente. O danarino de La 
reaproximou-se e a tomou pela cintura.  
- O senhor permite? - interps-se Graham Greene, puxando a jovem mulher.  
O homem reprimiu um movimento descontente e em seguida, sob o olhar duro de La, inclinou-se. 
- Eu a previno, dano muito mal - disse o homem das letras, tomando-a em seus braos.  
Eles danaram em silncio durante alguns instantes.  
- O que voc est fazendo aqui? No  lugar para uma mulher como voc... Voc no veio para se 
distrair: sinto que est inquieta, tensa...  
La no respondeu e aplicou-se a seguir os passos de seu parceiro. Ele se deu conta e comeou a 
rir.  
- Sou um danarino sofrvel, no sou? Vamos parar?  
- No, continuemos, por favor.  
Havia na voz dela algo de to pressionador que ele retomou de imediato seus movimentos e danou 
at aprxima pausa da orquestra. Um dos msicos precipitou-se ao palco:  
- Senhoras e senhores! Vocs agora vo poder admirar o nmero, famoso em toda Havana, que nos 
vo oferecer algumas das mais belas mulheres de Cuba!  
Sob os aplausos e os risos, ele retira-se enquanto apagavam- se as luzes uma a uma. Na 
obscuridade, La procurou a mo de Graham Greene. Repentinamente, um faixo luminoso tornou 
vermelho o centro da sala. No cho, ainda curvada sobre si mesma, uma mulher comeou a mexer 
lentamente os braos. De um saxofone crescia um longo gemido. Quando a mulher se levantou, La 
teve um sobressalto: ela reconheceu Alfredo. O sax parecia ordenar cada um de seus movimentos, 
cuja lentido multiplicava os efeitos. Toda a platia permanecia em suspense ao menor de seus 
gestos; sua sugestividade a mergulhava em uma crescente perturbao ertica. Quando o vestido 
caiu, houve umfrisson. A cinta apertada fazia surgir o arco, acentuando o arredondamento de suas 
ndegas cor de tabaco. Inclinado, girando sobre si mesmo, ele as abria, as afastava, fazendo 
aparecer a linha de seu tapa sexo. Ele introduziu um dedo, o saxofone gemeu e, na platia, escutava-
se numerosos suspiros. Junto a La, um casal fazia gestos de amor sem deixar de observar a cena. 
Inclinadas em altos saltos dourados, as pernas de Alfredo, em suas meias cor de arco- 
ris, pareciam interminveis. Por fim, a cinta cai. A renda das estreitas ligas contrastava sobre a pele escura. O 
tringulo de cetim branco se distendeu. O sax ofegava quando o tecido cedeu  presso de um sexo triunfante 
que comeou a se balanar sob exclamaes de admirao, que redobraram quando, provocante, Alfredo o 
sacudiu diante de seu pblico. Entre a platia, comeavam a imit-lo. O sax ofegou pouco a pouco, de repente, 
lanou trs ou quatro gemidos, pontuando a ejaculao do artista e a alegria dos espectadores. O sax expirou 
em um ltimo lamento.  
Os olhos arregalados, La no se deu conta de que amassava na sua a mo de Graham Greene.  
- A senhora me quebra os ossos, cara madame!  
Confusa, ela soltou os dedos. O britnico dobrou-os e estendeu-os.  
- Que punho!... O show a agradou?  
Alfredo, to nu quanto umverme, passou diante dela. Acenderam- se algumas luzes.  
- Senhor Greene, por favor, poderia me acompanhar? No me sinto muito bem...  
- Voc no quer ver a prxima?  
- No... eu lhe peo!  
Ela levantou-se e fingiu vacilar. Greene passou seu brao em torno da cintura dela. O doutor Hasselbacher veio 
na direo dos dois, titubeando.  
- A sra. Tavernier no est bem, anuncia Greene. Vou lev-la para casa.  
O anfitrio teve um riso grosseiro.  
- Voc est bem plida, na verdade. Foi nosso belo Alfredo quem a deixou neste estado? V ento tomar um 
pouco de ar, vai lhe fazer bem.  
- No, creio que no... J algum tempo estou sujeita a terrveis dores de cabea... Agradeo sua acolhida. Faa-
me a gentileza de dizer a Alfredo que j fui embora. Despea-se dele por mim. 
- Sim, bem ento v, j que no h meios de det-la. Espero ter o prazer de rev-los. Sr. Greene, um de meus 
motoristas pode levar a senhora Tavernier...  
-  muito gentil, eu agradeo, mas prefiro acompanh-la. Somos velhos conhecidos e sinto-me um pouco 
responsvel por ela.  
- Como quiser... O cu est magnfico, tudo est to pacfico!  
No automvel, o chofer cochilava, a cabea apoiada no volante. Graham Greene o sacudiu. O homem 
endireitou-se, os cabelos desalinhados.  
- Oque ?...Oque houve?...  
- Acalme-se, sou eu... Vamos embora.  
- Sim, senhor; bem, senhor.  
Ele saiu do veculo e abriu a porta, inclinando-se diante da dama que acompanhava seu cliente. La entrou, 
esperando a todo instante ver surgir Ventura e seus policiais. Mas tudo estava tranqilo, a noite doce e 
estrelada. O doutor Pineiro estaria no porta-malas do carro?  
O porto abriu-se  aproximao deles e os guardas armados fizeram-lhes um sinal com a mo. Diante deles, a 
rua se destacou sob os faris.  
- Para onde vamos, senhor? Para o Vedado, onde acabam de abrir um local para se fumar pio? Ele  mantido 
por uma vietnamita que parece muito honesta...  
- No  ocaso do seu revendedor de cocana: uma verdadeira merda!  
- Talvez, mas no  cara...  
- Muito caro pelo p batizado.  
- A mim tambm me enganaram. Maldito vendedor de jornais! Um escroque, seuior! Tinha confiana nele. Dei-
lhe cinco shillings do meu bolso, depois que reembolsei o senhor.  
-  verdade, Pepe, voc foi correto... Mas preste ateno ou vai nos atirar no fosso. Por que est indo to 
devagar?  
- L... h uma barreira - disse ele, gaguejando. 
- E ento? Pare...  
O txi imobilizou-se na altura de um jovem policial que brandia uma lmpada eltrica.  
- Saiam! - ordenou ele.  
La no mais conseguia controlar o tremor de suas pernas. Parou um carro vindo da direo de 
Havana, com todos os faris acesos. Cegos pela luz, o escritor e sua companheira levaram as mos 
aos olhos.  
- O que est acontecendo? - gritou um homem corpulento, descendo do carro.  
- Polcia! Seus documentos...  
- Imbecil! Sou o ministro do interior, olhe para mim!  
- Oh, desculpe-me, senhor ministro... Temos ordens para controlar todos os veculos...  
- Mas afaste-se ento, estpido, no posso ver as pernas desta jovem mulher...  
No halo que a despia, Laviu Santiago Rey avanarem sua direo.  
- Sra. Tavernier!... Isso  uma surpresa!... Mas o que faz aqui, nesta estrada, em plena noite?  
- Estou saindo da casa do doutor Hasselbacher... Eu apresento- lhe o sr. Greene, o escritor britnico.  
- Eu conheo o sr. Greene... Boa noite, senhor. Por que esto saindo to cedo?  
- Boa noite, senhor ministro. Eu tenho trabalho a terminar, e a sra. Tavernier no se sente muito 
bem.  
- Que pena! As noites do doutor Hasselbacher so realmente divertidas. Vocs tm certeza de que 
no querem voltar?  
- No realmente. Uma outra vez, com prazer, senhor ministro.  
- Espero de todo o corao... Adeus, cara senhora. Voc tem belas pernas...! Djenlos pasar! 
Adeus, senhor Greene.  
Eles seguiram em silncio at a entrada de Havana. Durante todo o trajeto, La havia tentado ouvir 
o menor rudo que pudesse 
vir do porta-malas. Se o doutor Pineiro estivesse ali, o que ela deveria fazer? Alfredo no lhe 
tinha dado nenhuma instruo suplementar.  
- Onde devo deix-la? - perguntou Greene.  
- Em Miramar, se isso no lhe causar problema.  
- Nem o menor do mundo... Voc parece cansada. Conhece bem Santiago Rey? Voc pareceu 
aterrorizada...  
- Fiquei com medo de que o capito Ventura estivesse com 
ele. 
- Voc tem razes para tem-lo? 
- Todo mundo em Havana tem razes para ficar amedrontado com este tipo.  
No Parque Mart, o chofer virou na avenida dos presidentes, seguindo pela rua 23.  
- Por que est passando por aqui? - inquietou-se La.  
- Creio que estamos sendo seguidos...  
- Pegue a primeira  direita - ordenou Graham Greene.  
O motorista obedeceu.  
- Eles ainda esto atrs de ns - observou ele.  
- Pegue a esquerda desta vez.  
O carro subiu na calada e seguiu seu caminho em ziguezague, sem conseguir despistar seus 
perseguidores.  
- Voc acha que  a polcia?  
- No, senhor, os caras esto em um Chevrolet...  
Eles acompanharam a toda velocidade o muro do cemitrio Coln at a rua 29, na altura da qual o 
Chevrolet os ultrapassou e colocou-se brutalmente diante da passagem. O chofer foi forado a parar 
seu txi. Trs homens com o rosto escondido por um capuz saram do segundo carro. Um nico 
levava ostensivamente uma arma.  
- Desam - disse um deles.  
Pepe, mos para cima, saiu em primeiro lugar, com todo o corpo tremendo. 
- No me faa mal... No tenho dinheiro!  
- Quem est falando de dinheiro, estpido? Vire-se para a parede e feche bem os olhos.  
Apesar do capuz que o abafava, La conseguiu reconhecer avoz de Alfredo. Ela colocou-se sem 
uma palavra ao lado do chofer, sem deixar de observar que um dos homens estava abrindo o porta-
malas. Por sua vez, Graham Greene, contrariado, recusava-se a deixar seu assento.  
- Senhor Greene, no nos obrigue a usar a fora; no terei nenhum prazer em surrar um escritor 
famoso...  
- O qu?... Voc me conhece? - disse ele.  
Greene ficou to surpreso que desceu do carro.  
- Virem-se para a parede, por favor. Ns vamos levar o carro. Daqui a alguns minutos, enviaremos 
outro. Intil pedir socorro, o local est deserto e, de qualquer forma, ningum vir ajud-los.  
Os trs homens entraram no txi e deram a partida imediatamente. Pepe estava louco de raiva e de 
desespero observando seu ganha-po ser levado. Graham Greene acendeu um charuto e La 
sentou-se em uma grande pedra que agora fechava um porto de madeira carcomido.  
- No vamos ficar aqui - aconselhou Pepe. - O local no  seguro,  noite.  
- No, vamos ficar - objetou La. - Eles disseram que enviariam outro carro para nos buscar.  
-  curioso - observou Greene -, tenho a impresso de que... voc sabe quem so nossos 
agressores...  
- Que... que idia mais louca! - replicou ela com uma voz rouca.  
- Bom, vamos esperar, j que voc parece to segura de si.  
Um quarto de hora mais tarde, um Lincoin parou nas proximidades.  
- Entrem - gritou o motorista. 
Apesar de sua reticncia, o chofer do carro roubado sentou-se ao lado dele.  
- No se preocupe, seu txi est estacionado diante da estao... Eu deixo o senhor no Nacional, 
senhor Greene?  
- Vamos para o Nacional - disse o escritor, com um tom cansado.  
Eles seguiram em silncio at o hotel.  
- Desa aqui voc tambm-ordenou o condutor do Lincoin ao cubano. - Sr. Greene, desculpe-nos 
pelo contratempo. Eu acompanho a senhora.  
- Adeus, senhor Greene.  
- Voc tem certeza de que quer voltar para casa com este 
homem? 
- Sim, sim, no se preocupe.  
- Tudo bem, boa noite, senhora. 
O automvel seguiu pelo Malecn. A noite estava muito escura, o cu confundia-se com o mar. Um 
imenso cansao tomou conta de La, que fechou os olhos e abandonou-se no banco traseiro do 
veculo. Quando os reabriu, eles chegavam diante da grade da casa. Dois sinais de faris cortaram a 
penumbra. O motorista respondeu.  
- Ato momento, tudo est bem - murmurou ele cortando o contato.  
Duas silhuetas escuras que sustentavam uma terceira aproximaram-se do carro.  
- No tenha medo - disse-lhe o homem - so nossos amigos.  
- Oh, no! - balbuciou La.  
- No tivemos outra escolha - respondeu Alfredo atravs do vidro aberto. - O esconderijo para onde 
pensvamos levar o doutor foi descoberto pela polcia esta tarde.  preciso que voc o esconda por 
algum tempo.  
Sem responder, La tirou sua chave e abriu o porto. Sob seus 
ps, o barulho do cascalho ressaltava-se no silncio noturno. Mais alto, os apliques luminosos da 
varanda que cercava a casa pareciam mandar luzes hostis.  
"Estou com medo" pensou La. "Por que Franois nunca est aqui quando preciso dele?"
Apesar de sua angstia, sua m f a fez sorrir.
- Enfim, aqui est, no muito cedo!  
- Franois! - gritou ela, atirando-se a ele.  
Seus braos fecharam-se em torno dela.  
- Vamos, vamos, no trema, estou aqui... Quem so estes senhores? O que significa?... Por que 
estas armas?  
- Entrem, rpido.  
Sem cerimnia, Alfredo os empurrou para dentro da casa. Seus companheiros levaram o doutor 
Pineiro at um sof. O velho homem deixou escapar um gemido.  
-  preciso chamar um mdico - disse um deles. - Ele parece muito mal.  
- Vocs no vo me explicar de onde ele vem? - exigiu Franois Tavernier, sem abandonar sua 
mulher. - E a propsito, a quem tenho a honra?  
Alfredo, a maquiagem desfeita, retomou a palavra:  
- Nossos nomes no tm importncia, senhor. Ns usamos a sua mulher para fazer nosso amigo 
escapar. Agora o senhor tambm deve nos ajudar; seno o doutor vai acabar morrendo.  
- Tenho a impresso de j t-lo visto... Eu estou enganado?  
- Mame, mame, tive um pesadelo!  
Imvel em uma camisola amarrotada, a pequena Claire piscava os olhos diante da luz. Ela segurava 
seu urso de pelcia pela nica pata que restava ao animal.  
- Tive um pesadelo - disse ela atirando-se nos braos de sua me.  
- No  nada, querida, venha dormir, vou cantar uma cano para voc. 
Ela levantou a criana, que lhe sorriu e em seguida, mais segura, voltou a fechar os olhos. O urso 
caiu; ela havia adormecido nos ombros da me. La saiu levando Claire. Alfredo no fez nada para 
det-la.  
- Senhores, abaixem suas armas agora - cortou Franois. - Em duas palavras, do que se trata?  
Diante da hesitao deles, ele retomou:  
- No tenho tempo a perder... e vocs tambm no!  
Alfredo interveio:  
- Vocs abrigaram Carmen Pineiro; aqui est o pai dela. O local para onde pensamos abrig-lo, 
antes de providenciarmos sua fuga para Miami, foi descoberto por Ventura e sua tropa. Nenhum de 
nossos esconderijos  mais seguro e o estado do doutor no nos permite assumir o risco de lev-lo 
de um esconderijo para outro. Em caso de assalto, ele ser incapaz de fugir rapidamente.  
- Vocs sem dvida no ignoram que ns j tivemos encontros com o capito Ventura e que todos 
nossos gestos e aes so provavelmente vigiados.  
- Ns pensamos em tudo; eles no pensaro que vocs ousariam esconder algum em casa... 
Apesar de tudo, enquanto estrangeiros, vocs no correm grande risco...  
- Voc chama de "no correr grande risco" rapto ou assassinato?  
- Este risco existe, mas  mnimo.  
-  um risco que eu posso aceitar correr por mim, mas que no tenho o direito de impor  minha 
mulher nem aos meus filhos.  
- Ele tem razo.  
Todos voltaram-se, O doutor Pineiro estava consciente e tentava levantar-se. Suas foras o traram 
e ele caiu novamente, sem conscincia. Franois apanhou o telefone.  
- O que est fazendo? - perguntou Alfredo.  
- Vou chamar um mdico.  
- Mas... 
- No se preocupe,  um francs, ele cuida de minha famlia... Al, Antoine?... Sim, eu sei,  tarde... 
 muito urgente, venha imediatamente... Seja discreto e passe pela pequena porta de trs... Sim, 
obrigado, infinitamente.  
Ele desligou.  
- Ele estar aqui em dez minutos. Vocs querem beber alguma coisa?  
Sem esperar a resposta dos trs homens, ele apanhou uma garrafa que estava sobre uma bandeja e 
encheu os copos.  
- Rum est bom?  
- Ele est seriamente ferido...  preciso lev-lo ao hospital - concluiu o doutor Antoine Guimard, 
ajeitando seu estetoscpio.  
- Impossvel - murmurou o ferido. - H delatores em todos os hospitais.  
- O estado do senhor  srio, caro colega.  
- Eu sei, mas ainda estou vivo... o que no durar se vocs me levarem ao hospital.  
- O senhor pode cuidar dele aqui? - perguntou Franois.  
- Sim, mas...  
- Ento o faa.  
- Enfim, Tavernier, ns vamos nos arriscar!  
- Aceita ou no cuidar dele?  
- Eu tenho realmente escolha? No quero ser acusado de no dar assistncia a uma pessoa em 
perigo...  
- Obrigado, meu velho. Sabia que poderia contar com voc.  
- No falemos mais... Faa-o ser levado a um quarto. Vou preparar-lhe uma injeo, limpar as 
feridas e sutur-las. Se tudo correr bem, e com um pouco de sorte, ele poder deixar esta casa em 
trs ou quatro dias. Daqui at l, eu no respondo pela vida dele.  
Quarenta e cinco minutos mais tarde, o doutor Guimard desceu as escadas.  
- Ele est dormindo. Voltarei  noite... Vocs tm algum para ficar ao lado dele? 
- Eu me encarregarei disso - afirmou La, que acabara de entrar.  
Cinco dias depois, o doutor Pineiro pde pensar em partir. Alfredo Garca Olivera havia se entendido 
com o dono de um pequeno barco de pesca de San Francisco de Paula. O bom homem, que 
acompanhava com freqncia Ernest Hemingway  pesca, saa facilmente ao mar sem que as 
autoridades porturias criassem problemas. O prmio Nobel deveria receber em sua propriedade o 
embaixador da Frana e amigos franceses que estavam de passagem. Foi muito naturalmente que 
Grousset convidou os Tavernier a acompanhlo. J escondido no porta-malas do carro de Franois, 
o doutor Pineiro foi em seguida deixado sem incidentes em um caf que dava para o porto. Alfredo 
o esperava ali. Franois teve de encurtar as despedidas a fim de no se fazer notar chegando muito 
tarde na casa do escritor.  
L, uma pequena multido amontoava-se no salo-biblioteca e em um escritrio do autor de O velho 
e o mar. Um copo na mo, ele veio receber os convidados:  
- Seja bem-vinda, bela senhora- disse ele em francs. - O que deseja beber?  
- Teria o senhor um daiquiri ou um mojito?  
-  claro... Vejo que j est convertida s bebidas locais. Ns temos tudo isso, mas no prometo 
que sejam to boas quanto no Floridita ou na Bodeguita dei Medio.  
- Garanto-lhe, cara senhora, que no se sente a diferena  
- disse Graham Greene, avanando em direo a La, embaraado. -A senhora chegou bem? - 
acrescentou ele, sussurrando.  
- Sim, obrigada... Senhor Greene, gostaria de apresentar-lhe meu marido, Franois Tavernier.  
- Estou encantado, senhor. O senhor tem uma bela mulher mas, entre ns, no deveria deix-la 
sozinha em Havana... 
Depois de terminar a frase, ele afastou-se titubeando levemente.  
- O que ele quis dizer? - inquietou-se Franois, tomando o  
brao de sua esposa.  
- Eu vou explicar...  
Quando deixaram San Francisco de Paula, eles no andavam mais  
reto que Graham Greene.  

Captulo Oito

NA ANTEVSPERA DE NATAL, La e Franois partiram para Miami com as crianas, levando
Philomne. A alegria de rev-los foi to forte para Charles que ele teve de sair rapidamente a fim 
de esconder as lgrimas. Ele no agentava mais Miami, aquela corrida perptua ao dinheiro, as 
mulheres cobertas de jias e de peles apesar dos trinta graus  sombra, as confuses sangrentas 
entre os cubanos, as reunies de conspiradores que regozijavam-se pela ensima vez com o ataque 
de la Moncada ou do palcio presidencial de Havana. Mas o que lhe era mais insuportvel era a 
total ausncia de vida cultural. Em Miami, ler ou escutar msica clssica parecia aos autctones 
atividades de uma outra era. Por duas vezes ele havia se encontrado com Carlos Franqui, delegado 
do movimento do 26 de julho nos Estados Unidos, vindo a Miami para encontrarse com os membros 
do Diretrio e do M-26 em exlio. Sobretudo, Franqui desejava recolher os fundos necessrios para a 
compra de armas e de vveres para os combatentes da Sierra Maestra. Estes encontros haviam 
dado ao jovem uma lufada de ar fresco. O velho comunista estava tomado de amizade por este 
jovem francs 
exaltado que sonhava com a revoluo. Eles trocaram livros que prometeram comentar quando se reencontrassem.  
O doutor Pineiro havia recuperado as foras e desejava agora instalar-se em Nova York com sua famlia. 
Acolhido com alegria pelos exilados cubanos, ele havia no entanto se recusado a integrar-se ao grupo e a 
participar das reunies: a revoluo triunfaria sem ele porque, como afirmava, as revolues devoram as 
crianas e os chefes que sobrevivem a elas tornam-se pouco a pouco ditadores; ele no se tornaria mais 
cmplice do que considerava como inevitvel, O que o doutor Pineiro no confessava  que ele desejava 
afastar seus prprios filhos dos lugares onde j haviam sofrido tanto. Carmen, emocionada pelas torturas 
sofridas pelo seu pai e esquecendo-se das suas, fingia que concordava. Mas, no fundo, sua resoluo estava 
inabalada: na primeira oportunidade ela retornaria a Cuba e se reuniria a Fidel Castro. Com Charles, ela passava 
noites a elaborar sua partida clandestina. Quando La e Franois deixaram Miami em direo a Havana, a 
deciso dos dois estava tomada.  
Desde sua chegada, Franois foi convocado pelo embaixador da Frana.  
- Durante sua ausncia, recebi vrias mensagens para voc dos srs. Sainteny e Foccart, mas tambm do general 
De Gaulle.  
- E o que eles querem? - perguntou distrado Franois.  
- No sei de nada.  
- Voc no quer me fazer acreditar que seus funcionrios ignoram o contedo!...  
A perturbao do embaixador respondeu por ele.  
- Aqui esto. Se tiver resposta a dar, ns poderemos encaminhla rapidamente.  
Quando ficou sozinho, Franois abriu a primeira missiva; era de Jean Sainteny, e das mais lacnicas: 
Venha com toda a urgncia, a Frana precisa de voc. Seu amigo,  
Sainteny.  
- Diabos! - murmurou ele, abrindo a segunda. Jacques Foccart era o autor. Dele, Tavemier no sabia quase 
nada,  
a no ser que havia se tornado ilustre enquanto chefe da Resistncia, em Mayenne, e que havia se tornado 
conselheiro para a Unio francesa junto ao general De GaulIe, do qual diziam ser muito prximo.  
O general De Gaulle me encarrega de faz-lo saber que sua presena impe-se junto a ele. 
Espero-o o mais rapidamente a caminho de Sofrino.  
Foccart.  
" de trs", pensou ele abrindo o terceiro envelope, com uma emoo que ele intimamente reprovou.  
Meu caro Tavernier  
Voc j deve ter descansado o suficiente sob os coqueiros esperando o triunfo de Fidel 
Castro. Tenho uma misso da mais alta importncia a confiar-lhe, da qual nada posso dizer-
lhe aqui. Pegue o primeiro avio, eu o aguardo.  
C. De Gaulle.  
Franois colocou as cartas no bolso e saiu para o terrao da residncia. Era noite, os jatos d'gua estavam 
ligados, e um agradvel cheiro de terra molhada lhe acariciou as narinas. Um cachorrinho matreiro veio 
esfregar-se em sua perna. Ele o afastou com o p.  
- Voc no gosta de cachorros? - perguntou na sombra uma voz francesa e feminina com um sotaque cantado.  
A chama de um isqueiro iluminou por um breve instante um 
rosto plido emoldurado por uma massa de cabelos ruivos. Franois aproximou-se.  
- Venha para perto de mim, sr. Tavernier. Adoro a noite em Havana,  ao mesmo tempo doce e 
violenta... O senhor gosta da noite, sr. Tavernier?  
- Depende.  
- Esta noite, por exemplo? Existe no ar alguma coisa de 
profundamente sensual, o senhor no acha?  
- Se est dizendo...  
- O senhor no  nada loquaz, sr. Tavernier. Venha aqui sentar-se perto de mim... O senhor no 
mudou.  
Franois obedeceu.  
- Ns nos conhecemos?  
- Ns nos cruzamos na embaixada da Frana em Buenos Aires onde meu irmo era conselheiro.  
- Tem certeza? Em geral no me esqueo das belas mulheres que encontro.  
- Eu era uma menina, na poca, e o senhor s tinha olhos para uma bela judia com olhar trgico que 
o senhor parecia querer proteger de si mesma.  
Franois levantou-se. A evocao de Sarah, to inesperada, o perturbara. Pelo espao de um 
instante, ele a reviu danando com La.  
- Eu estava l na noite de seu ltimo tango com aquela com a qual voc se casou em seguida. Elas 
estavam magnficas, aterrorizantes e to... perturbadoras! A audcia e a beleza de ambas deixaram 
a platia estupefata. Ningum ficou surpreso pela tragdia que se seguiu a esta dana... O senhor se 
lembra, sr. Tavernier?  
- Cale-se!  
Beber, ele precisava beber alguma coisa forte para afastar a imagem atroz de Sarah, morta, o rosto 
marcado com a sustica que ela mesma havia desenhado com seu batom, sobre seu crnio raspado. 
Ele entrou na residncia.  
- Eu estava procurando por voc, Tavernier... Mas... o que voc tem? Parece que viu um fantasma. 
Com os dentes cerrados ele grunhiu:  
- Mais ou menos... Tomaria alguma coisa, se for possvel.  
- Sirva-se - apressou-se o embaixador apontando para uma mesa baixa carregada de garrafas. - 
Tome...  
Franois apanhou a primeira garrafa e serviu a bebida at a borda. Um pouco de lquido correu 
pelos seus dedos. Ele esvaziou o copo de uma vez e o encheu novamente.  
- Foi o contedo das cartas que o afetou a este ponto? - perguntou o diplomata.  
Franois olhou para ele com olhar de poucos amigos.  
- Quem  a jovem que se encontra no jardim?  
Grousset estourou de rir.  
- FoiAngela que o deixou neste estado? Isso no me espanta, no h ningum como ela para 
exasperar o mundo. Angela Tabucci  uma prima de minha mulher. Seus pais so ricos proprietrios 
argentinos de origem italiana. A filha lhes d muito trabalho: depois dos estudos movimentados e de 
um casamento fracassado, ela faz uma turn pelo mundo para se distrair. E como ouviu falar que 
havia uma revoluo em Cuba, achou divertido vir ver como isso acontece, uma revoluo... Tentei 
dissuadirAngela de vir, mas minha mulher insistiu sob o pretexto de que ela mesma aborrecia-se 
aqui. Intil precisar a voc que eu tremo diante da idia do que podem inventar duas mulheres 
ociosas... Voc sabe o que quero dizer...  
Franois sabia muito bem, mas absteve-se de qualquer comentrio.  
- Vocs falavam de mim?  
Angela estava de p diante da entrada do grande salo, seu cachorrinho no colo.  
- No vou apresent-los, vocs j se conhecem - retomou o sr. Grousset. - Quer beber alguma coisa?  
- Champanhe. Detesto estas horrveis bebidas cubanas  base de rum. O senhor gosta delas, sr. 
Tavernier?  
- Muito, mas desculpe-me. Tenho de partir.  
- J? Ns nem tivemos tempo de conversar... Eu lhe peo, leve- 
me para dar uma volta pelos bares de Havana, meu primo recusou- se a ir...  
Seu tom emburrado de menininha caprichosa tirou um sorriso de Franois.  
- O que faz voc acreditar que eu seja um freqentador assduo de bar?  
- No disse isso, mas os cubanos so to machos que, quando vem uma mulher sozinha, querem 
tom-la sob proteo.  
- Aceite, eles so muito melhores do que eu para lev-la a passear por Havana by night!  
Furiosa, ela atira o cachorrinho em um sof.  
- Voc  como todos os homens: quando se casam, tornam- se preguiosos e criam barriga.  
Franois estourou de rir.  
- Aqui est um retrato pouco lisonjeiro, no acha, caro amigo?  
O embaixador deu de ombros.  
- Se estiver pronta, vamos. No quero que tenha de mim a imagem de um marido de pantufas!  
- Oh, obrigada! Sabia que voc no tinha mudado... Vou apanhar minha bolsa, estarei de volta em 
dois minutos.  
Ela saiu correndo, seguida do cachorro que latia.  
- Meu caro Tavernier, no precisa sentir-se obrigado...  
- Isso vai me distrair... O que faria em meu lugar?  
- No compreendo...  
- Pare de fingir, voc conhece o contedo das cartas.  
- Admitindo isso... Pelo que me concerne, se me dessem a oportunidade de deixar este maldito pas, 
eu a aceitaria. Mas da a ir me enfiar no vespeiro argelino, minhas competncias e meu bom senso 
no me permitiriam... Voc  muito diferente. Voc conhece a maior parte dos protagonistas do 
drama que choca a Arglia e, se acreditar em minhas informaes, o general De Gaulie j lhe fez 
um chamado. Para ser bem franco, sempre me pergunto o que voc veio fazer aqui. Pensei por um 
momento que estivesse implicado no processo de desestabilizao de Batista, mas, 
apesar da ajuda que deu aos militantes revolucionrios, agora sei que no est.  
-  to simples que voc no acreditaria... Se estivesse sozinho, voltaria imediatamente: a vida aqui  
muito montona para mim.  
- Ento, o que te prende? Sua esposa?... Ela compreender... Permita-me um conselho: ns falamos 
entre amigos, no ? Leve sua mulher, ela  imprudente e arrisca-se a ter, qualquer dia, que ajustar 
as contas com a polcia. No estou certo de sempre estar em condies de intervir. A fuga do 
doutor Pineiro causou muito barulho entre as foras de ordem. Os travestis que foram vistos em 
companhia da sra. Tavernier e do escritor Graham Greene foram presos e torturados. O corpo de 
um deles foi encontrado, atrozmente mutilado...  
- Alfredo?!  
- No, no creio que o conhecesse... Alfredo Garca Olivera foi solto sob comando do ministro do 
interior, nosso amigo Santiago Rey...  
- Voc acha que ele colabora com a polcia?  
- No creio. Na minha opinio ele possui documentos suficientemente comprometedores para se 
proteger; se lhe acontece um... acidente, tudo isso poder ser divulgado...  
- Estou pronta!  
Franois d um assobio de admirao. Angela havia trocado de roupa e colocado um vestido leve, 
de um verde-escuro que valorizava a brancura de seus ombros e tambm no deixava ignorar seu 
belo corpo.  
- Gostou? - perguntou ela, girando-se sobre si mesma.  
O movimento deixou  mostra suas longas coxas nuas. Ela estava sedutora e sabia disso.  
"Voc vai arranjar aborrecimentos", suspirou Franois, divertido, contemplando-a.  
O ar entrava pelos vidros abertos do carro e fazia voar os cabelos da jovem. Ao longo do Malecn, 
charmosas criaturas provocavam 
os automobilistas. Vrios diminuam a marcha, alguns paravam e voltavam a partir depois de terem 
embarcado uma ou duas garotas. Cuidadoso, Franois seguia lentamente. Eles cruzaram um 
comboio militar, com todos os faris acesos.  
- Voc acredita na revoluo? - interrogou Angela.  
Perdido em seus pensamentos, ele no entendeu de imediato.  
- Voc acredita? - repetiu ela.  
- Revoluo, no sei; golpe de estado, certamente.  
- No  a mesma coisa?  
- No, uma revoluo implica uma mudana profunda de poltica, de sociedade...  
- Ento, viva a Grande Revoluo mundial!  
- Como diz isso? Voc faz parte dos privilegiados; a revoluo pela qual voc clama a far perder os 
seus privilgios.  
- Tudo depende daqueles que assumirem o poder...  
- Com efeito, se forem pessoas da sua casta, elas reforaro suas vantagens em detrimento dos 
deserdados... Mas por que voc quer que eles faam uma revoluo?  
- Para mudar, para mexer as coisas...  
- Voc diz bobagens...Valry escreveu: "Uma revoluo faz em dois dias o trabalho de cem anos e 
perde em dois anos a obra de cinco sculos."  
-  isso o que voc pensa?  
- No - responde ele com um riso sem alegria. -Atrs deste dito h tanto esperanas quanto 
mentiras.  
- No estou achando graa nenhuma nessa conversa...  
- Tudo bem, mas  voc que veio falar de revoluo...  
Aborrecida, ela se recolheu.  
- No faa esta cara, assim voc fica feia. Diga-me para onde quer ir.  
- Para os lugares malf alados - arremeteu ela com avidez. - Meu primo recusa-se a me levar.  
- No  realmente um lugar para o embaixador da Frana... Os lugares malfalados com os quais 
voc sonha esto realmente 
em Havana. As mulheres que os freqentam so em geral prostitutas ou velhas americanas em 
busca de sensaes fortes. Encontra-se de tudo ali: drogas, garotinhas ou garotinhos...  
-  exatamente onde quero ir!  
- Vamos ento tomar alguma coisa primeiro.  
Quando eles deixaram o Floridita, Angela estava ligeiramente embriagada. Ela pegou no brao de 
seu companheiro e apertou-se contra ele.  
- Estes so os melhores caranguejos morro que j comi em minha vida... Agora, vamos aos lugares 
ruins!  
- Vamos pegar a rua Lamparilla, voc no ter dificuldades em escolher.  
A multido pressionava-se na ruela onde os bares e os bordis se sucediam. Os porteiros que 
atraam o pblico vestidos com roupas de cores berrantes, ornadas de gales ou de ombreiras 
douradas, interpelavam os passantes contando vantagens sobre as especialidades de seus 
estabelecimentos, sacudindo-lhes fotos sugestivas.  
- Vamos entrar naquele.  
Depois da umidade da rua, o frescor do ar-condicionado os fez estremecer. Um homem gordo, o 
rosto ornado com um pequeno bigode negro, apertado em um terno amassado de um branco 
duvidoso, os recebeu. Sob sua maneira obsequiosa, ele os julgava com seus pequenos olhos claros.  
- Os senhores gostariam sem dvida de assistir a um espetculo um pouco... especial?  
- Muito especial? - maravilhou-se Angela.  
- Muito, senhorita. Vocs no ficaro decepcionados. So cem dlares por pessoa... sem as bebidas.  
- Por este preo, isso tem de ser mais do que... "especial"! - ironizou Franois estendendo as notas 
verdes.  
- Seu dinheiro ter valido a pena, fique certo - assegurou o bigodudo estalando os dedos. 
Uma porta, dissimulada sob uma cortina, abriu-se e um jovem de torso nu, as ndegas modeladas 
em uma cala corsrio branca que fazia sua pele bronzeada ainda mais escura, os conduziu por 
um estreito corredor at uma sala onde queimavam uma dezena de chamas oscilantes. Eles 
sentaram-se em uma mesa baixa sobre a qual a luz de uma das velas desenhava um crculo 
perfeito. O espaldar dos assentos, fortemente inclinados, permitia aos clientes estarem quase 
deitados diante do palco. Acima tocava uma orquestra. Parecia de incio que os cinco msicos, 
que usavam a mesma roupa do garom, haviam sido contratados por sua eloqente musculatura 
acobreada mais do que por seus talentos musicais. Impresso falsa: eles revelaram-se excelentes 
e tocavam com um prazer manifesto, rindo e divertindo-se como crianas. Sobre o palco, 
balanando-se no foco dos projetores, ao ritmo do samba, uma mulata era despida por um ano 
negro usando uma peruca empoeirada amarrada abaixo da nuca e um fraque escarlate  francesa. 
De sua cala de seda escapava um pnis de dimenses surpreendentes que fazia o efeito de uma 
terceira perna. Franois pediu uma garrafa de champanhe e, para ele, um copo de rum, 
acendendo um charuto e estendendo-se em seu assento. Ao seu lado, com a saia levantada bem 
alto, Angela fumava nervosamente seu cigarro, os olhos cravados no palco. Quando a danarina 
ficou nua, ajoelhou-se, acariciando o rgo genital do pequeno homem que expandia-se 
incrivelmente at tornar-se um monstruoso cassetete. "Que obscenidade esplndida!", suspirou 
Franois para si mesmo, sentindo inchar o seu prprio sexo. Muito perto dele, uma mo entre as 
coxas, Angela gemia suavemente. Ela j tinha na expresso uma tenso perceptvel. O que se 
passava no palco no deixava ningum indiferente e os prprios msicos haviam deixado seus 
instrumentos para observar o casal fenomenal que fornicava, no momento, com fortes gritos e 
injunes. Na sala, os espectadores no demoraram em se agitar e Franois no resistiu muito 
tempo s mos hbeis e  boca fresca que tomaram conta dele. Quando a jovem o cavalgou 
gemendo, ele deixou-se ir enquanto o ano que tinha seu pnis entre 
as duas mos descarregava entre os seios de sua parceira. Esta levantou-se um pouco depois e se 
afastou balanando as ancas.Ainda durante alguns instantes, ouviam-se apenas suspiros, guinchos, 
risos estridentes e murmrios obscenos. O pianista foi o primeiro a se recuperar; ele voltou a seu 
lugar.  
Com um desconcerto natural, Angela apanhou o guardanapo que lhe estendia um dos garons e 
enxugou o interior de suas coxas. Franois pediu um outro rum. Uma mulher de idade indefinida, 
vestida com uma roupa da moda dos anos 20, tomou posse do palco e interpelou a entrada dos 
espectadores com a cadncia de uma metralhadora: ela queria saber se eles haviam se divertido e 
se estavam prontos a recomear. "Sim!", responderam-lhe prontamente em um clamor.  
- A fim de permitir  honorvel sociedade recuperar as foras, vou interpretar algumas canes!  
A voz se elevou, "doce, pastosa, lquida, o leo agora, uma voz coloidal que escapava de seu corpo 
como um plasma e fazia tremer. Ela possua algo a mais do que um sentimento falso, artificial, 
aucarado, sentimental em sua cano, sem nenhuma besteirada xaroposa, nenhum sentimento 
comercialmente fabricado, mas um sentimento verdadeiro" . Franois aplaudiu. A artista o saudou 
com um gesto e iniciou uma nova melodia. Algum gritou: "La Pachanga"! Ela parou e respondeu:  
- Eu s canto boleros!  
Digna, deixou o palco sob assobios. Franois levantou-se.  
- Venha, eu te acompanho.  
- J? Mas gostaria de ficar, eu...  
- Eu no.  
Angela percebeu que seria intil insistir e o seguiu.  
- Vocs j vo? - espantou-se o homem gordo que os havia recebido.  
Depois do relativo frescor que reinava no interior, o calor colante  
da rua pareceu-lhes mais intenso. Franois segurou o brao de sua companheira e caminhava em 
grandes passadas.  
- No v assim to rpido, temos toda a noite pela frente.  
- No, tenho que voltar para casa.  
- Mas voc me prometeu levar-me para danar...  
- No lhe prometi nada!  
Ela ficou furiosa.  
- Voc  como todos os homens! Depois que conseguem o que querem, s pensam em fugir... Por 
que est rindo, agora?  
- De voc!  
- Porqu?  
- Devo lembrar-lhe que praticamente me violou?  
- Isso no pareceu desagrad-lo...  
- No disse isso;  apenas um esclarecimento.  
O garoto que guardava o carro d-lhes um largo sorriso, satisfeito com a gorjeta generosa.  
O carro seguia  beira-mar.  
- Voc est decididamente com muita pressa em me deixar  
- constatou a jovem com voz raivosa.  
- Sim, tenho minha mala a fazer.  
Ele no voltou atrs. Em que momento havia tomado sua deciso?... Que importa, ele deveria partir. 
O mais duro seria comunicar a La. Como fazer-lhe compreender que seu lugar era agora l, 
naquela Arglia onde se lutava? Ele previa os gritos, as ameaas, os prantos. Ele sabia as crticas 
que La no deixaria de dirigir a ele, no sem razes, e ele as compreenderia. Ele havia acreditado 
poder levar uma vida feliz e fcil com a mulher que amava, os filhos que queria e um trabalho que 
lhe agradava. Durante um longo tempo ele havia escondido o quanto o que acontecia no momento, 
tanto na Frana como na Arglia, importava-lhe. O que acabara de acontecer entre ele e esta 
mulher to fcil apareceu-lhe como o sinal do tdio que a vida que levava aqui lhe entregava. Ele 
tinha necessidade de ao, de perigo. A derrota indochinesa consumada, ele havia 
acreditado estar definitivamente curado de seu gosto pela aventura. Os sofrimentos de La, assim 
como os seus, pareciam ento to grandes, to inteis que ele havia sinceramente acreditado no 
dever jamais participar de combates, quaisquer que fossem, por qualquer causa que fosse. A 
situao em Cuba, a atmosfera tensa que reinava em Havana, as bombas, os raptos, a guerrilha na 
Sierra Maestra, tudo isso teria contribudo para despertar nele o desejo de tomar sua parte nos 
acontecimentos dos quais pressentia de uma importncia extrema para seu pas? Ele no queria 
mais se contentar em acompanh-los pela imprensa e pelo rdio; ele desejava agora levar at l sua 
contribuio. Enfim, ele devia se confessar, o chamado do general De Gaulle, vindo depois daquele 
de Salan, no deixou de lisonjear sua vaidade...  
O segurana abriu as grades da residncia do embaixador. Franois parou o carro diante da entrada 
e desceu para abrir a porta de sua passageira. Ela era charmosa e devia consider-lo como um 
grosseiro. Ele a tomou nos braos, e em seguida a beijou no rosto.  
- Passei uma noite excelente, agradeo-lhe sinceramente.  
-  verdade?! - exclamou ela. - Tinha medo de que voc me menosprezasse... Mas, na verdade, 
tanto faz... - disse ela logo em seguida.  
Ele lhe d um longo beijo sem desprazer.  
- Voc me agrada muito - murmurou ela afastando-se dele.  
Ela ficou de p sobre os degraus at que as luzes traseiras do automvel desaparecessem.  
Ele seguia agora em direo  casa, onde La deveria estar esperando.  
Ela havia dormido, deixando o rdio ligado; a lmpada de cabeceira clareava sua nudez. Uma gota 
de suor escorregava pelos seios dela. Como a cada vez que ele a surpreendia em seu sono, sentia-se 
emocionado por sua beleza e fragilidade. A maternidade no havia deformado seu corpo, que se 
tornara mais pleno, mais voluptuoso. 
Um espelho lhe proporcionou uma imagem de si mesmo que no o agradou: seus traos claros, sua 
pele reluzente, suas roupas amassadas... "Tenho uma cabea de libertino", pensou ele sem mesmo 
se dar conta de que repetia o que seu pai dizia a respeito de homens de idade madura e 
paqueradores que se relacionam com moas muito jovens e dilapidavam o patrimnio familiar. Ele se 
despiu, jogou suas coisas em um canto e dirigiu-se para o banheiro com o cuidado de no fazer 
barulho. A gua da ducha deu-lhe um bem-estar que ele prolongou por um longo momento.  
La havia se virado em seu sono e ocupava, de bruos, pernas e braos separados, toda a cama. O 
estreito biquni havia deixado em suas ndegas uma marca clara que sublinhava o arredondamento. 
Ele se inclinou e deu um beijo na curvatura de suas ancas; adorava o gosto salgado-aucarado de 
seu suor. Ele a lambeu devagar, ela gemeu, ele a virou com cuidado. O odor de seu sexo fez 
enrijecer o dele. O rosto enfiado entre as coxas dela, ele comeou a beb-la. Desperta, La 
apanhou a cabea de seu marido, a segurou, em seguida, longamente, brincou recitando seu nome. 
Ele foi procurar os lbios dela e, devagar, penetrou nela.  
Golpes na porta os acordaram. O sol j estava alto. La levantou-se, vestiu um robe e gritou:  
- Entre!  
A porta abriu-se e duas pequenas cabeas surgiram no portal:  
uma loura, outra morena, Camille e Claire.  
- Somos ns - disse a caula.  
- Vocs no esto na escola? - preocupou-se La.  
- Mas... hoje  quinta, mame! - disse Camille.  
-  verdade, eu me esqueci. Venham me dar um beijo.  
As meninas entraram se empurrando, vestidas em seus robes de um algodo leve, um amarelo e o 
outro rosa; elas precipitaram- se para os braos de sua me. As trs rolaram sobre a cama desfeita, 
empurrando o pai. Franois endireitou-se, descabelado.  
- Mas so as senhoritas minhas filhas! Bom dia, espertinhas. 
- Bom dia, papai! - gritaram elas juntas.  
- No h escola hoje?  
- No - disse Camille em um tom irritado. -  quinta-feira.  
- E  o aniversrio de Adrien - acrescentou Claire.  
- Meu Deus! Onde eu estava com a cabea? - gritou La.  
- Onde est ele? Vamos procur-lo rpido.  
- Estou aqui, mame.  
- Feliz aniversrio, meu querido! Feliz aniversrio, meu crescido!  
"Como ele  bonito", pensou La com orgulho. Com a autoridade de mais velho, ele se ps entre seu 
pai e sua me, e perguntou com uma voz dengosa:  
- Onde esto os meus presentes?  
- Voc no perde o rumo, voc ao menos! - constatou Franois.  
- V ver na varanda.  
Empurrando suas irms, ele desceu da cama, abriu a porta-janela que dava para ojardim e saiu. 
Alguns instantes mais tarde ele voltou, empurrando uma bicicleta novinha.  
-  magnfica! Era exatamente a que eu queria... Obrigado, papai, obrigado, mame!  
Durante um momento, toda a famlia admirou o presente.  
- Voc me leva para dar uma volta? - perguntou Camilie.  
- E eu tambm! - reclamou Claire.  
As crianas saem, agarradas  bicicleta, seguidas pelos olhos de seus pais enternecidos.  
- Dez anos j... - murmurou La.  
- Eu te peo, no acrescente: "Como o tempo passa!" J sei disso!  
- Voc tem medo de envelhecer?  
- Voc no?  
La aconchegou-se contra ele.  
- Um medo terrvel. Diga para mim que nunca seremos velhos!  
- Voc, voc nunca ser velha.
Eles ficaram por um longo tempo sem falar, nos braos um do
outro. "Eu o amo", pensou La. "Oh, como eu o amo!" "Eu a amo  
e vou deix-la", pensou Franois. Ele a abraou mais forte e declarou:  
- Devo voltar  Frana.  
Todo o corpo de La ficou tenso.  
-  importante: o general De Gaulie me escreveu.  
- Quando voc parte?  
- O mais rpido possvel... Fique calma, no ficarei ausente
 por muito tempo.  
- Sei... Sinto que sua ausncia ser longa.  
Ele no respondeu. Alguma coisa lhe dizia que La tinha razo.  

Captulo Nove

PASSADA SUA RAIVA, A PARTIDA de Franois deixou La desamparada. Ele havia insistido
para que ela fosse encontr-lo na Frana o mais rpido.  
- Veremos... - ela havia respondido.  
Toda a magia de Havana havia se evaporado, seu charme possante no mais se agitava. Ela 
subsistia apenas como uma cidade estrangeira onde os carros de polcia passavam com suas sirenes 
noite e dia, sobressaltada ao barulho das exploses, de que seus ricos habitantes comeavam a 
desertar. As raras relaes que La havia estabelecido no lhe eram de nenhum apoio, no mais do 
que seus filhos. Charles lhe fazia falta; ele no lhe dava notcias h quinze dias.  
Uma manh de fevereiro, fria e chuvosa, Esteban Ventura apresentou-se na casa. Vagamente 
inquieta, La o recebeu. Ele foi direto ao assunto:  
- Voc viu, nesses ltimos tempos, seu filho adotivo, Charles d'Argilat?  
Estupefata, La o observava sem compreender. 
- Digamos que no est a par... Ele deixou Miami h cerca de uma semana.  
- Mas... no  possvel!  
- Nossos indicadores so precisos. Ele no estava s, a propsito; uma das filhas daquele traidor do 
Pineiro o acompanhava... Ento, voc no tem a menor idia do local onde ele se encontra?  
O corao batendo forte, La sentou-se.  
- Como poderia saber? Sempre pensei que ele estivesse em Miami...  
- Nada nas cartas dele indicava sua inteno de deixar os Estados Unidos?  
"No", fez ela com a cabea.  
- Que aborrecimento, sra. Tavernier... Ns temos todas as indicaes para pensar que ele se reuniu 
a grupos terroristas. No entanto, pode ser que ele esteja em Havana; em todo caso, se ele entrar em 
contato com a senhora, aconselhe-o, para o bem dele e seu, a apresentar-se  polcia. Estou 
cuidando pessoal- mente deste caso:  meu dever preservar este pas das agitaes dos amigos de 
Fidel Castro.  
- Mas Charles no tem nada a ver com eles!  
- Sra. Tavernier, no me tome por um imbecil. Muitos dos que acreditaram nisso no esto mais aqui 
atualmente. Eu renovo meu conselho: se a senhora o vir, faa com que venha me ver. 
Compreendeu-me bem?  
- Sim, est muito claro.  
Ela o deixou partir sem ter foras para acompanh-lo. Por um longo tempo ficou sentada, imvel, 
incapaz de um pensamento coerente. A campainha persistente do telefone arrancou-a de seu 
estupor. Penosamente, ela dirigiu-se para o aparelho.  
- Al?  
- Al, La?...  Ramn Valds... Eu gostaria de saber se voc e as crianas esto bem... Al, voc 
est me escutando?... Al?  
- Ramn...  
- Ah, voc est a, pensei que nossa ligao tivesse sido cortada. 
- Venha rpido!  
- Como?... Mas o que houve?  
- No sei nada, mas eu lhe peo, venha!  
Quando ela desliga, La sentiu-se um pouco melhor. Ramn era a nica pessoa com a qual podia 
falar livremente.  
J havia uma semana que Charles se aborrecia na casa de Silvina Moran, no Nuevo Vedado. Ele 
havia deixado Miami em companhia de Carmen Pineiro,  bordo do Fidelidad, um iate que 
pertencia a um rico industrial cubano, simpatizante do Movimento do 26 de Julho. Eles haviam sido 
desembarcados,  noite, na praia de Santa F, levando como nica bagagem uma sacola esportiva. 
Cada um por si, eles haviam apanhado um nibus depois de terem memorizado o endereo no qual 
deveriam se encontrar. Para maior segurana, haviam lhes dado a ordem de no se comunicarem 
mutuamente. Charles havia descido na esquina da rua 7 e da 20, e subiu em direo do cemitrio 
Coln. Naquele fim de manh, tudo estava calmo e ele no havia resistido ao desejo de se oferecer 
um caf. Quando tirou das mos do mercador ambulante o copo de papel, experimentou um instante 
de felicidade tomando conscincia de que finalmente estava de volta a Havana. Em volta dele, 
mulheres de preto, munidas de buqus de flores, entravam no cemitrio conversando com gestos 
largos; um carro de polcia diminuiu a marcha. Mais adiante, um mendigo, levando suspensa em 
volta do pescoo a imagem de San Lazaro, empurrava sua bengala sob o nariz dos passantes. 
Estudantes em uniforme lanavam-lhe olhares. Um vendedor de sorvetes anunciava sua mercadoria 
e as prostitutas  proximidade de um grupo de homens se expunham  passagem de um cortejo 
fnebre. Por todos os lados, os motoristas conduziam seus automveis buzinando sem parar... Era a 
vida, aquela de todos os dias. Charles sentia-se bem ali, feliz com esta vitalidade reencontrada. Toda 
a inquietude o tinha abandonado e ele ia lutar por aquele povo, com este povo no meio do qual sabia-
se pronto para morrer. 
Sua bebida terminada, ele havia contornado o cemitrio, tomado a rua 28 at a 35 para a qual dava a 
rua Norte. Sem dificuldade, ele havia encontrado o nmero 42. Naquele bairro pacfico e verdejante, 
a construo de um andar ostentava um ar acolhedor. Um Buick cinza estava estacionado na 
garagem sob a casa. Ele tocou a campainha e uma jovem morena de cabelos curtos veio abrir a 
porta.  
- Procuro a Casa de las Nortefas - disse ele.  
-  aqui.  
- Voc tem notcias de Pepe?  
Quando ela ouviu as palavras-chave, um sorriso iluminou seu rosto at ento desconfiado.  
- Entre, me chamo Agns... Voc  o francs? Seja bem-vindo.  
- Nene, o que se passa? - ouviu-se uma voz do interior da casa.  
- Nada, mame.  um amigo que veio nos ver.  
Depois de ter inspecionado a rua deserta, Agns o puxou para um grande cmodo onde estavam 
trs mulheres. A mais velha veio ao encontro dele.  
- Bom dia. Pepe nos telefonou para anunciar a sua chegada... Sou Silvina Moran e voc j 
conheceu minha filha Agns. Aqui est a irm dela, Ayme, e uma de suas amigas, Emma. Sua 
viagem foi boa?  
- Sim, eu lhes agradeo... Tudo parece muito calmo aqui.  
As quatro mulheres trocaram um breve olhar.  
- Apenas em aparncia. Houve numerosas prises entre o Movimento; cerca de vinte jovens presos 
e torturados pelo exrcito de Batista foram fuzilados em Holgun em represlia depois da execuo 
do torturador da regio, o coronel Cowley. Por todos os lugares incendeiam-se casas, pilham-se. 
Aqui, em Havana, no se passa um dia sem que saibamos do rapto, da priso, tortura ou morte de 
um amigo... Ns vivemos no medo.  
-  verdade, sra. Moran,  por isso que deveremos lutar para derrubar o tirano. 
- Voc tem razo, Emma, mas, para uma me,  muito duro... Cada dia, temo que venham me 
comunicar que aconteceu alguma coisa com meus filhos.  
Silvina Moran deixou-se cair em uma poltrona de balano, a cabea entre as mos. Suas filhas a 
envolveram nos braos.  
Alguns dias depois, Charles reviu Faustino Prez. O representante do M-26 em Havana prometeu 
que logo partiria para a Sierra. Ele se conteve e no foi ver La, que deveria saber de sua partida de 
Miami. O tempo parecia-lhe longo.  
No dia 22 de fevereiro, Charles recebeu ordens de ir ao esconderijo da rua 22. Quando entrou no 
cmodo onde j estavam cinco ou seis pessoas, escutou Faustino Prez declarar a um homem de 
boa aparncia e de orelhas de abano:  
- Bom, ou voc faz ou sou eu quem vou me virar para fazer. Decida-se, Noel!  
- No estou certo de que seja um bom momento.  
- A corrida acontece amanh. Depois, ser muito tarde. Apesar das informaes dos camaradas do 
Carteles , ns no pudemos fazer nada no Nacional, havia muita gente na recepo e os agentes do 
SIM no o deixaram por um instante. Lisandro e Constantin nos indicaram que Fangio deveria jantar 
no Htel d'Angleterre e que ele dormiria cedo a fim de estar em forma para o Grand Prix. E l que 
iremos apanh-lo. Agora, escute bem minhas instrues: Nol e Santa, vocs tomam li Monje 
negro com o francs, estacionam na rua Virtudes, diante do hotel Lincoln, quase na esquina de 
San Nicols. Carapalida conduzir o Buick; William, Lilo  
e Manolo o acompanharo. No Plymouth estaro el Pibe, Uziel e Papito. Os dois carros ficaro na rua San 
Nicols, prontos para partir. Nol, Santa, o francs, Uziel e Papito, vocs entram no hall do hotel; Juan-
Manuel Fangio estar em companhia de pessoas de Maserati e de jornalistas. Haver certamente policiais em 
civil: cabe a vocs identific-los. Quando ele se dirigir para a sada, Noel, Lilo e Manolo o seguiro. Os outros 
faro a guarda. Todo mundo compreendeu?  
- Para onde devemos lev-lo?  
- A rua 22. Em seguida, ns entraremos em contato.  
O hall do hotel Lincoin estava lotado. O corredor argentino, cercado de fs, discutia com seu diretor de 
corrida, sr. Ugolini, em companhia de Porfrio Rubirosa e de sua jovem mulher, a artista francesa Odile Rodin. 
Diante da multido, os fidelistas hesitaram. Com um passo tranqilo, Manuel Uziel aproxima-se do corredor e, 
calmamente, apontando seu revlver para ele, diz-lhe com uma voz calma:  
- Voc deve me seguir.  
Com uma voz mais forte, ele acrescenta:  
- Ningum se mexa! Somos do 26.  
Sem dvida, Fangio leu nos olhos de Manuel sua fria determinao, porque lhe seguiu o passo sem uma 
palavra. Diante deles, a multido estupefata afastava-se. Empurrando seu refm como cano de sua arma, Uziel o 
faz subir no Plymouth verde, que partiu veloz enquanto seus companheiros alcanavam correndo o seu 
veculo. Nem um tiro havia sido disparado.  
Nol colocou-se  frente do cortejo, seguido pelo Plymouth e o Buick. Nenhum carro de polcia os seguiu. Eles 
haviam percorrido cerca de um quilmetro quando um txi deixou seu estacionamento  
e barrou o caminho do Buick, que no pde evit-lo. Neste instante passava uma perseguidora. Carapalida 
desceu para tentar entender- se amigavelmente com o chofer de txi.  
- Partir! - ordenou Nol a seus camaradas.  
O carro conduzido por Nol faz uma meia-volta enquanto que o Plymouth continuava seu caminho. Apertando 
contra si suas metralhadoras, Angel, Lilo e Manolo enfiam-se no Monje Negro. No cruzamento, os policiais 
que haviam descido de seus carros decidiram levar os dois motoristas ao posto policial.  
Uziel parou perto dele e apresentou sua mulher e seu filho de alguns meses a Fangio.  
- Vou mudar de carro. Vigie-o bem.  
Em seguida, voltando para seus colegas, ele dirigiu-se ao campeo:  
-  preciso que voc compreenda que estamos a ponto de comear uma batalha por nossa dignidade de 
homens livres.  
Fangio, que no abandonava uma calma aborrecida, sorriu diante das palavras do garoto de 20 anos.  
Uziel voltou ao volante de um Ford e conduziu o prisioneiro ao nmero 60 da rua 22. Neste esconderijo do 
Movimento encontrava- se um homem cruelmente queimado. Pouco antes, o engenheiro Rmn Garca havia 
sito preso e torturado por Ventura. Juan-Manuel Fangio teve um gesto de recuo ao v-lo.  
- Nosso companheiro foi ferido quando experimentava um lana-chamas fabricado por ele mesmo. O tubo de 
alimentao se soltou e as chamas o envolveram. Ele s escapou por milagre... mas em que estado!  
- No fale mais disso. Tive sorte. Samitier no teve...  
Encarregaram Charles de ir inspecionar as cercanias da rua Norte e de voltar para dizer-lhes se a via estava 
livre. Era o caso.  
Quando Fangio entra na sala de Silvina Moran, ela o esperava com as filhas ao p da escada que conduzia ao 
andar.  
- Voc deve estar com fome. Venha, preparei-lhe um jantar.  
Ele agradeceu e a seguiu para a sala de jantar. Os raptores 
tomaram lugar ao lado de seu hspede forado. Nol e William j estavam na mesa.  
Todos comeram com grande apetite. Durante este tempo, Agns e Ayme montavam guarda. 
Como grande admirador do campeo do mundo, Charles, enrubescendo, pediu-lhe um autgrafo. 
Fangio lhe d, observando com ironia:  
- Isso no  comprometedor?  
O jovem sorriu levantando os ombros e guardou cuidadosamente em sua carteira a foto com 
dedicatria. Era uma hora da manh quando Fangio subiu para dormir no primeiro andar. Charles 
instalou-se para passar a noite na porta de seu quarto; William vigiava o trreo e Uziel, sentado atrs 
de uma poltrona de balano e escondido pela cerca viva, ficou com os ouvidos em alerta.  
De manh, foi na cama que serviram ao corredor um generoso caf da manh.  
Faustino Prez e Fernando" chegaram para render os da noite.  
- Vocs conseguiram a primeira pgina dos jornais do mundo inteiro: s se fala de ns e do seu 
seqestro! - anunciou Faustino.  
- O que vocs querem? - retorquiu friamente o argentino.  
- Na verdade, o nome de Fidel  agora to famoso quanto o seu, e o 26, seu nmero fetiche,  
mundialmente conhecido como sendo o de nosso movimento. A polcia est em p de guerra e 
vasculhou casa por casa em todo o bairro que cerca o hotel. H barreiras em todas as estradas; os 
portos e os aeroportos esto sob o controle do exrcito. A rdio e a televiso lanam apelos s 
testemunhas e do informaes de hora em hora.  um sucesso!  
- Estou feliz por vocs.., O que pretendem fazer comigo?  
- Ns estudaremos as condies de sua libertao, sem dvida depois da corrida. Ns devemos agir 
prudentemente: a polcia est por todo lado.  
Eles passaram o resto da manh a comentar os artigos que  
"Arnold Rodrguez, chefe da propaganda clandestina em Havana. 
surgiram na imprensa. Polido, Fangio escutava com seriedade, sem emitir o menor comentrio. 
Depois do almoo ele voltou para seu quarto. Marcelo Salado substituiu Faustino e Fernando. Para 
distrair a ateno do campeo da corrida que iria comear no Malecn, organizado em circuito de 
competio, ele comeou a ler uma reportagem publicada noBohemia: "Em Cuba."  
Por volta das quatro horas, Rafael Pinielia surgiu no cmodo. Marcelo Salado tirou sua pistola, 
persuadido de que a polcia cercava a casa.  
- Houve um acidente muito grave no percurso do grande prmio!  
-  horrvel! - gritou Silvina Moran entrando no quarto. - No rdio eles anunciavam dezenas de 
mortos e centenas de feridos...  
Fangio levantou-se muito plido.  
- Isso no  possvel... O que aconteceu? Meu seqestro pode ter deixado os pilotos nervosos...  
- Venha, vamos ver na televiso.  
- Por que no me disseram que tinham uma? - lanou ele, em um tom reprovador.  
- Eu tinha ordens... - balbuciou ela.  
Charles cedeu seu lugar a Fangio, que sentou-se e crispou os dedos no acolchoado da poltrona. Na 
tela viam-se agora ambulncias, pessoas correndo em todos os sentidos, feridos tentando se 
levantar, todos os tipos de fragmentos e, aqui e ali, os corpos imveis junto dos quais ocupavam-se 
os salva-vidas. Um reprter, microfone na mo, anunciou que, sob ordem do presidente Batista, a 
corrida estava suspensa, e em seguida indica o balano provisrio da catstrofe:  
quatro mortos e uma centena deferidos. Alguns instantes mais tarde, um dos responsveis deste 
segundo Grand Prix de Havana veio responder s perguntas do jornalista.  
- Na quintavolta, o piloto cubano Armendo Cifuentes perdeu o controle de sua Ferrari depois de ter 
derrapado em uma poa de leo. O carro voou sobre a multido. Mais de duzentas mil pessoas 
assistiam  competio... 
- Como o senhor explica a presena desta poa de leo na pista?  
- No explico. Como para cada competio, ns examinamos previamente o percurso e ningum notou nada de 
anormal.  
- Depois do seqestro de juan-Manuel Fangio, o campeo do mundo, o senhor acredita que pode se tratar de 
um novo atentado perpetrado pelos rebeldes?  
- No sei de nada,  possvel...  
Deixando os olhos da televiso, o corredor vira-se para seus raptores:  
- Vocs no fariam coisa parecida?  
- Evidentemente que no! Mas os policiais de Batista so capazes de tudo, com o nico objetivo de nos 
desacreditar - respondeu Rafael Piniella.  
Fernando aprovou com a cabea. A televiso continuava a divulgar as imagens sofridas. O telefone tocou. 
Ayme atendeu.  
-  para voc - disse ela a Piniella.  
A conversao foi breve.  
- O movimento fez contato com a embaixada da Argentina. Ns vamos libertar voc  noite. No momento, 
aguardamos as instrues e devemos estudar como proceder. Voc pode nos deixar?  
Quando Fangio foi levado de volta ao seu quarto, todos comearam a falar ao mesmo tempo.  
- Ns poderamos deix-lo em uma igreja e...  
- As igrejas ficam fechadas  noite...  
- Podemos encontrar um padre que...  
- E se o abandonssemos em uma esquina...?  
- Para que Ventura e seus homens o matem e nos atirem o crime nas costas?  
Silvina, que havia acompanhado o prisioneiro, desceu.  
- Ele est com fome - suspirou ela.  
- E ns tambm! - exclamaram os seqestradores.  
Silvina Moran esforou-se para improvisar uma refeio e descobriu at uma garrafa de velho rum. Todos 
sentaram-se  mesa e comeram em silncio. Eram onze horas da noite. 
O jantar terminado, Uziel saiu para a rua. Tudo estava calmo, como se este bairro de Havana tivesse sido 
esquecido pela polcia. De uma casa vizinha ouvia-se um chachach. Um cachorro late.  
-  a hora! - anunciou Pinielia.  
Emma Montenegro havia recebido ordens de apanhar seu automvel, um Rambles equipado com duas 
persianas em sua luz traseira. Fernando recebeu a responsabilidade de entregar Fangio s autoridades 
argentinas; isso o deixara nervoso, O corredor instalou-se entre Fernando e Flavia; Rafael Piniella coloca-se ao 
volante. Perto dele sentou-se Emma, uma pistola sobre os joelhos. Imediatamente depois da partida deles, os 
outros se dispersaram e Silvina Moran ficou sozinha na Casa de las Nortefias.  
Uma grande confuso reinava a bordo do automvel. Fernando importunava o motorista sobre o itinerrio a 
seguir.  
- Tenha calma! - ironizou Piniella. Se uma perseguidora nos cair em cima, daremos o volante a Fangio e eles 
vo ter que correr...  
- No ser necessrio - brincou o argentino. - Piniella j dirige como um campeo...  
O exagero da afirmativa relaxou a atmosfera.  
As ruas estavam desertas, exceto pelos carros de polcia e os veculos militares inscritos no Flrida. Eles 
chegaram sem incidentes ao nmero 20 da rua 12, na esquina do Malecn. No havia ningum diante do 
edifcio de onze andares onde deveria acontecer o resgate. Tudo parecia pacfico. "Muito pacfico", pensaram 
todos. Eles se dividiram em dois grupos, um seguindo pelo elevador com o refm, e o outro pelas escadas. 
Sobre uma das portas estava preso com alfinete um carto de visitas em nome de Mano Zabalia, "adido 
militar".  
-  ali - sussurrou Emma.  
Fernando tocou a campainha. Cercando o corredor, a arma em punho, o pequeno grupo esperou, pronto a 
atirar. Um homem plido,  
os traos tensos, abriu. Atrs dele estavam dois outros argentinos tambm plidos. O primeiro 
recuou diante das armas apontadas em sua direo. Fernando empurrou o campeo para o interior. 
Fangio estendeu a mo a um dos diplomatas e em seguida, virando-se, fez as apresentaes:  
- Meus amveis seqestradores que, devo dizer-lhes, me trataram muito bem...  
-  um verdadeiro alvio para ns... - balbuciou Julio Lpez, o primeiro conselheiro da embaixada da 
Argentina. - Eu vou avisar sua Excelncia de sua libertao. Sr. Lynch queria vir por si prprio 
dizer-lhe de sua alegria em sab-lo em boa sade.  
Mais emocionado do que queria parecer, Juan-Manuel Fangio aperta a mo de seus raptores.  
- Quando a ditadura cair - pronunciou Fernando -, voc ser o nosso convidado de honra!  
Sempre aguardando sua partida para a Sierra, Charles havia tido que trocar de esconderijo. Ele 
agora estava em Regla, em uma casa baixa, perto da catedral de Nuestra Sefiora de Regia, na casa 
de um babala, sindicalista operrio e simpatizante do Movimento do 26 de Julho. O velho homem, 
um mulato de cabelos brancos, recebia todos os dias numerosos visitantes que vinham pedir-lhe 
conselhos ou para que interviesse junto aos orixs, ou de dar-lhes proteo. Cada um depositava sua 
oferenda, dinheiro ou alimento diante do altar onde estava uma rplica da Virgem negra, patrona de 
Havana. Charles mal conseguia esconder sua irritao diante destas prticas e recusava-se a 
conhecer seu orix.  
La andava para l e para c na sala, parava, tirava um objeto do lugar, endireitava uma flor e 
recomeava antes de acender um cigarro e de apag-lo em seguida.  
- Fique mais tranqila, voc me impede de refletir - advertiu Ramn Valds.  
Por um breve instante, ela sentou-se. Mas logo se reergueu. 
- Enfim, para onde podem ter ido? No se desaparece assim simplesmente, sobretudo quando no se 
est s... O doutor Pineiro est certo de que eles se escondem em Havana e fala em voltar para 
encontrar sua filha...  
- Que ele no faa isso! Ventura poder muito bem prender o pai para obrigar a filha a se entregar. 
Dissuada-o de voltar. Tenho alguns contatos com os professores da universidade, prximos do 
Diretrio; j falei com eles e esto em busca. Assim que tiverem alguma informao, me faro 
saber. Tenho tambm amigos jornalistas no Carteles e no Bohemia; alguns so simpatizantes do 
Movimento do 26 de Julho e tambm esto colaborando. Voc avisou Franois?  
- No, o que ele poderia fazer de Alger?  
- Voc deveria voltar para a Frana...  
- E abandonar Charles?... Jamais! A me dele o confiou a mim ao morrer: voc pode compreender 
isso?  
Ramn levantou-se, repentinamente envelhecido, e deu alguns passos.  
- Estamos  beira de uma guerra civil e, por conhec-la to de perto, posso dizer-lhe que  a forma 
mais abominvel de guerra: o irmo mata o irmo, a me denuncia o filho, as filhas o pai, nenhum 
campo  lmpido, a morte est por todo lado e o sangue que corre age sobre o povo como um lcool; 
mata-se por matar, sem necessidade, pelo prazer... A embriaguez  coletiva.  
Ao mesmo tempo que falava, imagens assustadoras voltavam a assombr-lo. Ele havia acreditado, 
ao fugir da Espanha, fugir tambm das lembranas dos massacres com arma branca, dos 
bombardeios que decepavam braos e pernas, corpos supliciados, rostos desfigurados, mulheres com 
o ventre aberto, bebs cortados ao meio, meninas violentadas... Ele havia querido esquecer, nesta 
ilha indolente, tantos crimes cometidos em nome da liberdade! Desde sua instalao em Cuba, ele 
havia se recusado a tomar parte na vida poltica do pas, contentando-se em pagar bem aos seus 
operrios e velar pelo bom funcionamento da escola e do dispensrio 
que havia feito construir em suas terras. Sem filhos, ele interessava-se pelo progresso dos alunos e 
encorajava aqueles que desejavam ir para a universidade, dando-lhes bolsas de estudo. Ele havia 
rompido todas as ligaes com o partido comunista, no vendo mais do que dois ou trs 
companheiros sobreviventes, como ele, da guerra da Espanha. Sua ao em favor da Repblica lhe 
valia o respeito dos militantes. Em caso de necessidade, ele sabia que poderia apelar para eles.  
Os pensamentos que assustavam La no eram os mais amveis. Ela revia Camilie correndo diante 
de seu filho sob as balas dos alemes e dos milicianos.., a flor vermelha que desabrochava em sua 
camiseta branca... seus braos que atravessavam o ar... seu tombo... a sandlia que caa de seu 
p... a me ferida no rosto, arrastando-se em direo ao pequeno... atingida nas costas, ela caiu 
sobre a criana, chamando por La...  
Ajovem mulher havia fechado os braos sobre o peito e ela sentia ainda contra si o corpo inanimado 
de Charles, ela lembrava-se de sua corrida louca atravs do bosque. Ela no se deu conta de que as 
lgrimas corriam em suas faces.  
Ramn Valds conhecia por Franois os sofrimentos enfrentados por La e a promessa que havia 
feito a si mesmo de evitar outros. Em vez disso, ele a abandonara neste pas prestes a explodir. 
Mesmo que aprovasse a deciso de seu amigo, Ramn no conseguia compreender como ele pde 
deix-la sozinha com seus filhos.  verdade, Tavernier lhe havia confiado sua famlia, mas ele no 
era o senhor dos acontecimentos.  
Ramn foi em direo a La e a segurou afetuosamente pelos ombros, forando-a em seguida a 
sentar-se perto dele.  
- No gosto de v-la chorar. Vamos... assoe-se... Assim, est melhor. Agora, escute-me:  normal 
que voc queira encontrar Charles, ele  como se fosse seu filho e sente-se responsvel por ele. 
Mas voc tambm  responsvel por Camille, Claire e Adrien. Voc pensou neles? Esto em perigo, 
como Charles. Se no quer partir, mande-os para a Frana. 
La dirigiu-lhe um olhar to desamparado que ele virou a cabea.  
- O prximo avio para Paris sai dentro de dois dias - acrescentou ele com esforo. - Deixe-me 
reservar os lugares... Voc concorda?... Bom, avise sua irm.  
O avio da Air France estava lotado e Ramn Valds teve de reservar lugares a bordo do vo 
previsto para l de maro. La telefonou para Montillac. A recepo de Franoise, acordada em 
plena madrugada, foi de incio fria, depois irritada. Enfim ela se acalmou e declarou-se feliz em 
receber seus sobrinhos, acompanhados de Philomne, e aconselhou a irm a voltar o mais rpido 
possvel. La no lhe falou do desaparecimento de Charles.  
S foi tarde da noite que La soube do rapto seguido da libertao de Fangio, ao mesmo tempo que 
do acidente no Malecn. Por um momento ela pensou que Charles poderia ter tomado parte nisso. 
Mas afastou rapidamente o pensamento.  
Antes da partida deles, Ramn levou as crianas para tirarem uma fotografia na cidade velha. 
Alberto Daz Gutirrez tirou os retratos, julgando-os magnficos. J o espanhol ficou um pouco 
decepcionado.  
- Eles no esto sorrindo - observou.  
- Eles esto pensando - corrigiu sentenciosamente o homem da arte.  
Na vspera da partida, Camilie e Adrien se meteram na cama da me e insistiram para dormirem 
ali.  
- Depois, no vamos mais ver voc...  
- No quero deixar voc.  
- Por que voc no vem conosco?  
- E papai? Ele vai estar em Bordeaux?  
- Vou sentir a sua falta.  
- Vou sentir a falta de vocs tambm, meus queridos... Prometam-me que sero gentis e no 
irritaro Philomne, obedecero a sua tia Franoise e no brigaro com seus primos...  
- Mame, isso j  pedir muito - reclamou Adrien. 
Por um longo tempo, La os apertou contra si e, tarde da noite,  
ela permaneceu acordada a escut-los dormir.  
Ela nunca imaginou sofrer tanto quanto quando os viu se afastarem  
sobre a plataforma para o avio: era como se lhe arrancassem  
o corao. Esta impresso era to real que ela levantou maquinal-  
mente as mos ao peito e as manteve cerradas at o momento em  
que o avio desapareceu nas nuvens. Ela ento caiu em prantos.
Ramn no sabia o que fazer para minorar seu sofrimento.  

Captulo Dez

AS PERSEGUIES E PRISES FORAM numerosas depois dalibertao do campeo
automobilista. O capito Esteban Ventura voltou rapidamente  casa de Miramar e mandou
vasculh-la de ponta a ponta, suscitando protestos oficiais da parte da embaixada da Frana. 
Censurado por seus superiores, ele havia voltado  carga abordando La no cassino do hotel 
Nacional.  
- Sei que seu filho participou do seqestro de Fangio, ele foi visto fazendo guarda diante do hotel 
Lincoin, e em seguida subindo em um dos carros dos seqestradores. Se ele ainda no lhe telefonou, 
o far nos prximos dias e, neste momento, eu colocarei as mos em cima dele, esteja certa.  
- Como j lhe disse, senhor Ventura, no tenho nenhuma notcia de meu filho, mas tudo me leva a 
crer que tenha sido uma escapada amorosa...  
- O que lhe faz pensar em coisa do gnero?  
- O senhor no me disse que ele deixou Miami em companhia de uma jovem? 
- Exatamente: a filha do doutor Pineiro, que  outra perigosa revolucionria!  
La estourou de rir.  
- O senhor v revolucionrios em todos os lugares, meu Deus! Acredita que estaria aqui tranqilamente 
jogando roleta se pensasse que meu filho estaria se divertindo fazendo a revoluo?...  
Por um instante, Ventura pareceu abalado pelo argumento e considerou, em dvida, a jovem mulher elegante 
que, em seu vestido de noite, o encarava.  
- Adeus, senhor Ventura.  
Repentinamente plido de raiva, ele a observou reunir-se ao grupo de amigos, todos a receberem os 
embaixadores do Mxico e do Brasil, levantando-se  aproximao dela. O ministro cubano dos assuntos 
estrangeiros e Santiago Rey, o do interior, igualmente levantaram-se.  
- Espero que Ventura no a tenha importunado mais uma vez com suas perguntas? Uma palavra sua e eu o 
destituo... - disse este com uma voz alterada.  
La estremeceu; o tom irnico de Rey parecia-lhe mais ameaador do que o de seu subordinado. Desde a 
partida das crianas, ela aplicava-se em fazer encenaes, multiplicando as sadas, indo de coquetis a noites 
mundanas e de noites mundanas a bailes. Nunca se tinha rido tanto, danado, bebido e flertado em Havana 
como neste incio do ano de 1958. Nas belas residncias, nas embaixadas ou nas boates, as festas chegavam 
ao seu pice ao ritmo de orquestras de Beny Mor, dos irmos Castro, do duo Celina e Mentilio, de 
MiguelitaValds, de Celia Cruz ou de Abelardo Barroso. A cidade estava tomada por um frenesi de prazeres. 
Nunca os americanos haviam vindo em to grande nmero perder somas absurdas sobre os tapetes verdes ou 
nas mquinas de moedas, se embebedar tanto de rum e de belas garotas. Tudo era pretexto para loucas 
noitadas que acabavam ao amanhecer nas praias ou na beira das piscinas, entre os risos, os vmitos ou os 
choros. 
Graas s suas sadas, La esperava recolher alguma informao a respeito de Charles e Carmen Pineiro. De 
seu lado, Ramn Valds havia pressionado seus amigos para pesquisarem no seio dos movimentos 
revolucionrios. Um jornalista do Carteles confirmou- lhe a participao do rapaz no seqestro do corredor, 
mas ignorava o que ele havia feito em seguida. Foi atravs de Alfredo Garca que eles descobriram que Charles 
estava ainda em Havana, passando de esconderijo em esconderijo, nunca dormindo mais de duas noites no 
mesmo local.  
- Ele sabe que voc o procura. E pediu-me que lhe dissesse para no fazer nada para encontr-lo: voc arriscar 
a sua vida e a dele. Assim que for possvel, ele entrar em contato com voc.  
- Ele precisa de dinheiro?  
- No sei nada a respeito... Sem dvida, mas no  o mais importante. No momento, voc no pode fazer nada, 
est sendo estreitamente vigiada, e todos aqueles que se aproximam de voc tambm. Quanto a mim, meus 
anjos da guarda no me abandonam por um segundo...  
- Nestas condies, como conseguiu obter informaes a respeito de Charles?  
- Ns, criaturas da noite, temos mais do que um artifcio em nossa bolsa. Meus anjos da guarda no so 
completamente insensveis ao charme de minhas companheiras e a venalidade delas no  negligencivel...  
- E isso  suficiente para que confie neles?  
- No seja to ingnua: confiar nestes brutos!... Meu Deus, no. Prefiro faz-los gritar...  
- Mas voc corre o risco de ser assassinado!  
- Ao contrrio, se eu estiver morto, a pele deles no valer mais do que um prego, e eles sabem muito bem 
disso...  
Uma carta de Franoise veio dizer-lhe que as crianas haviam chegado bem: 
Montillac, 10 de maro de 1958. 
Minha querida La,  
Seusfilhos chegaram bem, mostram-se encantadores, bem-criados e a pequena Claire  
uma graa. Intil dizer-lhe que os meus ficaram felizes em rever os primos; a casa est 
cheia de risos e ressona ao barulho de suas cavalgadas. InscreviAdrien e Camille na escola 
das irms de Verdelais. Sei que Franois e voc teriam preferido a escola municipal, mas 
asseguro-lhe que, por conta da nulidade dos educadores, o nvel intelectual e social dos 
outros alunos  muito baixo ali. Lembre-se, j era assim no nosso tempo.  
Seu marido nos fez a surpresa de uma visita relmpago. A alegria das crianas foi grande, 
bem menor no entanto, do que o sofrimento na hora da partida dele... No creio que seja 
saudvel para elas viver tais emoes. Seu marido insistiu para nos enviar uma grande 
soma de dinheiro pelo cuidado dos pequenos e dePhilomne; tivemos que aceitar porque os 
negcios esto muito difceis neste momento.A propsito dePhilomne, uma prola, esta 
mulher que nunca reclama do trabalho. E que amor por Claire! Para no falar em 
venerao...  verdade que esta pequena parece mais com ela do que com Franois ou com 
voc. Com ela, voc podeficartranqila a respeito de sua filha.  
Na sua carta, que Adrien me entregou, voc no me fala a respeito de Charles. Ele ainda 
est em Miami?Retomou seus estudos? Epor que no inscrev-lo na faculdade de direito de 
Bordeaux, j que o direito que lhe interessa?Ns poderamos encontrarum quarto para ele 
na cidade e traz-lo a Montillac todos os fins de semana. O que acha?  
Em Montillac, todo mundo est bem, as crianas crescidas. Voc se d conta de que Pierre 
logo ter catorze anos, Isabelle onze e eu... quarenta! Pierre s pensa em poltica e reclama 
por no ter idade para ir lutar na Arglia. Voc imagina o quanto eu me alegro! No 
entanto, tenho dvidas se essa guerra no vai se eternizar J dura h quase quatro anos. 
Franois no nos disse quando voc pensa 
em voltar No tarde demais, no  bom para as crianas ficar separadas de seus pais por 
tanto tempo.  
Eu te deixo agora, porque prometi aos mais velhos lev-los ao cinema em Bordeaux.  
Todos aqui mandam-lhe lembranas.  
Sua irm,  
Franoise.  
Pelo mesmo correio, La havia recebido uma carta de Franois:  
Meu belo amor,  
H trs semanas que j estou longe de voc e das crianas! Voc me faz falta. 
Porque no vem se encontrar comigo?Aqui, em Paris, o clima est muito 
tenso. Desde a exploso de uma bomba nopalcio Bourbon, os controles na 
entrada da Cmara dos deputados, dos ministrios e de outros locais 
polticosforam reforados. ReviSainteny, que lhe envia lembranas, e Pierre 
Mends France. Eles me organizaram encontros com Georges Bidault (pelo 
qual eu sinto sempre tanta antipatia e que, na verdade,  recproca), 
Jacques Foccart, Franois Mitterrand e Ren Pleven. No saiu grande coisa 
dos encontros. A personalidade de Foccart me intriga (dizem que  muito 
prximo a De Gaulle). Ele no fez nenhuma aluso  carta que me enviou, 
nem quela do general Ainda no sei por que me fizeram voltar nem o que 
esperam de mim...  
Na Arglia, a situao degrada-se a cada dia. A "pacificao" custa 
atualmente  Frana 330 milhes porano. ParaMendsFrance,  dinheiro 
jogado fora.  
Eu tinha esquecido; deixei a rua da universidade - este apartamento, sem voc,  
sinistro - e estou instalado no hotel Luttia.  
Neste momento em Paris um livro tem grande repercusso. O autor HenriAlleg, comunista, 
antigo diretor do Alger Rpublicain, estigmatiza a tortura praticada pelo exrcito. Franois 
Mauriac e Claude Bourdet, um no l'Express e o outro no France-Observateur, 
tambm a denunciam. Eu li estes artigos, assim como o livro deAlleg:  
ainda estou tremendo de raiva, enojado.Apesarde minha pouca estima pela espcie humana, 
no sabendo do quanto ela  capaz, nem mesmo teria acreditado - oh ingenuidade! - que os 
oficiais franceses pudessem chegara este ponto to baixo. Voc pode julgarporsi mesma:  
vou faz-los chegarem a voc. A maior parte deles j fazem parte de meu desgosto e 
de meu dio depois da leitura do La Question - quero dizer do livro -, simplesmente me 
respondendo que " a guerra", que a FLNfaz muito pior que o exrcito precisa de 
informaes, que a tortura poupa vidas humanas de ambas as partes... Enfim, a mesma 
covardia, a mesma indiferena que sob a Ocupao. Como, h pouco sados de um conflito 
mundial que fez dezenas de milhes de vtimas, depois da guerra da Indochina, onde 
deixamos nossas ltimas iluses sobre o papel da Frana no mundo, como nossos dirigentes 
ousam falar de reconquista, depacficao de trs "departamentos franceses ' um pas ao qual 
colonizamos as populaes para o servio dos europeus que, com freqncia atravs de uma 
pobre extra o,foram se insta larali?  
Acabaram de me trazer uma convocao do general De Gaulle para esta tarde, s quinze 
horas, na rua de Sofrino. Vou enfim saber o que ele espera de mim. Manterei voc a par  
Desde minha chegada a Paris, no recebi um sinal de voc. Sei que traa promessa que te fiz 
de jamais voltaraArg lia. Mas o que se passa por l  importante para a Frana e devo 
participar Parece-me que depois de ter vivido o que vivi, meu lugar  l. Sei que voc pode 
compreender melhor do que antes. No seja teimosa, eu a amo e voc sabe! Escreva-me, 
telefone para mim. Vou correrpara postar esta carta.  
Cubro seu belo corpo de beijos,  
Franois.  
Um grande cansao tomou conta de La. Ela sentia que Franois afastava-se, tomado mais uma vez 
pelo gosto da aventura e o 
desejo de estar sempre no corao dos acontecimentos, de fazer a sua parte. Contra isto, o que poderia 
fazer uma mulher apaixonada? Se ainda estivesse perto dele... Sem Charles, ela teria partido para o 
campo. Mas poderia ela abandonar este garoto que havia criado e que, de agora em diante, 
arriscava-se todos os dias  priso e  tortura? Ela deveria encontr-lo e usar de todos os 
argumentos para lev-lo  Frana. Foi neste estado de esprito que ela respondeu a seu marido:  
Havana, 10 de abril de 1958.  
Estou certa de que voc  sincero quando diz que me ama, mas menos, no entanto, do que 
ama sua liberdade, a confuso e seu generalDe Gaulle. Voc tem razo,posso compreend-
lo. No apenas o compreendo, mas o invejo. Colocada de lado nossa vinda a Cuba, voc 
sempre agiu, em todas as coisas, como melhor lhepareceu. Quanto a mim, tenho a impresso 
de no ter conduzido minha vida, de serprisioneira de circunstncias que - no vou chegar a 
me explicar - me permanecem no apenas imprevisveis, mas revelam-se mais freqentemente 
dramticas; sou o joguete de um destino que me escapa. E ainda atualmente.  
Como voc sabe, Charles deixou Miami. O que voc ignora  que ele se encontra 
provavelmente em Havana e que a polcia o procura. Tudo leva a crer que ele tomou parte 
no seqestro de Fangio. Onde quer que esteja, no tenho nenhuma notcia dele. A embaixada 
da Frana o est procurando e, por seu lado, Ramn lanou os republicanos espanhis na 
pista dele. Um de nossos amigos cubanos esforou-se para conseguirinformaes nos meios 
ilegais havaneses. Nunca se sabe... Quando o encontrar verei junto  embaixada o meio mais 
seguro e mais rpido de faz-lo deixar o pas. Voc, em nome da Frana, eu pela vida de meu 
filho, mais uma vez fomos pegos, nos encontramos envolvidos em acontecimentos que no nos 
dizem respeito realmente. Foi apenas durante a guerra que estivemos no nosso lugar.. Enfim, 
 o mnimo que posso dizer... Atualmente a diferena entre voc e mim  que voc tem 
escolha. Eu, no. 
A cada dia, os atentados se repetem em Havana e no resto da ilha. A noite das cem 
bombas",foi como abriram os jornais depois do 15 e 16 de maro quando elas explodiram 
tanto na cidade velha quanto no Luyano, no Vedado e quase emMiramarA ordem de greve 
geral lanada por Fidel Castro para o 9 de abril foi um fracasso. Ontem, nas ruas, as 
pessoas olhavam-se com desconfiana, todas as lojas estavam com as portas abertas e os 
nibus circularam normalmente. O apelo ao protesto no foi ouvido e apenas a polcia 
estava reunida...  
Soube hoje mesmo, por Franoise, que voc passou para ver as crianas; foi bom e, eu lhe 
peo,faa-o sempre que puder Fale com elas a respeito da me delas. Voc tambm me faz 
muita falta.  noite, me acaricio pensando em voc como me ensinou afazer Ainda que 
experimente a cada vez um breve prazer est longe de me satisfazere me deixa, antes de 
donnir com uma grande tristeza no corao.  
Espero que as belas parisienses no ofaam esquecer-se de sua exilada cubana...  
Eu o amo,  
La.  
PS.: Vou fazer chegara voc esta carta pelo malote diplomtico para que no seja 
interceptada. Obrigada pelo livro.  
La acordou da sesta com o corao batendo. Desde a partida das crianas, ela deitava-se toda 
a tarde e dormia por uma ou duas horas. Entregue ao silncio, a grande casa havia ganho um ar 
hostil. Sobo comando de Ramn Valds, ela havia contratado um casal que permanecia na casa. 
Ramn o havia escolhido sob a recomendao de um de seus velhos companheiros de armas. 
Juan e Mariana Torres eram mulatos de 20 e poucos anos, originrios do oriente. Analfabetos, 
vindos de uma famlia camponesa muito pobre, eles tinham partido para a capital para tentar 
escapar da fome. Um dia, 
La surpreendeu a mulher no quarto de Claire, tentando com os dedos acompanhar um abecedrio 
ilustrado.  sua entrada, Mariana tenta esconder o livro, enrubescendo.  
- Estava olhando as imagens...  
Emocionada com sua mentira, La comeou, nos dias seguintes, a ensin-la a ler. Durante uma 
semana, cada manh, durante uma hora, ela mostrava-lhe as letras e as fazia escrev-las. Mariana 
progredia rapidamente. Uma manh, como a lio terminara, Juan entrou, com o chapu na mo, e 
um ar embaraado.  
- Oquequer,Juan?  
Ele se balanava sob o portal, o queixo quase tocando seu peito.  
- Por que est a sem dizer nada: aconteceu alguma coisa?  
A inquietude de La alertou Mariana.  
- No, senhora, mas ele no ousa...  
- No ousao qu?  
- Pedir-lhe que o ensine a ler, como a mim.  
Tanta timidez e boa vontade os tornavam enternecedores.  
- Mas,  claro... Quem diria que um dia me transformaria em professora!  
A felicidade que clareou o rosto dos dois fez La compreender o quanto eles sofriam com a 
ignorncia.  
Ao fim do ms de abril, voltando da praia, ela encontrou uma mensagem de Alfredo Garca Olivera, 
que marcava um encontro na mesma noite,  meia-noite, no bar dos Dos Hermanos.  
- Juan, quem deixou esta carta?  
- Uma grande mulher loura que me disse que chamava-se Freddy. Ela era magnfica! Nunca tinha 
visto uma mulher igual...  
La sorriu ao entusiasmo de Juan, que no parecia ser partilhado por sua esposa.  
- Voc  apenas um campons incapaz de distinguir uma mulher honesta de uma puta!  
- Voc  completamente louca: ela disse que era uma amiga da senhora... 
- Ah, desculpe-me - disse Mariana enrubescendo.  
- No tem importncia - tranqilizou-a La.  
Porvolta das dez da noite, ela foi encontrar-se com RamnValds e lhe falou do encontro marcado 
com Freddy.  
- Muito bem, irei ao Dos Hermanos antes de vocs e os esperarei. Mas leve Juan com voc.  
- Mas posso ir sozinha...  
- Faa o que lhe digo! - cortou ele secamente.  
Preocupada, ela desligou; quele tom no havia rplica possvel.  
O bar estava lotado e vrios consumidores tinham de ficar de p na calada, a maior parte em busca 
de uma aventura homossexual. As duas ou trs mulheres que percebiam-se entre os clientes eram 
velhas prostitutas do bairro, que tinhamvindo fazer uma pausa dajornada de trabalho. A chegada de 
La, seguida por Juan, provocou uma leve baixa no nvel sonoro das conversas. Um instante mais 
tarde, elas recomearam como se nada tivesse acontecido. Juan, desorientado pelo piscar de olhos 
de alguns homens ou de discretos esfregares, no havia largado La por um instante enquanto ela 
seguia at o bar. Em uma mesa, ela acabara de notar Ramn, sentado em companhia de outros dois 
homens de sua idade, e visivelmente espanhis. J havia passado da meia-noite, Alfredo ainda no 
tinha aparecido. No bar, houve um certo empurra-empurra para dar lugar a La. Ela pediu um velho 
rum.  
- O que quer beber? - perguntou aJuan.  
- O mesmo que a senhora.  
L fora, na calada, cinco msicos atacaram uma ria. Sob o olhar espantado de Juan, homens se 
enlaaram e comearam a danar. Ele tinha um ar to aturdido que La estourou de rir.  
Um carro parou diante do estabelecimento, com um barulho de freios. Vestido em um inacreditvel 
vestido de cetim violeta, com longos cabelos louros presos  nuca por uma faixa de veludo preto e 
calada com escarpins de saltos altos, Alfredo desceu do carro. Com ele, uma jovem ruiva 
charmosa em uma longa pele vermelha 
e um homem vestido de terno de linho branco amarrotado. Mas, enquanto os trs fizeram sua 
entrada com um andar instvel, La foi atrada pelos olhos brilhantes do travesti que viravam-se, 
enlouquecidos, sob a franja dos clios postios. Quando chegou perto dela, La observou tambm 
que ele no estava barbeado. Ele trouxe a ruiva para diante dele. As duas mulheres se olharam.  
- Eu apresento-lhe Angela Tabucci - gritou ele para se fazer ouvir em meio ao burburinho. -  um 
verdadeiro pote de cola  
- acrescentou, sussurrando no ouvido de La. - No consegui me livrar...  
- Boa noite - disse Angela estendendo-lhe a mo. - Voc  a sra. Tavernier, no ? Realmente no 
mudou, est at mesmo mais bonita.  
- Ns nos conhecemos?  
Angela sorri.  
- Seu marido me fez a mesma pergunta...  
- Voc conhece Franois?  
- Ns nos encontramos aqui, alguns dias antes de sua partida, mas j os vi na Argentina, durante um 
baile onde voc usava um vestido azul...  
La ficou completamente plida e levou as mos aos lbios como se para abafar um grito, os olhos 
repentinamente enchendo-se de lgrimas. E esta msica, o tango que voltava... Ela segurou-se na 
borda do bar. L fora, os msicos tocavam: Adis muchachos, compaieros de mi vida... As 
conversas diminuram, os rostos viraram-se, interrogadores, na direo dos msicos: no era 
freqente escutar-se esta msica em Cuba... Ya me voy, y me resigno contra ei destino... 
ngela a enlaou... elas giraram enquanto os homens se afastavam.., suas pernas so de chumbo, 
seu corpo queima  lembrana daquele de Sarah, de seu vestido vermelho e, como em Buenos 
Aires, a multido formava um crculo em torno delas. Por um longo tempo, La fechou os olhos e o 
tempo parou... ela danou com Sarah... Sarah no est morta... Dos lgrimas sinceras derramo 
en mi partida... 
- Voc se lembra?... Fui eu quem pediu esta cano - sussurrou uma voz desconhecida.  
Em um grito de furor, La afastou-se do abrao sedutor, atirou sobre sua parceira um olhar de dio, 
depois de desgosto, e a esbofeteou trs vezes. Seus dedos marcaram a pele branca.  
- Franois no fez a mesma coisa, em Buenos Aires?... - observou Angela, repentinamente doce e 
com ar vago.  
La se conteve para no se permitir parti-la de golpes. Ela virou-se e dirigiu-se para o bar. O rumor, 
por um instante suspenso, recomeou. Sem que ela lhe pedisse, o barman serviu-lhe um novo copo 
de rum. Ela o bebeu de um trago. Alfredo se acomodou perto dela, empurrando Juan que, 
acreditando se tratar de uma mulher, afastou-se sem reclamar. Quando ele descobriu de mais perto 
as bochechas escurecidas pela barba, seu rosto exprimiu um tal estupor que Alfredo e La no 
conseguiram reprimir um riso louco, que pouco a pouco contagiou os freqentadores e, logo, toda a 
audincia dos Los Dos Hermanos uniu-se em um nico e grande gargalhar. Todos os homens, 
velhos ou jovens, negros ou brancos, as poucas mulheres tambm, Angela compreendeu, estavam 
tomados por uma tamanha hilariedade que as lgrimas vinham-lhes aos olhos. Alguns, as mos sobre 
os flancos, tentavam estancar a dor ao lado do trax. Na rua, uma perseguidora diminuiu a marcha, 
parou e os policiais abriram a porta, com uma das mos pousadas na arma. Para eles, os risos se 
amplificaram, transformando-se em um delrio. Os policiais ficam aturdidos: em toda a carreira 
deles, jamais tinham visto coisa parecida. Habitualmente, suas aparies interrompiam as conversas 
e fechavam os rostos. Esta noite, uma onda crescia, quebrava e lanava-se bonita, era um carnaval, 
uma dana de SaintGuy da qual estavam completamente excludos. Bah! Com certeza no eram 
revolucionrios que riam desta forma! Um revolucionrio  um supersrio, mesmo em Cuba...  
Refestelados em suas mesas, sentados no cho, alguns rolando no solo, os freqentadores do bar 
tentavam recuperar seus espritos e seu flego. 
- Fiz pipi nas calas! - gritou uma prostituta, sufocada num acesso de tosse.  
- Eu tambm! - fez uma outra observando, estupefata, a pequena poa que aumentava.  
Alfredo, o primeiro, estava recuperado.  
- Venha - sussurrou ele a La.  
Juan logo se interps.  
- No se preocupe, Juan. Siga-nos.  
O trio passou diante da mesa de Ramn Valds que, seguindo-os com os olhos, fez sinal a seus 
companheiros para seguirem seus passos. Ningum prestou ateno  porta que se abriu no fundo 
do estabelecimento. Eles desembocaram em um corredor coberto de caixotes e de tonis. Os gatos 
que foram perturbados miavam raivosamente. Alfredo afastou uma pilha de gaiolas, descobrindo 
uma segunda sada, muito estreita, que abriu-se sem dificuldade.  
- Vamos, apressem-se.  
- Vo perceber que passamos por l - inquietou-se Ramn, atravessando a ltima passagem.  
- Um colega da boate vai recolocar tudo no lugar atrs de ns. Uma caminhonete nos aguarda no 
fim da rua.  
- Alfredo, voc pode nos dizer o que tudo isso significa? - perguntou La ansiosa.  
- Vamos encontrar Charles.  
- O qu?... Voc o encontrou?  
- Sim, mas creio que devemos ir rpido: o tipo que o abriga foi preso. Conheo os mtodos deles, eles 
conseguiro faz-lo falar.  
-  longe daqui?  
- No, a alguns quilmetros; em Regla.  
- Tenho tambm alguns amigos por l - disse Ramn. - Se nos sairmos mal, poderemos nos refugiar 
na casa deles.  
O motorista da caminhonete cochilava atrs de seu volante. Ele teve um sobressalto quando Alfredo 
abriu a porta.  
- V para casa, agora, vou dirigir. No observou nada de especial? 
- No, tudo est calmo.  
La e Ramn entraram na cabine enquanto os outros se aglomeravam na parte de trs.  
A estrada que levava a Regia estava deserta e esburacada. Naquela hora, a cidade de Santerfa 
parecia abandonada. Os raros refletores que no estavam fora de uso emitiam uma luz sepulcral. A 
Sierra Chiquita - como se chamava em razo de seu passado revolucionrio e anarquista - parecia 
uma cidade morta. No interior do veculo, espanhis e cubanos faziam o sinal-da-cruz. Ao fim da rua 
Mart, em frente ao porto, levantava-se a massa sombria da igreja Nuestra Sefiora de Regia, a 
virgem negra que  cultuada como lemanj, a patrona dos marinheiros. Um cachorro latiu e um 
outro lhe fez eco. Alfredo desligou o motor.  
- Chegamos - sussurrou ele apontando um edifcio.  
Das docas prximas chegavam-lhes o barulho de correntes, do atracamento de navios, um bater de 
gua. O cheiro de ferrugem e de piche planava sobre estes nicos barulhos.  
- No gosto disso - disse um dos espanhis entre dentes.  
Unindo o gesto  palavra, ele tirou sua pistola.  
Vacilando sobre o pavimento solto da praa da catedral, Alfredo retirou seus escarpins, atirando-os 
no fundo da caminhonete.  
- Voc deveria retirar talvez tambm a peruca... - sugeriu La com voz baixa.  
Mecanicamente, ele obedeceu e a cabeleira loura voou ao encontro dos sapatos de cetim.  
- Fique ao meu lado - recomendou ele  jovem mulher. - Os outros, perto da caminhonete.  
Eles deslizaram ao longo das fachadas sombrias. Quando chegaram ao outro lado da praa, Alfredo 
empurrou uma porta, que cedeu com um gemido. Parecia a eles que toda a cidade havia sido 
despertada. Com uma arma na mo, Alfredo avanou tateando.  
- Voc tem um isqueiro?... Passe-o para mim.  
A chama revelou a grande desordem que reinava no cmodo onde haviam chegado: no apenas 
mveis pobres haviam sido 
revirados mas - oh sacrilgio! - o altar e seus santos haviam sido profanados.  
- Senhor!... Jamais poderia ter acreditado que um cubano seria capaz de mexer nos orixs... - 
balbuciou Alfredo, benzendo-se.  
Recuperando-se, o cubano entrou em uma abertura feita entre as pranchas arrancadas de uma 
divisria. Exceto uma miservel cama de ferro com os ps para cima, no havia nada no pequeno 
reduto sem porta nem janela que eles acabavam de descobrir.  
- Onde est Charles?! - quase gritou La sacudindo os braos de seu companheiro.  
Uma espcie de pavor a tinha tomado.  
- Cale-se! - intimou ele.  
Ele inclinou-se sobre o solo coberto de uma velha pavimentao e bateu trs vezes com sua 
coronha, depois duas, e de novo trs. Um dos quadrados do piso se mexeu.  
- Ele est l... Segure o isqueiro.  
Com a ajuda de suas longas unhas, ele levanta a primeira laje; trs outras em seguida. Duas mos, 
depois uma cabeleira empoeirada emergem do buraco. La reprimiu um grito. Alfredo esforava-se 
para iar uma jovem fora do fosso.  
- Obrigada, obrigada... Pensei que tivessem me esquecido ali para sempre...  
- Carmen!... Onde est Charles?  
H pouco tempo de p, ajovem desmoronou. Alfredo a recolocou de p brutalmente.  
- No  o momento de desmaiar! La, sustente-a... Eu vou na frente.  
- Onde est Charles? - repetiu La quase gritando.  
- Eu... eu no sei.  
Quando eles saram para a praa, a caminhonete veio ao seu encontro, faris apagados.  
- Suba atrs - disse Alfredo a Carmen. Vocs, dem-lhe uma ajuda, cubram-na com a lona... Todos 
se ajeitem como puderem, e um de vocs pegue a metralhadora. 
Atravessando a cidade adormecida, o motor fazia um barulho infernal, O veculo havia lentamente 
deixado a praa e no momento subia a rua Maceo. No cruzamento com a rua Cspedes, uma 
perseguidora tentou de todas as formas barrar-lhes a passagem. O motorista virou o volante, a 
caminhonete subiu na calada e, em uma manobra, conseguiu ultrapassar a barragem improvisada 
arrancando o pra-lamas atrs do automvel.  
- Ataque! Ataque! - gritou Alfredo.  
Pelos vidros abertos do carro, os policiais haviam aberto fogo. Em um gemido, uma bala atravessou 
a cabine e estraalhou o pra- brisas. Atrs, Ramn estava com a metralhadora. Um pontap na 
porta traseira a escancarou. Ramn atirou no carro imobilizado atravs do cruzamento, enquanto um 
espanhol o segurava pela cintura. La se virou. Ela s teve tempo de ver um policial atirar-se no 
cho e que, um segundo depois, corria com a arma na mo. Uma rajada o atingira no peito. A 
caminhonete chegava a toda velocidade  rua Guanabacoa quando duas 
perseguidoras surgiram 
de uma rua adjacente para ca-la. Pendurado na porta, Alfredo esperou alguns instantes at que a 
primeira se aproximasse. Ele atirou visando o motorista.  
- Diminua! Deixem-os chegar mais perto - gritou ele fora da cabina.  
O motorista obedeceu, aperseguidora ganhou terreno. A bala de Alfredo varou subitamente o 
pra-brisa e atingiu o policial no meio da testa. O carro ziguezagueava perigosamente quando uma 
bola de fogo o acertou.  
- Eu tinha me esquecido dos coquetis Molotov! - gritou, todo feliz Alfredo. - Obrigado, caras!  
Como se para terminar sua frase, a perseguidora pegou fogo depois de atingir uma torre de 
energia.  
-  de uma vez! - concluiu o cubano.  
Um pequeno furgo surgiu da cortina de fumaa e lanou-se por sua vez em perseguio a eles em 
um ressoar de motor. Do teto, uma metralhadora soltava longas rajadas. Cado da plataforma, um 
corpo rolou sobre a rua. O policial que conduzia o furgo nem procurou desviar.  
- No! - gritou La quando as rodas o esmagavam. - Pare! Pare! Pode ser Ramn!  
- Muito tarde para ele, abaixe-se!  
Duas garrafas incendirias que haviam sido jogadas na direo dos perseguidores erraram seu alvo. 
Enfim, os tiros sados da metralhadora deixaram o cano da metralhadora e feriram o motorista. O 
furgo fez um cavalo-de-pau, capotou duas vezes de forma impressionante e terminou brutalmente 
sua corrida em uma rvore. Ela logo pegou fogo. Duas tochas vivas extirparam-se da carcaa, 
correram alucinadas pela rua, caram e, depois de alguns sobressaltos, quedaram-se imveis. La 
tinha a cabea entre as mos.  
A caminhonete no tinha diminudo a marcha para seguir sua estrada at Catalina de Gines, onde 
ela estreitou-se e tornou-se um caminho de terra. No fim, levantava-se um edifcio. La saltou de 
seu assento, empurrando Alfredo, e precipitou-se para a parte de trs. Pelos dois batentes abertos, 
Ramn ajudava Carmen a descer. La suspirou profundamente enquanto a jovem deixava-se 
escorregar do degrau. Ela permaneceu alguns instantes curvada sobre si mesma. Docemente, La 
levantou sua cabea.  
- Meu Deus!  
Um filete de sangue manchava seu rosto sujo.  
- Ela est ferida!  
- No  nada - corrigiu Ramn. - Apenas um arranho... Reginald Ortega protegeu-a com seu 
corpo... Decididamente, est escrito que meus pobres amigos terminariam sob as balas da ditadura...  
La aproximou-se e o abraou.  
- Ramn, o que dizer a voc?... Voc, seus amigos... eu... eu estou profundamente desolada por 
seus dois companheiros...  
- No vamos falar agora - cortou ele. - Discutiremos mais tarde.  
- Ramn tem razo - apoiou Alfredo. - Um outro carro est 
escondido aqui, ns devemos trocar de veculo. Mas, antes, vamos queimar a caminhonete.  
- Mas...  
- J sei o que vai dizer, mas no temos escolha. O camarada espanhol morreu em combate e os heris no 
precisam de sepultura. H um reservatrio de gua atrs da casa. La, leve Carmen para se lavar um pouco.  
Quando elas voltaram, o motor de um Cadillac j ronronava. Alfredo j havia trocado seu vestido em 
frangalhos por uma malha e um macaco. Juan e Lazaro, o motorista, acabavam de jogar a gasolina da 
caminhonete. Alfredo a abraou assim que todos se instalaram no Cadillac. Um imenso claro iluminou a cena. 
"Como em Montillac", pensou La, gelada.  
Eles seguiam no momento em silncio. De longe ainda se via o incndio; no tardaria a ser descoberto.  
Atrs, sobre a confortvel banqueta, Carmen, exausta, cochilava nos braos de La.  
Quando saiu de seu torpor, comeava a amanhecer.  
- Para onde vamos? - inquietou-se La.  
- Vamos tentar encontrar Fidel - respondeu Ramn.  
- Fidel?... Mas devemos voltar a Havana...  
- Agora  impossvel - retorquiu ele. - A esta hora, os homens de Ventura esto em sua casa, e na minha 
tambm, sem nenhuma dvida. No temos escolha. E ainda falta atravessarmos as barreiras policiais...  
- O que vai acontecer com Mariana? - perguntou Juan.  
Um silncio respondeu sua pergunta.  
Perto de La, os punhos cerrados, Juan olhava reto para a frente; uma lgrima percorreu sua face e perdeu-se 
nos plos de seu bigode. La reprimiu um gesto de compaixo.  
Aos poucos, La tentava obter com Carmen, suavemente, informaes a respeito de Charles. Os dois 
encontraram-se no refgio de Regla mas, trs dias antes, militantes do M-26 enviados por Faustino Prez 
haviam ido buscar Charles para conduzi-lo  Sierra. 
Os homens de Faustino, encarregados de ultrapassar as fronteiras, deveriam voltar para lev-la. 
Neste meio tempo, a casa havia sido investigada pela polcia e a jovem teve apenas tempo de 
escorregar para o esconderijo arranjado sob o piso. Por muito tempo ela havia escutado os gritos do 
velho homem que os albergava. Depois o silncio caiu, um silncio to pesado que ela havia 
acreditado ter ficado louca.  
Quando Carmen terminou seu triste relato, La soube que ela partiria para a Sierra  procura de
Charles.

Captulo Onze

LAZARO GIROU O VOLANTE to brutalmente que quase bateu com o Cadillac, e em seguida,
depois de uma derrapagem, tomou um caminho bordeado de cana-de-acar que se abria  direita. 
Ningum havia pronunciado uma palavra, todos tinham visto a barreira que fazia, um pouco mais 
longe, um destacamento militar. Ramn e Alfredo ganharam a calada, debruaram-se sobre os 
cotovelos na praia atrs e aprontaram-se para disparar a metralhadora para abrir fogo sobre 
eventuais perseguidores apesar da nuvem de poeira que levantava-se  passagem deles. A nvoa 
privava os atiradores de uma completa visibilidade, mas assinalava a sua fuga. Os passageiros, 
sacolej ando, foram projetados uns contra os outros. A todo momento, eles aguardavam um ataque. 
Nada disso aconteceu.  
Ao fim de algum tempo, Ramn props fazer uma parada. O veculo imobilizou-se  beira do 
caminho e Lazaro cortou o contato. Tudo ficou silencioso; nada se mexia nas cercanias e cada um 
prendia a respirao. Lentamente a poeira caa; o sol j estava alto o suficiente. Alfredo foi o 
primeiro a descer.  
- Ns no devemos estar muito longe de Nueva Paz - 
calculou Lazaro. - Estamos a cerca de cem quilmetros de Havana. Se conseguimos atravessar a 
barreira, deveremos estar tranqilos at Santa Clara.  
- Voc tem certeza de que no haver outras adiante? - perguntou Alfredo.  
- Haver provavelmente uma na altura de Torriente, na auto- estrada, uma outra perto de Coln, na 
estrada de Matanzas. Poderemos sem dvida evit-las passando por Torriente e Jagey Grande, em 
seguida voltando para Coln. L, creio que sei como contornar os controles e no dever haver 
outros at Santo Domingo. Em seguida, no sei bem o que h, mas no estaremos a mais de trinta 
quilmetros de Santa Clara.  
Em um mapa, Ramn havia seguido com o dedo o trajeto que indicava ao motorista.  
- Isso parece ser a chance... - confirmou ele. - O que  preciso, agora,  sair de l. Juan, v ver o que 
se passa ao lado dos soldados e volte para nos informar. Alfredo, tente encontrar um caminho 
paralelo  estrada.  
O velho da guerra da Espanha havia espontaneamente recuperado o tom do comando. Os dois 
cubanos executaram as ordens sem um comentrio.  
Juan foi o primeiro a voltar.  
- Nem se mexeram, esto tomando caf.  
A aluso ao caf fez La salivar e, repentinamente, tomou conscincia de que morria de fome e de 
sede. Ela passou a lngua sobre os lbios secos.  
Alfredo voltou.  
- A cem metros  esquerda, h uma pequena estrada.  
- Sem dvida a estrada que leva a Palos;  dela que precisamos. Mas no devemos demorar l, o 
exrcito ali acantona os homens das barreiras - acrescentou Lazaro.  
Refestelados diante da entrada do nico caf de Palos, militares desalinhados observaram passar o 
Cadillac com indiferena. No 
interior do automvel, cada um estava pronto para defender com afinco sua pele. Os passageiros s 
desceram em Cabezas, onde compraram provises. Diante do escritrio dos correios, Juan deu uma 
parada e suplicou a La com os olhos. A situao no escapou a Ramn.  
- Se voc telefonar, meu garoto, arrisca-se a nos fazer notar e eles acabaro nos colocando a mo 
em cima...  
- Venham, rpido - alertou Alfredo -, tenho a impresso de que um oficial est prestando ateno em 
ns.  
Eles voltaram para o carro. Lazaro d a partida suavemente e o oficial que avanava na direo 
deles mudou de idia e voltou.  
Bolos secos, cerveja morna e bananas apaziguaram um pouco a fome de todos. Sobre estradas 
esburacadas, eles cruzaram carroas atreladas de mulas ou cavaleiros sobre sua montaria, cercados 
s vezes por famlias inteiras. Crianas nuas brincavam por todo lado ao longo do asfalto, e mulheres 
carregando pacotes ou maos de gravetos sobre suas cabeas viravam-se para v-los passarem.  
Graas s indicaes de Lazaro, eles evitaram a barreira de Coln. No local onde se encontravam 
no momento, a estrada beirava a via frrea; eles a deixaram em Santo Domingo, uma coluna de 
blindados subia em direo a Havana. Por volta das duas horas da tarde, eles entraram em Santa 
Clara. A aglomerao cochilava sob o sol.  
- Para onde ns vamos agora? - perguntou Ramn.  
- Para a casa do irmo de meu pai - respondeu-lhe Alfredo.  
-  um comunista simpatizante do M-26. Ele mora perto da igreja de la Santissima Madre dei Buen 
Pastor. E longe o suficiente do centro e ali estaremos em segurana. Meu tio, Alejandro Garca, j 
foi preso vrias vezes em diferentes governos. Ele era muito prximo de Jess Menendez, um dos 
dirigentes negros dos operrios do acar; juntos, os dois lutavam contra os proprietrios das 
centrales. Ele conheceu bem Carlos Franqui quando estava nas Juventudes comunistas. Sei que 
mantiveram contato. No incio dos anos 40, Santa Clara era uma cidade onde o racismo era 
dominante. Os brancos podiam passear no interior do parque Lencio-Vidal, 
enquanto os negros deveriam ficar do lado de fora. Ns vamos neste parque o famoso asno Perico, 
mascote de toda a cidade, que sempre circulava pedindo po e brincava com todo mundo, sem no 
entanto deixar-se montar; havia tambm, na borda do parque, a ponte Candado, que chamvamos "a 
ponte da boa gente": era ali que conduzamos os cortejos fnebres, porque a tradio dizia que 
jamais deveria passar por esta ponte um morto que tivesse sido um canalha. Sob a ponte corre o 
Manso Belico, com, nas cercanias, cabars e casas de tolerncia onde amos danar. Um famoso 
flautista tocava em uma orquestra de Cienfuegos e ganhava um centavo por dana, mais um para a 
bailarina e trs para o proprietrio e a polcia. Em uma esquina isolada estava o quiosque de 
Daniel, veterano da guerra da Espanha; era local de reunio de todos os camaradas comunistas de 
meu tio, que com freqncia me levava com ele. Ns parvamos na praa do mercado, no chins, 
onde comamos uma completa de arroz, feijo e picadinho que custava cinco centavos. Por uma 
moeda a mais, eu tinha direito a uma banana e meu tio a um copo de guarapo. Eu tinha cinco ou 
seis anos, mas lembro-me como se fosse ontem... Vejam a igreja, vire  direita. V o grande porto 
verde?  l. Entre no ptio.  
Uma porca escura, seguida de seus leitezinhos, atravessava o ptio trotando. A entrada deles, as 
galinhas afastaram-se cacarejando. Um homem negro, grande e magro, estava de p, as duas mos 
apoiadas sobre o cabo de uma foice. O alto de seu rosto estava escondido pelas bordas desfiadas de 
um chapu de palha. Imvel, ele observava os passageiros do Cadillac virem em sua direo. De 
sua figura, desprendia-se uma impresso de fora e de serenidade.  
- Meu tio? Sou eu, Alfredo.  
- Estou vendo... Mas o que faz aqui?  
- A polcia nos procura. Estamos tentando chegar a Sierra.  
Fazia sombra e frescor no vasto cmodo onde duas mulheres acabavam de desfazer a mesa. Uma 
delas, vestida toda de branco, arrumava os guardanapos para lavar.  
- Alfredito! 
- Tia Dolores!  
- Santa me de Deus! Que belo rapaz voc se tornou... Sua pobre me deve estar orgulhosa! Como 
vai ela? H tanto tempo no a vejo... Quem so estas pessoas?... Que seus amigos sejam bem-
vindos, mas todos parecem muito cansados. Antonia, sirva- lhes caf.  
- Minha tia, minha amiga La adoraria jogar uma gua no rosto... e trocar de roupa tambm. Voc 
poderia emprestar-lhe uma cala e uma camiseta?  
- Hum... sandlias tambm, talvez... - disse La mostrando os sapatos de salto alto que ainda 
calava.  
- Vamos cuidar de tudo isso - disse Alejandro Garca. - Mas primeiro vamos ao caf.  
Ao seu chamado, todos sentaram-se  mesa e Alfredo cuidou de fazer as apresentaes. Ramn 
Valds e Alejandro Garca apertaram-se as mos sem uma palavra, olhando-se direto nos olhos. 
Enfim, quando Alfredo terminou de narrar sua aventura, seu tio permaneceu alguns instantes com os 
olhos semicerrados.  
- Vocs tiveram muita sorte at aqui... No posso lhes assegurar o mesmo pelo resto do caminho. O 
exrcito de Batista est patrulhando por todo lado e pra todas as pessoas estranhas  regio. Alm 
do mais, as denncias so numerosas... Vou ter de pensar na melhor maneira de fazer vocs 
deixarem Santa Clara... Vou conversar com os companheiros; estarei de volta  noite. At l, no 
saiam da casa. Voc, voc vem comigo - acrescentou ele, dirigindo- se ao sobrinho.  
Eles s voltaram no dia seguinte,  tarde.  
- Ns partiremos quando a noite cair - declarou Alejandro Garca -, e iremos at Trinidad. L um 
avio levar vocs ao corao da Sierra. O piloto conhece bem a rea, ele j entregou vrias vezes 
armas aos combatentes. Mas houve um problema de motor sobre Sancti Spritus: ele teve de fazer 
um pouso de emergncia perto do monte Lomas de Banao e voltar para Trinidad a p pela 
floresta. L ele encontrou um mecnico que fez os consertos. Um camarada vai tentar levar o 
Cadillac at a sada de Santa Clara e atravessar a barreira. Se tudo correr bem, um outro tratar 
disso at a chegada de vocs, O primeiro voltar aqui para nos dizer se o caminho est livre.  
- Como ns deixaremos Santa Clara? - perguntou Ramn.  
- Separadamente. Voc parte comigo e a mulher...  
- Eu no deixarei Carmen! - gritou La.  
- Eu as confio a voc - diz Ramn Valds para Alejandro Garca.  
- Como quiser - consentiu o velho comunista.  
Agora, usando uma camisa e um par de calas brancas, os cabelos escondidos sob um chapu 
de guajiro, La parecia um rapaz.  
Depois de ter engolido uma farta refeio, levando uma bagagem leve feita de alguma roupa de 
baixo e alguns vveres, os fugitivos colocaram-se a caminho em pequenos grupos. Alejandro, 
Carmen e La subiram em um nibus superlotado que os deixou, na sada da aglomerao, diante de 
uma placa que indicava: "Trinidad, 130km." Durante dois ou trs quilmetros, seguindo uma estrada 
de terra, eles caminharam em silncio. Na noite profunda, humildes casebres com paredes oblquas 
agora substituam as casas de pedra. Palhoas em lona vieram em seguida, algumas desmoronando 
sob a vegetao. Depois, pouco a pouco, as habitaes deram lugar  floresta tropical. Na borda do 
bosque, Alejandro seguiu por um pequeno caminho pelo qual eles continuaram por uns dez minutos. 
As corujas lanavam-lhes pios engraados.  
- Vamos esperar aqui - disse enfim o guia dos franceses.  
Uma meia hora depois, foram encontrados por Alfredo e Ramn, em seguida por Juan e Lazaro. 
- O carro nos espera no quilmetro seis - anunciou Alfredo. No vamos perder tempo.  
No automvel que haviam recuperado, La e Carmen tremiam, apesar da coberta com a qual 
Ramn as tinha envolvido. E apesar do mau estado da estrada, eles chegaram a Condado pouco 
antes da meia-noite.  
Na casa de um campons simpatizante do M-26, eles entraram em contato com o piloto do qual 
Alejandro havia falado. Pedro Luis Daz Lang foi ao encontro deles. Ele hesitou.  
- Mas... eu conheo voc, no ? - disse ele, olhando para Alfredo.  
- Sim, nos vimos com Carlos Franqui e voc planejava encaminhar armas at a Sierra.  
- E foi o que fiz. Tambm deixei Franqui l.  
- Ele ainda est l?  
- Sim, cuidando daRadio-Rebelde.  
- Seu avio j est em condies? - interrompeu Alejandro Garca.  
- Estar amanh e, se o tempo permitir, ns poderemos decolar logo que... Quantos vocs so? 
Cinco?  
- No, seremos apenas quatro, nosso companheiro Lazaro volta para Havana.  
- Melhor, porque, mesmo em quatro, ficaremos apertados! Felizmente no tenho frete.  
No dia seguinte o avio decolou ao entardecer; o cu estava encoberto, mas o vento havia parado. 
Eles sobrevoaram o arquiplago de Los Jardines de la Reina, em seguida o golfo de Guacanabayo e, 
enfim, o extremo ponto da Sierra Maestra. Eles aterrissaram em um pequeno terreno perto de La 
Plata. La foi a primeira a descer do Cessna. Homens barbudos, armados, pareciam montar guarda 
em volta. Um deles aproximou-se do aparelho.  
- No nos falaram que voc iria voltar - lanou ele a Daz. 
- So pessoas procuradas pelos policiais de Batista.  
- E as mulheres?  
- Elas tambm...  uma francesa, seu filho est aqui, e a outra  a filha do doutor Pineiro.  
- Abriguem-se debaixo das rvores, vou avisar o chefe.  
A espera durou duas horas; em seguida o homem, uma tocha na mo, voltou em companhia de dois 
outros rebeldes que levavam um fuzil preso ao corpo com uma tira de couro e fumavam espessos 
charutos. Sempre caminhando, eles gargalhavam e se batiam como crianas. Um dos novos estava 
com uma boina e o outro com uma espcie de chapu todo deformado. Em seus largos cintos de 
couro, munidos de mltiplos pequenos bolsos, balanavam-se tranqila- mente granadas e punhais. 
Seus uniformes verde-oliva estavam amassados, cobertos de manchas; a transpirao havia 
desenhado neles grandes aurolas escuras sob as axilas e no meio das costas. O rapaz de chapu 
amassado tinha uma barba longa que lhe conferia um aspecto de Cristo brincalho. Todos os dois 
eram bonitos.  
- Che, Camilo, parem com as brincadeiras!  
Quando eles estavam a apenas alguns metros, La franziu as sobrancelhas: onde ela tinha visto este 
rosto coberto com uma boina?... No era o homem cuja fotografia havia aparecido no ParisMatch 
e que ela havia acreditado reconhecer... E esta voz?... O homem de boina acabava de se imobilizar 
a dez passos do pequeno grupo e por sua vez a observava, perplexo. Ele tomou a tocha das mos do 
guerrilheiro. Sem deixarem de se olhar, eles avanaram um para o outro. Seus dois gritos uniram-se:  
- La!  
- Ernesto!  
De uma s vez, La atirou-se em seus braos. Um instante depois, ela se afastou ligeiramente dele 
para melhor observ-lo. Emocionados, ainda incrdulos, eles contemplaram-se sem dizer palavra.  
- Che, voc no havia me confessado que conhecia mulheres to bonitas... Senhorita, me pergunto o 
que pode ver neste argentino imundo... - ironizou seu companheiro. 
Realmente,  verdade que ele estava sujo de assustar, o seu namorado de Buenos Aires, e que no 
cheirava muito bem... A observao a retirou da surpresa.  
- Che, deixe, Camilo... Mas o que est fazendo aqui?  
- Eu explicarei a voc, Ernesto, mas  uma histria um pouco longa... Tive que fugir de Havana 
porque meu filho estava sendo procurado por um certo capito Ventura...  
- O que ele fez?  
- Ele... ele participou do seqestro de Juan Manuel Fangio.  
- E os outros ali?  
- Ramn Valds  um amigo de meu marido, eles fizeram a guerra da Espanha juntos...  
Ernesto estendeu-lhe a mo:  
- Seja bem-vindo.  
- ...e aqui est Alfredo Garca Olivera; foi graas a ele que pudemos fugir. Quanto a Juan, ele 
trabalhava em minha casa com sua mulher; aceitou me acompanhar para salvar Charles, mas sua 
mulher teve de ficar sozinha em nossa casa...  
Ela interrompeu-se e baixou a cabea.  
- Sei... - murmurou Ernesto.  
Um pesado silncio abateu-se sobre a pequena equipe. O companheiro de Guevara foi o primeiro a 
reagir.  
- Vamos subir para o campo agora. Temos duas horas de caminhada... Vocs no tm bagagens? - 
perguntou ele a La.  
- Partimos um pouco precipitadamente... Charles est com vocs? - perguntou ela a Ernesto.  
- Um jovem francs se reuniu a ns h dois dias... Talvez seja 
ele. 
- Obrigada, meu Deus! - murmurou ela como se para si 
mesma.  
Por uma estreita trilha eles subiram a montanha. A medida que subiam, o ar tornava-se mais vivo. 
Eles pararam por alguns instantes. La virou-se. Repentinamente ela vislumbrou a magnfica 
paisagem. O mar brilhava sob a luz do luar; a relva que a caminhada 
havia amassado exalava um odor acre. A imagem de Montillac se interps a esta. Ela se reviu 
apoiada contra sua rvore do calvrio de Verdelais, olhando para fora dos Landes, em direo ao 
mar... Como tudo isso estava longe! Ela pensou em seus filhos correndo no prado, perseguindo-se 
atravs dos vinhedos, como ela e suas irms haviam feito antigamente. Ela sentou-se no solo 
pedregoso, envolveu os joelhos com os braos e no conseguiu reprimir um soluo. Camilo veio 
ajoelhar-se junto a ela, acariciou-lhe os cabelos falando- lhe como se a uma criana. Ao som 
daquela voz quente e terna ela acalmou-se pouco a pouco. Atrs de suas lgrimas ela o observou. 
Com um grande sorriso ele a ajudou a levantar-se e os dois caminharam por algum tempo 
abraando-se pela cintura. Carmen lhes enviou um olhar curioso enquanto Ernesto parecia 
divertido...  
Nas cercanias do campo de La Plata, jovens empregavam-se a confeccionar coquetis Molotov, 
outros poliam seus fuzis  luz de tochas ou de lmpadas de querosene.  aproximao do grupo os 
insurgidos fizeram grandes exclamaes e comearam a aplaudir.  
- 1 Viva Camilo!  
- 1 Viva ei seor de la vanguardia!  
- 1 Viva ei Che!  
- 1 Viva la revolucin! - respondeu por sua vez Ernesto.  
A dois passos, um barbudo cortava cuidadosamente os cabelos de um de seus companheiros 
enquanto um grupo de jovens mulheres, vestidas com os uniformes rebeldes, disputavam revistas, 
nmeros de Paris-Match datados do ms de abril. Na capa de um deles, Fidel Castro apontava um 
revlver para a objetiva, seus culos de intelectual sobre o nariz.  
- Vocs recebem jornais? - espantou-se La.  
- Franqui os enviou para ns de Miami - explicou Ernesto.  
La observava tudo  sua volta, procurando Charles nos menores recantos do acampamento. Enfim 
ele estava trabalhando no corao da Sierra e iria poder combater a tirania sob a direo do homem 
que admirava... 
Aqui ou l, diante das palhoas cobertas de galhos, os guerrilheiros repousavam no solo. Sobre uma 
espcie de esplanada, alguns jogavam bolas de gude.  
- Ganhei! - alegrou-se um rapago, levantando-se de uma 
vez. 
Surpresa, o corao pulando no peito, La reconheceu Fidel 
Castro. 
- Ns temos visitas - declarou Ernesto cedendo passagem a La. - Conheci-a em Buenos Aires 
quando perseguia criminosos nazistas... Ela  francesa... O jovem francs trazido por Faustino  
filho dela e ambos esto sendo perseguidos pela polcia de Batista. Fidel, apresento a voc La 
Delmas.  
Homem galante, Fidel retirou seu capacete e inclinou-se. Ele a tomou familiarmente pelo brao e a 
conduziu para sentar-se em um pequeno banco. Ele se agachou diante dela.  
- O que fazia ento uma francesa na Argentina?  
- Ernesto acaba de lhe dizer.  
- Por que voc fazia isso?  
- Porque tinha uma amiga judia que... que foi deportada... Ela conheceu por l coisas horrveis.., 
tinha que se vingar...Voc... voc entende?  
- Creio que entendo... E na Frana, voc esteve na Resistncia?  
"Sim", fez ela com a cabea.  
- Foi difcil?  
- Muito... Mas no tenho vontade de falar no assunto agora. Onde est meu filho?  
Fidel fez um sinal. Um barbudo aproximou-se.  
- V procurar o francs.  
- Mas ele s voltar do exerccio amanh...  
- Bem... Quais so as novidades da Arglia? - recomeou ele virando-se para La. -Voc tem 
alguma? Acha que o general De Gaulle vai voltar ao poder?  
- Pessoalmente no sei nada, mas meu marido o acompanha.  
- Onde ele est agora? 
- O general De Gaulle o convocou a Paris, e ele foi.  
- Diremos que isso no lhe agrada muito...  
- No mesmo - replicou ela em um tom azedo. - Desde que nos encontramos no paramos de nos 
meter em todas as espcies de conflitos. Estou de saco cheio! Quis vir para Cuba para escapar 
desse esquema e estou aqui, longe de minha casa, separada de meus filhos, perseguida pela Gestapo 
local, cercada de combatentes sujos e desgrenhados... Estou cheia! Cheia! Cheia!...  
La havia se levantado, gritando suas ltimas palavras. Em volta deles, todos estavam calados e a 
observavam. Fidel a considerava com benevolncia. Ramn Valds aproximou-se e a segurou pelos 
ombros.  
- Comandante, ela est esgotada. Onde pode repousar?  
- Celia, encontre-lhe um lugar apropriado, e calmo.  
Uma jovem morena destacou-se de um pequeno grupo e veio tomar La pela mo.  
La dormiu quase quinze horas seguidas no saco de dormir que Celia Snchez lhe havia emprestado. 
Ao seu lado, a jovem havia passado a noite com a cabea apoiada sobre um saco de juta e tinha 
acordado cedo.  
- Vou trazer caf... do verdadeiro! - disse Celia com um ar de triunfo.  
- Obrigada - respondeu-lhe La, ainda sonolenta. - Nunca teria acreditado que se dormia to bem l 
dentro.  
- No posso dizer o mesmo... - suspirou Celia esfregando as costas.  
- E o seu? Oh, sinto muito...  
- Tudo bem, no tem problema, eu dormirei melhor esta noite.  
As salvas fizeram La sobressaltar-se.  
- O que... o que ? Um ataque?  
- No, fique calma, so os novos recrutas que esto em exerccio. Seu filho est entre eles e parece 
que  um grande atirador.  
- Charles?... Mas est fora de questo! 
-  um homem, como voc pode impedi-lo de lutar? - observou Celia com um tom de desprezo. - 
Bom, siga-me, se quiser lavar o rosto.  
Onde o caminho se perdia entre altas ervas, duchas haviam sido improvisadas em pleno ar com a 
ajuda de outras em lonas penduradas. As folhas eram arranjadas algumas dezenas de metros mais 
longe. La olhou em volta de si, procurando um lugar ao abrigo dos olhares.  
- Se est procurando uma cabine, no h. Faa como eu...  
La obedeceu, despiu-se ao mesmo tempo que Celia e passou sob um dos chuveiros suspensos. A 
gua estava fria.  
- E... tem sabonete?  
- Tome, pegue o meu... Ainda tenho um pouco de xampu, voc quer?  
Quando elas voltaram ao acampamento, os tiros haviam parado; tudo estava calmo. L haviam 
chegado algumas mulheres de vilarejos vizinhos, para levar provises; elas conversavam com 
pessoas muito jovens.  
- A populao nos ajuda. Muitas mulheres tiveram seus maridos e filhos reunidos a ns. Alguns nos 
servem at de agentes de ligao; os soldados no desconfiam deles...  
- Era assim na Frana, no incio... - murmurou La. - Celia, voc sabe onde esto meus amigos?  
- O espanhol partiu com Fidel e Camilo.  
- Quem  este Camilo?  
- Camilo Cienfuegos?  um dos nossos melhores combatentes.  
Ele ignora o perigo a tal ponto que Fidel com freqncia o repreende.  
E mais, no pra de fazer brincadeiras, nem sempre de bom gosto,  
 verdade, mas seus homens o adoram. Ele brinca sempre, mesmo  
nos piores momentos.  um tipo muito corajoso, o Che o admira  
muito.  
-  por causa do seu jeito de falar que vocs o chamam de el Che? 
- Sem dvida, porque ele sempre diz che no incio ou no fim de suas frases...  
-  verdade. J havia reparado, em Buenos Aires.  
- Ah ? E como ele era quando o conheceu?  
- Muito jovem e... muito bonito.  
- Sei... - disse Celia, repentinamente sria.  
- H muito tempo que voc est... que voc est na guerrilha?  
- Desde o desembarque. Meu pai  mdico em Manzanilla e eu trabalhei com o doutor Ren Vailejos 
e Crescencio Prez na organizao do M-26, nas cidades e nos vilarejos da Sierra. Estava 
encarregada do aprovisionamento e das ligaes. Fidel tem confiana em mim, sou ao mesmo tempo 
sua confidente, sua secretria, sua intendente e sua enfermeira... H semanas ele tem dores de 
dentes que o impedem de dormir e at mesmo de pensar, como ele diz. Ns no temos nada com o 
que nos tratarmos, voc sabe, nos falta at mesmo papel e caneta para escrever. Fidel no pra de 
reclamar, mas onde ele quer que eu encontre? Depois de algum tempo ele est de muito mau humor 
e afirma que no escuta "as pessoas desmioladas que s fazem merda". Ele tem razo, a maior 
parte de seus companheiros so camponeses, corajosos, mas sem bom senso. Ele sofre com a falta 
de comida, de tabaco e de vinho...  
- Eles se entendem bem, Ernesto e ele?  
- Sim. Respeitam-se, amam-se, podem passar noites inteiras conversando sobre literatura e 
comentando os escritos de Robespierre, Marx ou Lenin. O Che l para ele poemas franceses, 
bebendo mate. E de manh eles esto to alertas como depois de uma boa noite de repouso!  
- Voc acredita que eu possa fazer chegar uma carta ao meu marido para dizer a ele onde me 
encontro?  
-  sem dvida possvel, mas  preciso esperar que um portador v para Havana.  
- Isso vai demorar?  
- No tenho idia.  
- E meu filho, quando o verei? 
- Logo, logo... Vamos, venha comigo, isso vai ocuparvoc...Vou ver as crianas cujo pai foi morto em combate. 
A me ficou louca de dor e no cuida mais delas.  
Elas passaram o dia a alimentar e cuidar dos pequenos e tentar confortar ajovem me. Quando voltaram ao 
acampamento, os guerrilheiros tambm voltavam, vitoriosos. Eles tinham ido bem em sua operao do dia e 
traziam o armamento tomado do inimigo.  
Um deles, um rapaz de 18 anos, brandia orgulhosamente uma metralhadora. Um de seus companheiros mais 
velho a arrancou de sua mo: o rapaz se irritou.  
- Ela  minha!  
- Guajiro, voc  muito novo para possuir uma arma destas, no saber nem mesmo us-la!  
Camilo Cienfuegos havia assistido  cena.  
- Devolva a ele - ordenou. - Foi ele e no voc quem a tirou dos militares. Ele arriscou sua vida, justo que fique 
com ela. Guajiro, pode guardar sua arma.  
- Obrigado, Camilo.  
- Se todos nossos rapazes fossem to hbeis quanto este para recuperar o armamento, ns no mais 
precisaramos das armas de Huber Matos - considerou Fidel. - Na ltima operao foi ele, no foi, quem 
arrastou seu colega morto at as cercanias do campo sem abandonar a metralhadora que ficou para ele?  
- Sim, foi ele.  
- Voc j aprendeu a us-la?  
- J se tornou um de nossos melhores atiradores.  inteligente; Che decidiu ensin-lo a ler.  
- Como ele se chama?  
- Dariel Alarcn Ramrez, mas aqui todos o chamam de Benigno.  
- La!  
Todos se viraram. Um garoto usando uniforme correu na direo dela levando uma metralhadora. 
- Charles!  
Eles caram nos braos um do outro. Uma barba nascente o tornava parecido com seus companheiros e seus 
olhos tinham um brilho que ela no conhecia.  
- Que bom ver voc aqui... Encontrei Carmen, voc sabe. Obrigado, obrigado mil vezes: sem voc talvez eu 
nunca mais a visse novamente.  
Eles instalaram-se em uma rocha um pouco afastada, a fim de poderem se aproximar de novo.  
O jantar, naquela noite, foi servido com um pouco menos de frugalidade do que o normal; compunha-se de 
uma carne de cavalo cozida e arroz regado a rum. Depois da refeio, acenderam-se charutos de fabricao 
local. Iluminados por um lampio, Fidel e Ernesto comearam uma partida de xadrez, enquanto Alfredo, que 
havia conseguido um violo, comeou a cantar. Abrindo as garrafas, esfregando as mos, os guerrilheiros o 
acompanhavam. Em seguida, Ramn entoou um canto da revoluo espanhola, no que foi acompanhado por 
Camilo. Na claridade daquela noite fria onde o fogo fazia danar sombras misteriosas, estes homens e estas 
mulheres que haviam escolhido lutar pela liberdade esqueceram, no espao de um canto, de uma baforada ou 
de um copo, os sofrimentos enfrentados, assim como a ausncia de seus companheiros desaparecidos.  
Ernesto e Fidel haviam suspendido sua partida e contemplavam, com um vago sorriso nos lbios, sua pequena 
comunidade. Os olhos de Ernesto cruzaram-se com os de La. O olhar do Che, pensativo, revia o jovem corpo 
que, naquela poca, estava to totalmente entregue, e pelo qual, ele se dava conta, ele estava ento 
apaixonado. O tempo no havia passado para ela, estava ainda mais bonita atualmente, ainda mais desejvel. 
Seu marido deveria ser muito louco para abandonar uma mulher como ela... Com freqncia ele voltava a 
pensar nela durante o curso de seus priplos atravs do continente sul-americano em companhia de Alberto 
Granado. Ela 
surgia durante uma leitura, no encontro com uma jovem, no esboo de um sorriso, no pranto de uma 
criana ou at mesmo na incurso da morte. Considerando-a ali, to natural entre estes insurgidos, 
prxima e distante ao mesmo tempo, o rosto iluminado pela intermitncia das chamas, fumando 
calmamente um charuto e tragando to bem quanto ele a fumaa, soube que havia se unido a uma 
parte de si mesmo ao encontrar-se com esta alma irm.  
- Fale-me dela - pediu Fidel interrompendo seu sonho.  
Ento Guevara contou a ele o que sabia de La, de seus combates, o que havia pressentido de seus 
sofrimentos, de sua coragem e de sua fragilidade, da perseguio de criminosos nazistas que ela 
havia conduzido at a Amrica do Sul e de seu sofrimento com a morte de sua amiga Sarah. Mas 
ele tambm falou do amor dela pela felicidade e de seus acessos de alegria depois do desespero.  
- Voc fala como um apaixonado...  
O argentino no negou.  
Charles adaptou-se rapidamente  dura vida da Sierra. Ele participava com bom humor dos 
treinamentos, confirmava-se um excelente atirador, revelando-se forte, bom companheiro e alegre 
camarada. Desde que foi integrado  tropa comandada por Camilo Cienfuegos, Charles passou a ter 
por seu chefe uma devoo quase semelhante  que nutria por Fidel Castro. Mas tal afeio e tal 
familiaridade, que seriam fora de propsito com Fidel, aproximavam-no de seu novo dolo. De seu 
lado, Benigno havia se tomado de amizade por este jovem francs que, na ausncia de Che, o tinha 
substitudo dando-lhe aulas de leitura e escrita iniciadas pelo argentino. Charles havia deixado 
crescer barba e cabelos.  
- Veja s, voc est mais cubano do que um cubano! - brincava gentilmente Camilo.  
Foi uma satisfao para ele ter encontrado Carlos Franqui e Faustino Prez. Ele ajudava Franqui a 
preparar as emisses que difundia naRadio-Reloj. Quanto a La, ela passava do abatimento 
profundo s excessivas exaltaes. As poucas notcias que 
chegavam da Frana e da Arglia at o seio da Sierra eram alarmantes. Ela tinha escrito para Franois, 
poucos dias depois de sua chegada, uma carta que um membro do 26 de Julho tinha podido 
enviar  embaixada da Frana. O embaixador acusou a recepo, e em seguida a enviou para a 
Europa.  
Meu amor  
Se um dia receber esta carta, saber que estou como h quinze anos. Encontro-me no nas 
organizaes de resistncia armada de Gironde, mas naquelas que abriga a Sierra cubana. 
Charles, Carmen eRamn me acompanham e se sentem aqui como peixes na gua  
- embora no seja aforma ideal de falar de gua entre estas montanhas:  rara e nos obriga 
a us-la com parcimnia. A sujeira tornou-se nossa melhorproteo contra a agresso dos 
mosquitos. Isso no parece perturbar nem um pouco os guerrilheiros. E nem mesmo 
Charles! Como voc imagina, no o meu caso.  
Encontrei o jovem estudante de medicina deBuenosAires, Ernesto Guevara, que todos aqui 
chamam de el Che. Ele formou-se em medicina mas todos aquitm medo de serem tratados 
porele... Ele casou- se com uma peruana com a qual tem uma filha pequena, o que no o 
impede de viver uma aventura com uma bela mulata filha de um ferreiro.  muito ligado a 
Fidel Castro, que lhe pede opinies com freqncia e com o qualjoga partidas de xadrez ou 
fala de literatura. Isso me faz lembrar de outros centros de resistncia armada, como os 
Vietminh, onde honorveis professores discorriam sobre Victor Hugo, Racine ou La 
Fontaine entre dois assaltos. O Che tem aqui um outro amigo com o qual adora rir e 
brincar  um havans de 25, 26 anos, que seus homens adoram e cuja coragem beira a 
inconscincia.  ofilho de um anarquista espanhol e, aparentemente, leva tudo na 
brincadeira. Charles est sob suas ordens, porque nosso filho tornou-se um guerrilheiro 
dedicado. Quanto a mim, o tempo parece-me longo, sinto falta de voc e das crianas. 
Ajudo Celia Snchez, uma amiga de Fidel Castro, e as outras mulheres, mas estas tarefas 
subalternas me so dolorosas. O Che me emprestou os poemas 
de Jos Mart que  dolo de todos; j decorei os verws para passar o tempo:  
Las campanas, ei Sol, ei cicio claro  
Me lienan de tristeza, y en los ojos  
Lievo un dolor que todo ei mundo mira  
Un rebelde doior que ei verso rompe  
Y es, oh mar! La gaviota pasaj era  
Que rumbo a Cuba va sobre tus das!  
Tambm aprendi poemas de Nico ls Guilln: gosto muito deste, Cancin de cuna para despertar 
a un negrito:  
Una paloma  
Cantando pasa:  
- Upa, mi negro,  
que ei sol abrasa!  
Ya nadie duerme,  
Ni est en su casa:  
Ni ei cocodrilo,  
Ni la yaguaza,  
Ni ia culebra,  
Ni la torcaza...  
Coco, cacao,  
Cacho, cachaza,  
Upa, mi negro,  
Que ei sol abrasa!  
Quando voltar, creio que tentarei traduzira poesia cubana.  
Franois, voc no acha absurda a vida que levamos?Aqui estou eu, perdida no fundo 
desta ilha que eu acreditava paradisaca! Se tivesse foras para n,; debocharia de mim 
mesma, de meu desejo de exotismo, longe de qualquer fuzil e de qualquer ideologia. Vim 
ento aos antpodes para reencontrar os combates que no so os meus em companhia de 
um garoto e de um velho revolucionrio que escapou miraculosamente da Espanha e que 
aprende o oficio com dedicao, voltando s iluses de sua juventude! Quanto a mim, 
minhas iluses se foram h muito tempo... Quando os escuto conversar; Ramn, Fidel, Che 
ou Camilo, tenho vontade de gritar para eles que no passam de imbecis, que sua Revoluo 
fracassar como as outras, que eles ali deixaram seus sonhos, talvez suas vidas, que se 
sobreviverem vo se tornar velhos barrigudos sedentos de poder; de bens ou de dinheiro, 
que eles perdero esta liberdade pela qual eles tanto lutam! Se algum dia voc tiver estas 
pginas nas mos, deve sorrir ainda mais se voc tambm se encontrarem algum centro de 
resistncia armada perguntando-se o que pode fazer ali. Eu o conheo,  a ao que faz 
voc avanar mas, nos momentos de repouso, voc duvida, diz a si mesmo: "O que raios 
vim fazer aqui?"  
 quase noite e no vejo mais nada. Responda-me se puder passando pela embaixada da 
Frana; mesmo se levar tempo, eles encontraro uma forma de me fazer chegara carta. 
Estou com saudades, Amo voc, 
La. 
At este dia, nenhuma resposta havia chegado a ela.  
Naquela noite, La, que no conseguia dormir, afastou-se um pouco do campo e sentou-se ao p 
de uma grande rvore. Ficou enrolada em uma coberta e contemplava o mar brilhando sob a lua. 
J estava cochilando quando o aroma muito aucarado do tabaco americano a desperta. Perto 
dela, o fumante a observava. 
- Voc tem um cigarro? - pergunta ela.  
Ele estendeu-lhe um mao amassado. A luz dos fsforos ela reconheceu Camilo. Eles fumaram em 
silncio. Ele apagou enfim sua guimba e aproximou-se de La.  
- Voc no est com frio?  
- Sim, um pouco.  
Ele a tomou em seus braos e a abraou docemente. Ele cheirava bem, apesar do perfume com o 
qual havia se aspergido. Ela ps o rosto no pescoo dele, ele a enlaou. Ela se deixou levar quando 
ele levantou a saia sob a qual estava nua. Ela gemeu um pouco quando a mo dele encontrou sua 
nudez; ele a acariciou sem pressa e sem que ela se opusesse, abandonada, flexvel. Ela no o ajudou 
a abrir suas calas, porque adorava aquele tipo de espera. Quando ele a penetrou, ela sentiu-se 
reconciliada, em harmonia com esta terra sobre a qual ele a segurava, e o cu, acima deles, estendia 
sem fim seu vu estrelado. Aquele primeiro abrao foi longo; eles gozavam um com o outro sem se 
desprender, reconhecidos pelo prazer oferecido, pelo prazer recebido. Dormiram assim enlaados.  
O frio da manh os despertou; eles se olharam felizes, maravilhados por experimentarem tanta 
alegria um como outro. Ele fez- lhe amor mais uma vez, lentamente, atento ao seu prazer. De mos 
dadas eles voltaram ao campo que despertava. La encontrou seu saco de dormir na choupana que 
dividia com Celia Snchez e caiu imediatamente em um sono profundo.  
- A vida no lhe parece muito dura entre ns? - inquietou- se uma noite Fidel Castro.  
O dia havia sido difcil para os rebeldes. Eles haviam escapado de um ataque dos soldados de 
Batista, mas trs deles tinham sido mortos. Os homens estavam de volta, tristes, arrasados. O rosto 
preocupado de Fidel logo afastou-se. La o tinha acompanhado, inquieta por no ver Ramn entre 
os insurgidos de volta. Fidel a tranqilizou: o espanhol havia ficado para trs a fim de enterrar os 
companheiros mortos. 
- Dura? No sei - questionava-se La como resposta. -  claro, sofro um pouco com a falta de 
conforto mas, sobretudo, a ausncia dos meus me pesa e eu me preocupo por estar sem notcias 
deles.  
- Voc as ter logo, eu acredito; a embaixada da Frana nos disse que h mensagens para voc.  
- Quando as receberei?  
- Um dos nossos est a caminho...  
- Observei que voc l muito - disse La, um pouco mais serena.  
- Sim,  verdade... Na priso, os livros me ajudaram a viver. Gosto muito da literatura francesa; ela  
incomparvel em todas as reas, incluindo evidentemente a literatura social e poltica. Com Jean-
Christophe, de Romain Rolland, senti a mesma coisa do que quando li Os miserveis, de Victor 
Hugo; gostaria que o livro jamais terminasse. Eles pertencem a pocas diferentes e  muito normal 
que Rolland nos entusiasme mais, porque  um homem dos nossos tempos e sua pluma defendeu as 
maiores causas do sculo. Rolland pertence ao mesmo grupo ideolgico que Jos Ingenieros, H.C. 
Wells, Maxime Gorki e outros prosadores sedentos de justia. Tenho uma certa preferncia pelos 
romances do russo DostoYevski, sem contestar o mais extraordinrio de todos os escritores russos. 
Li com alegria Os irmos Karamazov,Humilhados e ofendidos, Crime e Castigo, O idiota. 
Leva-me a pensar nos limites estreitos do nosso saber,  imensido do caminho percorrido pela 
inteligncia do homem graas a esforos seculares. A prpria relatividade de todas as convices  
suficiente para me afligir. Quanta energia foi necessria para o progresso da humanidade! E, nisso 
tudo, no paro de me perguntar se vale a pena consagrar meu tempo a tais estudos, se me  til para 
combater as calamidades presentes. Mas, de qualquer forma, podemos apenas sentir uma profunda 
venerao com relao a estes homens que dedicaram sua vida inteira a pensar, a procurar, que 
deixaram ao gnero humano a fabulosa herana de suas idias. O que acha de Robespierre? 
Robespierre foi idealista 
e honesto at a sua morte. So os Robespierre que so necessrios a Cuba, muitos Robespierre...  
- EoTerror?  
- O Terror? Eram necessrios, estes poucos meses de Terror para chegar ao fim de um terror 
secular! Mira disse: "Passado o momento em que os mais radicais balanam suas bandeiras e levam 
a revoluo ao seu ponto culminante, a mar comea a descer." Na Frana, esta etapa comea 
precisamente com a runa de Robespierre. "A Revoluo, como Saturno, devora seus prprios 
filhos", diz um deles. Talvez eu possa, mais tarde, explicar melhor tudo isso. J reli ultimamente 
passagens do livro de Lenin, O Estado e a Revoluo, e os de Marx, O Brumrio de Louis 
Bonaparte eAguerra civil na Frana. Estes trs escritos tm entre eles relaes muito estreitas e 
seu valor  incalculvel. Sou daqueles que pensam que, em uma revoluo, os princpios valem mais 
do que os canhes.  
Este monlogo lembrava a La os propsitos que havia lhe feito lo Chi Minh em sua cabeceira 
quando, no centro de resistncia do Tonkin, ela permaneceu por muito tempo doente. A esta 
francesa  qual ele testemunhava estima, Ho falava como se a si mesmo, como hoje Fidel, de suas 
leituras, de sua f na Revoluo. Dois homens pertencentes a duas culturas ligadas pela cultura 
francesa, pelo amor  literatura do pas dos Direitos do Homem, e que sua certeza de um combate 
necessrio para a liberao de seus povos fazia reunir-se.  
Em seus momentos de descanso, Guevara tambm lia em sua tenda,  luz de um lampio, esticado 
em seu saco de dormir. Com freqncia, La ia reunir-se a ele. Juntos eles evocavam Paris, os 
escritores que amavam. Ele aplicava-se em falar-lhe em francs com um sotaque que a fazia rir. 
Uma noite, ela surpreendeu-o com as sobrancelhas franzidas, inclinado sobre um romance francs 
que, visivelmente, ele tinha dificuldade em compreender.  
- O que voc est lendo? - perguntou ela. 
- Livretos que Franqui encontrou em um banco do aeroporto de Miami: San Antonio. Voc conhece?  
- De nome... Franois o adora e diverte-se com freqncia lendo.  
- No  o meu caso, no compreendo nem a metade do que ele escreve. Diria que ele inventa as 
palavras. E o tempo todo faz aluses a escritos e lugares dos quais jamais ouvi falar.  
Desta vez, La caiu na gargalhada.  
-  gria, ou, ao menos se compreendi bem, uma espcie de gria bem caracterstica dele.  
- Como Cabrera Infante, aqui? Se voc no  cubano, perde, me parece, a metade do prazer ao l-
lo... Como por exemplo, anotei: "munhecar"... "emperrador"... "perturbante"... "paixonite"... 
"reninhar" ... "guardaf olha"... aqui, espere, imagino que seja uma carteira, porque ele coloca dinheiro 
dentro... Aqui tambm, acho que compreendo: "Eu enfio-raivosamente-meu-chapu-em-voltade-
meu-cfrculo-polar-e-eu-o-coloco..." Bem, por que voc est rindo como uma louca?  
A hilaridade de La era to forte que ela no era capaz de articular uma nica palavra. A cada vez 
que levantava os olhos para Ernesto, seu riso louco retornava mais belo, enquanto ele estava com 
um ar envergonhado. Atrados por esta barulhenta alegria, Charles, Ramn e Camilo penetraram sob 
a tenda e gargalharam ao espetculo de divertimento to comunicativo da jovem mulher. Violeta, 
Alfredo, Fidel e Franqui tambm se aproximaram intrigados. Logo todo o acampamento foi tomado 
pelo riso. Ao observar seus amigos sacudirem as costas e alguns rostos tomados de lgrimas, o Che, 
at ento srio, foi levado pela alegria geral.  
Fidel, que havia se deixado cair perto de La, perguntou entre duas risadas:  
- Mas o que pode divertir vocs desta maneira?  
Foi necessrio um momento para que La recuperasse o flego e comeasse a falar sem deixar de 
rir.  
-  Ernesto...  Ernesto com San Antonio... 
- Quem  este? - perguntou Fidel.  
-......  
Ela no pde continuar, retomada pela jubilao coletiva.  
- Acalmem-se! - ordenou Ramn. - O Che est passando mal...  
Na verdade, o riso incontido que sacudia Ernesto havia se transformado em uma violenta crise de 
asma. Bruscamente sria, La ajuda Ramn e Camilo a acomodar seu camarada. Celia Snchez 
encontrou seu p de Dyspn-Inhal e ajudou-o a us-lo. Pouco a pouco a sufocao se atenuou e o 
assobio que acompanhava sua respirao diminuiu. Guevara permaneceu por um longo momento 
imvel, uma das mos pousadas sobre o peito molhado de suor, tentando recuperar o flego, o rosto 
vermelho, os traos brutalmente tensos. La, desamparada, o observava, dolorosamente 
impressionada. A felicidade trazida por aquele riso homrico que havia sacudido dezenas de peitos 
de rebeldes e ressoado em toda a Sierra havia se apagado. No entanto, durante longo tempo, ele 
permaneceria nas memrias.  
Percebendo a inquietude que marcava o semblante de La, Che fez-lhe sinal para que se 
aproximasse.  
- No  nada... Isso me acontece com freqncia, voc sabe... No  culpa sua... Tome, leve este 
livro, voc me far a traduo... Vou descansar, agora.  
Ela apanha o livro: "Das clientes ao necrotrio, isso certamente vai me distrair", pensou ela 
afastando-se. 

Captulo Doze

DESDE SUA CHEGADA A PARIS, Franois Tavernier havia se encontrado com Jean Sainteny e
Pierre Mends France por duas vezes. A cada vez, os encontros haviam se prolongado at tarde da
noite. Mends France dizia-se inquieto com as manobras subterrneas do general De Gaulle.
- Ele vai nos trazer os militares - grunhiu ele.
Sainteny no partilhava sua opinio. Para ele apenas o general se encontrava capaz de conter o 
exrcito e de garantir as liberdades democrticas. Estas conversaes pareciam fora de propsito a 
Tavernier, que se abria sem meandros a Mends France.  
- Pode ser que voc tenha razo - havia retorquido este. - Mas convm ser vigilante e assegurar-se 
das posies daqueles que podem ser conduzidos ao poder nos prximos meses ou semanas.  
Foi neste clima de suspeita que ele recebeu a ordem do general De Gaulie para apresentar-se na rua 
de Solfrino.  
As quinze horas precisamente, Franois entrou no bureau de ajuda de campo do general, para falar 
com o coronel Bonneval, que lhe pareceu preocupado. O coronel o levou at seu chefe. A pea 
estava banhada em uma semi-obscuridade; vestido com um terno cinza, De Gaulle, que acabara de 
operar catarata, estava na sombra, ainda no podendo suportar a luz crua do dia. As persianas 
estavam puxadas e uma nica e fraca lmpada iluminava um canto do escritrio.  
- Bom dia, Tavernier - acolheu-o o general, estendendo-lhe a mo.  
Com um gesto, ele o convidou a sentar-se. Em seguida ele sentou- se novamente atrs de sua mesa 
de trabalho e acendeu um cigarro.  
- Enfim, a est voc! Voc levou algum tempo...! Os acontecimentos dos prximos dias sero 
capitais para a Frana. Preciso de homens como voc, corajosos e determinados, que no 
pertenam a nenhum partido poltico, sem ambies polticas... No estou enganado, estou?... 
Guardo na memria o sucesso da misso que lhe confiei, no fim da guerra, na Unio Sovitica. 
Aceitei que Jacques Chaban-Delmas constitusse em Alger um posto de observao, composto por 
Lon Delbecque, o secretrio da federao do norte dos republicanos sociais, pelo comandante Jean 
Pouget - que voc conhece, creio eu - e por Guy Ribeaud, o lder das juventudes republicanas sociais. 
Voc vai reunir-se a eles, mas no d conta de sua misso a ningum a no ser Jacques Foccart e 
apenas a ele. Compreendeu-me bem?  
- Sim, meu general.  
- V... Como est a charmosa sra. Tavernier?... Apresente-lhe minhas homenagens... Voc em 
breve receber instrues quanto  data e s condies de sua partida... At logo, Tavernier.  
Franois se encontrou diante do nmero 5 da rua de Solfrino, sem saber exatamente o que o 
grande homem queria dele.  
Dois dias depois, ele foi levado a um almoo no Boisserie, em companhia de Jacques Foccart. Eles 
levaram trs horas para chegar a Colombey, um vilarejo sem graa de quinhentos a seiscentos 
habitantes. Eles entraram no Boisserie por um portal ornado com duas cabeas de cavalo em 
bronze verde. "Uma alia sinuante atravs 
de um grande jardim os conduziu a uma casa cinza que deveria ter sido bem elegante antes que o 
general lhe acrescentasse uma torre angulosa que destoava e a fazia parecer nouveau riche. Um 
empregado os levou em seguida a um salo forrado de tecido verde com mveis pesados de madeira 
de estilo meio rstico, meio antigo. Ali respiravam-se as virtudes das famlias burguesas da 
provncia. Os mveis iam do Lus XV ao Napoleo III precoce e ao Regency, uma reunio ao acaso 
das heranas, dos presentes de casamento, das necessidades davida de guarnio. A sala de jantar 
e o pequeno salo constituam a 'sala de estar' onde se desenrolava a vida comum." Durante a 
refeio, a sra. De Gaulle mal pronunciou uma palavra, exceto para reclamar com Louise, a 
cozinheira, sob o pretexto de que o boeufbourguignon estava muito salgado...  
- Mas tudo bem, Yvonne, est muito bom assim, ns beberemos um copo a mais e pronto.  
Depois do caf que eles tomaram entre os homens, na sala pequena, fumando bons charutos, eles 
seguiram para a torre onde o general havia instalado seu gabinete de trabalho. No fazia muito calor 
no cmodo, organizado em volta de um grande mvel Empire de madeira escura, acoplado de uma 
escrivaninha na qual, assegurava o general, Lus XVI fazia anteriormente os despachos de seus 
embaixadores. As paredes eram cobertas de livros de Michelet, Thiers, Voltaire ou Bergson, e 
ornadas de algumas fotografias dedicadas por Roosevelt, Tchang Kai-chek, Thierry d'Argenlieu...  
- Aqui esto os lugares onde eu redijo minhas memrias e para onde me retiro, longe dos furores do 
mundo... Estas memrias me do um trabalho enorme para escrev-las e verificar todos os 
elementos histricos, ao menor detalhe. No  o que faz Churchill, que se contenta em juntar pouco a 
pouco um monte de coisas... Vamos, isso no lhes diz respeito... Tavernier, voc parte amanh para 
Alger: devo saber precisamente qual  o estado de esprito dos franceses daArglia, o dos 
muulmanos e o do exrcito. Voc compreende, o poder no pode ser tomado, ele deve ser 
conquistado... 
Tenho toda a confiana na equipe de Chaban, mas ele  muito gaulista para ser perfeitamente 
objetivo. Voc ter um olhar novo sobre os homens e os acontecimentos. Alm do mais, voc 
conhece o general Salan e ns sabemos que ele o estima. Aproxime-se dele, sonde-o, ele pode ser 
til em um prximo momento.  
- O senhor est me propondo fazer um jogo duplo, meu general?  
- Chame-o como quiser... Posso contar com voc?  
- O senhor pode, meu general.  
Franois no pde evitar uma certa ironia ao formular sua resposta. Ele deu-se conta, pelo olhar do 
general, que isso o havia azedado, embora nada fizesse para demonstr-lo. Rapidamente, ele deu fim 
ao encontro.  
No caminho de volta, Foccart e ele no chegaram a trocar nem dez palavras.  
No dia seguinte, Franois Tavernier pegou o avio no aeroporto de Bourget em companhia de Lon 
Delbecque, conselheiro tcnico no governo de Chaban-Delmas. Delbecque, filho de um operrio do 
norte e antigo resistente, tinha 38 anos. Era um homem aberto, de ombros largos, de conversa fcil, 
e que s vezes dava a impresso de uma violncia contida. Seus olhos com olheiras, profundamente 
acinzentados, atenuavam esta presuno. Imediatamente os dois homens experimentaram uma 
vvida simpatia um pelo outro. Delbecque, para responder ao chamado de Chaban-Delmas, havia 
abandonado seu cargo de diretor comercial junto a um industrial de Lyon, Eugne Motte, gaulista de 
primeira. ATavernier ele fez um "resumo" breve e preciso sobre a situao na Arglia onde havia 
servido sob as ordens do general de La Bollardire, no comando dos "boinas negras".  
- Estou oficialmente encarregado por Chaban de criar em Alger um posto da defesa nacional com o 
objetivo de facilitar as relaes entre Paris e Alger. "Eu implanto, na rua d'Isly, uma pequena clula 
de republicanos sociais. No apenas para fazer progredir este movimento gaulista na Arglia. Antes 
de tudo para 
estimular os outros partidos e agrupamentos, faz-los sair de sua letargia. 
Porque, para mim, a 
guerra psicolgica se ganha sobretudo por trs, com os civis. Na Arglia, a situao militar  
favorvel;  a situao poltica que se degrada... Razo suficiente para criar um movimento 
disciplinado e unnime, cuja vontade de vencer causar impresso na metrpole. Abalar o regime  
uma coisa, encontrar um homem de substituio  outra. No se monta um negcio como este sobre 
um simples projeto de Constituio.  preciso um homem que faa a unanimidade, mostre-o a mim; 
eu me reunirei! Quero reunir todo mundo, assim como os partidos tradicionais da IV Repblica, e os 
ativistas que vendem os partidos. Pela primeira vez, todas as organizaes patriticas, polticas 
sindicais, incluindo a CGT, poujadistas, estudantes, se reagrupam e aceitam seguir diretrizes comuns. 
 o embrio do futuro Comit de sade pblica." Acabei de encontrar um oficial que conhece bem 
o exrcito e que aceita instruir o Comit. Este oficial  o comandante Jean Pouget... Na verdade, 
voc esteve na Indochina e em Dien Bien Phu, voc talvez o conhea?  
- Muito bem.  um homem excepcional, corajoso e inteligente. Na poca, ele tinha alguns problemas 
com os oficiais do estado-maior, que ele tratava de "emboscados". Ele surpreendeu todo mundo 
atirando-se de pra-quedas sobre Dien Bien Phu. Ele pagou caro por este ato de herosmo ou de 
loucura, como quisermos: passou momentos difceis no famoso Campo nmero um... Quando saiu de 
l, magro como um lobo, doente, Pouget estava muito decidido ajamais se deixar prender e a refletir 
a respeito da guerra revolucionria... Fico feliz em poder trabalhar com ele.  
Desde a chegada deles, Delbecque e Tavernier foram conduzidos ao bairro residencial de Alger, ao 
El-Biar, onde o posto havia alugado uma casa discreta. Pouget os esperava ali em companhia do 
comandante Khelifa, que se encontrava em liberdade condicional, sob a responsabilidade de Pouget. 
Khelifa havia sido preso por ter enviado uma carta ao presidente da Repblica na qual, com outros 
oficiais argelinos, ele abria sua crise de conscincia. Os dois homens 
estavam convencidos de que apenas uma igualdade total entre europeus e muulmanos poderia 
salvar a Arglia francesa. Jean Pouget lhes colocou a par dos contatos estabelecidos com jovens 
oficiais, especialistas da guerra psicolgica, e das relaes que havia
estabelecido com Michel
Goussault, chefe do Quinto Bureau, que possua "um irmo deputado e um irmo jesuta, e que era
uma magnfica sntese dos dois".
- De seu lado - continuou Pouget -, Guy Ribeaud formou dois grupos de notveis, advogados, mdicos,
prefeitos de argelinos, que ele rene para jantares de reflexo aos quais os muulmanos no esto
ausentes. O coronel Thomazo nos foi de grande utilidade:
ele conhece todo mundo. Alguns destes encontros de Ribeaud acontecem na casa de Nouvion.
"trata-se de uma grande e bela residncia, na extremidade da sacada Saint-Raphal, que domina a
baa de Alger e de onde se tem uma vista magnfica. L rene-se o crculo supermundano da
cidade. Simone Nouvion realiza ali seu sonho:
animar um salo poltico. Encontram-se ali Alain de Srigny, o generalJouhaud, Cuttoli, Delaye,
diretor-adjunto do Banco daArglia, os Quin, uma grande famlia argelina, e ainda outros. Neste
salo, de propriedade de Ben-Koucha, em meio s runas romanas, os homens do posto
desenvolvem tesouros de imaginao para levar a alta sociedade argelina e aqueles que tm nas
mos o comando do pas ao gaulismo ativo. E no  um trabalho fcil, porque a Arglia aristocrtica
se tornou petainista e, para muitos, De Gaulle  sua ovelha negra. Mas o nmero est
excelentemente no ponto e ns nos completamos perfeitamente. Se Delbecque e Ribaud so os
gaulistas de hoje, eu o sou apenas por fora dos acontecimentos. E para lhes dar uma idia do
ambiente, Chaban veio em pessoa aAlger para nos apresentar ao ministro residente, Robert Lacaste,
que nos recebeu com estas palavras: "Vocs e seus pequenos companheiros me causam srios
problemas!" "No compreendo, caro amigo", respondeu-lhe Chaban, "vocs esto intoxicados por
suas informaes gerais!" "Mas sim,  isso... Vocs esto tirando sarro com a minha cara, mas eu
seio que esto preparando!", retorquiu Lacaste...
Depois, a queda do governo Gaillard acelerou as coisas - continuou Pouget. - Foi-nos dada ordem, de
Paris, de preparar uma manifestao com o objetivo de levar De Gaulie ao poder. Veja o trato que
ns preparamos para chamar a populao de Alger a se manifestar. Leia!
Tavernier apanhou o pedao de papel:
Para manter a Arglia francesa, para impedir qualquer ingerncia estrangeira, para
restaurar a grandeza da Frana, ns exigimos um governo de sade pblica, apenas capaz
de fazer respeitar seus objetivos e reformar o sistema! Todos s 16 horas e 30 minutos no
Monumento aos Mortos onde um buqu ser depositado. s 16 horas e 30, a manifestao
ser dispersada dentro da ordem e do silncio.
- Thomazo - continuou Pouget - conseguiu de seu chefe direto, o general Allard, que o estado no se
oponha  manifestao. De seu lado, Salan, para contrariar esta demonstrao de fora, fez vir da
Frana os antigos de Rhin-et-Danube e, sobretudo, os antigos da Indochina. Lacoste tentou obter de
Chaban nossa expulso de Alger, em vo. Ele se prepara para proibir o desfile. Soube por um de
meus amigos que alguns grupos extremistas europeus vo aproveitar a reunio para arrebentar em
alguns bairros muulmanos, em particular no Clos-Salembier. J consegui os nomes de seis
principais organizadores e mandei procur-los um por um por dois pra-quedistas em um jipe.
Desconfio tambm da polcia de Lacaste e pedi a um colega de Prosper Mayer, que  o comandante
do l RCP, que me empreste uma seo de praquedistas de seu regimento;  contra todas as regras,
mas Mayer aceitou.
- Bravo, Pouget! - gritou Delbecque. - Mas eu preciso deixlos; tenho um encontro na casa dos
Nouvion.
- Amoroso, eu espero! - brincou Pouget.
- Nunca se sabe... - soltou Delbecque com um meio sorriso.
A ss, Tavernier e Pouget olharam-se com cumplicidade.
- No acreditava que veria voc novamente com tanto prazer
- comeou Pouget, com uma voz forte na qual persistia o sotaque de sua Correze.
Franois sorriu para aquele homem de cabelos grisalhos e ombros largos, uma bela figura, que
possua um senso agudo de honra e no fazia nada que no viesse de sua cabea. "Um cabea-
dura", dizia-se dele no estado-maior.
- Eu tambm me sinto feliz - respondeu Franois, estendendo-lhe a mo.
Eles permaneceram por um momento imveis, as mos apertadas, olhos nos olhos. Pouget, primeiro,
soltou os dedos.
- No  momento para nos emocionarmos... Voc estar logo bem inteirado do assunto: tenho, no
aposento ao lado, seis caras que esto esperando em p h mais de uma hora. Com Khelifa, vamos
faz-los falar... Voc no estar sobrando.
trs pra-quedistas empurraram os homens para o escritrio. Pouget atacou:
- "Sei que vocs vo sbado ao Clos-Salembier, todos excitados, para arre bentar..."
- Oh! Meu comandante, no  poss...
- Cale-se! Tenho minhas fontes. E voc sabe bem, entre ns, o quanto valem as informaes...
Desde a batalha de Alger, as roupas de leopardo dos praquedistas impressionaram todo o mundo.
Quanto a aqueles, seria melhor t-los como amigos que como inimigos... Pouget continuou:
- Vou dizer-lhes de imediato: se vocs forem atirar leo ao fogo no Clos-Salembier ou nas cercanias,
no  a polcia de vocs que ir enfrent-los, mas estes pra-quedistas que vocs tanto aclamaram
quando eles caaram o rabe sujo. Desta vez, so vocs que vo apanhar a golpes de cassetete. E
se isso no for suficiente, vamos metralh-los!
- Mas eu juro ao senhor, meu comandante, que tudo isso 
- No interessa, vocs esto avisados. Saiam!
Alguns dias mais tarde, chegou uma notcia  casa de El-Biar:
Robert Lacoste, louco de raiva, apressava-se a enviar a polcia para prender Delbecque e Tavernier.
Trs capites dos pra-quedistas e Jean Pouget levaram-nos imediatamente at o aeroporto e os
observaram entrar no avio rumo a Paris. Quando os policiais se apresentaram na casa, foram
recebidos pelos pra-quedistas, com metralhadoras nas mos.
- Esto procurando algum? - perguntaram eles.
Jacques Foccart em pessoa esperava os dois homens na parte de baixo da passarela. Durante o
trajeto em direo a Paris, ele ouviu o resumo que lhe fez Lon Delbecque, balanando a cabea em
sinal de aprovao. Ele o levou at seu edifcio.
- At amanh, quinze horas, rua de Solfrino - despediu-se
ele.
O automvel partiu, e logo corria pelos quarteires a toda velocidade.
- Agora, voc e eu - retomou Foccart.
Tavernier traou-lhe um retrato to exato quanto possvel da situao em Alger. Ele insistiu sobre o
perigo que representava o grupo fascista dos "Sete", cujos membros lhe pareciam prontos para tudo,
esperando a hora certa, e sobre a indisposio que reinava no exrcito assim como sobre as dvidas
que nutriam os generais.
- Voc viu o general Salan? O que achou?
- Encontrei-me com Salan, ele recebeu-me longamente e me ps a par de suas preocupaes.
- Ele lhe pareceu em forma, em posse de todos os seus meios?
- Muito em forma e bastante determinado a assumir suas responsabilidades de chefe dos exrcitos.
- E sua equipe?
- Pessoas corajosas... talvez um pouco deprimidas pelos acontecimentos.
- Voc acha que, chegado o momento, ele se unir a ns?
-  provvel, mas no tenho certeza. Ele est muito chocado pelas manobras s quais entregam-se 
alguns gaulistas. Estas so suas prprias palavras.  um republicano convicto e far o que seu 
governo lhe ordenar.  
- E Lacoste?  
- Ele no se acalma.  
- Bem... vou pr o general De Gaulle a par de nossa conversa.  possvel que pea para v-lo, esteja 
pronto... Onde voc est hospedado?  
- No hotel Luttia.  
De volta a seu quarto, Franois preparou um banho e pediu  telefonista que ligasse para a 
embaixada da Frana em Havana. Era Lon Delbecque que estava do outro lado da linha:  
- Voc est livre para o jantar?... Bom, ento v ao Lipp em uma hora; quero apresentar-lhe um 
novo companheiro.  
Uma chuva fina caa sobre Paris e os pedestres se apressavam. A rua de Rennes estava com 
veculos militares estacionados. Um clima de suspeita reinava na capital, os olhares fugiam, os 
jornais eram arrancados das bancas desde sua chegada e abertos rapidamente ao abrigo da primeira 
porta de garagem que surgia. Franois estava de mau humor; ele no havia conseguido ligao para 
Havana... Onde La estava? Esta noite, sua ausncia lhe doa mais do que nunca.  
No Lipp, numerosas personalidades estavam de p esperando uma mesa; a sala estava lotada. A 
direita, Franois Mitterrand estava instalado em companhia de uma jovem e de um advogado com o 
qual Tavernier se lembrava ter tido negcios: Roland Dumas. No longe deles, a romancista 
Franoise Sagan ria s gargalhadas das brincadeiras de Jacques Chazot...  
Lon Delbecque veio ao seu encontro:  
- Venha, tenho uma mesa no fundo, onde ficaremos mais tranqilos... Aqui est a multido das 
grandes noites! 
Roger Cazes, o dono do clebre restaurante, afastou ele mesmo a mesa para permitir que Tavernier 
se sentasse.  
- J faz um bom tempo que o senhor no aparece, sr. Tavernier. Como est sua esposa?  
- Bem, obrigado...  
- Tavernier, eu lhe apresento Lucien Neuwirth, heri da resistncia...  
- Por favor, no precisa...  
- Voc , e isso no  vergonha... Lucien Neuwirth rene-se  clula. Vocs voltaro juntos para a 
Arglia onde vo se reassegurar de uma questo essencial: o acordo dos generais de Alger em 
nome de De Gaulie. Fiquem prontos para partir amanh  noite. Eu me encontrarei com vocs 
assim que possvel.  
O jantar desenrolou-se em uma atmosfera muito agradvel. Os trs homens falaram livremente de 
seu passado e do general De Gaulle, que viam como a nica muralha contra a anarquia e o 
fascismo.  
- Voc est to certo do acordo do general? - perguntou Tavernier.  
- Tive um longo encontro com ele, na rua de Solfrino, no ltimo 8 de maro, e coloquei-o a par de 
nossos preparativos, dizendo- lhe: "Meu general... e se, por um acaso das circunstncias, 
terminarmos por fazer um apelo a De Gaulie...?" Ele ento me deu esta resposta que no 
esquecerei jamais: "Delbecque! Voc j viu o general De Gaulle abandonar o que quer que seja, 
sobretudo uma parcela do territrio? Tudo depende de quando, como e em que momento. Se eu 
devo voltar aos negcios, como reencontrarei este pas? Estes departamentos? Mas no  questo 
para De Gaulle abandonar o que quer que seja..." Eu continuei: "Meu general, se acontecer alguma 
coisa? Se ns criarmos um acontecimento? Se fizermos um apelo ao senhor? Que sejam as 
populaes da Arglia, incluindo os muulmanos, ou que seja o exrcito, o senhor se recusaria avir 
como mediador?" Durante todo este tempo ele no parou de balanar a cabea. "Tudo depende da 
forma com a qual as coisas se 
apresentam, continua ele. "Em uma situao difcil, voc pode estar certo de que responderei. Mas, 
Delbecque, voc disse 'como mediador'. No sou um mediador! Voc no v De Gaulie como 
'mediador' entre uma constituio que voc conhece, uma guerra que o sistema no sabe 
terminar e deputados que so apanhados pelo pescoo. Se devo voltar, se me fizerem um apelo, 
bom, eu ficarei  frente dos negcios do pas..." Era claro e preciso. Ento eu lhe falei dos 
"engajamentos" que ns estamos fazendo em relao s populaes, em nossos atelis e de 
nossos encontros, com o programa de reforma das instituies, do apelo a De Gaulle e de 
salvaguarda da Arglia... Ele estava inteiramente de acordo sobre a forma como ns 
procedemos. At mesmo lhe revelei que tinha um encontro com Michel Debr que havia falado 
de um governo de "salvaguarda nacional", e ele me confiou: "Sim,  uma boa expresso." Mas 
quando quis entrar em detalhes e expor a ele que, para preparar o comit de sade pblica que 
lhe pediria ajuda, eu iria criar um "comit de vigilncia", senti que ele ainda no estava pronto. Ele 
concluiu: "Faa o melhor" e levantou-se. A conversa tinha durado menos de uma hora. Ento ele 
me tomou pelos ombros: "Eu te desejo coragem. Cuidado, porque, se for muito longe, pode 
encontrar um touro ( uma palavra dele) pela frente! Mantenha-me informado. E mantenha 
contato com Foccart. Se tudo comear a acontecer,  preciso que o contato seja muito preciso, 
muito justo, porque tenho de estar a par do que se passa."  
No dia seguinte,  noite, Neuwirth e Tavernier voaram para Alger.  
No dia 26 de abril, chovia. Pouget, em veste camuflada, estava pronto. Seu colega Prosper 
Mayer havia efetivamente colocado  sua disposio vrias sees do l RCP. As catorze horas, 
jovens europeus comearam ajogar pedras contra as casas muulmanas do ClosSalembier. 
Imediatamente, Pouget deu ordem aos pra-quedistas de "lanar-se contra o meio da pilha". Sob 
o olhar estupefato de muulmanos, os militares "acompanharam" a pontaps nas ndegas 
os jovens fascistas que no compreendiam mais nada. Em todos os bairros de Alger, muulmanos dirigiam-se 
com as famlias para o Monumento aos Mortos. Grupos de antigos combatentes, levando suas condecoraes, 
portavam suas bandeiras e bandeirolas sobre as quais podia-se ler: "Na falta de governo, o Exrcito no poder!" 
Um terceiro cortejo reuniu-se a eles, o dos estudantes e universitrios, conduzido por Pierre Lagailiarde.' 
Diante da Universidade, ele assumiu a frente de trs cortejos que desfilavam aos gritos de 'Arglia francesa!", 
rapidamente cobertos pelos de "Abaixo o sistema!", "Contra o sistema!". Chegando ao monumento dos 
mortos e depois de terem depositado buqus, Auguste Arnould, piloto da Air Arglia, chefe do comit de 
entendimento dos antigos combatentes e grande habitu das manifestaes, apanhou um megafone e dirigiu-
se  multido:  
- "Meus amigos, levantemos a mo direita e prestemos juramento de permanecermos franceses para sempre e 
de responder a cada vez que, em circunstncias anlogas, um apelo semelhante nos for lanado."  
Todas as mos se levantaram: "Ns juramos!", gritaram milhares de vozes.  
Pouco a pouco os manifestantes afastaram-se, europeus e muulmanos misturados, alguns at mesmo 
trocando algumas palavras...  
Pouget e seus companheiros felicitaram-se pelo sucesso da confraternizao de mais de trinta mil pessoas.  
'Pierre Lagailiarde: advogado, dirigente da associao dos estudantes, subtenente praquedista que participou da 
expedio de Suez e da batalha da Arglia, nmero um do "Grupo dos Sete" que milita em favor da Arglia 
francesa. Robert Marte!: vinicultor, chefe da UFNA, defensor do Ocidente cristo, preso depois da descoberta, 
em sua casa, de membros de seu grupo torturando muulmanos que eles suspeitavam pertencerem a FLN. 
Maurice Crespin: seu brao direito, O doutorBernardLefvre: discpulo, como Joseph Ortiz, de Charles Maurras, 
petainista que conserva pela pessoa do marechal uma profunda venerao. RogerGoutailier: dono de um 
clebre restaurante, leRelais. Joseph Ottiz:  
poujadista, dono de um restaurante perto do frum. M. Bailie: advogado em Alger, falastro... que nutre uma 
certa predileo pelas canes do corpo de guarda. Todos os sete querem derrubar a repblica e estabelecer 
em seu lugar um regime autoritrio e corporatista. "Estes homens tm o gosto do compl, da ao e da teoria 
revolucionria da extrema direita." 
Robert Lacoste havia partido de Alger louco de raiva. No entanto, antes de partir, o ministro 
residente havia "esvaziado a sacola" e todos os generais o haviam repreendido veementemente. O 
velho militante da SF10 no tinha partido de mos vazias. Ele no se esqueceria rapidamente das 
caras de Salan, AlIard, Jouhaud e Auboyneau quando havia protestado:  
- Ento, justo agora que vocs podem fazer qualquer coisa, vo aceitar o Dien Bien Phu diplomtico 
que se prepara?! O que esto esperando para dizer ao Estado que no agentam mais a situao?  
Pouco antes, Alain de Srigny, dono do Echo d'Alger havia tentado lhe arrancar um papel pelo qual 
ele "chamava De GaulIe ao socorro". Lacoste havia prometido, depois recusou; ele s tinha uma 
pressa: afastar-se dovespeiro argelino; seu fracasso era total.A alguns instantes de seu embarque, 
ele soube que trs soldados franceses, prisioneiros da FLN, haviam sido fuzilados na Tunsia. Todos 
os movimentos patriticos, todas as associaes de ex-combatentes haviam imediatamente apelado 
para uma outra manifestao diante do Monumento aos Mortos, no dia 13 de maio de 1958 s 
dezesseis horas. O general Massu, que havia acompanhado Lacoste ao aeroporto, ainda tentou det-
lo:  
- Fique conosco. Se o senhor partir, no haver mais poder poltico, mais nada alm do exrcito!  
No ltimo momento, o ministro residente havia proibido a manifestao prevista para o 13 de maio.  
H alguns dias, um vento pesado vindo do deserto colocava os nervos  flor da pele. Todo mundo 
estava tenso  espera do agrupamento proibido por Lacoste, mas autorizado por Salan. "A rua tinha 
a expresso dos dias ruins." A maioria das lojas s havia aberto suas grades at a metade. Nos 
escritrios, predominavam os questionamentos quanto  situao do que se falava de trabalho. O 
incio da greve geral havia sido fixado para as treze horas. Na rua de Isly, Lon Delbecque, vindo de 
Paris sem Jacques Sousteile, fazia o ponto com suas tropas. 
- O objetivo desta reunio , vocs todos sabem, reclamar um governo de salvaguarda nacional 
presidido pelo general De Gaulie...  
o encontro foi marcado para o incio da tarde diante dos locais do jornal militarLeBled, no boulevard 
Laferrire, a dois passos do Monumento aos Mortos.  
Eles chegavam de todos os lados: de Belcourt pela rua de Lyon e pelo bulevar Baudin, de Bab-el-
Oued pela rua d'Isly e pela frente do mar, de El-Biar pelo GG2... Terminado o almoo, o povo de 
Alger seguia para a manifestao com mulheres e crianas, com suas bandeiras, seu entusiasmo, 
sua raiva e sua f. Os grupos transformaram-se em cortejos e os cortejos,  aproximao da 
plataforma de Glires, sobre a grande avenida Laferrire, vinham se misturar  multido barulhenta 
e colorida, salpicada de manchas vivas, camisas claras ou vestidos berrantes, e por todo lado, no fim 
das rampas, esta bandeira de trs cores pela qual acreditava-se ter vindo lutar. Todos os elementos 
da decorao haviam desaparecido, submersos:  
gramados, jardins, traados de ruas... A cidade inteira estava em marcha. Jovens percorriam em 
motocicleta as vias arteriais onde ainda se conseguia dirigir, brandindo as bandeiras e gritando: 
"Arglia francesa!" O cu era de um azul brilhante e uma pequena brisa que subia do mar havia 
substitudo o khamsin soprando do deserto.  
Alto-falantes chamavam para o ajuntamento: "A Arglia pode ser liquidada de um momento para o 
outro. L, nesta Paris de um outro mundo, o parlamento apronta-se para se reunir e investir em um 
governo de abandono." Lagailiarde, com o uniforme de leopardo, estava pendurado sobre o 
Monumento aos Mortos e, agarrado aos poilus3 esculpidos na pedra, agitava a multido:  
- Vocs esto prontos para lutar pela Arglia francesa?  
Um clamor gigantesco respondeu-lhe.  
- Vocs esto prontos para deixar sacrificar nossa Arglia?  
- Uuu! Uuu! Uuu! - gritava a multido.  
- O povo exige um governo de salvaguarda da nao... Vocs esto prontos a abandonar a Arglia?
- No! - clamava a populao branca de Alger.  
AMarseiliaise explodiu.  
Nos alto-falantes, perceberam-se os tiros, escutaram-se as exploses; os pra-quedistas afastavam 
os estudantes.  
Delbecque havia sido apanhado pela manobra de Lagailiarde. Ele convocou o estado-maior da clula 
 casa de El-Biar.  
Na avenida Pasteur, os carros conduzindo os generais ao Monumento aos Mortos tentavam forar 
passagem entre a multido:  
impossvel. Os oficiais desceram.  frente, o general Salan, impecvel em seu uniforme devero, o 
peito coberto de condecoraes, avanava lentamente, seguido do general Jouhaud e do almirante 
Auboyneau em um grande uniforme branco. Atrs, o general Massu em uniforme camuflado, a 
boina vermelha abaixada sobre a orelha esquerda. Salan, habitualmente plido, estava escarlate, 
eJouhaud, de ordinrio corado, havia empalidecido. Massu, como de hbito, mantinha uma expresso 
descontente. Uma imensa ovao os saudou:  
- Viva o exrcito!... O exrcito no poder!... Viva Massu!  
Salan depositou um buqu de rosas, reanimou a chama, fez acenos durante um minuto de silncio.  
Com dificuldade, os oficiais generais conseguiram voltar para seus veculos, enquanto Lagaillarde 
gritava:  
- Em frente! Todos ao governo geral! Contra este sistema podre, sigam-me!  
A multido obedeceu e seguiu, como uma irrepreensvel mar, ao assalto do GG. As granadas de 
gs lacrimognio no tiveram efeito sobre ela, que seguiu sobre as grades, e um caminho militar 
que conduzia um manifestante foi jogado contra o porto principal; a multido entrou gritando. 
Pedras voaram, fazendo estourar as janelas de vidro. E, quando os oficiais se recusaram a obedecer 
s ordens do coronel Trinquier, os pra-quedistas desapareceram, como se absorvidos pela massa 
de manifestantes. Em centenas, eles 
invadiram o governo geral, precipitando-se de encontro a janelas, escrivaninhas e mveis, e puseram 
fogo na biblioteca aos gritos de 'Arglia francesa!", "o exrcito no poder!".  
No grande escritrio do primeiro andar, Maisonneuve, o diretor de gabinete de Lacoste, que assumia 
suas funes em caso de ausncia, tentava encontr-lo em Paris:  
- ...  um levante, senhor ministro. Os pra-quedistas e a multido esto por todo lado... Devemos 
atirar neles, senhor ministro?  
- No, no! - gritou Lacoste, que se encontrava no escritrio de Flix Gaillard. - Onde est Salan?  
- Estamos procurando por ele, senhor ministro...  
Lagaillarde, que acabava de entrar no escritrio de Maisonneuve cercado de seus tenentes, tambm 
procurava o general para dar- lhe o poder. Massu aparece por sua vez, maxilares apertados, o 
pescoo ainda mais torto do que o normal. L fora, a multido gritava:  
- Viva Massu!... Massu no poder!...  
Ele se dirigiu para as roupas camufladas.  
- Virem-se para mim, todos estes agitadores!  
Em direo a Lagailiarde que aproximava-se saudando-o, ele gritou:  
- O que voc est fazendo neste uniforme?  
Enfim, Salan entrou. Foi empurrado imediatamente para a varanda: ele deveria anunciar alguma 
coisa  multido. O general avanou na direo das grades de proteo. Os argelinos o 
reconheceram e comearam:  
"- Uuu! Uuu!... Salan, traidor!... Salan, franco-maom!... Salan, indochins!... V embora, podre!... 
Viva Massu!... O exrcito no poder!... Abaixo Salan!...  
O comandante-em-chefe recuou e, lvido, observou um Massu estupefato que, perturbado, virou-se. 
Os capites Marion e Angels esforaram-se para persuadi-lo a aparecer novamente. No escritrio 
vizinho, para onde Salan havia se retirado, Maisonneuve tentava explicar a Flix Gaillard e a Lacoste 
a situao na qual se 
encontrava: Massu era o nico capaz de fazer a multido voltar  razo. "Ento que o faa!" Naquele 
instante apenas, Salan percebeu a presena de Tavernier.  
- Voc chegou bem tarde - lanou-lhe o velho "indochins", convidando-o a entrar em seu escritrio.  
-  preciso que me informe do que se passa aqui, meu general. Posso dizer que tudo isso  ao 
menos.. confuso!  
- A que acha que isso pode levar?  
Franois Tavernier refletiu por alguns instantes.  
- Difcil de dizer... Muitas tendncias e partidos em formao... Estamos  beira de uma exploso. 
Parece que apenas o general De Gaulie pode nos ajudar a ver as coisas mais claras...  
- De Gaulie! Sempre De Gaulle!... Tenho a impresso de que  ele quem puxa os cordes de tudo 
isso... Mas no sem riscos. H perigo de manipulao pelos grupos extremistas. Aqui  um 
verdadeiro cesto de caranguejos, e em Paris no vai muito melhor. Voc acha realmente que De 
Gaulle seja o homem da situao?  
- Parece-me que sim.  
- O que ento ele est esperando para se manifestar?  
- Ele quer sem dvida certificar-se do apoio do exrcito, mas no quer ser levado ao poder por um 
golpe armado. Se voltar aos negcios, ser dentro da legalidade.  
- Est certo disso?  
- Ao menos foi o que ele me disse...  
O general Salan dirigiu-lhe um olhar de suspeita.  
- Voc se encontrou com o general?  
- Sim, na rua Solfrino e em Colombey... Ele estava muito preocupado com o seu acordo.  
- Ah, bom! - disse Salan com ar satisfeito.  
- Sim, ele no far nada sem sua aprovao nem a dos generais.  
- Eu respondo pelo exrcito e por meus oficiais, mas.., como estar certo de que o general De Gaulie 
se engajar em favor da Arglia francesa? 
- A Arglia no  parte integrante da Frana?  
- Certo, mas alguns suspeitam que eu a queira liquidar.., como a Indochina, dizem eles!  
- Os dados no so os mesmos. Sobre o plano militar, voc tem a situao bem nas mos e a 
populao de origem europia  mais numerosa aqui. No entanto...  
- No entanto?  
- Como estar seguro da integrao das populaes muulmanas na Arglia francesa? A FLN  
poderosa,  apoiada pela maior parte dos pases rabes e pela opinio mundial. Estes movimentos de 
liberao, este desejo de independncia, ns j vimos onde tudo isso nos levou na Indochina...  
- Sim, mas, como vocs mesmos observaram, a situao  bem diferente.  
- Ser realmente? A juventude muulmana da Arglia sonha com a igualdade, o reconhecimento, ela 
desconfia da integrao. Para ela,  apenas uma palavra que os europeus so os nicos a 
empregar...  
- O que eu devo fazer, segundo voc?  
- Desconfiar, de incio, das tendncias fascistas que aparecem aqui e ali. Lembre-se em seguida de 
que  unicamente na legalidade que deve-se chamar o general De Gaulle.  
- A legalidade... Sim,  claro!  
A noite caiu sobre o Frum enquanto a multido, espalhada pela esplanada coberta de fragmentos, 
ainda gritava seus slogans, iluminada apenas pela luz do luar; os lampies haviam sido quebrados a 
pedradas desde o incio da manifestao. S se distinguia a brancura quase fosforescente das 
camisas na bruma do mar.  
Franois Tavernier e Lon Delbecque, o "enviado de Jacques Soustelie", foram levados ao 
escritrio de Maisonneuve. As discusses recomearam. Enfim chegou-se a um acordo a respeito 
do texto a ser enviado ao general De Gaulle. Massu o assinou e foi  sacada anunciar aos trinta mil 
manifestantes: 
"Ns fazemos um apelo aogeneralDe Gaulle, o nico capaz de assumira frente de um 
governo de salvaguarda nacional, acima de todos os partidos, para assegurara perenidade 
daArglia francesa, parte integrante da Frana."  
Eram 23 horas e 45 minutos.  
Em Matignon, Flix Gaillard havia reunido um conselho inter- ministerial, em ligao com Pierre 
Pflimlin, que acabara de ser levado  presidncia do Conselho. A fim de impedir que no se 
generalizasse e no se reforasse o movimento de Alger, havia sido dada uma ordem de cortar as 
comunicaes telefnicas e telegrficas entre a Arglia e a metrpole. Todos os vos com destino a 
Alger haviam sido suspensos.  
Na cidade branca, havia uma agitao em torno do general Salan. O general Petit, do estado-maior 
do general Ely, chefe das foras armadas, reputado por sua integridade, conversava com ele.  
- Meu general - disse Lon Delbecque, dirigindo-se a Massu  
-, enquanto esperamos a chegada de Soustelle,  preciso constituir um comit de salvaguarda 
nacional e exigir de Paris um governo de salvaguarda nacional.  
Massu consultou Salan com os olhos.  
- Continuemos - disse Massu. - Quem colocaremos em seu comit?  
- Aqueles que esto aqui - respondeu Lagaillarde. - E,  claro, meu general, o senhor ser o 
presidente.  
Massu comea a estabelecer a lista:  
O Comit de Salvaguarda Nacional do dia 13 de maio de 1958 emAlger si: generalMassu; 
si: tenente-coronel 7Jinquier si: tenente- coronel Ducasse; si: coronel Thomazo; si: Auguste 
Arnould, piloto; si: Andr Baudier comerciante ao HLM; si: Mohamed Berkani, contador; 
si: Tazeb Chikh, agricultor; si: Maurice Coulondre; si: Lon Delbec que, conselheiro 
tcnico da Defesa nacional; si: Ren Denis; 
si: ClaudeDumont; si:ArmandFroment; si: Josephjolivet; si: Pierre Lagailiarde; si: Jean 
Lalane; si: Jacques Lasuire; si: Bernard Lefevre; si: JeanLhostis; si: MohandSadiMadani; 
si: Saci Madhi; si: RobertMartel; si: Claude Martin; si: Jacques Merlot; si: Gabriel 
Montigny; si: PaulMoreau; si: MauriceMouchant; si: RogerMuiler; si: EdgarNazare; si: 
Lucien Neuwirth; si: Rodolphe Parachini; si:  
Armand Ferrou; si: Andr Prost; si: Andr Regard; si: Marcel Schambill; si: Alain de 
Srigny; si: Franois Tavernier; si: Armand Vacher; si: Ren Vinciguerra.  
Quando terminaram de copiar a lista, o general Salan a assinou. A noite havia cado. Era preciso 
ento redigir um primeiro comunicado que seria lido em seguida para a multido por Massu. As trs 
horas da manh, ele voltou  sacada, onde foi freneticamente aclamado.  
- "Ns comunicamos  populao de Alger que o governo de renncia de Pflimlin acaba de ser eleito 
por 273 votos contra 124 pela cumplicidade dos votos comunistas. Ns exprimimos nosso 
reconhecimento  populao que permaneceu aqui para receber Jacques Soustelle. Jacques 
Soustelle, por duas vezes, foi impedido de vir se reunir a ns. Uma terceira vez, ele conseguiu ficar 
em segurana e ns esperamos que esteja conosco durante o dia. O comit pede ao general De 
Gaulle que rompa o silncio dirigindo- se ao pas em vista da formao de um governo de 
salvaguarda nacional que, sozinho, pode salvar a Arglia do abandono e, assim, de um Dien Bien 
Phu diplomtico evocado por diversas vezes por Robert Lacoste. Em qualquer estado de causa, o 
comit de salvaguarda nacional, que representa a populao, continua a assegurar a unio entre o 
povo e o exrcito, que assume o poder at a vitria final. Esperando Jacques Soustelie, o bureau do 
Comit  constitudo pelo general Massu, o sr. Delbecque, delegado por sr. Soustelie, sr. Madani e 
sr. Lagaillarde. Ns decretamos a partir de agora a mobilizao de todas as energias francesas ao 
servio da ptria e pedimos que estejam prontos a responder ao primeiro apelo lanado pelo Comit 
de Salvaguarda Nacional. Estamos orgulhosos de poder provar ao mundo que o povo de Alger soube 
fazer a perfeita demonstrao da fraternidade total entre as populaes francesas europia e 
muulmana, unidas sob a bandeira francesa."  
O fim da noite foi calmo. Lentamente, a multido deixou o Frum.  
O dia que se levantava sobre Alger tingia a cidade branca de nuances delicadas, do rosa ao azul 
nacarado. Uma leve bruma subia do mar, anunciando um dia trrido. Garrafas de cerveja, papis 
velhos e pedras cobriam a esplanada. Desde as nove horas, palavras de ordem corriam pela cidade: 
"Todos ao Frum! A greve geral comea!" As dez horas, os blindados surgiram, com o coronel 
Thomazo  frente das manobras, e fez colocar as mquinas nos cruzamentos estratgicos. A 
multido dirigia-se, numerosa, para o Frum sob um sol escaldante.  
Ajornada, no entanto, desenrolou-se sem desordens. Coronis entravam e saam do Governo Geral, 
levando instrues contraditrias. Lon Delbecque passava comunicao sobre comunicao a 
Paris para tentar convencer Sousteile a vir. Em seu escritrio, o general Salan aguardava a 
continuao dos acontecimentos, pedindo a Tavernier conselhos que este tinha dificuldades de dar, 
tal era a confuso que reinava por todo lado. Enquanto o general Massu respondia s perguntas dos 
jornalistas, Paul Teitgen, secretrio geral da chefatura de polcia, que acabara de chegar de Paris, foi 
levado a Salan por quatro pra-quedistas. Quando ele entrou na sala do general, Alain de Srigny, 
delegado do Comit de Salvaguarda Nacional, encontrava-se ao seu lado.  
- Se tocarem em um de seus fios de cabelo, ser assunto meu  
- declarou-lhe o proprietrio do cho d'Alger.  
- Dane-se - retorquiu Teitgen, louco de dio. - J fui praticamente preso pelos elementos que voc  
incapaz de controlar!  
-  inadmissvel! - gritou o "Chins". - Volte para casa!  
Salan lhe deu as costas e voltou a mergulhar em seus papis.  
Deixando o local, Teitgen cruzou com Massu, que apenas fez- 
lhe um breve sinal com a cabea. Quando o general chegou, ele recebeu uma comunicao de 
Paris.  
- "O que  esta histria, Massu? Um golpe de estado?" - vociferava no telefone Robert Lacoste.  
- "No, senhor ministro, no  um golpe de estado. Constituiu-se um comit para provar  
Assemblia que a Arglia quer permanecer francesa.  preciso controlar a multido."  
- "Eu compreendo que voc tente seduzir a manifestao para control-la, mas  inconcebvel, 
Massu, ouviu bem, inconcebvel que voc participe de uma organizao revolucionria!"  
- "Mas trata-se de controlar e parar a agitao: at porque eu no posso atirar na multido..."  
Tarde da noite, as mensagens deste gnero continuaram sendo trocadas entre Paris e Alger. A 
multido havia se retirado e a cidade dormia.  
Neste 13 de maio, dia da Ascenso, uma grande multido, desertando as praias e os piqueniques  
sombra dos guarda-sis, havia voltado a reunir-se. Os cabelos brancos cuidadosamente penteados, o 
uniforme impecvel, o general Salan veio felicitar o Comit de Salvaguarda Nacional.  
-  preciso que voc se dirija  multido - disse-lhe Lon Delbecque.  
- Certo, j vou.  
Delbecque o precedeu na sacada e anunciou aos milhares de manifestantes que o general Salan iria 
falar-lhes.  
- Viva Salan!... Viva a Arglia francesa!...  
- 'Argelinos e argelinas, meus amigos. Logo de incio, saibam que sou um de vocs, j que meu filho 
est enterrado no cemitrio do Clos-Salembier. Eu no poderia jamais esquec-lo, j que ele  esta 
guerra que  a de vocs. H dezoito meses, eu fao a guerra com osfellaghas; eu a continuarei e 
ns a ganharemos. O que vocs acabam de fazer, mostrando  Frana sua determinao de 
permanecerem franceses por qualquer custo, provar ao mundo inteiro 
que, sempre e por todos os lados, a Arglia salvar a Frana. Todos os muulmanos nos 
acompanham. Antes de ontem, em Biskra, sete mil muulmanos foram levar buqus ao Monumento 
aos Mortos para honrar a memria de nossos trs soldados fuzilados em territrio tunisiano. Meus 
amigos, a ao que foi levada aqui trouxe para perto de vocs todos os muulmanos deste pas. 
Agora, para todos ns aqui, o nico termo  a vitria com este exrcito que vocs nunca deixaram 
de apoiar e que ama vocs. Com os generais que me cercam, o general Jouhaud, o general Allard, o 
general Massu que, aqui, livrou vocs dos fellaghas, ns ganharemos porque merecemos e porque 
este o caminho sagrado para a grandeza da Frana... Viva a Frana!... Viva a Arglia francesa!"  
A multido, conquistada, repetiu: "Viva a Frana!... Viva a Arglia francesa!" Salan fez uma 
saudao com a mo e saiu. Seus olhos cruzaram-se com os de Tavernier, que o fitava com 
insistncia. O general ento retomou o microfone.  
- E viva De Gaulle!  
- Viva De Gaulle!... Viva De Gaulle!... - gritou a multido.  
Em uma s voz foi entoada a Marseiliaise.  
O grupo havia vencido. O responsvel pelo poder civil e militar, o representante oficial da Arglia, 
acabara de fazer um apelo, na presena de milhares de testemunhas, ao general.  
- Bravo! - disse Delbecque, aproximando-se de Tavernier.  
- Ns vencemos.  
Na mesma noite, Charles de Gaulie enviou, de Colombey, o seguinte comunicado:  
A desintegrao do Estado leva infalivelmente ao afastamento dos povos associados, a 
perturbao do exrcito ao combate, a  
desarticulao nacional, aperda da independncia. H doze anos,  
a Frana, no combate com problemas muito rudes para o regime  
dos partidos, est engajada em um processo desastroso. Outrora  
o pas, em suas profundezas, confiou-me para conduzi-lo at a 
salvao. Atualmente, diante das provas que surgem novamente diante dele, que ele saiba 
que estou pronto a assumir os poderes da Repblica.  
Notcias contraditrias circulavam em todos os sentidos. Entre outras, a de que Lagailiarde havia 
tomado a Rdio-Alger. O coronel Godard pediu imediatamente confirmao, e em seguida 
destacou dois esquadres de policiais motorizados a fim de assegurar a proteo da estao. 
Lucien Neuwirth, um grande revlver na cintura, obteve do general Massu que lhe confiasse a 
direo da rdio. Enquanto isso, Godiveau, proprietrio da Radio-Alger, no parava de pedir 
socorro: "Eles vo entrar e tomar o microfone!" Massu ento designou Trinquier para enviar uma 
companhia para liberar o imvel. Lagailiarde, que havia interceptado a ordem, ordenou a dois 
homenzarres do Comit de salvaguarda nacional que o acompanhem at a companhia e 
assumam o controle da estao apesar da proteo oferecida pelos pra-quedistas. Mas 
Neuwirth havia assistido a toda a manobra. Ele foi rapidamente prevenir Pouget que, por sua vez, 
alertou o capito Grazziani. No local, Grazziani se acertou com o capito encarregado de 
expulsar os agitadores e apenas os pra-quedistas teriam o direito de penetrar nos locais.  
Neuwirth acabara de marcar um ponto sobre Lagaillarde. Ele havia colaborado na rdio de 
Londres e recordava-se das notas da melodia que anunciava o incio das transmisses na direo 
da Frana ocupada. Ele procedeu da mesma forma e, por intermdio da rdio, lanou este apelo: 
"Que todos os motoristas toquem a buzinadas as notas seguintes: 'tatata tata, tatata tata!" Logo 
toda a cidade de Alger ressoava ao som do famoso "tatata tata!" que significava 'Arglia 
francesa". Em seguida, Neuwirth orientou os emissores em direo da metrpole. Rapidamente, 
em Paris, podia-se ouvir as ovaes reservadas pela multido ao discurso retransmitido do 
general Massu e do general Salan, em seguida o nome de Sousteile aclamado logo depois do 
general De Gaulle, o 
pontuado de "tatata tata", destinado a tornar-se o sinal das reunies dos extremistas.  
No dia seguinte, ainda restava uma medida a ser tomada: era preciso mostrar a Paris que era toda a 
Arglia, europeus e muulmanos juntos, que reclamava a volta do general De Gaulle. A noite, o 
coronel Trinquier, o coronel Godard, o capito Lger e Sirvin - este capito que falava 
indiferentemente o francs e o rabe - atravessavam o Casbah e todos os outros bairros 
muulmanos, discutindo com os chefes dos pequenos vilarejos que ainda relutavam. Muitos tinham 
medo dos franceses, mas foram tranqilizados:  
- "No recuem, haver os azuis e os militares, vocs devem tomar parte desta revoluo, vocs 
devem exigir seu lugar nesta Arglia que est comeando a ser criada diante de vocs e pela qual 
De Gaulle ser o responsvel!"  
O nome de De Gauile fazia milagres, os muulmanos tinham confiana nele. Eles desceram em 
milhares, com mulheres e crianas, levando cartazes que diziam: "Comit de Salvaguarda Nacional 
de Casbah", "Ns somos franceses!", "Ns queremos permanecer franceses!", "Integrao" etc. O 
cortejo seguiu pela rua de Isly em direo ao Frum. Fazia muito calor. A multido muulmana 
reuniu-se  europia e misturou-se a ela. Em determinado momento, sentiu-se uma viva tenso. 
Depois o milagre se produziu: mos se estenderam, braos enlaaram-se, chorava-se, ria-se... 
Terminadas as batidas, as bombas nos cafs ou nos cinemas.., ramos todos irmos! Entre os 
quarenta mil europeus e os trinta mil muulmanos havia a efuso, a reconciliao. Com uma s voz 
eles cantaram a Marcillieise.  
Enfim, Sousteile chegou. Entre Salan e ele as coisas no entanto no se apresentavam sob os 
melhores auspcios. De imediato irritado pelos "Viva Soustelle!", "Sousteile conosco!", que ouvia-se 
em toda parte, o "Mandarim" recusou-se a passar-lhe os assuntos civis.  
- Eu assumo aqui todos os poderes e est fora de questo que eu possa delegar a mnima parte!  
Os policiais motorizados. 
De comum acordo com Salan, Sousteile props ento um plano que obteve a aprovao do 
representante da Repblica. Tratava- se, para o antigo governo, de "estruturar a revoluo do 13 de 
maio de forma que o sistema se convena de que ele no tinha nenhuma chance de retomar o 
comando; criar comits de salvaguarda nacional em toda a Arglia; exaltar a fraternizao; informar 
 metrpole e ao estrangeiro que em nenhum momento a revoluo havia sido um golpe armado 
fascista..."  
Alguns ainda sonhavam em tomar o poder atravs das armas. Um plano batizado "Ressurreio" 
havia sido concebido tanto em Paris quanto em Alger. Os pra-quedistas foram colocados em 
estado de alerta. Estava previsto que os dois regimentos pra-quedistas vindos de Alger, o 1 e o 30 
RCP reforados por dois outros, habitualmente baseados em Toulouse e em Bayonne, seriam 
lanados sobre Paris e seus subrbios na noite do dia 27 para 28 de maio. O regimento de blindados 
estacionado em Saint-Germain-en-Laye viria a seu encontro para reforo. Os guardas motorizados, 
os CRS e a polcia deveriam em seguida enfileirar-se ao lado deles. Na capital, j se viam os 
tanques e os carros blindados tomando posio perto do palcio do Elyse, da Cmara dos 
Deputados e do palcio do Luxembourg. Tanto as pontes assim como as entradas da cidade tambm 
estavam guardadas. Reinava na cidade uma atmosfera de estado de stio. O caf, o leo e o acar 
comearam a faltar; os parisienses guardavam provises. Nas ruas trocavam-se olhares taciturnos, 
carregados de suspeitas. Nunca o velho slogan "As paredes tm ouvidos" estivera to presente no 
esprito de cada um. Esperava-se o pior, mas o pior no aconteceu, graas a um comunicado 
difundido pelo general De Gaulle: "Eu espero das foras terrestres, navais e areas presentes na 
Arglia que permaneam exemplares sob as ordens de seus chefes." A operao "Ressurreio" 
havia errado o alvo.  
A posio do capito Pouget era cada vez mais claramente afastada. Por aspirar a nada menos que 
uma verdadeira revoluo, em que muulmanos e europeus realmente tomassem seus destinos 
em suas mos, ele comeava a incomodar. No entanto no se ousava atir-lo na priso. Ele foi 
apenas designado para a residncia na vila de El-Biar. Mais ningum o ouvia; era tomado por um 
louco perigoso, j que conservava amigos entre os jovens pra-quedistas e talvez assim entre os trs 
co-presidentes do Comit de Salvaguarda Nacional: Jacques Chevaflier, o prefeito deAlger,Jacques 
Sousteile, que tinha a confiana dos extremistas, e Yacef Saadi, que gozava da confiana do FLN. 
O coronel Godard, chefe da Segurana, ao qual Pouget havia reclamado a liberao de Saadi, lhe 
havia replicado:  
- Voc nos enoja com seu Yacef! Salan no quer mais.  
Ele, que havia enfrentado a priso do campo vietminh nmero um, que havia voltado doente, os 
cabelos prematuramente grisalhos, sentia-se no momento encurralado pelo tanto de "intrigas" 
polticas. Ele pensava em sua vida perdida, em seus filhos que tinham crescido longe dele, e se via 
forado a renunciar a seu sonho de criar um exrcito popular capaz de defender uma Arglia 
autenticamente liberal. Pouget voltou s fileiras, ao grande alvio dos sobreviventes da clula. 
Tavernier foi o nico a v-lo afastar-se com pesar, porque ele era provavelmente o nico integrante 
de todo este caso a mostrar-se totalmente desinteressado.  
Nos dias que se seguiram, assistiu-se a um nmero inacreditvel de idas e voltas: emissrios 
polticos, ministros, generais se apressavam dentro do escritrio do general Salan. Jacques Foccart, 
que fez a viagem em companhia de Roger Frey, cobriu Salan de elogios e lhe garantiu que iria 
reportar a De Gaulie a maneira magistral com que ele havia assumido suas responsabilidades, e 
quanto o que ele fazia neste momento constitua uma ajuda preciosa ao general De Gaulie pelos dias 
a seguir.  
No 19 de maio, o general De Gaulle fez no hotel do Palcio de Orsay uma conferncia de imprensa 
que teve na Arglia um grande impacto; o Echo d'Alger a reproduziu em grandes trechos:  
"O que se passa neste momento na Arglia com relao  metrpole, e na metrpole com 
relao Arglia,pode levara uma crise 
nacional grave. Mas tambm pode ser o incio de uma espcie de ressurreio. Vejam por 
que o momento me pareceu tersurgido onde pode serpossvel que eu seja tilainda uma vez 
diretamente  Frana, porque sou um homem s, no me confundo com nenhum partido, 
com nenhuma organizao, h cinco anos no exero nenhuma ao poltica, h trs anos 
no fao nenhuma declarao; sou um homem que no pertence a ningum e que pertence 
a todo mundo."  
A pergunta: "Como o senhorjulga os acontecimentos atuais na Arglia, o levante da 
populao, a atitude do exrcito?", ele respondeu:  
"Na Arglia, h uma populao, tanto francesa de origem como muulmana, que, h anos, 
est envolvida na guerra, com os mortos, os atentados. E esta populao constata, desde 
que tal situao iniciou, que o sistema estabelecido em Paris no pode resolver seus 
problemas. Ainda melhor ela viu este sistema se orientar recentemente na direo dos 
'escritrios do estrangeiro Ela ouviu o homem que  meu amigo e que se encontra neste 
momento como ministro daArglia declararpublicamente: 'Ns vamos a um Dien Bien Phu 
diplomtico.' Como querem que, com o tempo, esta populao, no estado em que se 
encontra, no se revolte? E mais, ela d neste momento um espetculo magnifico de uma 
imensa fraternidade... O exrcito constatou esta grande emoo popular e julgou que era 
seu dever impedir que se transformasse em desordem. Ele o fez e fez bem-feito... E ento, 
enfim, por conseqncia, o exrcito no pde se afastar e impedir-se de experimentar os 
mesmos sentimentos que esta populao... Eu compreendo perfeitamente bem a atitude e a 
ao do comando militar na Arglia... Os generais da Arglia no so rebeldes."  
 pergunta: "Que funo o senhor deseja ocupar?", De Gaulle respondeu:  
"Ficar  frente do governo da Repblica."  
"Mas quais procedimentos o senhor pretende adotar para seu retorno aos governo?"  
"Se De Gaulle fosse levado a ser 
delegado de poderes excepcionais, por uma durao excepcional, em um momento excepcional, isso no poderia 
evidentemente serfeito pelos procedimentos e ritos habituais, to habituais que todo o 
mundo est esgotado."  
Para Maurice Duvergei do Monde, que lhe perguntou se opoder que ele reivindicava no 
arriscava prem risco as liberdades pblicas, ele respondeu:  
"Eu fiz isso? As liberdades pblicas, eu as restabeleci quando elas haviam 
desaparecido.Acreditam que aos 67anos eu vau comear uma carreira de ditador?"  
Um outro perguntou-lhe por que ele no condenou porindisciplina os militares argelinos; 
ele retorquiu com ironia:  
"O governo no os denunciou. Eu, que no sou o governo, por que afaria?"  
Ele terminou dizendo: "Agora, vou voltar para a minha cidade e estarei  disposio do 
pas."  
No dia seguinte, Salan apresentou-se no balco do governo geral e dirigiu-se nestes termos a uma 
multido j avisada do pronunciamento pelos alto-falantes em cima de caminhes:  
- "Argelinas, argelinos! Durante estes dias, deste Frum que tornou-se o ponto alto da resistncia ao 
abandono surgiu um intenso clamor em direo a Paris. Em um movimento unnime de fervor 
patritico, vocs criaram sua vontade violenta de construir uma Arglia francesa nova e fraternal, 
marcada pela vida comum das diversas comunidades. Ontem  noite, de Paris, do prprio corao 
da ilha da Frana, uma voz serena fez-se ouvir. O general De Gaulie disse: ' talvez o comeo de 
uma espcie de ressurreio."  preciso tomar posio. Mexam-se, as coisas e os espritos vo 
rpido. Assim, aquele que, em outras horas cruciais para a ptria, soube mostrar o caminho da 
salvao, afirmou publicamente, com fora e sem ambigidade, que compreendia suas angstias e 
seus desejos. Alger, Oran, Constantine, os habitantes das cidades e dos douas,  
aqueles das plancies e dos planaltos, os montanhistas dos djebels mais afastados, os nmades do 
Saara, todos se renem para afirmar seu orgulho e sua vontade de serem franceses e para dizer sua 
certeza de nossa vitria. De toda aArglia francesa eleva-se um imenso grito de patriotismo e de f. 
Dez milhes de franceses decididos a permanecerem franceses dizem a ti, meu general, que tuas 
palavras fizeram nascer no corao uma esperana de grandeza e de unidade nacional!"  
Depois de um pesado silncio, a multido entoou em uma s voz o canto dos soldados da Arglia por 
ocasio do desembarque em 1944 na costa do Mediterrneo:  
Somos ns os africanos que viemos de longe.  
Ns viemos das colnias para defender o pas;  
Ns deixamos por l nossos pais, nossos amigos  
E temos no corao um indescritvel ardor  
Porque queremos portar orgulhosos e altaneiros  
A bela bandeira de nossa Frana inteira...  
Lgrimas corriam nos rostos entalhados de velhos soldados franceses e muulmanos com o peito 
constelado de condecoraes.  
Franois Tavernier e Lon Delbecque discordaram a respeito da Crsega. Para fazer presso sobre 
o governo, Delbecque preconizava a criao, na ilha, de comits de salvaguarda nacional. Tavernier 
no via na operao nada alm de uma manobra de golpe armado.  
- E ento? - gritou Delbecque. - E preciso saber o que se quer! O governo tarda a fazer um apelo ao 
general De Gaulle;  preciso que ele acredite que a Crsega est reunida a Alger e que a qualquer 
momento a insurreio pode chegar  metrpole!  
Apesar da simpatia que ele experimentava com relao a Delbecque e Neuwirth, Franois 
Tavernier achava contestveis seus mtodos, que a seus olhos pareciam pertencer  mais pura 
tradio dos movimentos fascistas. Ele sentia-se cada vez mais 
desconfiado com relao aos auxiliares do general De Gaulie. "Tenho confiana  
nele, mas no mais a tenho nos que o cercam. Eles esto  
prontos para tudo para lev-lo ao poder, mas ele, at que ponto est  
de acordo?", perguntava-se. Ele deixou ento os da clula "desembarcarem"  
na Crsega em companhia do coronel Thomazo, de Alain  
de Srigny e de Roger Frey, e aproveitou sua ausncia para infiltrar-  
se entre os cls de extrema direita favorveis ao retorno do general,  
em seguida entre os meios da extrema esquerda.
Pascal Arrighi, deputado na Crsega, munido de uma ordem  
de misso assinada pelo general Salan, havia precedido os "expedicionrios"  
Ele estava acompanhado do comissrio de polcia  
Renucci, de um funcionrio argelino, Hubert Paldacci, do representant  
Antoine Belgodre e do comandante Freddy Bauer, anti g  
chefe dos pra-quedistas de Corte e de Calvi. A sua chegada na  
ilha de Beaut, 250 pra-quedistas comandados pelo capito Mante
colocaram-se sob suas ordens.

Captulo Treze

GRITOS ELEVAVAM-SE NA ENTRADA. Um grande tumulto
seguiu-se.
Ao mesmo tempo que Celia Snchez, La levantou-se, intrigada, para informar-se do que se
passava. Homens em farrapos, esgotados, acabavam de chegar ao acampamento. Alguns 
carregavam seus companheiros feridos, outros levavam nas costas os mais machucados. Entre eles, 
La reconheceu imediatamente em Camilo, depois, trazido em uma maca, Charles. Sob sua barba e 
a sujeira que o cobria, o rosto do jovem estava lvido.  
- Ele foi ferido no ombro... perdeu muito sangue - comentou em movimento Benigno enquanto 
depositava a maca com cuidado.  
- Rpido! gua! - suplicou La, inclinando-se sobre a ferida.  
- Deixe-me fazer- intimou Ernesto, afastando-a suavemente.  
O gesto preciso, ele descobriu a ferida arrancando os ltimos farrapos da vestimenta, limpando em 
seguida a carne exposta.  
- No  nada - concluiu ele de seu exame. - A bala saiu do outro lado... Ah, ele est voltando a si. 
Tudo bem, meu rapaz? 
Charles ensaiou um sorriso que, quando ele tentou levantar- se, logo se transformou em uma careta.  
- No se mexa, voc precisa de repouso.  
Charles estava h pouco instalado em um abrigo de uma enfermaria de campo quando viu deitarem 
Camilo a seu lado; o cubano havia sido atingido na coxa.  
- Ele foi atingido pela bala que me era destinada - explicou o guerrilheiro apontando para Charles. - 
No pude fazer nada, ele atirou-se diante de mim... Obrigado, meu camarada!  
Fidel Castro, que acabara de ser informado da chegada das tropas derrotadas, veio para saber 
notcias.  
- No se preocupe - tranqilizou-o Camilo. - Ns temos apenas feridos. Eles, de seu lado, tiveram 
numerosas mortes. E alm disso, ns lhes tiramos trs metralhadoras e uma dezena de fuzis... O 
francs lutou bem, eu at lhe devo a vida.  
Camilo se restabeleceu rapidamente, porm Charles foi tomado por uma febre alta.  
- Ele precisa de antibiticos - constatou Che.  
- Mas onde encontr-los? - preocupou-se La.  
- Em la Moncada, em Santiago.  
- Vou at l - declarou Alfredo.  
- Eu acompanho voc - acrescentou de imediato Benigno.  
- Conheo bem a cidade - disse Juan Torres. - Tambm vou.  
Com a permisso de Camilo, eles partiram para o campo.  
Dois dias depois, estavam de volta, carregados de preciosas caixas de medicamentos, mas tambm 
de alguns charutos. Em La Plata, os trs homens foram acolhidos com aclamaes.  
- No foi muito difcil? - pergunta Camilo.  
- Como tirar doce de criana - lanou-lhe Alfredo, gracejando.  
- Est brincando! - disse Benigno. - Este cara  um verdadeiro leo. Ele sozinho forou a porta da 
caserna de Moncada e 
adivinha como? Disfarado de mulher! Se vocs tivessem visto a cara dos soldados de Batista, eles 
no acreditavam em seus olhos... Na verdade, nem eu! Os militares o olhavam como se jamais 
tivesse visto uma mulher. No fizeram um gesto quando Alfredo empurrou a porta. E quando lhes 
fez sinal para segui-lo, eles obedeceram como cachorrinhos. "Estou me sentindo mal, estou me 
sentindo mal", repetia ele. "Preciso de um enfermeiro." Quando foi conduzido  enfermaria, tirou 
sua metralhadora debaixo de suas saias e conseguiu os medicamentos necessrios, e em seguida, 
com uma s rajada, matou todos os presentes. Uma verdadeira carnificina! Sangue por todo lado! 
Ns samos correndo enquanto Juan, que nos esperava do lado de fora, nos dava cobertura abrindo 
fogo sobre nossos perseguidores. Ele tambm fez um estrago!  
Graas  ao dos antibiticos, a febre diminuiu. Mas Charles, enfraquecido, no conseguia ficar de 
p. Todo o tempo em que esteve acamado, La no abandonou sua cabeceira. Aos primeiros sinais 
de melhora, ela decidiu enfim descansar um pouco, mas, no instante em que ia voltar a sua cabana, 
Charles a deteve:  
- Fale-me de minha me...  
Emocionada, La fitou com ternura o rosto emaciado do rapaz.  
- Sua me... - murmurou ela. - Sua me era a mulher mais extraordinria, a mais corajosa que j 
conheci. Antes de mim, Camille engajou-se na Resistncia com uma lucidez que eu jamais tive. Ela 
partilhava com seu pai o sentimento de que cada um entre ns deveria combater o ocupante. Para 
isso, ela estava pronta a sacrificar sua vida. Apesar de sua fragilidade, e tambm de seu medo, ela 
cumpria as misses ao curso das quais ela provou uma grande determinao, uma abnegao sem 
falhas. Numerosas vezes ela me apoiou quando eu estava a ponto de abandonar tudo... Camilie 
nunca duvidou da vitria. Ela aspirava viver em um mundo em paz, mais justo, mais humano. Jamais 
ela duvidou do bom fundamento de nosso combate. Quando sua me morreu e eu levei voc, ferido, 
acreditei que nunca teria foras para substitu-la junto a voc. Mas sem dvida ela deve velar por 
ns, porque foi ela que me deu a energia que 
me foi preciso para continuar, apesar de tudo. E creio que sofri mais com o desaparecimento dela do 
que com o de meus pais. Ainda que muito diferentes, Camilie e eu, ns ramos muito prximas uma 
da outra. Ela me conhecia melhor do que eu mesma e tinha por mim uma indulgncia, uma amizade 
que nunca foram abaladas. Hoje ela se sentiria orgulhosa de voc. Voc se parece muito com ela: 
voc vai at o fim no que acredita ser justo. Voc  o digno filho de sua me!  
- E  a voc que devo isso, La.  
- Obrigada por me dizer isso, mas no posso acreditar. Eu criei voc com todo o amor do qual fui 
capaz, tentei substitu-la junto a voc mas, se consegui isso, foi graas  lembrana dela... Ela 
continua a me fazer tanta falta!  
Eles permaneceram por um longo tempo imveis, silenciosos, de mos dadas. A fadiga enfim tomou 
conta de Charles e ele dormiu com um sorriso.  
Esgotada, La voltou ao abrigo e estendeu-se em seu saco de dormir. Os olhos fechados, ela reviu o 
doce rosto de Camille, escutou sua voz... Ela se mexeu dentro do saco de dormir, tentando encontrar 
a impresso dos lbios de seu marido correndo sobre seu corpo. Suspirou... Decididamente, ele 
estava to longe! Os lbios, no entanto, pousavam em seu pescoo. Ela entreabriu os olhos:  
Camilo sorria junto dela. Ela estremeceu. Levantou-se e ofereceu- lhe a boca. Eles trocaram um 
beijo brutal que lhes recordou a violncia do desejo de ambos. Camilo a ergueu e a levou para a 
gruta onde eles haviam feito seu refgio amoroso. L eles se despiram com gestos impacientes, 
depois atiraram-se um contra o outro. Seus corpos nadando escorregavam, tomavam-se, afastavam-
se com rudos de suco. Seus sexos doloridos procurando- se, eles se cavalgaram furiosamente 
com gritos de sofrimento e de prazer. Com alegria e volpia, eles rolaram fora de sua rude cama at 
a entrada da gruta. As pontas dos gravetos os arranhavam, redobrando seu prazer. Quando 
tombaram, esgotados, 
corria sangue aqui e ali sobre a pele de ambos. Apaziguados, eles adormeceram sem se afastarem.  
Quando voltaram, havia uma grande efervescncia no campo de La Plata.  
- Fidel pede a todos os comandantes para reunirem-se a ele  
- disse Benigno, dirigindo-se a Camilo. - Ele j chamou voc trs vezes!  
Camilo soltou a mo de La e correu atrs do outro guerrilheiro. Uma dezena de homens sujos e 
desgrenhados cercavam Castro. Um mapa da ilha estava estendido diante dele.  
- Ah, enfim, a est voc! - ele repreendeu Camilo. - "Voc tem a mania irritante de ir foder um 
bordel inteiro e depois deixar a gente se virar. Voc nem mesmo se preocupou em me enviar a lista 
dos homens, das armas e das balas que tem com voc. Tambm no sei se voc tem uma nica 
mina." Espero que esteja  altura da misso da qual vou encarreg-lo, mas "no se esquea de que 
vo tentar papar voc ao longo do caminho! Misso  ento dada ao comandante Camilo 
Cienfuegos de conduzir uma coluna rebelde da Sierra Maestra  provncia de Pinar dei Rio, para a 
execuo do plano estratgico da armada rebelde. A coluna nmero 2, AntonioMaceo', fora de 
invaso assim nomeada em homenagem ao glorioso combatente da Independncia, partir de El 
Salto quarta-feira prxima, 20 de agosto de 1958. Ao comandante da coluna de invaso est 
acordada a faculdade de organizar as unidades de comando rebeldes sobre toda a extenso do 
territrio nacional, at os locais dos quais os comandantes de cada provncia vierem, com suas 
fileiras, nas regies colocadas respectivamente sob a autoridade deles; ele aplicar o cdigo penal e 
as leis agrrias da armada rebelde no territrio invadido; ele compreende as imposies 
estabelecidas pelos regulamentos militares; ele combinar suas operaes com aquelas de toda a 
outra fora revolucionria que j estar comeando a operar em um setor determinado; ele criar 
umfront permanente na provncia de Pinar dei Ro, que constituir a base operacional 
definitiva da colnia da invaso e designar para isso oficiais da armada rebelde at o grau de 
comandante da colnia. Sempre tendo como objetivo primordial levar a guerra da libertao at o 
oeste da ilha e qualquer outra questo ttica estando subordinada a este fim, a coluna da invaso 
combater o inimigo em todas as ocasies que possam se apresentar ao curso do trajeto. As armas 
confiscadas do inimigo sero destinadas por prioridade  disposio das unidades locais".  
Camilo no sorria mais, ele mal conseguia esconder sua emoo, O qu? Ele, o chicharn, que no 
podia ver um rabo de saia, o "fodedor de bordel", como dizia Fidel, era nomeado comandante da 
coluna 'ntonio-Maceo"?  
- Eu conto com voc - acrescentou Castro estendendo-lhe a mo.  
- Voc pode contar, comandante.  
- Bravo, camarada - cumprimentou-o Che, abraando-o.  
Os comandantes Juan Almeida, Ramiro Valds, Crescensio Prez e Huber Matos o felicitaram 
calorosamente.  
Eles deixaram Fidel  chegada de jornalistas estrangeiros, que eram numerosos e vinham a Sierra 
Maestra como em uma continuao daj clebre entrevista de Castro com Herbert L. Matthews. 
Hoje era a vez de um editorialista do Washington Post, Karl E. Meyer, que sucedia os 
correspondentes doParis-Match, Enrique Meneses, Michel Duplaix e Paul Slade. Com 
brilhantismo, o chefe da rebelio falou de literatura ao jornalista espantado.  
- Voc leu oKaputt de Malaparte?... E asMemrias de guerra do general De Gaulle?  
Camilo Cienfuegos ironizava o gosto de Fidel pelas entrevistas e as fotografias de imprensa: "Ele 
acha que  Marilyn Monroe... sem os seios! Logo passar mais tempo com eles do que conosco..."  
Uma outra visita havia dividido os guerrilheiros: a de Carlos Rafael Rodrguez, um dos dirigentes do 
partido comunista cubano. Alguns duvidavam da dominao do partido sobre o movimento do 26 de 
Julho. Ningum ignorava as simpatias de Ral Castro com relao a ele, diferente de Fidel, que se 
furtava a isto. Estas divergncias 
haviam at mesmo suscitado esta observao de Rodrguez: "Na Sierra de Cristal da qual Ral tem 
o comando, a harmonia reina com os comunistas; em compensao, na Sierra Maestra de Fidel, a 
harmonia transforma-se em suspeita."  
- Voc no pode vir comigo, vai ser muito difcil!  
- Por que, Camilo? As outras mulheres vo partir com voc, por que no eu?  
- Voc no tem nada a fazer aqui, este pas no  o seu, e a guerrilha no  um negcio para 
mulheres.  
- Eu lhe peo, deixe-me acompanh-lo. Voc est levando Charles e no quero deix-lo sozinho.  
- Charles  um homem.  
- Ele  ainda um menino, e precisa de mim. No posso...  
Esta discusso, La e Camilo estavam tendo pela ensima vez. A jovem mulher obstinava-se em 
seu desejo de permanecer junto ao seu amante. De seu lado, Ernesto tambm opunha-se  presena 
dela no seio da 2a coluna, to grande era seu medo de que alguma coisa de mau lhe acontecesse.  
- Euj fui  guerra antes de conhecer voc, e os nazistas eram bem mais terrveis do que os policiais 
de Batista!  
- Talvez - replicou Che -, mas voc sabia por que combatia. Ser que ela alguma vez realmente 
soube? Parecia-lhe, ao contrrio, que sempre havia sido o joguete do acaso. As circunstncias, 
apenas, tinham-na levado a aderir aos engajamentos pelos quais havia arriscado sua vida. Na 
Frana, tudo aquilo havia lhe parecido lgico. Aqui, em Cuba, nada de semelhante: esta revoluo 
no era sua, mesmo que a compreendesse. Da mesma forma, ela no havia compreendido o 
engajamento de Sarah junto aos vingadores judeus? Ali tambm, ela havia se reunido a eles por 
acaso, por amizade, certamente no por uma reflexo poltica ou ideolgica. Deveria ela sempre 
estar misturada aos acontecimentos que no lhe diziam respeito? Longe de seu pas, de seus filhos, 
do homem que amava... Por que obstinava-se a querer participar desta luta onde tinha tudo a perder, 
a 
comear pela vida? O Che tambm no era cubano, mas aspirava estender a revoluo por todos os 
continentes, ele se via como um cidado do mundo que ele desejava transformar radicalmente. O 
argentino sonhava com igualdade e liberdade para todos e, para isso, estava pronto a sacrificar sua 
vida. E Camilo? Esta revoluo havia lhe dado um sentido  sua existncia. Sem a revoluo, ele 
seria apenas o filho de um exilado espanhol, condenado a exercer pequenos trabalhos e a vegetar 
em uma mediocridade quotidiana. O resumo que havia feito a La de sua infncia, seguida de sua 
temporada nos Estados Unidos, a tinha feito compreender. A guerrilha permitia-lhe fazer sobressair 
o melhor de si mesmo, escapar  pobreza, demonstrar sua fora de alma e sua coragem. Com 
fervor e generosidade, ele havia abraado a causa cubana, convencido por instinto de que ela era 
justa e boa. Suas conversas regulares com Che o confortavam neste idealismo. Ele devorava os 
livros que o argentino lhe emprestava, em seguida reclamava as observaes, as explicaes, um 
aprofundamento que Ernesto sentia-se na obrigao de fornec-lo. Quanto a Ramn, ele havia 
renovado, neste novo combate, suas iluses de seus 20 anos. O que havia fracassado na Espanha 
poderia ter sucesso em Cuba. Ele estava convencido disto. Seu passado de republicano espanhol 
conferia-lhe uma autoridade que ele apreciava e sentia-se com Fidel em uma comunho de 
pensamentos que o levava a dedicar ao jovem chefe uma admirao e uma devoo sem limites. Ele 
estava persuadido do triunfo da revoluo, mas estava preparado h muito tempo para morrer pelo 
que ele pregava: Libertad o muerte, "A liberdade ou a morte!", ele adorava repetir.  
Pouco antes da partida da 2a coluna, La foi testemunha da execuo de um jovem de 17 anos. 
Acusado de ter roubado uma caixa de leite em p e trs charutos, havia sido condenado  morte 
pelo tribunal da armada rebelde. Informado da sentena, Fidel confirmou:  
-  preciso de fato fuzil-lo. Para torn-lo um exemplo.  
Por sua vez, Camilo tinha pedido apenas que se retirasse do culpado o privilgio de participar da 
invaso, estimando que ele seria suficientemente punido com esta excluso. Seus companheiros se 
apegaram todos a esta opinio. Eles jogavam cartas com o jovem ladro quando chegou a 
mensagem de Castro. Camilo ficou lvido mas, tentando esconder sua emoo, olhou para o garoto 
diretamente nos olhos e disse friamente:  
- Voc passar pelas armas s quatro horas. Fidel acatou a deciso do tribunal.  
Todos trocaram olhares estupefatos, acreditando ser uma das brincadeiras de mau gosto das quais o 
chefe era costumeiro. A pele plida, as lgrimas que encheram seus olhos no deixaram dvidas. 
Com sangue-frio, sem parar de jogar, o rapaz disse:  
- Est bem...  
Camilo levantou-se atirando secamente suas cartas no cho e partiu. O garoto estendeu seu bon a 
Benigno que havia perdido o seu nos combates de Jobal:  
- Tome, Lali...  
- Mas... por que me d seu bon de presente?  
- Eu serei fuzilado. No temerei mais o sol...  
La correu atrs de Camilo.  
- Isto no  verdade? No vo fuzil-lo... Ele  s um menino!  
- Ele foi julgado; a sentena ser executada.  
- No  possvel! Voc no pode deixar que faam uma coisa destas...  
- Sou responsvel pela disciplina de meus homens e todo roubo  passvel da pena de morte. Agora, 
deixe-me.  
Camilo afastou-se, os ombros arqueados. Ele no assistiria  execuo.  
Precisamente s quatro horas, o rapaz foi fuzilado. Charles no pde conter as lgrimas e muitos 
entre os guerrilheiros viraram- se para esconder as suas. Mais tarde, quando Camilo reuniu-se a 
eles, todos repararam que ele tinha os olhos vermelhos.  
 noite, apertado contra La, ele chorou como uma criana.  
Foi com tristeza no corao que eles se puseram em marcha para a provncia de Pinar del Ro. 
Antes da partida, Camilo havia reunido suas tropas: 
- "Camaradas, nos confiaram a difcil mas gloriosa tarefa de conduzir a guerra ao oeste. Vamos 
lembrar que esta coluna tem o nome de Antonio Maceo, e que esta misso j foi cumprida 
anteriormente pelo 'Tit de bronze'. Ns temos a obrigao de cumprirmos nosso dever.  preciso 
que permaneamos numerosos pelo caminho, mas no podemos abandonar esta tarefa. Se restar 
apenas um de ns com vida, ele ir at o fim, em nome de todos. Quero ainda dizer-lhes que aqueles 
que no quiserem ir, podem se retirar, certos de que no sero tidos como desertores. Ns todos 
sabemos que nos aventuramos em terreno desconhecido, que ignoramos os obstculos que 
arriscamos encontrar no caminho. Sofreremos a fome e uma diversidade de privaes. Nosso 
esforo ser titanesco! Na verdade, ser uma tarefa muito dura, mas necessria..."  
Nenhum dos combatentes deixou as fileiras. Todos ovacionaram o chefe:  
- Viva Camilo!... Viva Cuba!  
Desamparada, La viu partir esta tropa de homens barbudos e mal vestidos, muitos descalos, entre 
os quais encontravam-se Charles e Ramn.  
A noite, Ernesto leu para ela os poemas de Neruda, sempre bebericando seu mate. Mas uma 
violenta crise de asma o obrigou a interromper sua leitura. Seu rosto congestionado, ele tentava 
recuperar o flego. Suas mos estavam crispadas sobre seu peito. De vez em quando ele conseguia 
sorrir para La, acreditando assim poder faz-la compreender que a crise logo iria passar. Ele 
estava alagado de suor, emanava um cheiro de gordura e de transpirao ranosos. Ela arrancou 
sua camisa rasgada e secou-lhe o rosto e o peito.  
- Obrigado - murmurou ele sem reabrir os olhos.  
Pouco a pouco o sono o venceu.  
No dia seguinte  partida de Camilo e de sua coluna, o Che recebeu de Fidel Castro esta ordem 
militar: 
Est designada ao comandante Ernesto Guevara a misso de conduzir desde a Sierra 
Maestra at a provncia de Las Vilias, uma coluna rebelde, e de operar no dito territrio 
conforme o plano estratgico da armada rebelde. A coluna nmero 8 que se destina a este 
objetivo levar o nome de "Ciro-Redondo", em homenagem ao herico capito rebelde morto 
em combate e elevado a ttulo pstumo ao grau de comandante. A coluna 8 "Ciro-Redondo" 
partir de Las Mercedes entre os dias 24 e 30 de agosto. O comandante Ernesto Guevara  
nomeado chefe de todas as unidades rebeldes do Movimento de 26 de Julho que operam na 
provncia de Las Villas, nas zonas tanto rurais quanto urbanas, e lhe  dada carta branca 
para recolhere dispor dosfundos necessrios para conduzir guerra e  sobrevivncia de 
nossa prpria armada;para aplicar o Cdigopenal e as leis agrrias da armada rebelde no 
territrio onde operaro suasforas; para coordenaras operaes, os planos, as disposies 
administrativas e de organizao militar com as outras foras revolucionrias operando 
nesta provncia que devero ser convidadas a se fundir em um s corpo de armada a fim de 
"vertebrar" e unficar o esforo militar da revoluo; para colocar de p as unidades locais 
de combate e nomearos oficiais da armada rebelde at o grau de comandante de coluna. A 
coluna nmero 8 ter por objetivo estratgico conquistar vantagem sobre o inimigo sem 
esmorecer na regio central de Cuba e interceptar at a total paralisa o os movimentos 
terrestres de suas tropas de oeste a leste, aguardando outras ordens que chegaro no 
momento oportuno.  
Fidel Castro Ruz,  
Comandante-em-chefe.  
Alguns dias depois, foi a vez do comandante Che Guevara deixar La Plata  frente de trezentos 
combatentes. La estava entre eles; Castro havia acabado por ceder ao pedido dela, apesar da 
oposio de Che. Ela havia sido encarregada de conduzir o furgo que servia de ambulncia. Ela 
seguiria a tropa, atrs, dirigindo. 
A coluna colocou-se em marcha por volta das sete horas da noite do dia 30 de agosto, sob 
violenta tempestade que se seguira ao ciclone "Daisy". Ordem havia sido transmitida a todos de 
marcharem em silncio, de apagar qualquer trao de sua passagem, manter uma disciplina rgida e 
abster-se de fumar. Durante a caminhada, eles fizeram uma pausa curta, em seguida retomaram a 
marcha e, por volta das cinco horas da manh, chegaram a uma fazenda abandonada, esgotados 
pelos 28 quilmetros que acabavam de percorrer, carregados com suas sacolas, sob chuva forte.  
De manh, tomaram trs caminhes inimigos, que no entanto recusavam-se a funcionar. Com 
avies sobre suas cabeas, eles s tornaram a partir  noite, na lama e no vento, rasgando ainda 
um pouco mais suas roupas nos espinhos e nos rochedos. Uma tranqilidade de algumas horas 
devolveu a esperana  pequena tropa congelada, mas esta esperana foi logo estremecida por 
um novo ciclone que respondia pelo doce nome de "Elia" e revelava-se ainda mais assustador do 
que o anterior. Caminhando pela lama, eles enfim alcanaram as bordas do rio Cauto. A 
correnteza carregava rvores inteiras e cadveres de animais. O prximo passo era atravessar 
este rio com homens que, na maioria, nem mesmo sabiam nadar. Foi l que, repentinamente, o 
furgo quebrou, e ento dividiu-se. Repartiu-se rapidamente o material sanitrio entre uma dezena 
de homens, que o carregaram nas costas; La ficou com as reservas de morfina e os preciosos 
antibiticos.  
No dia seguinte, eles requisitaram 89 mulas, asnos e cavalos na Finca El Jardin. Os camponeses 
os acolheram bem e deram- lhes provises. Depois que atravessaram sobre suas montarias o rio 
Salado, um simpatizante do 26 de Julho doou-lhes 48 pares de botas. No mesmo dia, Che 
formou um destacamento reagrupando os combatentes punidos por atos de indisciplina e o 
batizou escuadra de los descamisados; ele confiou o comando a Armando Acosta, com ordem 
de observar o maior rigor. Confiscaram-se as armas dos descamisados; eles s poderiam 
retomlas no combate. 
Eles se uniram  coluna de Camilo Cienfuegos no dia 6 de setembro, na rea de uma usina de 
acar, la Concepcin. Descalos, Camilo e Ernesto lavaram suas roupas e tiraram fotos um do 
outro. A noite, foi uma festa: eles comeram carne de boi, beberam rum, fumaram charutos 
razoveis. Depois de um rpido acesso de raiva ao descobrir a presena de La, Camilo ficou feliz e 
emocionado ao rev-la.  
- Eu lhe peo, cuide bem dela, faa com que nada lhe acontea! - suplicou ele, apertando fortemente 
o brao de Che.  
- No preciso de suas recomendaes - respondeu este, afastando-se devagar.  
No dia seguinte as duas colunas se separaram e partiram cada uma para um lado. "Sobrevieram 
dias difceis sobre o territrio antes amigvel do Oriente. Foi preciso atravessar rios em cheia, canais 
e riachos transformados em rios, lutar incansavelmente para impedir que as munies, as armas, os 
explosivos fossem encharcados, procurar montarias frescas e deixar no local os cavalos fatigados, 
fugir das zonas habitadas ao mesmo tempo que nos afastvamos da provncia do Oriente. 
Caminhamos penosamente atravs de terrenos inundados, atacados por nuvens de mosquitos que 
tornavam as horas de repouso ainda mais insuportveis. Comamos mal e pouco, bebamos a gua 
dos riachos serpenteando atravs dos pntanos. Arrastvamos lamentavelmente estes dias 
esgotantes. Ainda por cima, a tropa sofria com a falta de sapatos, e numerosos companheiros iam 
descalos nos lamaais do sul de Camagey. A lama e a chuva marulhavam alegremente, e contra 
isso tudo s tnhamos a fora de vontade!"  
Uma noite, eles atravessaram uma laguna semeada de plantas cortantes que retalhavam os ps 
entumecidos e j insensveis daqueles que caminhavam sem sapatos. O prprio Che havia perdido 
um p de suas botas nos pntanos e calou o p de outro sapato, o que servia apenas para acentuar 
sua figura de mendigo. La seguia a tropa, exausta de cansao, coberta de lama. Quando acontecia cruzar o olhar de Che, eles 
trocavam um sorriso infeliz.  
Os soldados de Batista afastavam-se diante do avano desta armada de esfarrapados e famintos, 
com os olhos brilhantes de febre. Porm, houve inmeros confrontos. Nove foram mortos.  
Na maior parte do tempo, as duas colunas caminhavam juntas, mais freqentemente  noite, e se 
apoiavam na hora dos combates. No entanto, o moral dos insurgidos baixava um pouco mais a cada 
dia. Uma tarde, graas ao pequeno rdio de campo que possuam, eles ouviram a notcia de suas 
mortes. Isso os alegrou, mas apenas por pouco tempo. "O pessimismo os vencia pouco a pouco; a 
fome, a sede, o cansao, o sentimento de impotncia diante das foras inimigas que os cercavam 
cada vez mais, sobretudo da terrvel doena dos ps conhecida entre os camponeses sob o nome de 
mazamora - "Bolha de trigo" - e que fazia de cada passo um suplcio, havia transformado a coluna 
em tropa de sombras. As condies fsicas do grupo piorava a cada dia e quanto s refeies  
- um dia sim, um dia no, o outro dia talvez - de nada valiam no sentido de melhorar suas condies. 
Os dias mais difceis, eles passaram cercados nas cercanias da central aucareira Baragu, nos 
pntanos pestilentos, sem uma gota de gua potvel, perseguidos pela aviao, sem um cavalo que 
pudesse ter ajudado os mais fracos a atravessarem estes lamaais hostis, os sapatos completamente 
encharcados por esta gua salgada, com plantas que feriam seus ps nus. Quando eles romperam o 
cerco de Baragu para alcanar o famoso caminho de Jucro  Morn, stio histrico que foi o 
teatro de lutas sangrentas com os espanhis durante a guerra da independncia, eles estavam 
realmente em uma situao desastrosa. No tinham tempo de se recuperar, porque as trombas 
d'gua, a inclemncia do clima acrescendo-se aos ataques do inimigo os obrigavam a retomar sua 
marcha, cada vez mais arrasados, cada vez mais desencorajados. A tenso estava no auge; apenas 
os insultos e as ameaas de todo gnero conseguiam fazer esta massa esgotada avanar. Uma viso 
no horizonte reanimou seus rostos e devolveu 
a coragem  guerrilha: a de uma mancha azul, na direo do oeste, a massa azulada do macio 
montanhoso de Las Vilias, vista pela primeira vez pelos homens; a contar deste instante, as mesmas 
privaes pareciam muito mais suportveis, tudo parecia fcil. Eles escaparam ao ltimo cerco, 
atravessando a nado o Jucro que separa as provncias de Camagey e de Las Vilias, e tiveram a 
impresso de terem acabado com as trevas."  
Quarenta e oito horas depois, eles estavam abrigados no corao da cordilheira Trinidad-Sancti 
Spritus, prontos a enfrentar a nova fase da guerra. Descansaram por um ou dois dias, em seguida 
continuaram o caminho com o objetivo de impedir as eleies que deveriam acontecer no dia 3 de 
novembro. Tarefa difcil, em razo do pouco tempo de que dispunham, assim como devido s 
divergncias que existiam no prprio seio do movimento revolucionrio - as lutas internas que 
acabaram por custar caro. Eles atacaram os vilarejos rurais para criar obstculo s reunies que 
aconteciam ali. Por suavez, ao norte da provncia, as tropas de Camilo Cienfuegos j haviam 
terminado com esta farsa eleitoral. Tudo, desde o transporte das tropas de Batista at o trfico 
comercial, estava paralisado.  
No Escambray, Ernesto Guevara fez contato com os dirigentes de diferentes grupos revolucionrios 
operando na regio. O encontro com o comandante Vctor Bordn, responsvel pelo movimento do 
26 de Julho na regio, reunindo sob suas ordens 220 simpatizantes de Fidel refugiados depois do 
fracasso da greve de abril, no foi caloroso.  
- Quantos guerrilheiros do nosso lado com voc? - perguntou Che, visivelmente irritado com o chapu 
de caubi de Bordn.  
- Eles pertencem ao 26 de Julho, no a mim - retorquiu o outro, tambm irritado.  
- O comandante est  frente da reunio de foras. Na guerrilha s pode haver um comandante; eu 
sou este comandante, voc ser um dos capites...  
Vctor Bordn empalideceu, apertou os punhos, percebeu-se que ele teria desejado matar o 
argentino. Fingindo nada ter notado, Ernesto Guevara continuou no mesmo tom:  
- Disciplina de ferro, nvel moral elevado, compreenso perfeita da tarefa a ser realizada, sem 
fanfarronadas, nem iluses enganadoras, nem falsa esperana de um triunfo fcil, luta ao exagero. 
Aqueles que no estiverem de acordo podem partir imediatamente abandonando suas armas!  
Uma crise de tosse o interrompeu, a crise de asma ameaava comear. Com um gesto da mo, fez 
sinal de que havia terminado e, curvado, entrou na tenda.  
Os homens de Bordn olharam-se com estupor. Uma centena deles deixou o acampamento. Os 
outros permaneceram, com Bordn. Outros membros da organizao de resistncia armada de 
Escambray, Rolando Cubela, Tony Santiago, Mongo Gonzlez e Faure Chomn, do Diretrio 
revolucionrio, o acolheram com certa condescendncia. Uma ciso no seio do Diretrio havia 
gerado um "Segundo Front de Escambray", dirigido por Eloy Gutirrez Menoyo, hostil a Castro; 
Che foi v-lo tambm. Enfim, ele no negligenciou Felix Torres, que controlava um pequeno grupo 
de resistncia comunista. No sem dificuldade, Che reuniu-os a todos e exps-lhes a situao 
presente, em seguida o plano de aes que estava por vir. Por uma noite fria,  luz das chamas de 
um braseiro, estes homens que tantas coisas separavam e aos quais havia se reunido Enrique 
Oltuski, responsvel provincial do M-26 para Las Vilias, reencontraram- se e descobriram um 
Guevara com a camisa largamente aberta, os cabelos desgrenhados; o pequeno cachorro de orelhas 
grandes que estava estendido a seus ps respondia pelo nome de Miguelito. Fumando um enorme 
charuto, o comandante da coluna 8 surpreendeu desagradavelmente, com sua figura, os chefes 
revolucionrios de Escambray. Custavam a acreditar que essa figura era o famoso mdico 
argentino, o primeiro a ser promovido comandante na Sierra e ao qual Fidel Castro havia delegado 
todos os poderes na regio que eles controlavam. Uma discusso 
tensa iniciou-se entre estes homens corajosos. Como sempre, Che mostrou-se duro e inflexvel:  
- "Tudo isso  besteira! Vocs acreditam que podemos fazer uma revoluo nas costas dos 
americanos? As verdadeiras revolues,  preciso faz-las desde o incio para que todo mundo saiba 
no que se agarrar. Trata-se de se ganhar o povo. Uma verdadeira revoluo no avana 
mascarada."  
O debate seguiu pela noite a dentro. Ao amanhecer, esgotados, eles se separaram: permaneceriam 
juntos na luta.  
Che instalou seu acampamento em um lugar conhecido como Cabailete de Casa, sobre uma colina 
de oitocentos metros de altitude, cercada de florestas impenetrveis, de onde podia se ver as cidades 
de Sancti Spritus e Placetas. Logo de incio, ele estabeleceu uma escola de treinamento para os 
novos recrutas que surgiam, numerosos, dos vilarejos vizinhos, mas tambm demais longe, de 
Cienfuegos e de Havana. Em poucos dias, barracas foram construdas sob o abrigo das rvores. O 
emissor de rdio funcionava, os vveres eram regularmente encaminhados, apesar da dificuldade de 
acesso, os atelis de couro, de ferramentas e at mesmo de fabricao de charutos estavam a todo 
vapor. La e a equipe mdica, encarregadas de cuidar dos cortes causados pelas plantas aquticas e 
de apaziguar o sofrimento das vtimas da mazamora ou da disenteria, apossaram-se de uma 
barraca sobre a qual colocaram uma imensa cruz vermelha. Quando tudo estava quase pronto, La 
se permitiu um banho, que lhe pareceu o mais agradvel de toda a sua vida.  
Por sua vez, satisfeito com o arranjo do campo, Che permitiu- se um pouco de repouso, lavar-se e 
trocar suas roupas repletas de sujeira. Foi durante este perodo de descanso que ele recebeu uma 
missiva de Fidel Castro:  
Se desejamos a unidade das foras operando nesta provncia,  lgico que o comando fique 
com o comandante mais antigo, aquele que mostrou as maiores capacidades militares e de 
organizao, 
aquele que suscita o maior entusiasmo, a maior confiana no povo; e estas qualidades, voc 
as rene. No aceito nenhum outro chefe que no voc se as foras no chegarem a um 
acordo. Caso contrrio, voc deve tomar o comando de todas as foras do Movimento do 26 
de Julho e daquelas que se reunirem espontaneamente eperseguira realizao de nossos 
planos estratgicos.  um crime contra aRevoluofomentaras brigas e divises que no 
haviam surgido at o momento em nossos campos de batalha, mas que causaram tantos 
estragos nas guerras de libertao do passado. Aqueles que tm o mrito, as capacidades e o 
patriotismo encontraro na Revoluo mais ocasies do que podero imaginar de elevarem-se 
a maior glria e de obterem as mais altas honras. O inimigo est  frente: somente disto todas 
as suas ambies, aspiraes e sonhos de grandeza tiram sua legitimidade. Os postos, as 
honras obtidas por nossos comandantes no so o produto do favoritismo ou de privilgios, 
mas do mrito, do valor e do sacrifcio.  diante do inimigo que nossos homens continuaro a 
procurar as graus, a grandeza, o prestgio moral, sem pretend-los nem ambicion-los, 
porque os homens modestos que so atualmente os arautos e os chefes da revoluo no 
pensam nisso quando esto recrutados em nossas tropas perseguidas, famintas, fracas e 
acuadas; tambm no pensavam nisso aqueles que morreram ao longo desta longa marcha, 
consolidando com seu sangue e sua vida cada vitria de nossa armada que se constituiu e 
organizou na base do mrito, do sacrifcio e do desinteresse mais puros. Quando comeamos 
esta guerra, ningum acreditava que poderamos combater um exrcito to moderno 
epoderoso. Ns a continuamos quando no ramos mais do que doze e que ningum nos 
prestava o menor apoio.  
Antes de continuara avanar  preciso:  
1. Que seus homens se recuperem fisicamente;  
2. Que a luta se intensifique nas provncias do Oriente, de Camagey, de Las Villas e de 
PinardelRo, para obrigaro inimigo a utilizar ao mximo suas foras em todos osfronts e 
impedi-lo de concentrar sobre voc o grosso das foras; 
3. Criar centros rebeldes ao longo de seu percurso;  
4. Estudar e preparar minuciosamente seus planos de avano, reunir guias, fazer contatos e 
prever cuidadosamente todas as dficuldades que poder encontrar;  
5. Sobretudo, desta vez, pelo que resta a percorrer,  preciso manter segredo 
rigorosamente.  preciso induzir o inimigo ao erro, fazendo-o acreditar que voc renunciou 
ao seu projeto e surpreendlo completamente.  
Se voc tem objees ou sugestes afazera respeito das instrues, estou pronto a 
reconsider-las, mas espero que esteja de acordo comigo.  
Abrao-o com toda a minha admirao e afeio aos hericos soldados de sua coluna.  
Che reuniu-se a Camilo, que cercava uma caserna perto da pequena cidade deYaguajay. La o 
acompanhou. "Havia entre Che e Camilo uma grande cumplicidade feita de estima mtua e 
fraternidade profunda, sempre mascarada pelas brincadeiras de Camilo. Seu imutvel chapu de 
caubi enterrado na cabea, a barba longa e negra alongando ainda mais seu rosto, Camilo era 
um operrio de Havana com a lngua bem afiada que fingia debochar de tudo e de todos, mas que 
havia sobretudo seduzido Che por seu gnio da guerrilha. Nos momentos cruciais, sua coragem 
era extraordinria. Quando ele fazia parte da coluna de Che na Sierra Maestra, seus amigos 
ficavam estupefatos com seu sangue-frio por ocasio das emboscadas."  
La reencontrou Charles mais magro, mas cheio de entusiasmo.  
Os soldados da caserna cercada, comandados pelo capito Gonzlez, resistiam da melhor forma, 
mas os rebeldes que investiam nas casas em volta, passando de teto em teto, atravessando os 
ptios, quebrando os vidros, davam-lhes muito trabalho. Saltando de uma cornija, Che caiu em 
um ptio interno e feriu-se no olho direito e no brao. Transportado para uma clnica, foi 
constatada uma fratura do cotovelo, mas ele recusou-se a tomar a vacina 
antitetnica por causa de sua asma. Para combater a dor, tomou enormes quantidades de 
comprimidos de aspirina.  
As duas horas da manh, Guevara entrou sem armas na caserna, acompanhado do proco de 
Cabaigun.  
- Eu sou o Che e sou eu quem determina as condies, porque sou o vencedor - replicou ele ao oficial 
que o recebia com superioridade.  
Noventa soldados se renderam. Sete metralhadoras de calibre 30, 85 fuzis e metralhadoras leves, 
assim como munio, foram tomados. O sucesso foi completo.  
Duas horas depois desta rendio, Che e seus insurgidos marcharam sobre Placetas, uma cidade de 
trinta mil habitantes, distante 35 quilmetros, e a tomaram sem desferir um tiro. Eles encontraram 
uma guarnio totalmente desmoralizada. De um entreposto vizinho, Che contactou por telefone 
Faure Chomn, que estava colocado em emboscada em Bez, ao sudoeste da cidade, para barrar 
tambm a passagem do exrcito nesta estrada secundria.  
- Qual  a situao de vocs? - perguntou Che.  
- Coloquei trinta homens preparados para uma emboscada na montanha de Falcn, caso venham 
reforos.  
- Nenhum sinal de reforos do lado de Santa Clara?  
- No, nenhum.  
Che comeou a rir.  
- Eles no sabem mais onde esto!  
Enquanto uma multido em euforia precipitava-se para as ruas de Placetas, os sinos das igrejas 
repicavam. Os prisioneiros foram levados para a Cruz Vermelha. Os rebeldes acabavam de 
conquistar mais de oito mil quilmetros quadrados, e a estrada de Santa Clara estava livre.  
No dia 27 de dezembro, os pelotes da 8a coluna se reuniram por volta da meia-noite na principal 
artria de Placetas, enquanto as foras do Diretrio massificavam-se em Manicaragua, a trinta 
quilmetros de Santa Clara. 
Ernesto Guevara assumiu lugar em uma caminhonete Toyota vermelha. A seu lado, Aleida March, 
uma jovem mulher loura, militante originria de Santa Clara, servia-lhe de guia. A cidade estava 
calma, silenciosa. Fechados em suas casernas, os soldados mantinham-se na defensiva. De manh, 
a aviao inimiga bombardeou a aglomerao. Uma bomba caiu diante da maternidade do hospital, 
destruindo oito casas. A oeste de Santa Clara, as tropas de Bordn atacaram um comboio do 
exrcito que transportava reforos. Pela estrada de Manicaragua, os homens do Diretrio, sob as 
ordens de Rolando Cubela, entraram na cidade e logo cercaram a caserna do 31 esquadro da 
guarda rural. O peloto de Pacho Fernndez penetrou por sua vez nos subrbios e colocou-se em 
emboscada, enquanto o grosso da 8a coluna progredia a partir da universidade, sob o bombardeio da 
aviao. Porm, em uma curva da via frrea, surgiram dezenove vages blindados do trem enviado 
como reforo por Batista. Um fogo cerrado partia de suas fendas. A populao, que havia ficado 
por um longo tempo aterrorizada, agora fazia barricadas para atrasar o progresso dos tanques. Os 
combates duraram o dia inteiro e fizeram numerosas vtimas de ambos os lados.  
Com a ajuda de granadas e de coquetis Molotov, os rebeldes lanaram-se ao assalto do trem 
blindado. Os soldados os acolheram a tiros de canhes. As duas locomotivas deram marcha a r, 
empurrando os dezenove vages. O trem afastou-se a grande velocidade. Mas, a quatro 
quilmetros, o caminho havia sido interrompido, e ouviu-se um terrvel estrondo. As chamas logo 
percorreram as locomotivas, ganhando os vages de onde os militares saltavam para escapar ao 
incndio. Muitos tombavam aqui e ali sob as balas dos insurgidos. Dos vages tombados, retirou-se 
um inacreditvel arsenal: seis bazucas, cinco canhes de sessenta milmetros, quatro metralhadoras 
leves, granadas, seiscentos fuzis automticos, baterias antiareas e quase um milho de balas... Era 
um verdadeiro tesouro sobre o qual haviam colocado as mos, e foi imediatamente repartido entre os 
diferentes setores da cidade onde aconteciam os combates. A aviao, que havia um pouco antes 
cessado os 
bombardeios, logo retomou-os com mais fora. De seu lado, aRadioRebelde transmitia sem parar 
informaes e mensagens, incitando-os a reunirem-se aos "combatentes da liberdade".  
Os policiais do coronel Rojas se renderam: eram 396, os rebeldes, 130. O peloto do capito 
Pachungo tomou o tribunal, apesar da presena dos tanques que estavam encarregados de proteg-
los, enquanto o governo provincial, defendido por uma centena de soldados, era atacado pela frente 
pelas foras de Alfonso Zayas e por trs pelo peloto de Alberto Fernndez. Armado de uma 
granada, o capito Pachungo obrigou os soldados a se renderem. Cinco avies bombardearam ento 
a regio do tribunal, mas foram colocados em fuga pelos tiros das baterias antiareas conseguidas 
no trem blindado. A priso tombou por sua vez, os detentos polticos foram libertados, enquanto os 
de "direito comum" aproveitaram a confuso para sumir no meio do mato. Um depois do outro, os 
centros de resistncia leais ao governo eram dizimados. Lutava-se agora ainda diante do Gran Hotel 
onde estavam refugiados os membros do SIM. Os policiais mantinham ali os clientes dos quais 
serviam-se como escudos humanos. Eles haviam procedido da mesma forma na caserna Leoncio-
Vidal e na caserna do 31 esquadro.  
Depois de ter alcanado definitivamente o objetivo da tomada deYaguajay, Camilo Cienfuegos 
reuniu-se com o grosso de sua tropa aos insurgidos de Santa Clara. Che o avistou com alvio. Os 
dois amigos caram nos braos um do outro.  
- Voc chegou depois da batalha! - brincou Guevara, abraando-o apertado.  
- Eu queria deixar toda a glria para voc! - retorquiu Cienfuegos.  
La havia provado grande coragem. Em companhia do Che ela participara do ataque ao trem 
blindado. Enquanto Guevara, apesar  
de seu brao ferido, lanava seus homens ao assalto, ela abateu um soldado que acabava de colocar 
o comandante na mira.  
- Eu lhe devo a vida - sussurrou-lhe ele.  
- Viu como voc fez bem em me trazer?...  
Com Amado Morales, membro do comando suicida, ela escorregou pelos tetos de uma caserna. El 
Vaquerito queria incendiar a construo mas, tratando-se de alvenaria, cercada de um muro alto, 
seria difcil penetrar nela e atear fogo. El Vaquerito teve ento uma idia magnfica: encontrar os 
reservatrios de combustvel e de condutos, reuni-los, lig-los a uma bomba, em seguida irrigar as 
casernas, enfim desligar a bomba e pr fogo no conduto. Infelizmente ele no pde reunir todo o 
equipamento necessrio e decidiu-se pelo assalto. Ao curso do ataque, Mariano Prez foi ferido. 
Che comandou ento as emboscadas e concentrou todas as foras em volta da caserna, enquanto os 
bombardeios continuavam a todo vapor. Ao fim dos combates, o oficial que comandava o 
destacamento da base, informado do estado de suas tropas e do nmero de feridos, ordenou que se 
levantasse a bandeira branca. Che entrou na fortaleza, deu ordens de levar assistncia aos soldados 
feridos e, pouco depois, ele fez erguer a bandeira do 26 de Julho e recuperou as armas abandonadas 
pelos defensores do local. Nesta ocasio, Roberto Rodrguez foi promovido capito. Esgotado, 
curvando-se sobre o peso dos cartuchos, das granadas e de um fuzil que parecia maior do que ele, el 
Vaquerito, por trs de seus longos cabelos, sua barba e seu bon, tinha o aspecto de um moleque 
malcriado. Zaila Rodrguez, uma jovem mestia, que tambm havia combatido corajosamente, em 
recompensa por sua bravura, ganhou um Garand de Guevara, que declarou:  
- As armas so ganhas em combate!  
Naquele dia, ei Vaquerito tambm teve sua vida salva graas ao sangue-frio de La, que havia se 
atirado sobre ele no instante preciso em que um soldado abria fogo. Ela foi ferida no ombro.  
- No foi nada - disse eia tentando sorrir. - J fui ferida neste local. 
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J socorrida, ela se encontrou com o rapaz que, com lgrimas nos olhos, no sabia como lhe 
agradecer. Ela o acompanhou at os subrbios de Cabaigun, uma cidadezinha de dezesseis mil 
habitantes que eles invadiram em companhia das foras do Diretrio. Os membros do peloto 
suicida ali fizeram um bom trabalho, tomando um cinema e um comissariado.  
Em Caibarin, eles atacaram a caserna. El Vaquerito tomou um caminho de bombeiros, encheu-o 
de combustvel e dirigiu at a proximidade do edifcio, que foi aspergido de gasolina, com risco de 
fazer tudo voar pelos ares, incluindo os refns! Com a ajuda de um porta-voz, ele dirigiu-se ento 
aos soldados. Uma bandeira branca surgiu em uma janela. O jovem homem avanou, mas o tenente 
de guarda recusou-se a se render, acreditando em represlias. Indignado, El Vaquerito props-lhe 
ento um duelo de pistola, fora da caserna, e intimou-o a parar de expor a vida de seus soldados, que 
no queriam mais lutar. O oficial insultou El Vaquerito, que respondeu estar muito cansado para 
replicar e que, enquanto os militares refletiam, ele iria fazer uma pequena sesta... Deitou-se ento 
em um acolchoado e dormiu profundamente. Para o moral dos sitiados, foi o golpe de misericrdia: 
eles no tardaram a se render.  
No dia seguinte, o peloto de El Vaquerito ocupou a estao e conquistou Santa Clara, rua por rua, 
casa aps casa, assumindo riscos insensatos.  
- Nunca se escuta a bala que vai nos matar - garantia ele, afastando-se.  
A cinqenta metros do posto de polcia, sobre um terrao acima da rua Garof aio, ele assumiu 
posio em companhia de Orlando Beltran e de Leonardo Tamayo. Mais tarde, este iria contar:  
"Ns mal tivemos tempo de nos abrigar quando percebemos um grupo de seis guardas comeando a 
correr no meio do parque. Abrimos fogo, mas dois tanques que se encontravam perto na rua 
nos atiraram em cima um canho de trinta. Eu gritei: "Vaquerito, esconda-se,voc vai ser atingido!' 
Ele no se mexeu. Um pouquinho depois, eu repeti: "Por que voc no sai da?' Ele no respondeu. 
Eu olhei e vi que estava coberto de sangue. Ns o levamos rapidamente para o posto mdico. Um 
tiro mortal: um tiro de M-1 bem na cabea."  
Por um tnel cavado na parede, Che foi se reunir aos atacantes e deu com os dois homens que 
transportavam o cadver de Roberto Rodrguez. Ele fez um gesto aflito ao descobri-lo e murmurou, 
contemplando seu rosto ensangentado:  
- Eles me mataram cem...  
Logo que foi avisada, La, com a ajuda de uma velha mulher de Santa Clara, iniciou os preparativos 
do corpo do jovem capito, em seguida o velou por toda a noite.  
Exausto, plido, os cabelos desgrenhados e o brao na tipia, Che parecia, em seu uniforme 
esfarrapado, um simples e miservel soldado da tropa. Apenas seu olhar perspicaz o designava 
como um chefe. Ele percorreu a cidade, informou-se do nmero de feridos, do avano das tropas 
rebeldes. Em alguns bairros, lutava-se corpo a corpo  luz das exploses dos coquetis Molotov e 
das chamas dos incndios.  
No dia seguinte, quando La repousava no parque prximo  enfermaria de campo instalada em 
uma cabana de jardineiros, ela viu chegar um grupo de Barbudos; Charles estava entre eles. Ela 
levantou-se com dificuldade e foi cuidar do ferido que eles traziam.  
- Coloquem-no ali - disse, apontando para uma maca no cho.  
- Vo procurar gua... e encontrem-me um mdico!  
Ela sorriu para Charles: ele estava vivo! Mas por que chorava? O cansao? Seu companheiro 
ferido? La inclinou-se sobre a maca.  
- Carmen!  
Apesar da sujeira e do sangue que cobriam seu rosto, La  
reconheceu a filha do doutor Pineiro, o primeiro amor de Charles. Com gestos doces, ela limpou seu rosto; uma 
parte do couro cabe- ludo havia sido arrancada. A ferida era impressionante, mas no lhe parecia de extrema 
gravidade. Ela afastou a blusa embebida de sangue; Carmen havia sido atingida em vrios lugares.  
- Foi uma rajada de metralhadora - deixou escapar Charles entre dois soluos.  
La aplicou compressas sobre as feridas, que logo se encheram de sangue. A jovem acordou e olhou em torno 
de si, assustada.  
- Estou aqui - balbuciou Charles, tomando-lhe a mo.  
Ela deu um sorriso feliz.  
- Ajude-me a levantar.  
Todos se entreolharam com lgrimas nos olhos. La, o corao apertado, acariciou-lhe o rosto:  
- No se mexa. Voc foi levemente ferida... J vamos cuidar de voc.  
-  por isso que me sinto to cansada?... Estou com frio... Faz frio, no faz?... Quem est chorando?...  voc, 
Charles?... Por que est chorando?... No  grave, no estou mal... Mas... estou realmente com frio.  
Algum veio lhe trazer uma coberta.  
- Obrigada... Logo vai anoitecer... Tenho frio... Charles!...  
- Carmen!  
Como em um sonho, o rapaz atirou-se sobre o corpo dela, gritando. Seus camaradas tentaram levant-lo.  
- Deixem-no - disse La -, eu cuido deles. Voltem para o seu grupo.  
Eles obedeceram a contragosto. Depois de sua partida, La fechou as plpebras de Carmen. Ela permaneceu 
longo tempo agachada ao p de uma rvore, os olhos secos, o olhar fixo, indiferente ao barulho da 
metralhadora e dos combates, ouvindo apenas os soluos daquele homem que ela havia visto crescer e para o 
qual ela havia tanto sonhado com uma vida feliz. Ela sentia-se responsvel por seu sofrimento. Sem ela, ele 
poderia ter continuado 
tranqilamente seus estudos em Bordeaux ou em Paris. Em Cuba, ele havia encontrado a aventura, um objetivo em 
sua vida, mas tambm o sofrimento e a morte.  
Repentinamente, Che estava perto deles.  
- Acabo de saber de Carmen...  
Ele colocou a mo no ombro de Charles:  
- Voc deve retornar ao combate, precisamos de voc.  
Charles levantou a cabea, o rosto lavado de lgrimas. Ele ps seus lbios sobre os de sua amada e, sem uma 
palavra, levantou-se, empunhou o fuzil que lhe estendeu Che e afastou-se. La inclinou-se para det-lo, mas 
Ernesto a impediu, agarrando-a brutalmente pelo brao.  
- Deixe-o partir.  
- Voc est louco! Ele vai se deixar matar!  
- Talvez.., mas, durante os combates, ele no pensar mais em seu sofrimento.  
La parou de se debater e olhou-o com estupor:  
- Voc  um monstro!  
Ele deu um sorriso sem alegria.  
- A Revoluo pede muitos sacrifcios...  
- Mas,  s uma criana!  
- No, agora  um homem.  
No dia seguinte, na presena de duas dezenas de guerrilheiros e de Charles, Carmen foi enterrada no cemitrio 
de Santa Clara. Durante a curta cerimnia, La no tirou os olhos de seu filho adotivo. Os traos tensos, lvido, 
o rapaz mantinha-se ereto. O ar ausente. Depois da ltima bno do padre, ele partiu sem dar um nico olhar 
para La.  
No dia 1 de janeiro de 1959, os insurgidos, assim como os militares e o resto da populao, souberam pelo 
rdio da fuga de Batista. s doze horas e trinta, a batalha de Santa Clara estava terminada. 
Fidel Castro organizou a ofensiva final obrigando a guarnio  
de Santiago a depor as armas, e em seguida ordenando a Che e a  
Camilo Cienfuegos que marchassem sobre Havana. Designao foi  
dada a Che de tomar a fortaleza de La Cabafia e a Camilo de garantir  
o controle da caserna de Colombia. A greve geral foi decretada  
por quinze horas em Santiago.  
Ao amanhecer do dia 2 de janeiro, Camilo e Che partiram em  
direo a Havana. 

Captulo Quatorze

LA SUBIU NO CHEVROLET VERDE-OLIVA que havia sido requisitado, onde
encontravam-se Ernesto, Camilo e ajovem professora Aleida March, que havia servido de guia 
ao Che durante a batalha de Santa Clara. Pelos olhares dos dois, La percebeu que haviam se 
tornado amantes e alegrou-se em silncio.  
No caminho, a populao fazia-lhes um cordo de honra, brandindo bandeiras cubanas e as do 
26 de Julho. Atrs, em um outro veculo, seguiam Charles, Juan Albarn e Ramn Valds que 
havia sido ferido na perna mas, felizmente, sem gravidade. O filho adotivo de La tinha na 
verdade o aspecto de um verdadeiro Barbudo, com seus longos cabelos sujos e uma barba que o 
envelhecia. O sofrimento que a jovem mulher tinha experimentado com as mortes de El Vaquerito 
e de Carmen havia sido atenuado com estes reencontros. Agora, ela impacientava-se por 
encontrar-se novamente em Havana, ir at a embaixada da Frana e ter notcias de Franois e de 
seus filhos. Alm disso, sonhava em tomar um bom banho... 
Durante a volta triunfal, os combatentes enfim puderam se alimentar bem e dormir em camas 
verdadeiras. La no se cansava de deixar a gua das duchas cair sobre seu corpo, que Camilo 
segurava, todo molhado, para estirar-se sem pressa sobre uma cama hospitaleira. Quando ele 
contemplou a pele de seu ventre e de seus seios que o bronzeado do rosto e dos braos deixava 
mais plida e a ferida h pouco cicatrizada, sentiu-se submergir por uma emoo at ento 
desconhecida para ele.  
- Eu amo voc - murmurou ele, os lbios em seus cabelos midos.  
Ela no respondeu, mas apertou-se ternamente contra ele.  
Camilo os deixou para reunir-se  sua coluna  frente da qual chegou a Havana. De imediato, 
dirigiu-se para a caserna de Colombia, da qual tomou posse. O coronel Ramn Barquin, recm-
libertado da ilha des Pins, estendeu-lhe as chaves.  
- Pensei em envi-las para o vencedor de Santa Clara - disse o coronel. -Voc  apenas o segundo, 
como me disseram. Ou  a ele que volta Colombia, e no a Cabafia que  apenas uma posio de 
segunda ordem...  
- Estou ciente de sua opinio, coronel, mas Fidel Castro decidiu desta forma anteriormente.  
Por sua vez, Ernesto Guevara, depois de ter tomado a bastilha havanesa, teve de resolver um 
problema imediato: Faure Chomn e Rolando Cubela, dois dirigentes do Diretrio que haviam lutado 
sob suas ordens em Santa Clara e aos quais Castro havia recusado a honra de se reunirem s 
colunas do 26 de Julho que fundava na capital, ocupavam no momento a universidade e o Palcio 
presidencial, e recusavam-se a abandon-lo. Camilo teve a idia de ataclo, mas Ernesto preferiu ir 
at o Palcio e, pelo dilogo, convenceu Chomn a abandonar os dois locais. "O homem que no ri 
jamais" deixou-se persuadir e se retirou, acompanhado de Cubela e de seus partidrios. 
Fidel pde ento entrar em triunfo em Havana. Ele levou oito dias para chegar  capital.  
Os veculos da armada rebelde tinham dificuldade para abrir passagem entre a multido em delrio. 
As pessoas brandiam bandeiras cubanas, sacudiam bandeirolas sobre as quais podia-se ler:  
"Viva Fidel!", "Viva a Revoluo!", slogans retomados e repetidos sem trgua. Homens e 
mulheres se precipitavam sobre os Barbudos, os abraavam, ofereciam-lhes flores, charutos, 
frutas... Os guerrilheiros, na maioria jovens camponeses analfabetos do Oriente, respondiam com 
largos sorrisos. De p em um carro de comando, Fidel Castro saudava a multido, os olhos 
brilhantes, o rosto radioso. Vindo diante dele, desde a capital, Camilo Cienfuegos, que seus 
admiradores aclamavam tanto quanto a Fidel, mandava beijos para as mulheres, sem abandonar seu 
charuto. Seu chapu de caubi jogado para trs descobria seu rosto largo.  
- Parecem atores de cinema - murmuravam as mulheres.  
Sentada entre Vilma Espn e Celia Snchez, La divertia-se com esta apoteose, comparando a 
atitude de Fidel  de Camilo. O primeiro recebia a homenagem do povo cubano com emoo e uma 
certa comoo que a fazia sorrir; sentia-se que ele estava investido do poder de dirigir este povo e 
que no entregaria isso a ningum, talvez apenas uma parcela desta autoridade. O segundo aceitava 
o fervor popular com um ar divertido, sem acreditar muito nele, mas no entanto achando bom 
receb-lo. Os jovens cubanos se identificavam muito com este tipo debochado que parecia divertir-
se como um garoto que acabara de fazer uma boa farra. De imediato, sentiram-se prximos dele, 
amando a vida, a diverso, as mulheres, mais prximos do que lhes parecia este outro, com o olhar 
de fogo, de palavras envolventes, capaz de lhes levar at a morte sem que verdadeiramente 
compreendessem a razo. Alguns o tocavam como se fosse um dolo, as mes estendiam-lhe os 
filhos e ele, paternal, dava ao acaso um beijo em uma face ou uma testa. Outros ainda atiravam-se 
no cho gritando por justia pela morte de um marido ou de um filho... Fidel 
consolava-os, reconfortava-os. Pressionados pela euforia popular, os enviados especiais da imprensa 
internacional faziam seu trabalho com grande dificuldade, anotando clich sobre clich. Atirando-se 
nos braos dos Barbudos, um leno vermelho ou um cravo atrs da orelha, todas as jovens mulheres 
queriam ser fotografadas ao lado dos heris da Revoluo. Os antigos insurgidos deixavam-se 
fotografar, maravilhados como garotos diante de uma montanha de presentes.  
A caravana, que havia sido imobilizada uma ensima vez, voltou a partir parando apenas para 
reabastecer, sem pagar: era uma ordem proveniente de Castro em pessoa, em represlia contra a 
companhia petrolifera britnica depois que Londres aceitou enviar avies a Batista, os mesmos que 
haviam bombardeado os rebeldes em Santa Clara. Lentamente, em meio a uma multido febril, o 
cortejo aproximava-se de Havana. Em Matanzas, a 150 quilmetros da capital, La e seus 
companheiros permitiram-se algumas horas de descanso, apesar da confuso ambiente que 
prolongou-se por toda a noite.  
Fazia um tempo fresco e luminoso, naquela manh de 8 de janeiro. La havia tomado lugar em um 
jipe em companhia de outras mulheres da Sierra. Todas usavam uniformes limpos, ornados com a 
braadeira do 26 de Julho. Ao longo do caminho, vendedores de souvenirs ofereciam suas 
mercadorias: fotos de Fidel tiradas sob todos os ngulos, em p, s o busto, no meio de seus 
Barbudos ou nos rochedos da Sierra, sem contar uma srie infinita de artigos inspirados nos heris 
do dia. Entre mil outras bobagens, encontram- se canecas pintadas com a efgie das quatro grandes 
figuras da Revoluo: Fidel Castro, Che Guevara, Manuel Urrutia e Camilo Cienfuegos, ou bonecos 
barbudos em uniforme cqui levando a famosa braadeira do "26". La comprou dois para suas 
filhas, mas recusa-se a adquirir um guardanapo decorado no meio por um retrato de Fidel... "Tinta 
garantida, no descora!", gritavam os vendedores. Das centenas de alto-falantes vinham as novas 
canes compostas para a glria da revoluo: Sierra Maestra, Que viva Fidell, La Revolucin 
de !ajuventud, Fidelte liego etc., que saturavam as ondas. 
Entrou-se enfim nos subrbios de Havana ao som de sinos que repicavam a toda velocidade do alto 
das igrejas. A perder de vista, um oceano de braos agitavam incontveis flmulas. Repentinamente, 
o corao de La comeou a disparar; pareceu escutar... no, no  possvel! E no entanto...  
medida de seu irresistvel avano, o rumor se precisava. Ela virou-se para suas companheiras:  
- Vocs... vocs esto ouvindo?  
- Sim, eles esto cantando La Marseiliaise.  
- Mas por qu?  
A mais velha a olhou com um ar reprovador:  
-  voc, uma francesa, quem faz a pergunta? La Marseiliaise  o primeiro canto da liberdade que 
ns aprendemos,  o hino internacional dos revolucionrios...  normal que todos ns a cantemos 
hoje: no estamos livres? Observe o povo em volta de ns, ele aclama a revoluo: ento, 
naturalmente, ele entoaLaMarseillaise, o canto de todas as revolues do mundo... "As armas, 
cidados, formem seus batalhes! Marchemos, marchemos, que um sangue impuro inunde nossas 
fileiras...", declamou ela a plenos pulmes.  
O rosto banhado de lgrimas, apertando alternadamente as mos de Violeta e de Celia, longe de seu 
pas, que voltava-lhe repentinamente to forte, dilatando seu peito, La cantou com todo o corao:  
"Vamos, filhos da ptria, o dia de glria chegou..."  
De p em um jipe que seguia lentamente, o fuzil preso ao corpo por uma tira de couro em diagonal, 
tendo pela mo o pequeno Fidelito, seu filho de 10 anos, Castro sorria para a multido. O cansao 
assim como as lgrimas deixavam seus olhos vermelhos. Ele parou para saudar por prioridade os 
marines, que foram os primeiros a se reunir  sua causa. Diante do forte de la Cabafia, sobre o 
porto, todos vestidos de branco, os marines apresentaram as armas ao novo chefe. Descendo do 
carro, emocionado, Fidel apertou as mos que se estendiam. "Seria uma brincadeira de criana 
desc-lo", comentou um correspondente de imprensa. Os Barbudos que garantiam o servio de 
ordem tiveram de proteg-lo a coronhadas. A p, ele teve 
dificuldade em percorrer os trezentos metros que o separavam do Palcio do governo onde o 
esperava o presidente Urrutia. Quando os dois homens apareceram na sacada, as aclamaes 
redobraram e Fidel estendeu as mos sobre a mar humana que, pouco a pouco, fez silncio, 
suspensa aos lbios de seu libertador:  
- "Eu os libertei de um tirano que oprimia o povo e martirizava aqueles que ousavam elevar a voz 
contra os abusos do regime! Uma grande potncia prxima de ns, vocs sabem o que eu quero 
dizer (a multido explodiu em risos), me acusa atualmente de ser um agente comunista e, ainda mais, 
um assassino, por ter executado na provncia homens perigosos que eram verdadeiros matadores da 
gangue de Batista. Vocs sabem que nossas prises esto cheias destes policiais que torturaram e 
mataram seus irmos sob o antigo regime. Eles mesmos foram se refugiar em nossas prises, 
temendo a reao do povo. Os tribunais militares examinam os dossis destes criminosos, cujos 
processos sero abertos em alguns dias. Mas quero que o mundo inteiro saiba que so vocs, o povo 
de Cuba, que vo decidir o destino deles. Se vocs pedirem a graa, eles sero agraciados, porque 
no sou um assassino. Quarta- feira prxima, neste mesmo lugar, aguardarei o veredicto de vocs 
durante um grande encontro popular."  
- Morte aos assassinos! - logo gritou a multido.  
A noite havia cado. Castro deveria ir para o quartel-general da armada, comandado por Camilo 
Cienfuegos na fortaleza de Colombia, e pronunciar um discurso diante dos soldados das foras 
rebeldes, aqueles das antigas tropas de Batista que se renderam, assim como da populao civil que 
havia sido incitada a reunir-se em massa.  
- Toda Havana veio ouvi-lo! - gritou Camilo diante da enorme assistncia.  
Sob os projetores, a multido que se movia era como um mar com suas ondas, suas precipitaes, 
seu flego, e parecia a todo instante a ponto de tomar a alta e estreita plataforma sobre a qual Fidel 
Castro ia assumir a palavra. 
- Viva Fidel!... Viva Camilo!... - gritavam dezenas de milhares de 
vozes.  
Castro enfim respondeu:  
- "Creio que chegamos a um momento decisivo de nossa histria: a tirania foi derrubada, a alegria 
por todos os lugares  imensa. E no entanto, ainda h muito a fazer. No nos enganemos, no 
acreditemos que tudo ser fcil, porque  bem possvel que tudo, no entanto, torne-se mais difcil. O 
primeiro dever de todo revolucionrio  dizer a verdade: enganar o povo, envolv-lo em iluses 
falaciosas levar s piores conseqncias;  porque eu estimo que seja preciso preveni-los contra 
um otimismo exagerado. Tenho razo, Camilo?"  
- iTienes razn, Fi de 1!  
- "Como a armada rebelde ganhou a guerra? Dizendo a verdade. Como a tirania perdeu a guerra? 
Enganando seus soldados. Quando ns experimentamos um revs, ns anunciamos 
naRadioRebelde, no hesitamos em criticar os erros no importa de qual oficial nosso, ns 
advertimos todos os nossos companheiros para que no lhes acontea a mesma coisa. E no foi 
assim no exrcito de Batista: unidades distintas caram nos mesmos erros porque no se dizia 
averdade aos soldados. E porque eu quero comear, ou mais exatamente, continuar a usar os 
mesmos princpios com o povo:  
dizer-lhe a verdade. No tengo razn, Camilo?"  
- iTienes razn, Fidel!  
- iSi, si! iTienes razn, Fidel! - repetiu a multido, aos gritos.  
Aproximando-se ainda mais do microfone, segurando-o com um gesto suave, Castro continuou como 
se em confidncia, com uma voz mais baixa que voou atravs da noite, fazendo dezenas de milhares 
de ouvintes como cmplices atentos:  
- "Tenho uma pergunta para fazer ao povo: Por que esconder as armas em diferentes locais da 
capital? Por que dissimular armas neste momento? Por que faz-lo? Armas para que uso? Para 
lutar contra quem? Contra o governo revolucionrio que apoiou o povo inteiro?"  
- No, no!... - respondeu a audincia.  
- "Ser que a situao  a mesma com o juiz Urrutia  frente da Repblica do que com Batista?" 
- No! No!  
- "Armas por qu? Ser que h uma ditadura aqui?"  
- No!  
- "Ser que queremos lutar contra um governo de liberdade que respeita os direitos do povo?"  
- No! No!  
- "Armas, para qu? Agora que as eleies vo acontecer logo que possvel? Esconder as armas 
com que objetivo? Para fazer cantar o presidente da Repblica? Armas, para qu? Bem,  preciso 
que eu termine dizendo a vocs: h dois dias, membros de uma certa organizao encontraram-se 
em uma base militar e colocaram as mos sobre cinqenta armas leves, seis metralhadoras e oitenta 
mil projteis."  
- Vamos procur-los! - vociferou o pblico.  
Com uma voz mais forte, Castro continuou:  
- "Um grande passo foi dado, um passo em um avano definitivo, parece-me; aqui estamos na 
capital, estamos no campo de Colombia e as foras revolucionrias parecem vitoriosas. O governo 
est constitudo, reconhecido por numerosos pases do mundo inteiro. Segundo toda probabilidade, a 
batalha da paz est ganha e, no entanto, no devemos ceder ao otimismo. No tengo razn, 
Camilo?"  
- iTienes razn, FidelU!  
Depois de alguns instantes, um casal de pombos, talvez assustados com os projetores, voava em 
torno do orador. Um deles finalmente pousou em seu ombro. A outra hesitou, em seguida pousa 
junto a seu companheiro sob o olhar debochado de Camilo. Ao espetculo de tamanho prodgio, 
milhares de cubanos fizeram o sinal-da-cruz. Por este sinal, o prprio Deus mostrava que ele tomava 
Fidel sob Sua proteo e, com ele, o povo cubano. Na tradio afro-cubana, o pombo representa 
aVida e Fidel, colocado sob a proteo do belo pssaro branco, deveria ter aberto diante de si um 
destino de felicidade e de glria.  
O dia se levantava, Fidel Castro voltou ao ltimo andar do hotel Hilton e Camilo Cienfuegos  casa 
que ocupava no interior do campo, 
onde La o esperava. A jovem mulher havia acompanhado o discurso, transmitido pela televiso.  
- Formidvel a cena das pombas! - entusiasmou-se ela.  
- No foi?... - respondeu ele, lacnico, antes de acrescentar: -Venha, estou com vontade de passear 
 beira-mar; estou muito ansioso para dormir.  
Vrios veculos estavam estacionados diante do prdio.  
- Me d as chaves do Cadillac - pediu ele ao jovem soldado de guarda.  
- Sim, comandante.  
O carro desceu a colina e alcanou o Malecn, no momento em que o sol levantando-se iluminava a 
baa. Camilo seguiu a toda velocidade at o porto, fez uma meia-volta cantando os pneus, em 
seguida partiu como cap aberto na direo de Miramar. Ele repetiu esta manobra vrias vezes.  
- E se ns parssemos para beber alguma coisa? - sugeriu La com uma voz doce, colocando sua 
mo sobre o ombro dele.  
Camilo virou a cabea na direo dela como se tivesse sado de um sonho. Ele sorriu e, 
progressivamente, diminuiu a marcha. Parou enfim diante de la Cabafla e da gigantesca esttua 
representando o Cristo. Ele ajudou elegantemente La a descer. Uma leve brisa fazia seus cabelos 
voarem. Eles caminharam na beira d'gua, abraando-se pela cintura; pareciam um casal de 
apaixonados como tantos haviam em Havana...  
Eles foram a p at o bar Los Dos Hermanos, onde o cartaz brilhava na madrugada; o 
estabelecimento ficava aberto dia e noite. La no tinha voltado ali desde sua fuga de Havana.  
Naquela hora, o caf estava deserto. Eles instalaram-se no balco e pediram dois cafs.  
- Estou com fome - disse La, a cabea apoiada no ombro de seu companheiro.  
- Tenho pezinhos com chocolate bem quentinhos - props o garom. 
Os pezinhos estavam deliciosos, eles devoraram vrios, acompanhados de caf forte.  
No dia seguinte, Camilo partiu para Pinar dei Rio e La voltou  casa de Miramar. Um espetculo desolador a 
aguardava: a casa havia sido saqueada; a loua em pedaos, os revestimentos arrancados, as poltronas 
rasgadas, os mveis atirados atestavam o furor dos policiais, que haviam vindo investigar em vo. Juan 
Albarn acompanhava La de aposento em aposento como uma sombra. Em um dos banheiros, traos de 
sangue seco sobre os azulejos os fizeram tremer. Ainda no tinham notcias de Mariana: Juan, que havia 
voltado a Havana algumas horas antes, j havia percorrido os comissariados de polcia. Mas os policiais 
derrotados, que preocupavam-se apenas com sua salvao, tinham outros lugares a vasculhar... Camilo havia 
prometido organizar buscas e, pouco antes de sua partida, no havia se esquecido de dar as instrues 
necessrias.  
Jovens voluntrios vieram ajudar La a recolocar a casa em ordem e o telefone foi rapidamente restabelecido.  
Dois dias depois de ter retomado a posse da casa, La fez uma visita ao embaixador da Frana; o diplomata a 
recebeu com emoo. Como havia mudado! Ajovem e elegante europia havia se transformado em uma 
guerrilheira magra e bronzeada.  
- Como estou feliz por v-la em boa sade! Seu marido no pra de escrever e, deAlger, nos bombardeia de 
perguntas. Eu vou enfim poder telegrafar para ele avisando-o que voc est s e salva.  
- Como vai ele?  
- Bem, eu creio... Voc est a par dos acontecimentos que se desenrolaram tanto na Frana quanto naArglia?... 
O que  certo  que ele participou de maneira ativa. Mas no sei muito mais...  
- Mas ele escreveu?  
- Sim, e estou comvrias cartas dele; minha secretriavaienvilas a voc.  
Quando tomou posse da preciosa correspondncia, La deixou 
precipitadamente a embaixada, esquecendo-se at de agradecer ao embaixador, sr. Grousset... 
Chegando em casa, rasgou o primeiro envelope:  
Meu amor  
Estou cheio de angstia! Nenhuma notcia de voc, e Grousset no me escondeu sua 
inquietude. Luta-se, ao que se parece, em todo o Oriente e at em Santa Clara. Voc tomou 
parte dos combates? Se puder me d um sinal de vida.  
Envio a voc algumas linhas deAlger que est em uma confuso totaL De Gaulie teve sucesso 
em seu golpe; e nada de menos democrtico do que este golpe. Entre seus assistentes mais 
prximos h pessoas duvidosas, vindas da extrema direita; podemos apenas nos 
inquietar pelo futuro.  
Jamais senti tanto a sua falta. Quando receber esta carta, responda-me!  
Amo voc. 
A carta seguinte era de sua irm: 
Franois. 
Querida La,  
Onde voc est? O que houve? Seusfilhos e eu estamos na maior ansiedade. Camilie agora 
acorda todas as noites chamando porvoc. Quanto a Adrien, seus pesadelos o impedem de 
dormir tranqilo. Apenas a pequena Claire no d nenhum sinal de melancolia.  
Os acontecimentos na Frana e naArglia criaram aqui um clima de desconfiana e de 
angstia. O retorno dogeneralDe Gaulle atenuou um pouco o impacto, mas a guerra 
continua do outro lado do Mediterrneo e o moral do exrcito, ao que parece, est muito 
baixo. Pela imprensa, ns acompanhamos tambm a evoluo da situao em Cuba. 
Quando penso que voc est envolvida em tudo isso! E talvez at mesmo em perigo... 
Franois nos escreveu que Charles encontrava-se com voc, assim como seu amigo Ramn 
Valds; isso nos tranqilizou um pouco. Eu lhe suplico, assim que puder volte! Montillac 
sem voc no  mais Montillac...  
Um beijo de todos ns.  
Sua irm, 
Na terceira carta, ela reconheceu a letra de Adrien: 
Franoise. 
Mame querida,  
Escrevo em nome de ns trs. Voc nos faz tanta falta! Se ficar muito tempo ausente, 
Camilie vaificardoente. Tio Michel e tia Franoise so muito gentis conosco, eles tentam 
nos distrair mas isso est cada vez mais difcil. Felizmente temos tido notcias de papai. 
Estou orgulhoso de que ele esteja com o general De Gaulle. Meu primo Pierre e eu, se 
fssemos grandes, iramos encontr-los para fazer a guerra e para que aArglia 
permanea francesa. Papai e tio Michel tm grandes discusses a respeito; eles no esto 
de acordo. Creio que meu tio  pela Arglia francesa e que papai  contra. E voc, o que 
acha?  
Charles teve a oportunidade de lutar ao lado de Fidel Castro. Ele tambm deixou crescer a 
barba? Escutamos no rdio que os Barbudos entraram em Havana. Voc estava com eles? 
Isso deve ter sido formidvel! Tomara que eu cresa para tambm poder ir guerra! 
Camilie diz que ludo isso so bobagens e que os homensfariam melhor caso se se 
ocupassem de seus filhos em vez de se matarem. So as garotas que falam assim, porque 
elas no sabem nada dos assuntos dos homens. Quando voc estiver aqui, tenho certeza de 
que afar mudar de opinio.  
Ns trs a abraamos bem forte. Voc nos faz muita falta. Volte logo!  
Seu filho que ama voc, 
A ltima carta havia sido postada em Alger:  
Minha mulher adorada,  
De Gaulie acaba de sereleito presidente da Repblica com 68% dos votos e Chaban-
Delmas encontra-se na presidncia daAssemblia Nacional Os comits de salvaguarda 
nacional, nascidos do 13 de maio, desapareceram e o general De Gaulie lanou um apelo 
aos combatentes argelinos propondo-lhes apaz dos bravos; Ferhat Abbas respondeu que o 
cessar-fogo s poderia acontecer depois de um acordo poltico. J fiz vrias viagens para a 
Arglia com o general Michel Debr quem est encarregado deformaro primeiro governo 
da V Repblica.  
Ento, Castro finalmente triunfou e, com ele, a Revoluo. A imprensa francesa fez longas 
reportagens, s vezes contraditrias, da fuga de Batista, da perda da batalha de Santa 
Clara pelos rebeldes, em seguida de sua vitria, da noite de So Silvestre, enfim da entrada 
em Havana do seu namorado argentino. Em compensao, soube com desprazerda fuga de 
nosso "amigo" Ventura! Quem  este da junta militar do general Eulogio Cantillo e do 
doutor Carlos Pietra, este membro da corte suprema de Cuba que foi provisoriamente 
nomeado presidente da Repblica em sua qualidade de superior dos magistrados? Mas, as 
ltimas notcias nos dizem que Fidel Castro recusou este presidente e que deseja introduzir 
um outro magistrado, Manuel Urrutia, um ancio de Santiago que foi exilado em Miami. 
Quem  ele? Imagino a desordem, por a...  
Na Frana, apesar da volta de De Gaulie, tudo est bem moroso. O tempo est 
esgotador:frio, neve e inundaes atingem um pouco todas as regies. Os preos 
aumentam,  o que todos me contam; esperam-se greves. Passei o Natal com as crianas, 
um Natal que foi muito triste por causa de sua ausncia, apesar da bela rvore e da ceia 
que fizemos, os presentes e o delicioso rverion preparado por sua irm. No dia seguinte, 
com um tempo bem frio, ns quatro passeamos pelos vinhedos. Contei a eles a respeito da 
pequena La correndo atravs do campo... Camilie apertou minha mo com fora. "Conte 
mais sobre mame pequena", disse-me ela. Tive que 
inventar um pouco, j que no conheo tudo a respeito de sua infncia. Ento tracei-lhes um 
retrato de La da forma como eles o desejavam,falei-lhes de sua coragem, de seu riso, de sua 
alegria de vivei de seu lado ruim tambm - no qual Camille no quis acreditar...  
- e de suas bobagens, enfim, que fizeram a alegria deAdrien, que decidiu escrever As 
aventuras de La sob a forma de uma histria em quadrinhos. J observei a qualidade dos 
desenhos, mas desta vez ele alcanou progressos extraordinrios. "Talvez se torne um artista 
", disse sua irm, com um tom de reprovao na voz...  
A frase fez La sorrir, imaginando o muxoxo de sua irm diante da idia: "Um artista na famlia! 
Um pintor! E por que no um ator?! Ainda se fosse Picasso..." No entanto parecia que Adrien 
havia nascido com um lpis entre os dedos. Bem pequeno ele desenhava cavalos, avies, caubis 
com um traquejo surpreendente. Ele havia feito retratos de suas irms e de seus pais que La 
guardava com carinho. Sonhadora, ela retomou sua leitura:  
...Quanto a mim,  dificilcontaro que tem sido minha vida desde minha partida de Havana, 
tantas coisas ainda permanecem secretas. Apesar de tudo, no penso serdotado para 
apoltica;falta-me hipocrisia e ambio pessoal Alm do mais, no sou um assassino, a 
exemplo de meus companheiros da clula-com exceo dePouget, que  um puro ej foi 
afastado.  
Soube pelo embaixador da Frana em Havana que Ramn e Charles encontravam-se com 
voc, o que me tranqilizou um pouco. Espero sempre pornotcias suas com uma impacincia 
que voc pode imaginar Longe de voc, consigo avaliar melhora importncia que voc tem 
em minha vida. Tenho urgncia de apert-la novamente em meus braos e de lhe dizer meu 
amor Escreva-me para dizer- me que me ama, voc tambm, e que est em boa sade.  
Seu velho esposo solitrio,  
Franois. 
La instalou-se em sua mesa para responder-lhe imediatamente:  
Meu querido velho marido, 
Para mim tambm, a vida sem voc no tem sentido.  como se tivesse sido amputada de uma 
parte essencial de mim mesma.  
Voltei a Havana no cortejo de Fidel e de seus "Barbudos" em companhia de Charles e 
deRamn, e todos os dois portam-se muito bem. Minha vida, nestes ltimos meses, foi a de 
uma guerrilheira, com seus medos, suas alegrias, suas feridas, sua exaltao e seu 
aborrecimento. Participei da batalha de Santa Clara ao lado do Che e de um jovem rapaz 
corajoso que morreu diante dos meus olhos. Ele chamava-se El Vaquerito e jamais poderei 
esquec-lo. A amiga de Charles, Carmen Pineiro, tambm foi morta; no preciso lhe dizer 
mais a respeito.  
Assim que for possvel, irei encontr-lo com Charles.  
Mas, antes da partida, tenho coisas para acertara qui. No meu retorno, encontrei a casa 
saqueada e com indcios que me fazem pensar que Mariana - a jovem que eu havia 
contratado para cuidar da casa e da qual no obtive a menornotcia - teve um destino 
funesto. Um dos chefes da Revoluo empreendeu, no entanto, todos os esforos para 
encontrar a pista dela, mas acredito que ser em vo. Juan, seu marido que me acompanhou 
at a Sierra, erra como uma alma penada pela casa.  
Charles tornou-se um perfeito guerrilheiro que Fidel em pessoa felicitou por sua bravura em 
combate. Os dias que passei com estas pessoas as tornaram queridas para mim para sempre. 
O ideal revolucionrio  uma causa bem nobre, e espero que Cuba obtenha sucesso onde 
tantas outras naes fracassaram.  
Durante as longas caminhadas, as noites sem dormir e as horas de ociosidade forada, tive 
tempo de refletirsobre o que me  essencial, a saber voc e as crianas - Charles includo,  
claro. Atualmente cheguei a uma idade em que devo tomar conscincia do que  importante e 
do que no o . Tive a sorte, ou a m sorte, de viver minha 
adolescncia em uma poca conturbada, que impunha se fazer escolhas. Creio que as que fiz 
no foram ruins; em todo caso, no me arrependo delas. Mesmo este triste acontecimento da 
Argentina, com Sarah, me permitiu compreender melhor algumas das terrveis realidades desta 
vida. Quanto  epopia da Indochina, ela me abriu os olhos para as injustias cometi das 
pornossos compatriotas nestes pases que eles apenas querem explorar sem compreend-los. 
Aqui, agora, vejo todo um povo levantar-se para recuperar sua liberdade e sua honra. 
Suponho que, se me encontrasse na Arglia, descobriria ainda coisas novas e me sentiria 
mais prxima dos argelinos do que dos europeus...  
Li o livro que voc me mandou, A questo, e emprestei-o a Fidel e depois ao Che. Todos os 
dois saram perturbados desta leitura, manifestando a maior dificuldade em acreditar que os 
franceses tenham podido se sentir to culpados de uma barbrie semelhante. Charles tambm 
o leu e a nica frase que me disse depois de me devolver o livro de Allegoi: "Se estivesse na 
Frana, me reuniria  FLN." So numerosos os jovens franceses que pensam como ele?  
Voc no me parece feliz com a chegada de De Gaulle ao poder No entanto, voc contribuiu 
para isso e s vezes no limite da legalidade, se compreendi bem...  
Estou feliz que tenha passado as festas do Natal com as crianas. Aqui, ns esquecemos de 
celebr-las e passei a noite de 24 para 25 de dezembro em um caminho! Espero 
ardentemente que, no prximo ano, estejamos todos reunidos para a ocasio.  
Voc me faz falta... voc me faz falta! Tenho grande pressa de 
rev-lo.  
Amo voc, 
La. 
Com o ar distante, ela deixou seu olhar errar para fora do jardim, mas sem ver o mar... Seu 
corao ficou apertado quando pensou que deveria deixar este pas pelo qual ela agora 
experimentava uma ternura to grande. A campainha do telefone a arrancou de seus 
pensamentos. 
- Al? Sou eu, Camilo. Estou aborrecido sem voc... Venha me encontrar!  
Ele a telefonava no instante preciso em que ela acabara de sentir o desejo de ouvi-lo... Camilo 
representava para ela o que Cuba havia produzido de mais bonito, de mais prximo de um ideal 
humano. Ele mostrava-se ao mesmo tempo engraado e terno, corajoso e indolente, amante da 
msica e das mulheres... que o cortejavam bem! Com ele, La sentia-se de imediato segura, 
descobrindo-se confortvel em sua feminilidade. Se ela no tivesse amado to totalmente Franois, 
ela teria amado louca- mente Camilo.  
- Al, La? Est me ouvindo?... Venha, estou lhe dizendo...  
- Mas onde est voc?  
- Estou partindo para a ilha des Pins... Sei que um barco vai largar as amarras esta tarde: tome-o. 
Realmente desejo voc...  
- Eu tambm - disse La. - Estou indo!  
- Obrigado, minha mulher adorada!  
"Minha mulher adorada..." Como ele havia dito isso! Ela percebeu de um golpe que deveria agora 
ser firme e no se deixar embarcar para um futuro impossvel.  
Ela retomou a caneta para responder sucessivamente a Adrien e a sua irm:  
Meu rapaz,  
Sua carta me deu um imenso prazer Estou orgulhosa em saber que voc tem cuidado bem 
de Camilie. Faz muito bem, mas saibam os dois que logo estarei perto de vocs.  
Charles mudou muito e no sporcausa da barba grossa - voc malpoderia reconhec-lo. 
Ns estvamos juntos perto de Fidel Castro e do amigo de seu pai, Ramn Valds. Diga a 
Camille que muitas mulheres lutaram com tanta coragem quanto os homens.  
Voc no me falou da escola: espero que no aproveite nossa ausncia para deixar de 
estudar.. Papai me escreveu que voc queria fazer uma histria em quadrinhos, que boa 
idia/Eu tambm 
adoro histrias em quadrinhos; vou levar-lhe uma que conta a histria de Fidel Castro e de seus 
Barbudos.  
Voc deve ter crescido bastante e tambm vou ter dificuldades em reconhec-lo. Mas, de 
qualquer forma, voc sempre ser o meu menino.A pequena Claire tambm deve termudado 
muito; voc no me falou nada a respeito dela. Fale sempre com ela a meu respeito e sobre 
papai para que ela no nos esquea.  
Seu pai me disse que vocs passaram o Nataljuntos e que vocs foram muito mimados. Como 
eu invejo vocs quatro! Mas prometo que este foi o ltimo Natal em que passamos separados 
uns dos outros.  
Abrace forte suas irms por mim, seu tio e sua tia, e guarde para voc os melhores beijos.  
Sua me que ama voc.  
Minha querida irm,  
Foi um grande reconforto para mim receber esta sua carta que me d tantas boas notcias 
das crianas e de vocs dois. Felizmente voc se tornou para elas uma segunda me que, 
tenho certeza, sabe apaziguar suas angstias. Nunca conseguirei lhe agradecer o suficiente 
por tudo o que faz por elas.  
Retratar para voc o que tem sido minha vida nestes ltimos meses seria equivalente a 
escrever um romance de aventuras que lhepareceriam inverossmeis. Mas lhe contarei a 
maiorparte de viva voz, o que sei que no vai tardara acontecer: embarcarei para a Frana 
assim que terminar de organizar nossos negcios poraqui e restituira casa em bom estado.  
Em sua carta, voc no me falou de Montillac: as vendas foram boas? Como lhe parece o 
ano de 59? Franois me disse que houve inundaes em toda a Frana. Felizmente Montillac 
encontra-se ao abrigo deste desastre. Voc tambm no me disse como esto seu marido e 
seus filhos. E voc, minha irmzinha, como vai? Todas estas cargas que pesam sobre voc 
no so muito pesadas? Voc tem tido tempo 
de pensar em si um pouco, de percorrer s vezes as lojas de Bordeaux, ou at de Paris?  
Assim que soubera data de meu retorno, os avisarei. Aguardando este precioso momento, 
cuide-se bem, e de todos os nossos pequenos.  
Abraos para todos.  
Sua irm que ama voc,  
La.  
La subscreveu os diferentes endereos sobre os envelopes, os fechou e procurou os selos em sua 
escrivaninha. 

Captulo Quinze

O BARCO QUE A CONDUZIU  ilha des Pins estava lotado de jovens barbudos de uniforme
verde-oliva. Os risos e as brincadeiras eram muitos. Vrios lanavam para La olhares 
enamorados, sem no entanto ousarem dirigir-lhe a palavra. No porto, Camilo, cercado de sua 
guarda, seu eterno chapu jogado para trs, a esperava. Mal a passarela havia sido colocada, ele 
subiu a bordo e a tomou nos braos sob os vivas dos jovens soldados. Ele os saudou com a mo, 
mantendo La contra si.  
O porto de Nueva Gerona estava lotado. Vendedores de souvenirs da Revoluo, vendedores 
de caf, garotos esfarrapados, belas moas, militares e curiosos amontoavam-se. Os dois 
entraram em um jipe conduzido por Camilo. Eles seguiram pela Playa Bibijagua, uma longa faixa 
de areia vulcnica negra em torno da qual emergiam os cinco edifcios circulares do Presdio 
Modelo onde Fidel Castro havia sido encarcerado por vrios meses depois do ataque  caserna 
de Moncada. Eles ainda seguiam at a segunda cidade da ilha, La Fe, com ruas cercadas de 
rvores. Por um grande porto, penetraram no jardim de uma bela casa de estilo colonial. Sob a 
varanda que a 
cercava, soldados se refestelavam em cadeiras de balano. Eles se levantaram  chegada do jipe. 
Camilo saltou do veculo e o contornou para ajudar La a descer. Uma jovem negra aproximou-se, 
trazendo em uma bandeja copos cheios de uma bebida cor de mbar. Camilo apanhou um e 
estendeu  sua companheira.  
- Bem-vinda, meu amor, e  sua sade!  
La ergueu seu copo e experimentou a deliciosa mistura.  
- Hum...  muito forte! O que  isso?  
-  um coquetel preparado por mim... Ato Papa Hemingway pediria uma nova rodada, no ?... 
Venha, agora vou mostrar-lhe a casa.  
Ele pegou dois outros copos e subiu a escada da entrada, seguido de La. A residncia era espaosa 
e fresca, repleta de um mobilirio escuro, antigo. Ele empurrou a porta de um grande quarto bem no 
meio do qual encontrava-se uma monumental cama com dossel.  
- Voc ficar como uma rainha - declarou ele, colocando os copos em uma mesinha de mrmore. - 
Requisitei esta casa para voc... Ela lhe agrada? - acrescentou ele, atirando o chapu sobre a cama.  
- Muito... Ah, no!  
- O que houve?  
- No se atira um chapu sobre uma cama, isso traz coisas ruins! - disse ela, retirando o chapu.  
Ela o colocou sobre uma cadeira. Ele caiu na gargalhada, depois tentou beij-la sobre a colcha 
imaculada.  
- No sabia que voc era supersticiosa...  
- Depende! - disse ela, misteriosa, escapando dele.  
L fora, msicos tocavam em surdina um bolero melanclico e lancinante. Camilo a abraou. Eles 
danaram por alguns instantes, estreitamente apertados um contra o outro. Docemente, ele a ps na 
cama, em seguida, tambm lentamente, a despiu. Ficou por um longo tempo a contemplar o corpo 
nu, ao mesmo tempo 
acariciando-o com uma mo atenta. Jamais tinha imaginado conhecer uma mulher como esta, sobretudo 
desej-la tanto junto a si. O prazer que ela lhe oferecia no era nada diante da felicidade que ele 
experimentava ao espetculo do seu. Seus gritos, seus suspiros de prazer deixavam-no louco de 
alegria e de reconhecimento. Ela abandonava- se em seus braos como nenhuma outra mulher, 
antes dela, o havia feito, com uma naturalidade, um impudor do qual nem mesmo os cubanos 
testemunhavam. Ele rapidamente havia confessado seu amor por ela a Che, seu rude companheiro 
de combate, mas tambm seu melhor amigo. Logo de incio ele havia lhe lembrado que La era uma 
mulher casada, me de vrios filhos, e que voltaria, cedo ou tarde, para seu pas.  
- Ela pode se divorciar... Voc divorciou-se de sua peruana para casar-se com Aleida March!  
- No  a mesma coisa: Aleida  cubana.  
- La, casando-se comigo, tambm se tornar.  
- Camilo, eu conheo esta mulher, sei que ela  maravilhosa... mas voc cometer o maior erro de 
sua vida casando-se com ela.  uma francesa orgulhosa e mimada... Ela tambm j sofreu muito...  
- Justamente!  
- Justamente o qu? No seja idiota, ela jamais abandonar seus filhos... Voc a viu bem, com seu 
filho adotivo: ela veio at a Sierra para velar por ele. Enfim, ela  muito ligada ao seu marido.  
- No tenho esta impresso quando ela est em meus braos...  
- La  uma mulher sensual, que ama o amor e no sabe ficar casta por muito tempo...  
- Tenho certeza de que ela me ama!  
- Da maneira dela...  
- Voc diz isso porque est com cimes.  
Ernesto Guevara havia observado seu amigo com um ar espantado, antes de explodir de rir:  
- Acredite-me, Camilo, esta no  uma mulher para mim, nem para voc. 
- No entanto voc foi amante dela...  
-  verdade, e esta  uma das melhores lembranas de minha vida... No entanto, desde aquela 
poca, sempre soube que a perderia...  
- Confesse que voc ficou perturbado quando aviu novamente na montanha, com sua trouxinha.  
- Sim, e tive um desejo louco de tom-la em meus braos... As lembranas dos momentos passados 
com ela voltaram-me bruscamente. Durante um breve instante, a tentao de largar tudo l e de 
partir com ela atravessou-me o esprito.., mas no seria nem razovel, nem realista.  
- Porque voc pensa que o que fizemos durante tantos longos meses foi razovel e realista?  
Che no respondeu. Acendeu seu charuto. Os dois homens permaneceram afastados em 
pensamentos divergentes mas habitados por uma mesma mulher chamada La...  
A noite havia cado quando ela afastou-se dos braos de seu amante adormecido. Diante do espelho 
do banheiro ela contemplou seu rosto de lbios inchados que ainda tinham as marcas do prazer. Ela 
levantou seus seios aos pontos machucados pelas mordidas e sorriu ao seu reflexo. Quantas vezes 
ela havia se contemplado em um espelho depois do amor? Ela amava estas marcas sobre seu corpo, 
estes odores que escapavam de seu ventre, este licor que corria docemente ao longo de suas coxas.  
- Franois... - murmurou ela.  
Ela estremeceu ao ouvir o som de sua prpria voz. Por que, cada vez que ela estava fogosamente 
abandonada nos braos de um outro homem, sempre pensava nele, em Franois? Ausente, ele se 
fazia ainda mais presente e os sexos que a haviam sempre penetrado a haviam levado, apesar do 
espao que os separava, a reunir-se a ele. Apenas Franois contava; os outros haviam estado l 
apenas para ajudar a tornar as ausncias dele menos penosas. Atravs deles, era com ele que ela 
fazia amor, e seus amantes haviam sido apenas 
instrumentos de prazer necessrios  sua sobrevivncia. Ou quase isso... Ela no experimentava por 
Camilo um sentimento vizinho do amor? No sabia que o deixaria com tristeza, um pesado 
sofrimento no corao? Aceitando reunir-se a Camilo na ilha des Pins, ela havia prometido a si 
mesma comunicar-lhe sua partida prxima para a Frana. Mas, por hora, ela ainda no tinha ousado 
estragar a felicidade de seu amante.  
Repentinamente o rosto do cubano enquadrou-se no espelho ao lado do seu. Eles contemplaram-se 
calmamente; o olhar de Camilo falava de todo o seu envolvimento; o de La, de sua terna 
cumplicidade.  
- Quero que voc seja minha mulher - murmurou ele no pescoo.  
La fechou os olhos e abandonou-se contra seu torso nu.  
- Diga sim - acrescentou ele, sussurrando.  
O tumulto de seu corao parecia encher o aposento. Ela recuou diante da dor que iria lhe causar. 
Ele ento a levantou e levou-a at a cama. Ela se debateu, no era mais o momento, tinha de falar 
com ele, mas os lbios de Camilo fecharam os dela. As mos do homem apalpavam seus seios e seu 
sexo penetrou-a com fora. Ento, mais uma vez, ela se entregou.  
Por um longo tempo, eles permaneceram imveis, cobertos de suor, recolhidos nos braos um do 
outro.  
- Minha mulher... - sussurrou ele.  
- No! - gritou La, afastando-se quase brutalmente.  
Surpreso, ele tambm sentou-se na cama.  
- No - repetiu ela, mais brandamente -, no sou sua mulher. As circunstncias me separaram do 
homem que eu amo, mas vim para dizer-lhe que vou partir para encontr-lo.  
- Voc... voc no pode fazer isso!... Voc  minha mulher...  
- balbuciou ele.  
- No, Camilo, sou a mulher de outro, e voc sabe disso, voc sempre soube. Sou apenas sua 
amante.  
- Eu no deixarei voc partir! 
- No entanto,  preciso. Aqui, serei apenas um obstculo para voc. Voc deve entregar-se  
Revoluo, seu pas precisa de voc, Fidel e o Che tambm. Voc ainda tem grandes coisas a fazer 
pelo povo cubano.  
- Por que me fez acreditar que me amava? - descontrolou-se ele, segurando-a brutalmente pela 
cintura.  
- Voc me compreendeu mal! Nunca quis fazer voc acreditar em nada. Adoro estar em seus 
braos e junto de voc no tenho mais medo, esqueo um pouco que estou longe, to longe de meus 
filhos...  
Ele apertou sua cintura.  
- Eu lhe peo - continuou La -, no se perturbe pelos ltimos instantes que passamos juntos. Quero 
levar a lembrana de seu riso, de sua alegria, de seus carinhos, de sua coragem. Quero poder ver 
voc nas ruas de Havana, triunfante, feliz como um garoto. Quero que voc permanea livre para a 
enorme tarefa que o espera. Uma vida magnfica abre-se hoje diante de voc...  
- No semvoc!  
-  preciso, Camilo, voc sabe. Pergunte a Ernesto o que ele pensa...  
- O Che s pensa no sucesso da Revoluo e sempre deixa suas preocupaes sentimentais em 
segundo plano. Se julgasse necessrio, ele abandonaria no campo mulher e filhos para ir combater 
os inimigos da Revoluo, no importa em que lugar do mundo... Eu, eu luto pelo povo cubano, para 
que no tenha mais fome, que no seja mais explorado por polticos vidos para o soldo dos Estados 
Unidos, luto para que, qualquer que seja a cor da pele delas, as crianas deste pas possam ir  
escola, para que as mulheres encontrem seu lugar na sociedade e que no sejam mais reservadas a 
trabalhos subalternos em alojamentos miserveis... Vi com tanta freqncia minha me costurando 
nossas pobres roupas  luz de uma vela, dormi por tanto tempo com meus irmos em um canto 
sombrio de uma nica pea que ns morvamos... Eu a observava, plida e cansada, soltando em 
alguns momentos um suspiro 
desesperado quando seus olhos viravam-se para ns. Naqueles momentos, eu jurava que um dia ela 
viveria em uma grande casa cheia de luz onde cada um de ns teria o seu quarto... Isso faz voc 
sorrir?... O que estou contando deve parecer muito extico! O que voc sabe dos pobres imigrantes 
espanhis que, um dia, deixaram seu pas, tomados por uma misria to grande que os irmos de 
uma mesma famlia tinham um nico par de sapatos para todo mundo, que as mulheres pariam nas 
soleiras das portas, que abandonavam seus filhos pequenos diante de qualquer residncia rica na 
esperana de que fossem recolhidos pelos proprietrios, que as moas se prostituam escondido a 
fim de alimentar seus irmos pequenos?... Meus pais, antes de desembarcarem em Cuba, 
conheceram tudo isso, e esta ilha constitua a nica esperana deles, seu nico refgio. Ento eles 
passaram a am-la e, quando ns nascemos, Osmany, Humberto e eu, tnhamos uma ptria em 
nome da qual estvamos prontos a morrer... Meu pai era um anarquista mas ele amava a ordem, ele 
participava de numerosas reunies polticas, que lhe custavam s vezes aborrecimentos com a 
polcia. Mas era um homem honesto, sincero, que ia at o fim em suas convices...  
Camilo dava livre curso s suas lembranas e La, emocionada, admirava seu rosto que traa to 
explicitamente a emoo que ele experimentava  evocao de seus pais. Ela lembrou-se da visita 
que eles haviam feito ao filho depois da queda de Santa Clara. Eles haviam posado para uma 
fotografia, com o ar embaraado, o fuzil na mo, junto a Camilo ao volante de umjipe. Mais tarde, 
sempre atrapalhados com estes fuzis com os quais no sabiam o que fazer, haviam tirado um retrato 
entre todo um grupo de Barbudos. Quando partiram de volta a Havana, os olhos de Camilo 
encheram-se de lgrimas...  
- Eu suplico, fique!  
- No - repetiu ela com uma voz que era ao mesmo tempo doce e firme.  
Ela se liberou delicadamente de seu abrao. Nunca tinha feito uma coisa assim to difcil: romper 
com um homem que amava 
ternamente. Parecia que um grande frio abatia-se sobre eles. Devagar, ela fechou a porta do 
banheiro.  
Durante um longo tempo ela deixou correr a gua sobre seu corpo que ainda, nas menores parcelas, 
lembrava-se das carcias de seu amante. Quando enfim ela voltou ao quarto, ele estava vazio: 
Camilo havia partido. Uma profunda fadiga abateu-se sobre ela, logo seguida por uma destas 
tristezas que nos apertam to cruel- mente o corao.  
- Camilo... - murmurou ela.  
Algum bateu na porta.  
- Sim! - quase gritou ela.  
Uma jovem empurrou a porta e La, inconscientemente decepcionada, fechou o robe atoalhado 
sobre seu peito.  
- O comandante Camilo nos comunicou que voc deseja apanhar o prximo barco que segue para 
Batabano; ele partir em trs horas. Voc tem apenas tempo de se preparar. Precisa de ajuda?  
- No, obrigada... Onde est o comandante?  
- Ele acaba de partir para Havana a bordo de seu Cessnas.  
No porto, um carro com a flmula do 26 de Julho a esperava. Apesar do tempo ruim, eles chegaram 
a Havana rapidamente. Diante da casa de Miramar, o motorista estendeu-lhe sua mala, inclinou- se 
e partiu novamente sem uma palavra.  
Das janelas abertas vinham-lhe os rudos de uma conversao animada. No grande salo 
ostensivamente iluminado, trs Barbudos caminhavam para l e para c.  
- Charles!... Ramn!... Alfredo!...  
Ela correu para eles e Charles, o primeiro, a tomou nos braos.  
- Que prazer em encontr-los, todos os trs!... Como souberam de meu retorno?  
- Algum nos avisou... - disse misteriosamente Alfredo.  
O elegante travesti tinha agora dado lugar a um verdadeiro Barbudo e sua barba estava quase to 
cerrada quanto a de Camilo. As de Charles e Ramn no estavam menos florescentes... 
Depois de t-los abraado quase furiosamente, La aceitou o copo que lhe oferecia Alfredo.  
- Sempre o seu famoso coquetel?  
- Sempre... mas um pouco melhor. A nossa sade e  do Che, que acaba de receber a nacionalidade 
cubana!  
- A sade de Ernesto e  nossa!...Uau!... Naverdade voc diabolicamente o incrementou. Com 
noventa por cento de lcool, eu suponho?... Hum, est forte, mas  bom... Do que conversavam 
quando cheguei?  
- Do retorno de vocs  Frana, de Charles e de voc - respondeu Ramn.  
- Isso  o que fazia vocs gritarem?  
- Charles diz que o lugar dele  aqui e que no embarcar - completou Alfredo.  
La observou seu filho adotivo com ternura. Seu engajamento na guerrilha, os combates e a morte 
de Carmen o tinham amadurecido. O jovem crescera to rpido e estava muito longe do estudante 
francs que chegara da Europa. Hoje era um homem que j havia sofrido. Ela aproximou-se dele.  
- Sei que voc se ressente e eu compreendo. No o obrigarei a voltar comigo. Se voc acredita 
sinceramente que sua vida  aqui, fique. Mas peo que ainda reflita um pouco. O que voc 
conheceu est terminado. No momento vai se criar uma administrao, uma polcia e uma sociedade 
da qual voc no far parte. Os cubanos, muito justamente, querem construir sozinhos sua nova 
existncia e seu futuro. Embora a guerrilha tenha lhe aberto suas fileiras, o novo governo no 
reserva espao para voc. Saiba disso.  
Um copo suspenso a meio caminho de seus lbios, Charles fixava o solo, o ar subitamente 
desgostoso.  
- Sua me tem razo, Charles. E voc sabe bem disso - apoiou Ramn.  
- Voc... voc lhe d razo? Mas voc tambm, Ramn,  estrangeiro neste pas...  
- No exatamente, Charles. A cultura cubana  muito 
impregnada da cultura hispnica e na maior parte dos cubanos cintila uma pequena chama castelhana. 
Quanto a mim, voc sabe, no tenho escolha:  o exlio em Cuba ou as prises de Franco... Volte  
Frana, meu garoto, termine os seus estudos e volte se ainda acreditar que pode ser til a este pas. 
Fazendo esta escolha, voc dar prova no s de inteligncia, mas de um verdadeiro senso das 
realidades deste mundo.  
- Voc tambm, Alfredo, concorda com eles? - perguntou o rapaz.  
- Voc vai me fazer falta, garoto, mas na verdade acho que  melhor partir. Guarde a lembrana das 
horas intensas que viveu aqui, sero sem dvida as mais puras de sua vida. Voc conheceu os 
combates, a fome, os sofrimentos e a morte, mas tambm a solidariedade, a amizade e a fidelidade a 
um ideal. Os homens e mulheres que foram seus companheiros souberam dar o melhor deles 
mesmos, com sua juventude e sua sinceridade por uma causa nobre. Eles conseguiram uma grande 
vitria sobre aqueles que os oprimiam e agora sero confrontados com as realidades do poder. 
Alguns esto preparados, outros no. O futuro da Revoluo vai ser jogado nos meses, talvez nas 
semanas que esto por vir. Fidel tem plena conscincia mas, em volta dele, tero todos 
compreendido? Temo que as ambies e os cimes comecem a aparecer, as aspiraes s 
prebendas e s vinganas. A unidade revolucionria resistir s presses dos partidos? O partido 
comunista tem uma importncia crescente; Ral e Che faro tudo para levar Fidel a dividir suas 
vises. Pessoas como eu tm tudo para ter medo do puritanismo dos comunistas; eles no gostam 
dos pederastas, em Moscou...  
- Mas Cuba no  a Unio Sovitica! - exclamou Charles.  
- No, mas pode se tornar...  
- Acho difcil que os cubanos se convertam ao que voc chama de "puritanismo sovitico"! - 
protestou por sua vez La.  
- Oh! Haver as organizaes,  claro, ao menos no incio; ser um comunismo com molho 
caribenho... Mas, acredite-me, Charles, antes de ficar decepcionado. Conserve a lembrana da 
felicidade 
de um povo que acaba de romper com sua escravido, aquele das lgrimas de alegria que corriam sobre as 
faces de velhos negros de mos e corpos deformados pelo trabalho nas plantaes de cana- de-acar, aquele 
dos beijos das moas escapando  prostituio, aqueles do reconhecimento das mes, da felicidade que tomou 
conta das crianas aos primeiros risos de seus pais...  
- Eu acho voc muito pessimista, meu filho - interrompeu Ramn. - Ao contrrio de voc, estou convencido de 
que Fidel, Ral, Che e Camilo tomaro as garantias das conquistas da Revoluo. Com eles, ela continuar 
exemplar e far a volta ao mundo. Tenho confiana. Apesar de tudo, e como j disse, persisto em pensar que o 
lugar de Charles no  aqui. Se ele deseja realmente combater em nome do ideal revolucionrio, ele deve 
instruir- se e em seguida partir para reunir-se  luta pela liberdade onde quer que ela esteja.  
- Amigo, seu otimismo e sua confiana no homem so bem reconfortantes. Apesar de sua idade e experincia, 
voc guarda uma viso juvenil do mundo...  
- Deboche de mim o quanto quiser, mas eu no poderia viver se no acreditasse em um mundo melhor... Antes 
de conhecer Fidel e seus companheiros, eu tinha apenas uma leve estima pelo gnero humano, sempre tive 
presente em meu esprito os horrores cometidos durante a guerra da Espanha, depois daqueles, ainda mais 
atrozes, perpetrados pela Alemanha nazista. Mas l, na Sierra, eu vi a coragem, a solidariedade, a abnegao; vi 
jovens, homens maduros, camponeses analfabetos, estudantes, pobre gente de combate, com a fome no 
ventre, arriscando a vida para arrancar o direito de viver dignamente, o direito de serem homens e no 
escravos... La, diga-me que tenho razo!  
La havia escutado com surpresa, perguntando-se o que teria pensado Franois. Tanto candor a desarmara.  
- Eu tambm tenho confiana no homem; ele  capaz do pior, mas tambm do melhor. Em cada um de ns h o 
bom e o ruim, eu prefiro acreditar que o bom pode vencer... - aprovou Charles. 
- Bravo! - gritou Alfredo. - Viva a utopia! Bebamos todos ao "amanh que canta"!  
A luz apagou-se bruscamente.  
- Felizmente pensei em trazer velas - observou Alfredo.  
- Estou com fome... H alguma coisa para se comer? - perguntou La.  
Charles levantou-se e dirigiu-se para a cozinha. Voltou alguns instantes mais tarde.  
- O refrigerador est cheio: h ovos, presunto, frutas...  
- Eu trouxe massas. Vou cozinhar um pouco para vocs!  
Todos se viraram. Fidel Castro estava na soleira da porta, os braos carregados de pacotes. Estava 
acompanhado de Camilo, que tambm carregava algumas coisas, e do Che, plido e mais magro. La precipitou-
se na direo dele.  
- O doutor Fernndez Meil no ordenou a voc repouso total?  
- Ele no quer saber de nada - interps Fidel. - O exame do doutor Conradino Polanco diagnosticou um duplo 
enfisema no pulmo direito e proibiu-o de fumar. Mas nossos heris fazem o que lhes d na cabea e ele 
prometeu descansar sob a condio de poder fumar um puro por dia...  
- Bom,  razovel - aprovou La.  
- Seria, se este senhor no fizesse para si espcimes de cinqenta centmetros de comprimento!  
- Fidel, esquea-me, certo? No foi para ouvir falar de minha sade que vim aqui esta noite. Eu tomei uma 
injeo de adrenalina antes de sair e, em caso de crise, sei o que  preciso fazer por mim.  
- Bem, faa como quiser... mas no conte comigo para ir ao seu enterro! - lanou-lhe Fidel. -A propsito, onde 
 a cozinha?  
- Vou lhe mostrar - disse Charles.  
Ramn e Alfredo os seguiram depois de desembaraarem Camilo de seus vveres.  
Durante um momento, os trs amigos permaneceram em silncio, pouco  vontade. De repente, La lembrou-se 
de que era a dona da casa. 
- Vocs querem experimentar o preparado de Alfredo?  muito forte, mas d para beber...  
Eles aceitaram, ainda sem palavras, os copos que ela lhes ofereceu, em seguida levantaram-nos sem 
brindar.  
- Isso levantaria um morto! - engasgou o Che.  
-  exatamente do que eu preciso - felicitou-se Camilo depois de ter esvaziado seu copo em um gole.  
- Sente-se - ordenou Ernesto a La -, tenho que falar com voc. Camilo me falou de sua inteno de 
voltar para casa e eu concordo. Seria um erro permanecer aqui, quaisquer que sejam os sentimentos 
de vocs dois. Creio que consegui faz-lo compreender. Um avio parte amanh para a Jamaica...
- Jamaica?
- Sim, um barco francs vindo de Caracas, oFlandres, eu acho, faz normalmente escala ali antes de
voltar para o seu pas; j reservei dois lugares, um para voc e outro para Charles. Em quinze dias,
vocs estaro no Hawe.
- Ser uma longa travessia...
- Ela lhe permitir colocar a cabea em ordem e descansar. Fiquei muito feliz em rev-la... Talvez
nos reencontremos um dia em Paris... Queria dizer-lhe que voc foi uma companheira maravilhosa e
muito corajosa durante sua temporada entre ns. No a esqueceremos. Voc vai voltar para o seu
pas, seu marido e seus filhos... Est certo: seu lugar  junto deles...
- Oh, Ernesto, voc vai me fazer tanta falta!
- Voc tambm, minha querida, vai nos fazer falta... - murmurou o Che puxando-a para si.
Camilo observava-os com um ar terno: a mulher que ele amava e o homem que mais estimava, seu
melhor amigo, nos braos um do outro! Naquele instante, ele soube, com uma certeza que lhe
congelava o sangue, que jamais veria La novamente, que ela havia partido de sua vida para
sempre. Ele teve um breve arrepio.
- Tome - disse ele, estendendo-lhe uma caixinha do tamanho de uma caixa de charutos. - Fiz para
voc, l no alto, na Sierra.
Sem uma palavra, La apanhou a caixinha e a abriu.  
- Oh!... Obrigada.  
Em um pedao de madeira, Camilo havia esculpido um pequeno busto da jovem mulher.  
- Voc... voc gosta? - interrogou timidamente Camilo. - Acho bem parecido, no ?  
-  magnfico! - reconheceu ela, com lgrimas nos olhos.  
- Obrigada, obrigada-, repetiu La atirando os braos em torno do pescoo dele.  
Na cozinha, Fidel, enrolado em um avental branco, jogava os espaguetes na gua fervendo.  
O dia mal havia amanhecido quando La saiu para o jardim. O tempo estava encoberto, o mar cinza, 
agitado, um vento fresco soprava em rajadas, levantando os cabelos da jovem mulher que estava de 
p na varanda, uma xcara de caf na mo.  
A noite havia terminado tarde; tinham bebido muito, rido e cantado. Por fim, Fidel a tinha 
longamente apertado contra si. Por sua vez, Camilo, seu chapu na mo, a observara febrilmente, 
como se para gravar para sempre seus traos na memria. Em seguida, ele havia ensaiado um 
passo de rumba, o mesmo com o qual tinha recebido, debochado e sujo, os oficiais, em seus 
uniformes impecveis, que haviam vindo entregar as chaves da caserna de Colombia  
- uma brincadeira que no deixou de lhe valer o dio de alguns, e causar a partida de alguns outros 
para Miami... Depois seu corao ficou apertado quando ele atravessou o porto do jardim. Antes 
de abra-la, Ernesto a tinha contemplado com um olhar sonhador, seus olhos brilhando de febre 
pareciam querer dizer-lhe ainda alguma coisa. Mas, com um movimento imperceptvel de ombros, 
que poderia significar "Para qu, afinal?", ele havia se afastado, com seu andar to particular, a 
coluna curvada. Alguma coisa dela havia partido com eles, uma parte de sua juventude que a 
abandonava; ela teve um breve soluo. Quando virou-se, os olhos de Charles e de Ramn estavam 
pousados nela com, no primeiro, uma 
ternura inquieta e, no segundo, uma profunda compaixo. Ela ento havia levantado as mos como 
se para dizer: " melhor assim, no?"  
Toda vestida, ela havia se atirado na cama e dormido por algumas horas um sono profundo. Ao 
despertar, uma dor de cabea a fez lembrar das bebedeiras da vspera. O vento e o caf 
trouxeram- lhe alvio.  
Repentinamente Charles estava perto dela; ele estava mais alto uma cabea. E deu um beijo em 
seus cabelos.  
- Voc tambm acordou bem cedo.  
- Eu... eu estava dando adeus a tudo isto... Quer caf?  
- Obrigado, j tomei na cozinha... Antes de partir quero passar em Regia.  
- Como voc vai?  
- Camilo deixou uma moto l fora.  
- Pode colocar uma vela  Virgem por mim?... E no se esquea de que vm nos buscar s trs 
horas.  
- Estarei aqui. Minha mala est pronta.  
- A minha tambm... Voc se lembra de todas as malas que tnhamos quando chegamos? Hoje uma 
sacola  suficiente para guardarmos tudo...  
- No se lamente por suas roupas elegantes, voc est muito mais bonita assim!  
La deu um riso sem alegria.  
- Voc acha?... No entanto eu preferiria um vestido bonito a esta roupa de guerrilheira. Mas os 
saqueadores no me deixaram nem uma nica saia...  
- Se isso lhe faz tanta falta, por que no vai at as lojas?  
- No sei... Falta de vontade... cansao.  
- Sei... At mais!
Ele afastou-se com passo gil. Repentinamente uma angstia brutal sacudiu La; ela precipitou-se
na direo dele e o parou.  
- Como voc est plida - observou ele sorrindo. 
- Voc vai voltar, no vai?  
"Sim", fez ele com a cabea.  
Esticada em uma espreguiadeira, La observava duas belas crianas que brincavam de amarelinha.  
- Voc trapaceou! - protestou o garoto, que deveria ter nove ou dez anos.  
- Eu no trapaceio nunca - retorquiu, orgulhosa, a garota, apenas um pouco mais velha, empurrando-
o.  
- Pare de me empurrar!  
- Voc  apenas uma pirralha suja! No brinco mais com voc.  
La sorriu; pareciam Adrien e Camille.  
- Anne! Pierre! Parem de brigar - ordenou uma mulher bonita, magra e jovem que estava estendida 
no longe de La.  
- Mas mame, no estamos brigando...  
- Ento parem de fazer tanto barulho, vocs me impedem de ler.  
- Ela logo vai dizer que ns causamos a enxaqueca - sussurrou o garoto para a irm, com um ar 
debochado.  
- No deboche de mame!  
- No terminaram? Vocs me do dor de cabea! - gritou a me, levantando-se.  
- Viu? Eu falei - observou o garoto afastando-se vivamente para escapar da mo que se levantava 
sobre ele.  
Anne lanou-se  sua perseguio, passando bem perto da espreguiadeira onde estava La. A 
jovem me ps uma mo longa e fina em sua testa, o olhar subitamente desamparado.  
- Sinto muito, senhora, meus filhos so to barulhentos... - desculpou-se ela com um tom cansado.  
- Mas, no, eles so encantadores.  
- Voc acha? Mas por que  preciso que faam tanto barulho?  
"Tenho a impresso dej ter ouvido esta voz", pensou La observando sua vizinha. Seus olhares 
cruzaram-se e fizeram-se interrogadores. Elas se reconheceram simultaneamente. 
- La!  
- Claire!  
Elas ensaiaram um gesto e, no mesmo movimento, caram nos braos uma da outra. Quando 
afastaram-se, uma grande emoo havia invadido o rosto de ambas.  
- O que voc fez durante todo este tempo?  
- Est casada? Tem filhos?  
- Que alegria em rever voc!  
- Eu vivo em Caracas, meu marido  diplomata.  
- Eu venho de Havana, estou voltando para casa.  
- Lembra-se de Berlim?  
- O que aconteceu com Jeanine e Mistou?  
- Voc se lembra do Kurfrstendam?  
- A piscina do Blue and White?  
- E do quarto das garotas?  
- Voc se casou com seu belo capito?  
- E voc, seu belo Tavernier? A cara do coronel McClintock quando viu voc nos braos dele!'  
Elas riam como duas colegiais que, de volta das frias, tm mil coisas a contar. Anne e Pierre 
observaram-nas intrigados: nunca tinham visto sua me rir com menos tenso, falar to 
familiarmente com uma desconhecida.  
- Meus filhos, quero apresentar-lhes uma velha amiga, La Delmas. Ns estivemos juntas na Cruz 
Vermelha em Berlim.  
- Voc.ento conhece o papai? -perguntou o pequeno Pierre.  
- Sim,  claro, era um tipo surpreendente, o seu papai.  
- Sim, eu sei - retorquiu o garoto com seriedade.  
- Meus queridos, logo ser hora de jantar, vo tomar o seu banho e trocar de roupa... J encontro
vocs. La, voc janta conosco,  claro?
- No estou s a bordo; Charles, meu filho adotivo, me acompanha.
- Ele , evidentemente, bem-vindo!
- Mas... no tenho nada para vestir, me roubaram tudo em Cuba!
- Ento, venha at a minha cabina, vou lhe emprestar um vestido.
Vrias cabeas levantaram-se quando La entrou no bar do Flandres. O vestido branco longo
emprestado por Claire Mauriac coube-lhe como uma luva e ressaltava sua pele bronzeada. Uma
echarpe de musselina vermelha escondia a ferida em seu ombro. Ela sentou-se em uma banqueta. O
barman se apressou:
- O que deseja, madame? Um alexander, um porto, um mojito?
- No, me d um cuba libre!

